António Moniz de Palme (Eds. 837 à 853)

• António Moniz de Palme*

Edição 853 (13/07/2023)

Sobe, sobe balão sobe, mas no transporte de gente viva   – 2ª parte

Não ficava bem com a minha consciência se não recordasse uma posterior manifestação de balões, no território português. O nome do Padre Bartolomeu de Gusmão e a sua passarola, já com contornos inventados por cada um, segundo a sua imaginação, não desapareceu na bruma dos tempos. Se havia figura popular, era a do Padre Voador, que o Povo recordava com sentidos suspiros! Corria que alguém tinha os seus segredos guardados em documentos secretos e que alguma vez apareceriam à luz.

Ora, na altura do falecimento do Rei D. José e da retirada do poder do grande governante e ainda pior assassino Marquês de Pombal, o que matou os Távoras e outros infelizes, na Praça Pública, por crimes não provados, havia um ambiente de revolução permanente, em que agitadores pretendiam fazer justiça pelas próprias mãos ao recém caído ministro e aos seus apaniguados. Porém, para atenuar o mal-estar que se vivia, houve um acontecimento que veio distrair as atenções da rapaziada da capital. Na altura, vivia-se a chamada “Viradeira”, pois a situação tinha virado com a morte do Rei.  Sai o Marquês pelas portas do fundo, com o rabo entre as pernas e com as mãos cheias de sangue inocente e entrou, no cenário da política, a Rainha D. Maria I, muito boa pessoa e que muito mais tarde enlouqueceu perante os factos odientos a que assistiu por parte do primeiro ministro e dos seus esbirros, sem nada poder fazer. Mas deitou água na fervura, atenuando, com diplomacia, o clima de guerra civil que então se vivia. Enfim, para alegrar os alfacinhas, apareceu um vistoso artista italiano, que gesticulava e falava uma mescla de espanhol e de italiano, e que fazia propaganda de um espectáculo público, em chamativos cartazes, onde anunciava que iria voar num balão por si inventado. As esperanças despertadas pelo Padre Bartolomeu de Gusmão começaram logo a tomar corpo, entusiasmando o Povo simples que assim se esquecia das patifarias políticas dos últimos tempos. Tal veio ajudar a Rainha que procurava, por todos os meios, que a situação acalmasse e que os crimes cometidos pelo Marquês entrassem no rol do esquecimento. Ora um acontecimento como este, de alguém que prometia voar iria adiar a vingança desejada, abafando a sede de sangue com que todos estavam em relação ao cruel antigo governante. Claro que a Rainha tinha nomeado Intendente da Polícia, o célebre Pina Manique que, com mão de ferro prometeu que não permitiria qualquer situação que viesse quebrar a paz e o sossego da população. Perante o anúncio público de tão inusitado espectáculo, lá veio pela calçada abaixo Pina Manique e a sua tropa, conhecidos pelos “Moscas”, atraídos pelos cartazes que prometiam o espectáculo gratuito do voo de um ser humano, que provocaria certamente um grande ajuntamento popular. Rapidamente souberam quem era o autor da proeza e daquela estranha promessa e, sem dificuldade, apanharam o seu autor, um cidadão italiano, chamado Vicenzo Lunardi, que se tinha aboletado numa hospedaria modesta, na Rua dos Remolares. Simplesmente, Pina Manique não podia imitar o comportamento dos esbirros do Marquês de triste memória. Pois, na verdade, prometer voar não era propriamente um crime. Enfim, lá encontraram uma justificação para as averiguações que pretendiam fazer. Os cartazes não tinham obtido a autorização prévia para serem afixados, o que constituía uma falta, embora leve. Lá foi o artista italiano atirado para a cadeia do Limoeiro, onde esteve preso, sem o devido respeito pela sua qualidade de artista conhecido em todos os cantos do mundo, segundo se gabava o próprio.

Entretanto, o filho da Rainha, o futuro Rei D. João VI, teve conhecimento da situação e interessou-se pelo caso. Permanecer numa enxovia, como eram as prisões na altura, não se justificava e resolveu solicitar a Pina Manique que deixasse para trás as faltas burocráticas daquele estrangeiro e o pusesse no olho da rua, para mostrar o que sabia sobre navegação aérea.

Foi então marcado novo espectáculo para 24 de Agosto de 1794, no Terreiro do Paço, segundo informação prestada, num interessante livro sobre factos históricos quase desconhecidos, pelo escritor e investigador Luís Almeida Martins. Após Pina Manique ter mandado fazer uma completa inspecção ao balão e à respectiva barquinha, certificando-se de que não transportava nada de perigoso, foram cortadas as amarras do balão já cheio de ar quente e, perante o grande entusiasmo e o delírio do povo assistente, o balão subiu ao ar com o italiano a bordo. Empurrado por uma brisa ligeira, foi o balão e o seu tripulante arrastado para as lezírias ribatejanas, onde andou a vogar durante quatro horas bem medidas. Segundo informação, nesse voo artesanal, foram percorridos cerca de 70 quilómetros. O artista teve um dia de glória, mas efémera, pois tal acto não lhe veio trazer o necessário sustento para o dia a dia. Mesmo assim, granjeou fama e, nas tabernas, era considerado uma atracção, pois era um herói, acabando sempre por ter alguém que lhe pagava a refeição. Mas a popularidade não dura sempre e o nosso artista, em vez de partir para uma nova aventura, exibindo-se noutras bandas, foi ficando por Lisboa, acabando por morrer esquecido e na miséria, passados que foram doze anos, num pobre catre do Hospício dos Capuchinhos Italianos. Pobre artista. A popularidade esgota-se da mesma maneira que um balão furado!!!

Convém referir que esta exibição do artista italiano ocorreu passados cerca de oitenta e cinco anos das demonstrações aeronáuticas de balão do nosso Padre Bartolomeu de Gusmão.


Edição 852 (29/06/2023)

Sobe, sobe, balão sobe (1ª parte)

Recordando uma popular música da cançonetista, Manuela Bravo, e o entusiasmo que sempre existe com o lançamento dos balões do S. João, resolvi reler a página das minhas recordações sobre esses artefactos são joaninos, que no fundo são o timbre da época dos santos populares. Quem de nós não se lembra do entusiasmo infantil no primeiro encontro com os balões de feira, feitos de plástico? Se bem que existissem já os balões de S. João, feitos de papel e com uma armadura que lhes permitia sustentar um mecha a arder, que aquecia o ar, fazendo-os subir aos céus. “Sobe, sobe, balão sobe”, dizia a pequenada em delírio, batendo palmas perante a ascensão do pequeno balão de S. João, comprado numa loja de brinquedos da Rua Direita, em Viseu, juntamente com fogo de artifício, pequenos tubos que se acendiam com um fósforo e que vomitavam um jacto de luz que nem cinco segundos durava. E a esperança para todos nós era a subida do pequeno balão, que o meu pobre Pai se esforçava para que não acabasse por arder em terra, nos preliminares da sua preparação, causando um desgosto profundo na criançada, Mas, quando subia, as palmas, o riso e a alegria contagiante dos mais novos, pagavam ao meu querido pai o esforço feito, de joelhos, naquelas complicadas manobras de técnico da aerostática, para divertir filhos e sobrinhos, até conseguir que o ar quente fizesse levantar aquela delicada e frágil peça de aviação artesanal.

Passado muito tempo, já adulto, ficava de boca aberta, nas noites de S. João, no Porto, quando o céu se cobria de centenas de balões que encantam tanto os jovens como os mais velhos. Muitos estrangeiros vêm ao Porto, na altura de S. João, para verem o céu coberto de balões a perderem-se nas alturas.

Mas não se pense que o aparecimento dos balões de S. João não tiveram um nascimento difícil, direi mais, um parto complicado! Quem não aprendeu na Escola Primária, que houve um padre jesuíta que tinha a mania dos artefactos voadores e que construiu uma espécie de barcarola ou passarola, que foi crismada com o seu próprio nome, a célebre “Barcarola do Padre Bartolomeu de Gusmão”. O reverendo sábio das coisas náuticas da altura, na década de mil e setecentos, era professor da Universidade de Coimbra, lente de matemática e ao mesmo tempo inventor de máquinas aerostáticas, por essa razão era conhecido por Bartolomeu Lourenço de Gusmão, O Voador. Estava Ele na corte do Rei D. João V, aproveitando para lá exibir as suas habilidades voadoras quando, numa dessas exibições, teve tanto azar que dois dos seus balões voadores, incendiaram-se no ar e uma aragem implicativa, um sopro verdadeiramente diabólico, arrastou aquelas duas bombas voadoras, para junto das janelas abertas do palácio, ameaçando deitar fogo aos cortinados. Foi o terror para os que das janelas viam avançar aquelas infernais línguas de fogo. Dois funcionários mais expeditos, armaram-se de longas vassouras de limpar as chaminés e, como os cavaleiros de lança, nas justas dos torneios de cavalaria, na defesa não de damas mas dos cortinados, colocaram-se junto às janelas, arrostando o inimigo com as referidas vassouras, impedindo a invasão do palácio por aquele inimigo flamejante, que se não eram obra do diabo, até parecia…!

Claro que o jovem padre jesuíta, nascido no Brasil, tinha a mania das invenções, tendo já provas dadas com a invenção de um sistema de água para o estabelecimento de ensino religioso, onde estudava. E os dois balões incendiados, que assustaram os elementos da Corte, eram para serem presenciados por D. João V, a quem o inventivo clérigo tinha declarado que queria uma patente para poder construir um aparelho para voar, um aeróstato, uma espécie de barco, cheio de ar quente, mais leve do que o ar e que subiria aos céus, podendo transportar pessoas. Claro que a Patente foi prontamente concedida. E, como referi, os balões incendiados eram uma simples experiência para Sua Majestade constatar a veracidade das suas ideias. Nesse mesmo ano, começou a fazer novas experiências, até que um dos ensaios resultou. A experiência repetida, agora no Terreiro do Paço, foi um êxito e um balão de maior dimensão subiu aos céus. Certamente foi nessa altura que alguém gritou para o vizinho do lado “Òh patego, olha o balão”. O que é facto é que a notícia correu mundo. E apareceram a público desenhos fantasiosos da passarola de Bartolomeu de Gusmão, uma espécie de canoa com asas, forma que os balões do português nunca tiveram. O balão era no fundo um aeróstato, semelhante a uns já existentes, simplesmente a intenção era construir um que levasse pessoas dentro da cesta transportada pelo balão. Enfim, invenção estranha que parecia mesmo obra de satanás.

O pobre inventor, de um momento para o outro, viu-se objecto de especial atenção da inefável Inquisição e, antes que tivesse algum problema, por andar a brincar com o fogo desconhecido para a maioria, com o apoio do Rei, seu protector, aceitou uma ida a Roma em missão, junto do Papa. Como não teve grande êxito e com medo da Inquisição, resolveu mudar-se com armas e bagagens para Inglaterra. Nem pensou um minuto. Simplesmente, teve o azar de, no meio da viagem, ter adoecido gravemente o que o obrigou a permanecer em Toledo, acabando por falecer em 1724, apenas com 38 anos de idade.

E assim desapareceu um cientista português que, mais tarde, foi imitado pelos irmãos franceses Étienne e Joseph Montgolfier, que em 1783 construíram o primeiro balão para transporte de humanos, numa barquinha sustentada por um balão de ar quente.

Não mais podemos esquecer, no rol dos nossos heróis mais populares, o Padre Bartolomeu de Gusmão, o nosso primeiro sábio da futura moderna aviação de transporte de passageiros.


Edição 851 (15/06/2023)

O Coração de D. Pedro e as inovações promovidas constitucionalmente – 2ªparte

Muitas críticas têm sido feitas à legislação liberal, pelo conservadorismo nacional, que não queria que fossem alteradas as regras vigentes, no fim da invasão francesa. Dominados agora pelos ingleses, que ficaram a usufruir abusivamente de altíssimos vencimentos militares, a situação não melhorou para o País. E, perante o perigo das perseguições da polícia inglesa, dos Iberistas, que pretendiam acabar com a independência portuguesa, e com os Absolutistas, apareceu no Porto uma organização clandestina, o Sinédrio, formado por um corajoso grupo de civis, que fez uma revolução, em 1820, pondo fora os ingleses do território nacional, correndo com os iberistas e libertando-se da ala absolutista portuguesa. Claro que a Constituição de 1822 era um autêntico conjunto de remendos, tendo sido em parte copiada da Constituição de Cádis de 1812, contendo disposições que se mostravam inaplicáveis à sociedade portuguesa. Por esse motivo, D. Pedro, quando regressou a Portugal, deu ao País a Carta Constitucional, diploma inspirado na Constituição Brasileira. E esse diploma, assim como o anterior, continham benefícios concretos, autenticamente revolucionários na altura. A população estava farta do Absolutismo Iluminado que tiranizou o País durante o reinado de D. José e do seu primeiro-ministro, Marquês de Pombal. E para se verificar as inovações constitucionais havidas, basta saber que foi determinada a proibição da prisão sem culpa formada, crime que há bem pouco tempo era cometido por responsáveis militares e políticos, como foi o caso do pós  25 de Abril até à Revolução do 25 de Novembro. Igualmente, foi legislada e regulamentada a Segurança Pessoal e da Propriedade, a Inviolabilidade do Domicílio, a Liberdade de Expressão, o Direito ao Sigilo da Correspondência. Ainda mais acrescentou a Carta Constitucional, consagrando o Direito à Assistência e à Instrução Primária gratuita. Além dos três Poderes, consagrados pelos princípios de Montesquieu, a Carta Constitucional adicionou um quarto poder, além dos Poderes Legislativo, Executivo e Judicial. Esse poder era o Moderador, que protegia a independência dos três poderes entre si e proibia tentativas de interferência no campo de actuação que não lhes dizia respeito. A criação desse quarto poder deveu-se à influência do filósofo político Benjamim Constant, passando o Rei a ser um elemento de equilíbrio, sendo Lhe conferido uma acção preservadora e de garantia da liberdade dos outros poderes. Numa Monarquia, o Rei deve estar acima dos partidos e dos grupos de interesses instalados. O monarca impede, nas relações entre os poderes em que se desdobra o Estado, que cada um deles tente invadir a área de jurisdição dos outros, arrogando-se abusivamente da competência alheia ou mesmo tentando governamentalizar a actuação de cada um dos braços do poder.

E o povo simples compreendeu perfeitamente as virtudes e as vantagens destes princípios, ficando ainda mais a admirar o seu popular Rei D. Pedro, que faleceu muito novo em consequência dos maus bocados que sofreu durante o cerco do Porto, na defesa da Liberdade Portuguesa. A sua estátua equestre está no meio da cidade do Porto, pois D. Pedro passou a ser um dos símbolos sagrados da Cidade Invicta e de todos os que pretendem viver em Liberdade e em Democracia. È uma das figuras míticas da nossa história. De tal maneira tal acontece que além da preciosidade e a honra que tem o Porto como guardião do coração do seu Rei, guardado na Igreja da Lapa, a imaginação dos escritores começou a romancear e a explorar tal situação. O escritor Miguel Miranda, no seu animado e interessante livro, intitulado “Sem Coração”, conta com pormenores o desaparecimento do coração de D. Pedro, crime contra os portugueses, nomeadamente ofensa grave à cidade do Porto e aos Tripeiros.

Assim como, desde séculos, foi praticada a recolha de Relíquias de Santos, que estão guardados em lugares seguros e que são adorados pelos peregrinos e visitantes de Igrejas e Catedrais, alude-se fantasiosamente à existência de uma rede internacional que se dedica a roubar relíquias eclesiásticas ou de personalidades célebres, organizações denominadas MEMORABILIA CORPOREA. Roubam desde crânios a dedos e ossos de gente célebre, havendo a par disso um comércio internacional, onde as relíquias de personalidades famosas atingem fortunas incalculáveis, num sinistro mercado de despojos humanos. E o nosso D. Pedro, devido á sua popularidade que nunca esmoreceu, anda metido o seu coração como actor principal numa dessas novelas inacreditáveis…

É bom referir que a Ele se deve a principal machadada na escravatura e a Ele se deve a implantação da Liberdade na vida política portuguesa. Viva D. Pedro, o Rei da Liberdade.


 


Edição 850 (25/05/2023)

D. Pedro IV, o sempre jovem campeão da Liberdade

O Rei D. Pedro IV, embora odiado por determinado tipo de políticos não crentes na liberdade de pensamento e na democracia, foi no seu tempo um autêntico super-homem, na defesa dos direitos do Povo, nomeadamente dos estratos mais humildes da população e principalmente das pessoas de cor, que viviam numa sociedade que os considerava coisas e não seres humanos. O Rei Soldado era filho de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, uma rainha mal amada pelo Povo, que muitas vezes a caluniou sem razão e outras com toda a razão e que semeou a cizânia não só na Corte, mas igualmente dentro do estreito círculo familiar, empurrando um dos filhos para os braços do extremismo absolutista, contra as ideias do próprio irmão e contra a opinião da elite mais culta do País que pretendia modernizar instituições e o sistema político vigente. Foi para o Brasil, com os Pais e toda a Corte, antes da chegada das tropas do General Junot, que pretendia prender o Rei, para o substituir por um irmão de Napoleão e com a sua prisão impedir a resistência portuguesa contra a dominação francesa. Na altura, alguns intelectuais portugueses, imbuídos por novas doutrinas e pressionados pela maçonaria, tomaram atitudes que objectivamente não podiam deixar de ser consideradas de vil traição contra os interesses de Portugal, como nação independente. Tudo fizeram para que não houvesse resistência à entrada dos militares franceses no território nacional, onde chegaram esfarrapados e mal armados, completamente estoirados pela velocidade a que foram obrigados a marchar até Lisboa, a fim de apanharem a pessoa do nosso Rei. E é bem sabido que através de uma luta de guerrilhas, com a valente gente do povo português, os franceses nunca teriam conseguido chegar a Lisboa, como aconteceu, por não ter sido disparado um único tiro contra um exército estrangeiro que nos invadia. Ainda por cima, os afrancesados, que andaram a convencer a tropa a não resistir, quando entrou a soldadesca gaulesa em Lisboa, tiveram o descaramento de bater palmas de regozijo aos inimigos da nossa independência. Claro que o Povo Simples ficou esclarecido e abriu os olhos para aquela raça de portugueses, serventuários dos interesses de um país estrangeiro…!

Com a saída do Brasil de D. João VI, D. Pedro passou a ser o príncipe herdeiro do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Casou em 1818 com a Arquiduquesa da Áustria., Maria Leopoldina de Habsburgo, de quem teve sete filhos. Teve uma juventude completamente livre e desaustinada, sendo criticada a sua vida pela parte mais austera da sociedade. Contudo D. Pedro convivia com gente de todos os estratos sociais, fosse qual fosse a sua crença e raça, criando amizades verdadeiramente revolucionárias para a altura, mantendo relações de intensa intimidade e fraternidade com gente de cor, amizades essas que foram verdadeiramente o princípio do fim do esclavagismo no Brasil, iniciando o processo que acabou com a decisão revolucionária da sua neta, princesa Isabel, a Redentora, que assinou a lei que acabou com a escravatura, em 13 de Maio de 1888.

Com o regresso do Rei, as Cortes portuguesas, dominadas por deputados da alta burguesia e pelos comerciantes mais poderosos de Portugal, proibiram o que anteriormente tinha sido autorizado pelo Rei e que já vinha sendo feito há muito, o comércio directo de entidades comerciais inglesas e brasileiras, sem a obrigatoriedade das autorização e participação intermediária portuguesa. Foi o fim do mundo no Brasil. A falta de tacto dos parlamentares portugueses, que puseram os seus interesses à frente dos interesses de Portugal como uma nação inter continental, que incluía o Brasil, provocou o célebre Grito do Ipiranga que, como consequência, fez desencadear a independência do Brasil. E D. Pedro, evitando a divisão do território brasileiro, em várias parcelas territoriais, como aconteceu com o império sul-americano da Espanha, resolveu colocar-se à frente do movimento independentista, proferindo o célebre brado “Independência ou Morte”

Entretanto, faleceu o seu Pai, em Portugal, ocorrência que o Povo propalava ter sido vítima de envenenamento feito pelos afrancesados. D. Pedro, herdeiro do Trono, outorgou ao País uma Carta Constitucional e abdicou a favor da sua filha D. Maria da Glória, escolhendo ainda sua Irmã, a Infanta D. Isabel Maria, como regente. Para tentar trazer a paz à sua Família, foi tratando do casamento da jovem rainha com o seu irmão D. Miguel, que nomeou seu lugar-tenente em Portugal. Simplesmente, os absolutistas, a Rainha Carlota Joaquina e o próprio D. Miguel aproveitaram a oportunidade para levarem a cabo um retrocesso político. Quando D. Miguel chegou a Lisboa, em 1828, foi aclamado Rei, pelos absolutistas, provocando uma desastrada guerra civil.

D. Pedro, corporizando a vontade da população mais evoluída do País, regressou a Portugal para organizar um exército liberal, agrupando os exilados em Inglaterra e os fugidos nos Açores. Desembarcou então com o seu exército no Mindelo e entrincheirou-se no Porto. A popularidade de D. Pedro e o seu contacto simples com o Povo já era conhecida na cidade invicta. Porém, com o sofrimento partilhado com o simples homem da rua, durante o cerco do Porto, ela explodiu, sentindo a gente do Porto que o seu Rei era um deles, um irmão que sofria a mesma fome e as mesmas provações que o portuense comum, para lutar pela Liberdade de todo um Povo. E de tal forma a sua popularidade conquistou a totalidade do país que foram os militares liberais, apesar de sediados no Porto, que saíram da situação em que se encontravam e foram tomar a cidade de Lisboa, capital do Reino, impondo o regime liberal. D. Pedro foi um rei amado pelos portugueses, nomeadamente do Porto, razão porque lá tem estado guardado o seu coração.


Edição 849 (11/05/2023)

Onde nasceu o primeiro Rei de Portugal? Mistério há pouco tempo resolvido (2ª parte)

Não é preciso recordar que o pai de D. Afonso Henriques, era o Conde D. Henrique. Este nobre, vindo de Borgonha, acompanhado de seu primo D. Raimundo, chegou a estas paragens, agindo como chefe de um grupo numeroso de cavaleiros, de monges e de clérigos de origem francesa, estabelecendo-se por cá, independentemente da aceitação ou não da elite aristocrática hispânica, cujas reacções teve que enfrentar, segundo nos relata o insigne historiador José Mattoso. D. Henrique, era bisneto do Rei de França, Roberto II, veio para a Península Ibérica, talvez para se livrar do mal estar que se vivia na sua terra, devido à actuação dos Albigenses, uma seita religiosa aparecida e que não tinha a cobertura papal, motivo porque dividiram a população por motivos religiosos. Atendendo ao seu alto nível nobiliárquico, casou com D. Teresa, filha bastarda do Rei Afonso VI de Leão e Castela.

Numa terra em que os confrontos entre cristãos e muçulmanos eram o pão nosso de cada dia, a Corte vagueava por diversos pontos do Condado Portucalense. Todavia, a cidade principal e com melhores condições de defesa contra os ataques repentinos dos árabes era sem dúvidas Coimbra, conquistada aos muçulmanos por Fernando Magno, em 1064, e que escolheu para seu governador o competente alvasir Sisnando Davides. Coimbra era uma localidade muito maior que as outras aglomerações cristãs. Dispunha de uma muralha construída durante o domínio árabe, que englobava uma área de 22 hectares. Para se verificar a diferença existente com os outros centros populacionais, direi que, na altura, o Porto ocupava cerca de quatro hectares. E exactamente por causa da sua excepcional capacidade de defesa, muita população do Norte se deslocou com a sua gente e pertences para as terras de Coimbra, livrando-se de assaltos aos seus produtos agrícolas e ajudando a desenvolver significativamente a actividade comercial. Começaram a crescer, na cidade do Mondego, os bairros periféricos. Um deles era o Francês, com gente naturalmente oriunda das terras de Borgonha. O Conde D. Henrique tinha agradado aos cristãos moçárabes, concedendo-lhes privilégios de diversa ordem e correndo os seus representantes que tinham sido contestados pelas populações. Igualmente ao que se passava nas terras de Viseu, a figura do cavaleiro vilão passou a ser valorizada e a ter um grande significado, constituindo um sustentáculo essencial para a manutenção da paz na administração e na defesa contra os árabes. O Conde D. Henrique e os seus Homens não paravam muito tempo no mesmo local, por razões óbvias, fazendo construir pontos de defesa em diversos locais a sul do Mondego e, como se sabe, em 1093, para parar as permanentes investidas árabes a locais cristãos isolados, fez uma surtida militar até ao Tejo, tendo sido, em resultado desse feito, nomeado Governador do Condado Portucalense. O Sul, era ocupado pelos Reinos das Taifas, militarmente de costas uns para os outros, em permanente luta entre si, e sem capacidade para resistir às forças cristãs. Porém, o cenário mudou com a chegada dos Almorávidas que, após terem tomado o Norte de África, passaram para os reinos das Taifas, conquistando Badajoz, ocupando Lisboa, em 1094, e Santarém, posteriormente em 1111. Mas até aqui, o problema era só com os muçulmanos. Porém, os Cristãos começaram a temer a nova e numerosa força que tinham pela frente, bem organizada, e que até se atrevera a atacar Toledo. Saiu frustrada essa tentativa, pois foi rechaçada pelo exército cristão. Por essa razão, resolveram então conquistar Coimbra. O Conde D. Henrique que tinha ido com a Corte para a Cidade do Mondego, há muito que esperava esta tentativa. do Emir Ali Yvsuf, á frente das hordas dos muçulmanos.

Ora bem, por causa dessas movimentações militares, cujo epicentro cristão era Coimbra, o Prof. Doutor Torcato Sousa Soares, num congresso nesta Cidade, declarou que tendo em conta que D. Afonso Henriques nasceu em 1109, e que nessa altura os pais, assim como toda a Corte estavam em Coimbra, protegidos pelas suas fortes muralhas, o primeiro Rei de Portugal, necessariamente nasceu em Coimbra e não em Guimarães como a lenda fantasiava. Claro que Guimarães não gostou desta solução. As coisas não podiam ficar assim e, vai daí, fizeram uma sondagem para ver quem seria o especialista e investigador idóneo, fora da área de influência de Coimbra, que pudesse fazer um estudo profundo sobre a matéria. E foram bater à porta do beirão Alexandre Alves, que lá fez as averiguações necessárias e que informou que, nessa data, a Rainha D. Teresa, como estava em Viseu e tinha uma reunião com os cavaleiros vilãos, julgo que de Lafões, não acompanhou o marido a Coimbra, pois estava pejada e a gravidez impedia a sua viagem para fora dos termos de Viseu. Sendo assim, o nosso historiador concluiu que D. Afonso Henriques nasceu em Viseu. E esta hein?!!! Foi o fim do mundo em Guimarães, fazendo-se indecentes acusações a um historiador e investigador conhecido pela sua seriedade e competência. Não lhe pretenderam pagar o quantitativo ajustado pelo seu trabalho de investigação e recorreram, em última instância, ao historiador Prof. José Mattoso que, em resposta, lhes respondeu:- “Até prova em contrário, D. Afonso Henriques nasceu em Viseu”.

E assim acabou uma gesta histórica que já fazia levantar em armas os intelectuais das duas cidades. Mas parece que os ânimos dos contendores foram serenando e que o grande Rei que foi D. Afonso Henriques, obrigado pelas circunstâncias bairristas, acabou por nascer, ao mesmo tempo, em duas cidades bem distante uma da outra.

Milagres que a História tece…


Edição 848 (27/04/2023)

Alexandre Alves, um ilustre beirão e um excepcional investigador (1ª parte)

Já se comemorou o centenário do nascimento do ilustre investigador Alexandre Alves, que muita gente da nossa terra comete a falta grave de não conhecer minimamente. Devo confessar que não o conhecia muito bem, pois com Ele apenas estive breves instantes, acompanhado pelo meu Pai, num grupo de amigos onde o mesmo se encontrava. Mais tarde, estive com Ele no Congresso Beirão, antes das eleições relacionadas com a Regionalização. Alexandre Alves nasceu em Mangualde, em 8 de Dezembro de 1921, e faleceu 26 de Dezembro de 2008. Ocupou os mais diversos cargos durante a sua movimentada vida, sendo de recordar que talvez uma das principais funções desempenhadas tivesse sido a de director da Revista da Beira Alta, entre 1978 e 2008, sucedendo ao inesquecível homem da cultura, Alexandre de Lucena e Valle. A sua nomeação, como director dessa  importante publicação beirã, assegurou a sua continuidade, pois era deveras difícil haver alguém na Beira que intelectualmente mantivesse o alto nível de uma revista local e histórica, com características regionais e de pequena expansão. Ora, Alexandre Alves possuía a suficiente sapiência para o desempenho dessas difíceis funções, o que era raro na Província, pois era obrigado a abarcar o mundo da arqueologia, da arte e da história das terras da Beira. Basta lembrar, para se aquilatar a sua rica personalidade intelectual que Alexandre Alves, nos seus trabalhos de investigação, descobriu novas obras da autoria de Vasques Fernandes.

Era uma figura rara num meio provinciano. Para se compreender melhor o seu percurso na vida cultural, lembro as suas importantes intervenções na actividade da arqueologia e da investigação.

Iniciou os seus estudos no Seminário de S. José, em Fornos de Algodres. Porém, em 1934, interrompeu o seu ano escolar e estadia nesse estabelecimento de ensino religioso, e matriculou-se no Colégio da Via Sacra, de que era director o célebre Padre Barreiros e dele foi perfeito, Oliveira Salazar. Posteriormente, frequentou o Liceu Nacional de Viseu. Em 1941, matriculou-se no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa. Como todos os portugueses, cumpriu o seu serviço militar na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, e como aspirante a oficial foi mandado para o Quartel de Infantaria de Viseu., acabando por, em1946, ser mobilizado para os Açores. Concomitantemente, a sua produção literária era uma torrente imparável. Recordo o seu primeiro artigo, publicado na Revista Beira Alta, intitulado “A Igreja da Misericórdia de Mangualde”. Entretanto, a par do seu constante e aturado trabalho de investigação histórica, inscreveu-se, como aluno voluntário na Universidade de Coimbra, no Curso de Ciências Histórico-filosóficas. Os seus trabalhos de investigação mereceram a atenção dos responsáveis políticos deste País, apesar da sua personalidade e vida serem absolutamente independente da actuação partidária e mesmo de qualquer movimentação política. Apesar de tal, foi condecorado com o Grau de Oficial da Ordem de Santiago da Espada, pelo então ministro Mário Soares, em 1984. Igualmente recebeu, em 1990, a medalha Municipal de Mérito da cidade de Viseu e a medalha de ouro da cidade de Mangualde. Recebeu igualmente a Medalha de Mérito da Causa Monárquica.  Em 2001, a Biblioteca Municipal de Mangualde passou a denominar-se Biblioteca Dr. Alexandre Alves, galardão merecido pois ocupava todo o seu tempo livre a ler e transcrever milhares de livros, múltiplos manuscritos e vários documentos avulsos. Foi reconhecido, pelos especialistas da matéria, que adquiriu um vasto conhecimento de Paleografia, obtendo uma rara facilidade de leitura, considerada mesmo fora do vulgar. Um Homem à frente do seu tempo e de um nível cultural superior ao da sociedade onde estava integrado.

Embora este artigo já vá longo, não posso deixar de frisar que Alexandre Alves faz parte da história portuguesa da Investigação, não só da Beira, mas do próprio País. A sua figura deverá ser lembrada por todos como um raro e forte sustentáculo da cultura, que sacrificou toda a sua vida em prol dos interesses colectivos. Atrevo-me a relatar uma engraçada passagem da sua vida resultante da sua sabedoria histórica, baseada na investigação profunda que fazia a todos os documentos que diziam respeito à Beira.

Como sabem, sempre correu, sem qualquer base histórica, que Guimarães era o Berço da Nacionalidade e cidade onde nasceu o primeiro Rei Português. Simplesmente esta afirmação, não fundamentada, não passou despercebida aos os investigadores históricos deste País. Mas como o artigo já vai extenso, contarei este misterioso facto histórico num próximo artigo.


Edição 847 (13/04/2023)

Barão de Coubertin – a paz e a fraternidade tradicionais, durante os Jogos Olímpicos e os Campeonatos Mundiais de Futebol

Na Grécia antiga, as elites cedo descobriram que o desenvolvimento intelectual dependia muito do grau de preparação física que fosse ministrado à juventude. Um espírito são, num corpo são. E se assim pensaram, rapidamente o fizeram, criando uma série de competições desportivas físicas, em Olímpia, em honra de Zeus, o supremo deus da mitologia clássica. E tais jogos foram celebrados e realizados de quatro em quatro anos, durante pelo menos um milénio. Os organizadores, homenageando Zeus, pretendiam que todos pudessem participar nas competições e pudessem visitar Olimpo, na serena paz dos deuses, estando todos abertos ao próximo, tanto os cidadãos residentes localmente como os visitantes, numa cordial simpatia e aceitação das diferenças, sendo criado aos estrangeiros um agradável ambiente e uma sensação de absoluta confiança. O bom acolhimento não podia ser melhor, mais afável e de total abertura aos visitantes, por mais estranho que fossem as suas fisionomias e hábitos. Claro que, na altura do Jogos Olímpicos, as Cidades Estado, se estavam em guerra e de candeias às avessas entre si, durante o decorrer do calendário olímpico, paravam as acções guerreiras e faziam uma pausa nas suas divergências, suspendendo completamente as actividades militares, única forma de todo o mundo poder participar nos Jogos Olímpicos em honra de Zeus. Asterix e Obelix, essas figuras míticas da banda desenhada, participaram igualmente, vindos da Gália longínqua até à Grécia da suma sabedoria e cultura, desestabilizando um pouco o meio ambiente, para gáudio e supremo gozo dos leitores das suas aventuras. Na altura, as regras para os jogos eram rígidas, intocáveis e sagradas, não havendo dúvidas para os forasteiros  no processar das tradicionais competições. E na verdade, os concorrentes aos jogos e os visitantes dos territórios, mesmo inimigos tradicionais ou ocasionais, cumpriam escrupulosamente as regras estabelecidas, sendo todos os visitantes, mesmo dos territórios mais longínquos ou de populações ferozmente inimigos da cidade organizadora, acolhidos na doce paz e na cortesia máxima dos visitados, tivessem eles a raça ou a crença religiosa que tivessem, podendo conviver pacificamente com gente desconhecida e provar as estranhas iguarias confeccionadas no Olimpo.

No Séc. XX, um filósofo e metodólogo, Barão Pierre de Coubertin (n. 1863 – f.1934), começou a proclamar, em todas as reuniões científicas, em que participava, que devia ser incluída a educação física, sem excepção, no currículo de todos os estabelecimentos de ensino. E, em 1894, num Congresso Internacional, na Sorbonne, fez aprovar a restauração da tradição grega clássica, sendo realizado um evento desportivo internacional periódico, inspirado no que se fazia na Grécia antiga. Assim, foi constituído um Comité Olímpico Internacional (C.O.I.), de que Pierre Coubertin foi eleito Secretário. Nestes termos, todos os países, sem excepção, tivessem o regime político que tivessem, fossem governados por ideologias diferentes das europeias ocidentais, tivessem os usos e costumes mais díspares e as religiões mais variadas, eram aceites nas competições das diversas modalidades olímpicas. Recordo os Jogos Olímpicos na Alemanha nazi, e nos países de ideologia comunista da Cortina de Ferro. Os Comités Olímpicos de cada País seleccionavam os participantes da respectiva nacionalidade para participarem nessas grandes e faladas competições internacionais. Sempre assim foi e o mesmo começou a acontecer nos campeonatos mundiais de futebol, ou simplesmente nos campeonatos de um determinado continente. Todos obedeciam ao Espírito Olímpico. Durante a competição, os estados suspendiam reciprocamente as suas divergências para que tudo corresse na alegria do convívio e no prazer que resulta da confrontação desportiva civilizada, mesmo atendendo que no final, a plena alegria e satisfação é apenas do país que ganha determinada competição. No fundo, identicamente ao que se passava na época clássica grega, são agora utilizados os modernos Jogos Olímpicos e o desporto como instrumento para a promoção da paz, da união e do respeito entre os Povos e as Nações.

Pois bem, foi estipulado pelo Comité competente que o Campeonato do Mundo de Futebol fosse no Qatar, um pequeno país, surgido internacionalmente há pouco e agora nas bocas do mundo, pois muita gente não concordava com a realização da competição mundial nesse Estado Africano, devido ás elevadas temperaturas que lá sempre se fazem sentir. Apesar de tal, foi escolhido o Qatar!!! Claro que pode sempre criticar-se tal decisão, mas após ter sido tomada definitivamente, mais nada poderá ser dito. E o Qatar teve que construir, de raiz, todas as estruturas necessárias, desde hotéis que não tinha, aos estádios inexistentes, a todas as edificações necessárias para acolher multidões. Lembro que o Qatar enquadrado, territorialmente falando, está desde o princípio ao fim, em pleno deserto, com uma população habituada a viver em tendas, perto do seu meio de transporte, o camelo. E em pouco tempo, tiveram que fazer milagres na construção civil. Claro que, tantas obras com mão de obra pouco experiente e a trabalhar a contra-relógio, sofreram variados acidentes de trabalho, tristes ocorrências que, infelizmente, se verificam em todos os países. Basta estar atento aos noticiários nacionais para se verificar quantos acidentes se verificam dentro das nossas fronteiras, um país dito civilizado. Contudo, todos os Estados cujos cidadãos concorrem ao campeonato em disputa, mais nada deverão dizer, pois as opiniões de cada Estado, por mais oportunas que sejam, devem ficar dentro dos muros do respectivo país.  Caso contrário, não se respeita minimamente o espírito que move os Jogos Olímpicos e os Campeonatos Mundiais de Futebol. Tal comportamento, será uma grave agressão ao Espírito e à filosofia de Pierre de Coubertin, que muitos responsáveis governamentais inexplicavelmente devem desconhecer. Lá que os cidadãos de qualquer lugar, a título individual, aproveitem para protestar contra circunstâncias que lhes dizem respeito, muito bem. E lá estão as mulheres a protestar pela sua falta de direitos e pelas desigualdades em relação aos homens. Lá estão cidadãos a protestar pela falta de assistência dos trabalhadores da construção civil.  Agora os Estados, através dos seus responsáveis, comentarem publicamente as faltas cometidas pelo Estado Organizador, na circunstância o Campeonato do Mundo, é simplesmente chocante e deplorável, constituindo uma flagrante falta de educação e um pontapé inadequado no espírito olímpico. Devo dizer francamente, fiquei escandalizado com alguns comentários de responsáveis governamentais que perderam uma boa ocasião para estar calados. Ainda por cima, foram oficialmente, isto é, à nossa custa e apesar da crise, passear para o Qatar para o tal país que não respeita os direitos humanos e tem muitos acidentes de trabalho…. Inacreditável!!!

Para mais, o país anfitrião tem sido de enorme simpatia para quem o visita e procura que tudo corra pelo melhor, enfrentando problemas terríveis de país com pouca experiência nesta matéria de organização desportiva. Será bom que os nossos governantes se lembrem que este evento deveria promover a paz, a união e o respeito entre os diversos Estados, de continentes, crenças e hábitos diferentes.


Edição 846 (30/03/2023)

Papas, só nascidos em Roma…!

Papas apenas poderiam ser criaturas nascidas em Roma. Esta ideia peregrina habitava a mente de muito cristão italiano pouco culto. No entanto, nesta matéria, a minha modesta pessoa acabou por ter uma enormíssima surpresa! Como a maior parte dos cristãos, fiquei apaixonado pela figura do Papa João Paulo II, um polaco, que foi operário, que lutou de armas na mão para defender a liberdade contra os nazis e os comunistas, que esteve preso num campo de concentração com outros prisioneiros de guerra e que uma enciclopédia americana refere erradamente ser o primeiro Papa não italiano. Porém tal erro não tem qualquer significado, pois não é relevante. Na verdade, uma onda de entusiasmo atingiu os católicos de todos os continentes, igualmente ao que aconteceu, posteriormente, com o argentino Papa Francisco, que Deus Lhe dê muita saúde.

Numa visita à cidade de Roma e ao Vaticano, com esperança de ver o Papa ou pelo menos respirar o ar nos mesmos lugares por onde passava, fui integrado num grupo chefiado por uma guia bastante “sui generis”. Dizia-se uma “patrícia”, isto é uma aristocrata romana e demonstrava, veladamente que, embora católica, não podia com o Papa de então, pelo facto de ser um estrangeiro e os Papas, na sua opinião, deveriam ser, obrigatoriamente, todos Romanos. Pelo menos, italianos. A Senhora era muito culta, mas eivada de um espírito nada cristão. Ainda por cima, os grupos de polacos para verem o Papa, seu conterrâneo, eram aos milhares, espalhados por tudo o que era via que levava ao Vaticano. Claro que tivemos uma brava discussão, no percurso desde a Porta de Sant´Ângelo até ao Vaticano, de que nada valeu, pois a senhora estava estribada nas suas ideias xenófobas, quase racistas, em relação aos Chefes da Igreja que não fossem nados em Roma ou, pelo menos na península itálica. Lá Lhe declarei que não tinha razão pois, ainda por cima, tinha havido pelo menos mais um Papa não italiano, o português João XXI, Papa eleito pelo Consistório, reunião do Sacro Colégio dos Cardeais, em Setembro de 1276. isto para não referir já o Papa Dâmaso I, oriundo das terras onde é agora o Minho, que chefiou a Igreja entre 366 e 384. Prontamente aquela estranha descendente do patriciado do Império Romano me respondeu, de chofre, que tal nada revelava de excepcional, pois em Maio de 1277, João XXI já não existia. A guia romana, pelos vistos, não desistia e acrescentava que umas dezenas de dias após a eleição de João XXI, este desapareceu do mapa da Cúria Romana, pois quando foi fiscalizar umas obras, no exercício das suas funções de responsável pelas edificações destinadas ao papado, resolveu instalar-se nas ruínas do Palácio de Viterbo, o futuro novo palácio pontifício, afim de melhor poder fiscalizar o decorrer da recuperação das ruínas daquelas instalações. Ora, agindo fora das suas competências de Chefe da Igreja, quando foi meter o nariz nos trabalhos que decorriam num andar superior, espreitando através de uma abertura muitos metros acima do solo, houve alguém que o empurrou, tendo caído desamparado, de uma altura considerável, e tendo morrido como consequência da queda dada. Eu sabia o mínimo sobre o Papa Português para constatar que a história estava muito mal contada e que a guia além de culta era escandalosamente mentirosa, modificando com desonestidade, a seu bel-prazer, os reais factos históricos. Referi-lhe então que conhecia bem a história do Papa Português e que uma patrícia, como ela declarava ser, não devia cair na vulgaridade de uma mentira vergonhosa. Acabou ali a conversa, todavia, tal assunto deu para posteriores conversas animadas com os meus amigos sobre a personalidade e a hipotética morte violenta do pobre Pedro Julião, nome de João XXI, nascido em Lisboa e que acabou a sua vida como Papa. Foi eleito em Setembro de 1276 e morreu em Maio de 1277. Como já referi, foi instalar-se no Palácio Viterbo e escolheu um compartimento para se acomodar e lá trabalhar, para melhor poder fiscalizar de perto o decorrer daquelas urgentes obras. Infelizmente, o tecto desse gabinete, onde se instalou, ruiu e caiu em cima dele. Morreu passados dois dias.

Como já referi, Pedro Julião, de seu nome, nasceu em Lisboa e começou a praticar os ensinamentos e as técnicas das artes médicas com seu pai, o médico Julião Rebolo. Apaixonado por essa actividade, foi para Paris para a Universidade de Medicina, onde foi colega de S. Tomás de Aquino e aluno de São Alberto Magno. Completamente enfronhado na medicina, começou a escrever sobre esta matéria, sendo conhecido, entre outros trabalhos, o seu tratado “O Tesouro dos Pobres”, onde ensina não só os tratamentos para diferentes doenças, como igualmente a elaboração de mezinhas, como foi o caso de um preparado para os olhos cansados dos artistas. Contratado para mestre na Universidade de Siena, continuou a escrever não só sobre medicina mas igualmente sobre filosofia e assuntos sacros, assinando os seus trabalhos como Pedro Hispano, para vincar a sua origem Ibérica. Voltou a Lisboa e ingressou na vida eclesiástica tendo estado em várias Igrejas desde responsável por Santo André de Mafra, a decano da Sé de Lisboa, a tesoureiro da Sé do Porto e a prior da Colegiada de Guimarães. Porém a vida agitada do agora Pedro Hispano não acabou na quietude da terra pátria, pois foi elevado à categoria de Cardeal de Frescati, pelo Papa Gregório X. O seu prestígio cultural ia aumentando não só no campo da medicina como em matéria de teologia. Por essa razão, o Papa chamou Pedro Hispano para junto de si, como seu médico e conselheiro. Quando morreu o Papa Inocente V, Julião fez parte do Conclave que elegeu AdrianoV. Após o falecimento do Papa AdrianoV, foi ele próprio eleito Papa, ocupando, embora por pouco tempo, a Cadeira de S. Pedro.

Na verdade, existem poucos papas não italianos, mas existem e o nosso Papa João XXI é bem acompanhado, na sua qualidade de estrangeiro, pelo Santo Polaco, João Paulo II e pelo actual Papa Francisco, que Deus guarde.


Edição 845 (16/03/2023)

Partilhas em Família

Partilhas, o exame subtil especial e necessário para verificação do bom relacionamento entre os elementos da mesma Família. Em Portugal é costume levantar-se tal questão quando alguém se refere a determinada Família e opina que os seus elementos são todos muito amigos. Logo alguém acrescenta – “Já fizeram alguma vez partilhas?”

Ora bem, na verdade, na minha actividade de advogado, os casos mais intricados em que me vi metido, foram partilhas entre elementos do mesmo agregado familiar. Perto de Vila Real, recordo que alguns dos herdeiros, numa tentativa de conciliação amigável, tiveram a lata de se apresentarem, com a caçadeira a tira colo e um outro atreveu-se a colocar o coldre com uma pistola em cima da mesa. Na verdade, vinham cheios de boas e santas intenções!!!. Essa a razão porque a opinião do Povo bem acerta quando diz que só após as partilhas se poderá verificar o respectivo bom ou mau relacionamento familiar.

Aliás, sempre assim foi, muitas vezes recebendo maus exemplos vindos de cima. Temos um exemplo histórico, o mau relacionamento e os conflitos em o Rei D. Afonso II, o Gordo, e as Suas Irmãs. D. Afonso II, além do excesso de peso que lhe dificultava a vida, além dos inimigos mouros que procuravam destroçar o seu exército e o seu País, tinha umas interesseiras Manas, invocando de armas na mão o direito às terras cedidas pelo pai, D. Sancho I, para a sua manutenção. Além do mais, sofria de uma doença terrível que era a lepra. Dizia a lenda que D. Afonso II, bom gastrónomo, na sua juventude, gostava de descansar no Castelo de Belver, onde tinha uma bonita conversada que ainda por cima era uma óptima cozinheira, fazendo um precioso Queijo da Serra de ovelha, que encantava as pupilas gustativas do alentado soberano. Já agora conto uma história lendária que tem transitado de geração em geração. Passados muitos anos, o Rei já menos novo, para fugir às actividades guerreiras foi ficar a Belver, para matar saudades da sua antiga paixão. Todavia, esta antiga beleza, estava muito velha e vinha com as mãos escondidas debaixo de um avantajado avental. Perante os elementos da Corte que o acompanhavam, D. Afonso fez imensos elogios à sua antiga namorada e manifestou-lhe que queria comer um queijo feito por Ela, igual aos do antigamente que a mesma lhe servia nos intervalos das sessões de amor. A senhora, embatucada com aquele pedido do seu antigo amado, sem tirar as mãos debaixo do avental, foi Lhe dizendo que, com a idade, perdeu o jeito e já não sabia fazer bom queijo da serra como outrora. O Rei, pensando que estava perante uma boa desculpa, respondeu que lhe estava a dar uma ordem. E assim foi. A pobre da Senhora, num dos dias seguintes, mandou servir um queijo da serra delicioso, que encantou tanto o Rei como os seus acompanhantes. E para mostrar a sua gratidão à autora de tão precioso manjar, mandou chamá-la à sua presença. Lá apareceu a antiga namorada com as mãos permanentemente escondidas debaixo do avental. O Rei levantou-se, abraçou-a e ordenou-lhe, “Quero, perante todos, beijar as mãos de fada que fizeram esta excelente iguaria que me trouxe a antiga alegria que aqui sempre vivi. Perante a recusa da queijeira, o Monarca elevou a voz e tornou a insistir, acrescentando que lhe estava a dar uma ordem e que a queria honrar perante os seus mais íntimos e notáveis amigos. Dizendo isto, puxou por um dos braços da antiga amiga e apareceu Lhe uma mão toda entrapada, mas não o suficiente, pois todos puderam verificar que não tinha dedos. O Rei desfaleceu com a brutal surpresa…A terrível Lepra tinha feito desaparecer parte da mão da queijeira e, principalmente, os seus esguios dedos que outrora tinham afagado amorosamente o rosto e os cabelos de El-Rei. Na altura, a Lepra era uma praga generalizada, que não tinha cura e de que todos tinham medo do contágio. Os doentes viviam afastados de toda a gente, iam perdendo os dedos das mãos e dos pés e o próprio nariz, acabando por morrer numa solidão miserável. Mais tarde, os portugueses trataram dos leprosos eficientemente e conseguiram debelar tal mal até nos seus territórios coloniais. Enfim, mas esta triste história da Lepra com que acabou por falecer D, Afonso II, não é para aqui chamada. Estávamos a falar das partilhas com as respectivas princesas, suas aguerridas irmãs. D. Afonso foi curtir as suas mágoas para o campo de batalha, onde se cobriu de glória e prestígio, pois, em Navas de Tolosa, teve uma retumbante vitória contra os árabes, que ficaram completamente destroçados. Porém os padecimentos do monarca não acabaram, pois mal encostou o escudo e a espada na panóplia, e tirou o elmo dos seus ombros cansados, as irmãs voltaram imediatamente à carga, arregimentando um exército e dando início a uma autêntica guerra civil, que nunca mais acabava. De tal modo era a intransigência das Manas do Rei e a sua teimosia, que acabou por se meter na resolução deste intrincado problema de partilhas familiares, o próprio Papa, Inocêncio III, que receoso que o reino português ficasse mais fraco com estas turbulências familiares, determinou, sem possibilidade de recurso, que as Infantas poderiam continuar a habitar os castelos onde viviam, mas que estes passavam para a guarda dos Templários. Quanto às terras cedidas por D. Sancho I às filhas, não eram estas propriedade das mesmas, sendo delas, enquanto fossem vivas, apenas o respectivo rendimentos, regressando à  titularidade da Coroa (do País), como pretendia D. Áfono II. Eis um bom exemplo histórico de que as relações familiares só podem ser avaliadas após serem feitas partilhas, entre os seus componentes.


Edição 844 (23/02/2023)

LER permanentemente, Vício ou Virtude

Alguns velhos amigos dos tempos escolares, verificando que nem sempre tinha disponibilidade para os acompanhar, interpelavam-me dizendo que não gozava a vida que Deus me deu, por estar permanentemente a ler. E na verdade, tinham razão. Tenho sempre mais do que um livro começado, para mudar a leitura quando me aborreço daquilo que estava a ler. Contudo, não sei bem se leio por vício ou por virtude, dádiva que tenho que agradecer ao Altísimo, pois é doença que não se pega e que só me traz benefícios. O que é certo é que gosto muito de ler. Tenho um prazer imenso quando leio, como aliás tantos outros mortais que partilham o mundo com a minha modesta pessoa. Onde ganhei tal vício tenebroso, perguntar-me-ão à meia volta…! Sei lá…!

A certa altura da minha juventude, a falta de saúde contribui para a criação dos meus hábitos de leitiura. Na  verdade, tive uma primoinfecção e o tratamento adequado, na altura, além das injecções do estilo, era estar na cama a descansar quase todo o santo dia. Claro que aproveitava a deixa e, às escondidas, lia os livros que apanhava à mão, retirados à socapa da biblioteca dos meus Pais que nem sonhavam o que se passava com as minhas leituras de descanso. Independentemente de tal, na verdade, comecei nesse vício  muito cedo. Muito pequeno, em Viseu, ia brincar para casa de uns amigos meus, muito mais velhos, o Jorge e o Victor Carvalho, de quem tenho muito boas memórias, pois tinham paciência infinita para me aturar e ao meu Irmão Zé. Viviam no Maçorim, numa casa ao lado da dos meus Pais e, como é habitual, liam os jornais infantis da altura, pelo menos, talvez o “Mosquito”, “O Diabrete” e o “ Mundo de Aventuras”. O Jorge Carvalho, informo por curiosidade, foi durante muitos anos um dos principais responsáveis pela organização da Feira Franca de S. Mateus, em Viseu. Acontece que quem permanecia sempre em casa dos meus simpáticos vizinhos era uma Avó, muito idosa, amorosa, antiga professora primária e que, perante o meu interesse em perceber o que estava escrito, logo começo a ensinar-me a juntar as letras e a fazer-me repetir a ginástica da leitura, até perceber o que tinha à frente dos olhos. E, na verdade, conseguiu que eu começasse a ler, quase de fraldas, motivado pelas aventuras do “Cuto” e do Tarzan, sem perder pitada das movimentadas tropelias de que eram protagonistas. Posteriormente, a estadia obrigatória a descansar durante quase todo o santo dia, desenvolveram o meu gosto pela leitura, tendo lido muita coisa que não era propriamente para a minha idade, pois os meus Pais só muito tarde pressentiram os abusos cometidos nas leituras impróprias em que eu estava envolvido, mas já nada ganhavam com isso. Devo dizer, que já andavam de pé atrás comigo e com a minha capacidade de leitura… Pois, numa viagem para Espinho, pela velha e desgastante estrada do Vale do Vouga, teria os meus quatro anos, os meus Pais verificaram que eu lia alto os nomes das terras por onde passava. Nada disseram, pois nem queriam acreditar que eu já soubesse ler. Na altura, pediram ao nosso grande amigo, Dr. António Correia de Oliveira, que vinha de Coimbra, onde dava aulas no Liceu D. João III, passar as suas férias à Casa de Pôves, em S. Pedro do Sul e que, na altura, estava igualmente a veranear em Espinho, para confirmar e avaliar a minha possível precoce sabedoria. Confirmou, espantado, a minha sapiência na leitura. O mal é que eu só lia o que me apetecia, e para os livros de estudo nunca tinha tempo. Um bom leitor, mas um mau aluno, convenhamos.

Porém uma nova personalidade mágica apareceu no panorama da minha cultura. O nosso professor de Literatura, no Liceu, Sr. Dr. Simões Gomes. Criou com toda a sapiência, num enorme grupo de alunos, que eram os meus companheiros de ano liceal, o culto e o amor pela leitura. Passámos, através da escrita de diversos autores, a conhecer a maneira de ser da gente de determinada região, incluindo os seus usos e costumes e, igualmente as várias facetas da sua cultura, nomeadamente na linguagem e nos hábitos das suas vidas diárias. Enfim, foi um grande incentivo para o desenvolvimento do meu progresso cultural e de todos os meus companheiros de Literatura. Muito mais tarde, tive o enorme prazer de encontrar tão ilustre personalidade, no Porto e, o meu saudoso mestre, Sr. Dr. Simões Gomes perguntou-me com ar divertido como estavam intelectualmente os gatos que tinham por nome os heterónimos de Fernando Pessoa. Recordei então que, há muitos anos, tinha aproveitado o nascimento de uma ninhada de três gatos, em S. Pedro do Sul, para lhes dar, por nome, os heterónimos de Fernando Pessoa. Pelos vistos, o meu querido Pai contou este estranho baptismo dos gatos ao seu amigo e colega Simões Gomes. O gato Alberto Caeiro foi o que durou mais tempo. O bichano Ricardo Reis morreu atropelado, numa passeata pela estrada e o Álvaro de Campos foi dado a uma vizinha. A gestora dos gatos da Família, a querida Maria, não gostou nada dos nomes postos aos gatos recém nascidos, achando que os estavam a apelidar com nomes ligados à bruxaria. De alguma maneira tinha razão…!

Eis as razões que me levaram a gostar imensamente de ler.

Enfim, peço desculpa aos leitores pela ingenuidade desta história motivada pelo meu vício da leitura, que bem gostava fosse doença altamente  contagiosa, uma epidemia, que tomasse conta dos gostos de toda a actual juventude.


Edição 843 (09/02/2023)

Ligas, material revolucionário, socialmente falando

Era eu ainda um jovem, a abrir a boca de espanto a tudo que fosse diferente do dia a dia, quando tive a oportunidade de assistir a uma ocorrência, que quase me tirou a respiração.

A propósito de uma conversa com o meu querido e saudoso amigo de Vouzela, Tónio Dias, escrevi sobre uma respeitada e célebre insígnia de cavalaria. Desta vez, e a propósito da inusitada ocorrência agora referida, falarei sobre outra, que não é menos conhecida…!

Quando estava na adolescência, foi organizada, numa localidade da Beira, um arraial dançante, uma festa para angariar fundos para qualquer finalidade social da Região. Enorme reunião da boa gente da Beira animada por uma orquestra local. Penso que era o grupo musical de Viseu, dirigido por Mário Costa, se não me falha a memória. Como complemento, os apetitosos e necessários comes e bebes, feitos e servidos, pelo madamismo organizador, com espírito de sacrifício e de solidariedade e sempre com a preocupação de exibirem a sua requintada e rica culinária.

Pois bem, rodopiavam os pares uma valsa vibrante ou davam os passos difíceis de um movimentado e inovador rock, quando no meio do largo estrado, onde se dançava, apareceu um objecto estranho, que necessariamente tinha caído por algum dançarino abaixo, naturalmente numa volta mais larga ou num passe mais atrevido com uma pirueta a imitar os pares roqueiros cinematográficos, tão em voga, na altura…!

E claro está, na vida portuguesa, há sempre um abelhudo que em vez de ver, olhar, calar e esperar, acorre com falta de oportunidade a pegar no que não deve. Mas, a curiosidade é sempre má conselheira e anti social. Juntaram-se logo alguns dançarinos à volta de tão estranho objecto. A rapaziada não percebeu bem do que se tratava, mas as dançarinas logo vislumbraram que estavam à frente de uma peça de vestuário usada pelo sexo feminino, isto é uma simples liga para segurar as meias altas. E tal poderia ter passado despercebido se o achador daquele material feminino, não tivesse feito um escusado alarde do seu achamento, quase pedindo alvíssaras pelo encontrado, tendo ainda a triste ideia de chamar à atenção, de pegar e de, dando voltas à memória, descortinar de que par tinha caído aquele estranho artefacto, que desconhecia em absoluto, pois era um jovem provinciano, como eu, com falta de prática e de conhecimento do vestuário feminino mais sofisticado! Ainda por cima, começou a fazer cálculos mentais, em voz alta, referindo que, na sua opinião, os proprietários de tão estranho achado deviam ser…! Porém, não chegou a acabar o seu raciocínio e a identificar os presumíveis proprietários, pois o dançarino do par em questão, tirou-lhe a liga da mão e saiu imediatamente do recinto com a infeliz dançarina, pela mão, proprietária de uma liga revolucionária, que caiu quando não devia, deixando de cumprir a sua única obrigação, segurar as meias da sua portadora…. E esta, na verdade, parecia estar quase a romper num vale de lágrimas, pela situação criada e pela estúpida publicidade dada, pela falta de modos do achador da liga caída, assim me pareceu. O problema não tinha qualquer importância, mas para uma menina daquela altura e daquela idade, com a saudável simplicidade provinciana, a situação era deveras embaraçosa. Claro que o problema foi logo esquecido, mas durante muito tempo, quando se recordava essa festa, vinha logo à conversa uma liga que tinha caído na pista de dança, e que tinha criado grossa celeuma nos presentes, não se lembrando já os intervenientes na conversa do nome dos dançarinos, ou baralhando mesmo os seus apelidos.

Mas a que propósito vem esta história de uma liga rebelde que se desprendeu da perna de uma jovem e cândida dançarina, em público, num recinto de dança da nossa Beira? Naturalmente, perante o drama, houve muito sorriso de troça e más palavras como comentário.

E tal circunstância fez me recordar uma importante insígnia de cavalaria, criada em circunstâncias estranhas e parecidas com a ocorrência da festa dançante beirã.

Em primeiro lugar, esclareço que liga e jarrete são palavras que têm o mesmo significado, servindo tal fita elástica para segurar as meias ou outra qualquer peça do vestuário.

Pois bem, reportemo-nos ao reinado do rei inglês, Eduardo III, cujos exércitos conquistaram a Escócia, tendo iniciado a Guerra dos Cem Anos com a França e obtendo uma retumbante vitória na célebre Batalha de Crecy e tomando Calais, como nos ensinaram os nossos competentes professores.  Por volta do ano de 1348, o Rei, talvez para festejar os êxitos do seu reinado, deu uma enorme festa, convidando os seus súbditos, para um baile e para um banquete. Aberto o baile, o Rei foi buscar para dançar a Condessa de Salisbury. Porém, no meio das voltas e dos salamaleques dançantes da altura, a Condessa deixou cair uma jarreteira, isto é uma liga, que lhe segurava a meia da pena esquerda. Apesar do peculiar humor britânico e do formalismo que inspirava o local e a presença do monarca, os presentes começaram a gozar o espectáculo, deixando escapar alguns um furtivo e atrevido sorriso perante aquele estranho panorama. O Rei, perante o riso inoportuno dos seus cortesãos e vendo que a situação ia sobrar para denegrir a reputação da sua parceira de dança, pegou na jarreteira ou liga caída no chão e proclamou em voz alta ”Honni soit qui mal y pense”, isto é, “Vergonha para quem puser malícia nesta situação”. Acrescentando que os que se riem agora de uma jarreteira, irão ufanar-se dela mais tarde!!!

Imediatamente, sob a égide de S. Jorge, o Rei instituiu a Ordem da Jarreteira, a cujo uso tinha direito a família Real e uns poucos cavaleiros, com provas dadas. D. João I teve a honra de ser um dos galardoados com esta importante Insígnia, cujos estatutos foram modificados mais tarde, por Henrique VIII, passando a Ordem a ser composta por 25 Cavaleiros da Alta Nobreza. Os portadores de tal Insígnia, e tal informo por uma questão de mera curiosidade, usavam um manto de veludo azul, forrado de branco, com uma cruz bordada sobre o lado esquerdo. O chapéu era redondo de veludo verde, com um tufo de penas de avestruz ou de garça. A Jarreteira é uma fita de veludo, tendo bordada a ouro a divisa “Honni soit qui mal y pense”. Os homens usam-na na perna esquerda e as senhoras no braço do mesmo lado. Igualmente, o detentor de tão ilustre divisa, usava um colar de oiro, composto de 26 peças em forma de jarreteira, esmaltado de azul, do qual está suspensa a imagem de S. Jorge a matar um dragão.

Espero ter matado a curiosidade de muitos, sobre esta matéria.

 


Edição 842 (26/01/2023)

António Liz Dias e uma troca de opiniões sobre insígnias de ordens de cavalaria

Confesso que me senti completamente desolado e  ultrapassado, há já uns meses, quando recebi a terrível notícia da partida do meu grande amigo e pilar humano da Região de Lafões, o vouzelense António Liz Dias. Falar no Tónio Dias, é falar na cordialidade, na compreensão, na amizade, na cultura, no amor à sua Terra e, principalmente, na dimensão humanista da sua maneira de pensar. Era uma personalidade imprescindível na tessitura social lafonense. Ele e a simpática e insigne pintora Helena Liz formavam um par de qualidades raras, que muito me honra evocar, aproveitando agora para desejar à Helena a força suficiente para ultrapassar a cruel e triste fase da sua vida, pela qual está a passar. Mas o Tónio Dias tinha uma aspiração eclética muito especial, pois por todos os assuntos se interessava e sabia, falando deles com interesse e entusiasmo. Há alguns anos tivemos uma conversa sobre insígnias de cavalaria, em que ambos tivemos algumas hesitações, talvez por reciprocamente faltar aos dois um conhecimento mais profundo sobre a matéria. O tema era a Ordem do Tosão de Ouro. Fiz a promessa de escrever sobre o assunto, porém nunca mais desembainhei a minha modesta pena para alinhar e cumprir a necessária prosa prometida. Na verdade, falando nós sobre a Ordem de Cavalaria, criada por Felipe III, o Bom, Duque da Borgonha, o Tónio frisava a pouca importância dos portugueses na matéria, contrariando a minha amiga opinião. Sendo assim, terei que dar uma simples pincelada histórica, de modo que todos possam compreender facilmente a relação íntima existente entre Portugal e a célebre Ordem instituída, em 1492, pelo Duque da Borgonha, em Bruges, na altura do seu casamento com a princesa portuguesa, Isabel de Bragança, filha de D. Felipa de Lencastre e de D. João I, Mestre de Avis. Os filhos deste casal régio, cuja acção militar e diplomática muito contribuiu para a nossa independência em relação ao Reino de Castela e para a enorme importância que o nosso pequeno País passou a ter no contexto militar e económico mundial. Na verdade, os descendentes deste régio casal, de D. Filipa de Lencastre herdaram o bravo sangue dos Plantagenetas, e do nosso D. João I a sua coragem e espírito de aventura. Por essa razão, foram considerados pelas gerações posteriores, a Ínclita Geração. Quem são Eles? Os que sobreviveram aos primeiros anos de vida, foram D. Duarte (1391-1438), que foi rei de Portugal, D. Pedro, (1392-1449) “ O das Sete Partida”, Duque de Coimbra, Dona Isabel (1397-1471), duquesa de Borgonha, e D. João (1400-1442), mestre de S. Tiago.

Por sua vez, o Duque de Borgonha não tinha o título de Rei, mas era uma das personalidades mais ricas e poderosas da Europa. Praticamente, além de Duque de Borgonha, era Duque de Brabante, do Luxemburgo, da Flandres, d´Artois, de Maynan, da Holanda, da Zelândia e de Namour, onde se incluíam os centros comerciais da Europa, mais ricos. O seu extenso território, estava encravado entre a França, de Charles VII, e a Inglaterra, de Henrique V, cujo exército que tinha invadido parte do território francês, era chefiado pelo Duque de Beaufort, regente do reino inglês, em representação do seu jovem sobrinho, Henrique VI. Foi nessa altura do conflito anglo francês, que apareceu, na ribalta da história, Joana D´Arc, que vestiu a armadura de cavaleiro e conduziu os soldados franceses contra o exército inglês. Como sabemos, foi apanhada pelos ingleses e acabou queimada numa fogueira, aos 19 anos, por ter sido considerada uma bruxa, pelo tribunal que a julgou em Rouen.

Apesar da sua imensa fortuna e poder económico, o Duque de Borgonha não tinha sangue real nas suas veias e desejava casar com uma princesa europeia. Tinha que continuar independente de ingleses e franceses, que pretendiam acabar com a sua figura e com o Ducado de Borgonha, para apanhar o grande poder económico do seu extenso território. E D. Isabel era uma princesa aparentada com a nobreza inglesa e francesa, e oriunda de um país que estava a dar cartas ao Mundo, tendo derrotado um país vizinho muito mais poderoso, conquistando o respeito de toda a Europa e os elogios do Papado.

Felipe III, Duque de Borgonha, para mostrar quanto gostou do seu casamento com a princesa portuguesa, em 1429, criou a insígnia do Tosão de Oiro, insígnia de uma ordem de cavalaria, no dia em que, pela primeira vez, partilhou o tálamo nupcial com a bonita princesa portuguesa, cuja beleza ficou bem retratada nos célebres quadros de Van Eyck. O Duque constituiu-se Grão – Mestre da Ordem e deu-lhe Estatuto, que constituiria um verdadeiro código de virtudes da cavalaria. Os cavaleiros galardoados poderiam chegar aos 24, passando esse número a ser de 30, em 1433. Um dos primeiros cavaleiros foi o Infante D. Fernando, que foi feito prisioneiro na infeliz tentativa de tomada de Tânger, irmão de D. Isabel, e que fazia parte da comitiva que acompanhou a Irmã. As insígnias eram constituídas por um colar pesado, de oiro maciço, de oito elementos, tendo pendente uma medalha revestida de um velo de ouro, isto é, um carneiro com uma lanugem ou pelo de ouro, tendo como divisa escrita, dedicada à princesa portuguesa “Outra não há”.  Convém esclarecer que o Duque de Borgonha tinha tentado casar com uma princesa, mas por razões políticas, nunca o conseguiu. Deve ter-se lembrado, para criar esta insígnia, da história da antiguidade, do célebre roubo do Velo de Ouro que, segundo a mitologia, o herói Jasão foi procurar e encontrou, trazendo ao seu Rei o valioso velo de ouro, a lã de ouro roubada e que estava presa e escondida numa árvore sagrada.  E, igualmente a Jasão, os seus mandatários encontraram uma princesa que aceitou com Ele casar. A insígnia foi criada em honra de D. Isabel, filha do Mestre de Avis.

A D. Isabel e a Filipe III, sucedeu o filho Carlos “O Temerário”. Em consequência do casamento de Maria de Borgonha, única filha de Carlos “O Temerário”, com o Arquiduque Maximiliano, a ordem passou para a Casa dos Habsburgos.

Escrevi esta pequena resenha histórica em homenagem ao meu querido e saudoso Tónio Dias.  Deus O tenha no lugar dos Justos


Edição 841 (12/01/2023)

A Nudez dos Principezinhos apaixonados

Durante este Verão, perante a perseguição feita pela pestilência ao pobre e incauto ser humano e tendo como música de fundo os ecos dos horrores de uma guerra entre europeus, tudo agravado pelas mostras claras do cansaço do planeta Terra, aos abusos cometidos pelo bicho homem, não me apetece escrever sobre coisas sérias. Entrei em férias intelectuais, para relembrar umas curiosidades históricas romanceadas, que li há muito em qualquer revista de futilidades culturais.

Apesar, de tal, a nebulosidade da história medieval ibérica, faz nos descobrir segredos bem valiosos e que reflectem o modo de sentir e de pensar de cada época, bem como os valores aceites, na altura, pela maioria. Na verdade, vou relatar o que se passou em determinado reinado da península Ibérica, quando todo juntavam esforços para escorraçar a moirama do nosso território. Pelos vistos, uma cabeça coroada viu-se obrigada, por uma questão de segurança, a pedir asilo para si e para sua Família, ao monarca do reino vizinho. Tinha medo que a sua bonita filha fosse raptada a mando do chefe dos invasores que ainda ocupavam territórios próximos.

Do grupo familiar fazia parte a referida Princesinha, que logo se encantou com o príncipe, filho do rei anfitrião, futuro herdeiro daquele reino.

Nesses tempos, os casamentos reais tinham pormenores bem diferentes de umas comuns núpcias, quer da Nobreza, quer do Povo. Quando o rei casava, era armada uma tenda na praça pública, com uma cama, onde se deitariam pela primeira vez os noivos. À volta da tenda, uma autêntica feira. A população, daquela maneira, tinha a certeza que o futuro rei do país ia sair, passados nove meses, daquele encontro físico do príncipe, futuro Monarca, e da noiva escolhida. E não se pense que esta manobra era fácil. Além da multidão que rodeava a tenda, e que aproveitava para vender os seus produtos e ganhar uns cobres a fazer números de circo, com macacos e contorcionistas, no seu interior, encontravam-se testemunhas de ambas as partes, para presenciar o acto carnal da realeza em questão. À pobre Princesa, sem qualquer vislumbre de romantismo, levantavam-lhe as saias e mandavam-na abrir as pernas para que o príncipe, completamente vestido, tivesse a oportunidade de realizar a necessária relação sexual, para a procriação. Acabado aquele acto, o par interveniente, descia as saias e subia as calças, isto é, fechava a braguilha. Estava acabada a função!  Aquele par infeliz, teve cem olhos a investigar todos os ínfimos pormenores acontecidos. E os actores principais daquela manifestação pública, nem tinham tido tempo para olhar para o parceiro daquela cerimónia oficial. Saiam de cena, completamente frustrados e assustados, acompanhados pelos respectivos séquitos. Seguidamente, entrava o Povo que tinha esperado pelo seu momento de participar, verificando se a alvura dos lençóis tinha estampados os sinais concretos da perda da virgindade da real jovem. Claro que podia o acto sexual dos príncipes ser repetido, já não na praça pública, mas no quarto da princesa, onde o acesso do príncipe estava vedado. Mas, perante as testemunhas oficiais, isto é, nomeadas para o efeito, com pompa e circunstância, para que fosse mantido o acto sexual dentro das balizas da moral da época e dos termos do direito consuetudinário aplicável. Era assim que se passavam os primeiros encontros dos jovens noivos. Coitados, pensaremos nós com natural espanto…!

Bem, neste caso concreto, a princesa tinha coragem e sabia o que queria, convencendo o príncipe, em segredo, a terem um encontro a sós para se despirem à vontade e para estarem e se exibirem um ao outro completamente nus, e para fazerem sexualmente o que muito bem entendessem sem serem incomodados por inoportunas testemunhas. A influência árabe já tinha trazido aos inocentes cristãos inovações difíceis de acreditar, mas que tinham agradado a quem se atreveu a experimentar.  A Princesa tentou cativar as suas amigas mais íntimas para esta finalidade e o Príncipe fez o mesmo. Claro que tal foi descoberto e na Corte e no Reino criaram-se duas posições doutrinárias e jurisprudenciais antagónicas sobre a matéria. Por um lado, os elementos mais viajados e com ideias mais avançadas e arejadas, achavam que o verdadeiro amor, incluía o amor físico e que a nudez dos participantes era necessária para realizar um acto sexual integral. Por outro lado, uma facção mais conservadora, apoiada pela secção do clero mais fundamentalista, achava que a nudez pretendida pela dupla principesca seria um atentado à doutrina cristã, ensinada pela Igreja, e aos valores imanentes nas instituições sociais da altura. E a discussão manteve-se acesa já com discursos e doutrinas religiosas formuladas num sentido e noutro, com citações extensas de luminárias que ninguém conhecia, chegando-se ao ponto das inevitáveis, ofensas e agressões. O Povo de Deus estava dividido e o clero segui-lhe as pisadas, pois para reforçar a dualidade das opiniões, um santo eremita, de muita idade e sabedoria, personagem da Igreja de muito peso, e que outrora tinha viajado por todo o mundo conhecido, e que actualmente não saía da sua cela conventual porque sofria muito de coração, quando soube da contenda ideológica sobre a nudez, nas relações entre esposos, concluiu que Deus criou o desejo físico, para unir o homem e a mulher para a necessária procriação, sendo desse modo o amor conjugal  mais intenso e mais completo, com a nudez. Mas a opinião do santo frade em vez de resolver a situação, ainda veio acirrar os ânimos dos mais fundamentalistas, que chegaram a ameaçar que se algo aparecesse escrito pelo velho e sábio frade, para ser divulgado nas Igrejas, seriam tocados os potentes carrilhões do mosteiro cujo barulho tremendo e o estrondo idêntico ao troar de mil trompas acabaria por parar com o debilitado coração aquele decano elemento do clero, tido como sábio e santo pela comunidade.

Porém, os príncipes foram-se confessar ao velho frade, por determinação deste. E durante uns tempos não mais se falou do discutível desejo de exibirem os príncipes a sua recíproca nudez. Pois, o santo eremita, ensinou-lhes, à laia de penitência, onde era a porta secreta do velho cenóbio, passagem essa apenas conhecida pelos responsáveis templários da defesa militar daquelas instalações e que mais ninguém conhecia, e que dava para um tranquilo e isolado discreto local.

E a discussão sobre a possível nudez dos príncipes, ia morrendo, pois a princesinha deu à luz uma série de bonitos filhos, feitos com profundo santo amor conjugal e com a satisfação do terrível desejo físico com que Deus dotou os seres humanos.


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Edição 840 (29/12/2022)

O Simbolismo e os Cravos de Papel

— Segunda parte —

Na verdade, durante os festejos de S. João, e perante a alusão aos “Cravos de Papel”, não podia deixar de referir o poeta Eugénio de Castro, natural de Coimbra, onde nasceu em 4 de Março de 1869 e faleceu a 17 de Agosto e 1944. Tomando posição contra as rimas habituais e o vocabulário pobre que caracterizava a poesia portuguesa do seu tempo, sendo nela utilizada uma linguagem rebuscada, que o homem simples não gostava, mas que a moda intelectual exigia, resolveu entrar no Movimento Simbolista, tendo tido contactos, em França, com os simbolistas franceses Mallarmé e Rimbaud. E regressou com novas ideias.

Toda a sua vida gastou pelas terras do Mondego, onde era professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Ainda conheci um filho, igualmente chamado Eugénio de Castro e um Neto, ainda vivo, com o mesmo nome.

 

Os seus métodos de introspecção transformaram-no num Intimista Saudosista, traço esse que o demarcou das linhas culturais do seu tempo, fazendo os seus versos furor, não só junto da intelectualidade descomprometida da época, mas sendo ouvido e adorado pelo Povo simples que o admirava, pois percebia o sentido dos seus versos e vibrava com as suas rimas, identificando-as com o desfiar das suas próprias vidas. Claro que os ditos intelectuais, politicamente correctos, não gostaram. Porém, haverá versos mais chamativos do interesse de cada um, quando a primeira quadra assim começa: “O filho do boticário namora a filha do juiz; a rapariga é feiota, mas tem seus bens de raiz…” Claro que o homem simples, de poucas letras, passou a querer saber o fim destes amores, certamente contrariados, expostos numa linguagem chã e perceptível para a maioria dos leitores. E poderia dar centenas de exemplos que explicam o sucesso das suas rimas. De entre muitas, escolho umas bem significativas, nascidas nas terras da província, em que a agricultura é rainha da actividade económica do dia a dia. O Sr Damião, homem religioso e meio santo que tudo dava aos mais pobres, na Páscoa sentiu-se obrigado a ir ao Confesso, embora nenhuma falta lhe pesasse na consciência de bom cristão cumpridor. Ajoelhado, perante o Sr. Prior, não havia meio de desembuchar e de começas a sua confissão. E o Sr Prior insistia, pois tinha ainda que ouvir uma fila numerosa de cristãos para se aliviarem dos seus pecados.”Diga lá os seus pecados!”, Damião busca e rebusca, mas nada tem a dizer. Então o Sr Prior teve uma ideia salvadora e perguntou:-“ Ultimamente não rogou algum praga? Roguei, sim,- respondeu submisso o Sr Damião-, e foi contra o Vento Suão “ Diz o prior admirado com a resposta “Andou  Você muito bem. Isso é um vento estuporado. De contrição, diga o Acto. Vou dar-lhe a Absolvição…Raios partam o Vento Suão. Leve o Diabo o Suão” Significativos estes versos…!

Na verdade, foi uma das mais interessantes personalidades das letras portuguesas, não só pela pureza e pelo recorte artístico da sua forma, mas pela  sua excepcional imaginação. Poderia falar das suas diversas publicações, como é o caso de “Oaristo” e “ A Tentação de S.Macário”, mas penso que os exemplos já dados são significativos e não em demasia. No entanto, não quero deixar de evocar umas rimas suas que causaram alguma controvérsia e muito interesse. Na verdade, em determinado reino deste mundo, o respectivo Monarca tinha muitos filhos para casar e não havia maneira de arranjar uma  noiva para o filho mais novo, um rapazinho muito esbelto, muito interessado na cultura e na sabedoria e respeitador dos seus Pais e dos seus Semelhantes, por mais modestos que fossem. E o Povo suspirava e rezava para que aparecesse uma candidata para mulher do seu principezinho. E o que é certo è que os mandatários reais trouxeram uma princesa para o jovem príncipe. Muito bonita e com fama de altas qualidades mas, ó Virgem Maria,  quando desceu do coche onde  foi transportada, a população abriu a boca de espanto, a Princesa era muito bonita mas escandalosamente coxa. Enfim, os compromissos tomados superiormente, não falo já no avultado dote e na vantajosa aliança conseguida, obrigaram que o casamento imediatamente fosse realizado e a população já lamentava a infelicidade do seu jovem e querido príncipe. Noite de núpcias e uma multidão à espera durante séculos, para ver o semblante real do noivo, após saído do tálamo nupcial. E qual o espanto de todos, quando o príncipe saiu dos seus aposentos radiante e feliz, dizendo ser o noivo mais venturoso do mundo.   Com esta ninguém esperava e achataram o nariz perante aquela realidade. Qual o motivo deste êxito nupcial?. Muito simples ”A Princezinha coxa, na cama, não coxeava”, antes pelo contrário, atrevo-me eu a acrescentar….!.


Edição 839 (15/12/2022)

Cravos de Papel, atracção irresistível dos Manjericos das Festas de S. João

– primeira parte –

Quando era pequeno gostava de colocar na lapela do casaco ou preso nas malhas da camisola, um cravo natural, de uma cor linda, como só havia em S. Pedro do Sul. Antes da hora da Missa, ia até à Ponte, onde morava uma senhora com um ar aristocrático, muito simpática, numa pequenina casa postada na última esquina da curva que dava para a Ponte do Vouga, junto à Pedreira, na saída para a estrada de Viseu. Tinha uma janela com uma enorme floreira, cheia de vasos, a maior parte deles com cravos lindíssimos, que a proprietária tratava como se fossem animais de estimação e vendia por uma bagatela. O meu Pai conhecia a Senhora, fazendo grandes elogios às suas qualidades, contando que tinha um pequeno terreno muito bem tratado, onde cultivava vária espécie de flores, ganhando assim a sua vida. Sempre lhe comprava uma flor, quando ali passava a pé, razão porque resolveu ajudar-me, investindo todas as semanas os tostões necessários para eu adquirir um bonito cravo e passear a minha vaidade de jovem a desabrochar para as belezas naturais. E, mais tarde, no Porto, sempre que passava por uma florista, nos Clérigos, apesar de ter pouco dinheiro, comprava um cravo para pavonear a minha inocência de jovem provinciano que, garbosamente, achava que um cravo na lapela lhe daria um ar irresistível. Claro que os meus amigos de sempre, após as troças feitas durante algum tempo, um a um, começaram a exibir, na sua “toilette” de fim de semana, um cravo ou outra qualquer flor na lapela… Pelos vistos, a Província levou um bom hábito para um grande centro urbano

O Tempo foi passando e os cravos acabaram por ser manipulados pela política, sendo um emblema de uma nova revolução e dos tempos novos de liberdade que invariavelmente todos desejavam. Porém, infelizmente as coisas não correram como todos intimamente pretendiam. A descolonização feita por incompetentes, vendidos a interesses económicos estrangeiros, fez esmorecer e desbotar muito cravo da revolução que, anteriormente brilhava de esperança. Até tiraram a independência a Cabinda, que sempre foi independente e um protectorado português, considerando-a parte integrante do território de Angola, para satisfazer os interesses materiais e ideológicos de outros países! Criminosamente, esqueceram-se da pobre população Cabinda, que o MFA escravizou, tornando à força das baionetas, a sua terra natal independente, numa colónia. Claro que os cravos ficaram com as cores desmaiadas, pois era impraticável aguentarem tanta incompetência, injustiça e pouca honestidade política. Igualmente, a melhoria e o desenvolvimento do Interior do País e a melhoria do nível de vida dos seus habitantes, para acabar com a desertificação e com as desigualdades entre Interior e Litoral, não se fizeram, como era esperança de todos e os cravos, claro está, mais uma vez esmoreceram de tristeza, profundamente desiludidos, pois sentiam-se em parte responsáveis pelas falsas esperanças que tinham criado. A Corrupção, moléstia pontual na Segunda República que, quando aparecia, era logo criticada pelos responsáveis máximos e pela imprensa, apesar da censura. Actualmente, desabrocha como cogumelos por tudo o que é lugar ligado á política, sendo Portugal considerado um dos países mais corruptos do Mundo. Estas circunstâncias, deram a machadada final no viço dos cravos. Os apreciadores foram-se esquecendo de os usar, como anteriormente, a não ser em sessões políticas, para não criar má impressão. Ninguém hoje anda de cravo na lapela. E não se extinguiram neste País pelo facto de o Estado gastar fortunas na sua aquisição, símbolo indiscutível desta República. E, na verdade, além das rosas e das camélias, as flores mais tradicionais e queridas pelos portugueses, foram postergadas para a sensaboria das cerimónias oficiais.

No Panamá, ouvindo explicações dadas por um elemento do Governo, sobre o funcionamento do Canal, entre os ouvintes como eu, estavam alguns imigrantes portugueses, que ali trabalhavam, e elementos da Embaixada de Cuba, que igualmente assistiam, resolveram perguntar a um dos nossos conterrâneos, com ar de troça, quem mais tinha sofrido em Portugal com a revolução dos Cravos. Prontamente, o interpelado, sem cerimónia, respondeu ao ilustre representante diplomático, -“Foram os Cravos, que ninguém actualmente usa, como antigamente. Deixaram de ser estimados e cultivados nas floreiras de cada quintal. O Cubano não gostou e desertou diplomaticamente do local. Claro que existe uma grata excepção a essa animosidade aos cravos. Estou a falar dos cravos de papel que enfeitam os vasos de manjericos do nosso S. João. Esses continuam de vento em popa. Um dos representantes do Movimento Simbolista em Portugal, o Prof. Doutor Eugénio de Castro, da Universidade de Coimbra, grande poeta, tem vários livros de versos populares, sendo um deles os “Cravos de Papel”, que vêm salvar a honra do convento dos verdadeiros cravos.”Suas pétala de lume vermelho pela cor, enganam, pois são falsas”, diz o Poeta. Não têm perfume, pois são feitos por mãos femininas. Quem os fez com tal primor, talvez nele se pintasse dizendo amor sem amor… E são os vasos de manjericos, com os seus cravos de papel que salvam a popularidade e que satisfazem as nossas ilusões, apesar de tudo.

À laia de bandeirola, diz Eugénio de Castro, o cravo ostenta, acordando o fado, uma “quadrinha” com versos cheios de amor, mas igualmente, cheios de erros, que até lhes dá uma certa cor…

E o Povo, apesar de tudo, gosta dessas quadras de amor, embora em papel, mas com um amor cândido e ingénuo., como sente a comunidade. Sabemos que quem um cravo falso dá, certamente, dá um falso amor. Mas assim não é, como dizia o poeta “ Se este cravo é de mentira, o meu amor é de verdade, se ele nasceu sem perfume, tem o do amor com que é dado”. Ouvindo isto, a dona da flor de papel, desfalecida de amor, faz parecer o cravo, sobre o seu seio, um Santo no andor. Vivam os manjericos do S. João e os Cravos de Papel.


Edição 838 (24/11/2022)

O Espírito da Lusa Atenas e a Escola de Coimbra – 2ª Parte

Sempre que um estudante chegava a Coimbra, por circunstâncias por nós desconhecidas, imediatamente assumia a luta pela autonomia académica contra o Poder Central, luta essa que praticamente foi iniciada ao mesmo tempo que a fundação da Universidade. Claro que um passo em falso na estratégia a seguir, podia destruir todo o trabalho e as vantagens obtidas ao longo de séculos. Geralmente, conquistas com pequenas vantagens e com o mínimo de confrontação possível. Quando se discutia o célebre decreto 40.900, durante a Queima das Fitas, foi lá mandado o antigo estudante de Coimbra, o ministro General Santos Costa, para meter Coimbra na Ordem. Como velho académico da Lusa Atenas, logo procurou arranjar uma porta de saída para a Autonomia Coimbrã. Perante grandes manifestações dos estudantes, Santos Costa passeou-se numa antiga viatura aberta, após ter aceite as moderadas propostas académicas. Tal castiça “Dona Elvira” era conduzida pelo presidente da Direcção da Associação Académica de Coimbra, acompanhado por toda a rapaziada mascarada de irmãos metralha. E lá se conseguiu mais uma vitória para a autonomia, ou melhor, um novo e eficaz travão contra o centralismo lisboeta. No fim do trajecto, no meio de milhares de estudantes que saudavam Santos Costa, estava dependurado, na Rua Visconde da Luz, um enorme cartaz que declarava solenemente “Santos, Santos, Santos, It Missa Est”. Santos Costa saiu do Governo, mas a autonomia de Coimbra mais uma vez não foi beliscada.

.E os grupos de fadistas e de intelectuais iam-se formando à sombra dessa postura. O que unia os elementos dos grupos nunca eram motivações ideológicas e sim o companheirismo. E se elas existiam, nunca eram pretextos para atitudes extremas sem saída. Na generalidade, verificava-se invariavelmente uma heterogeneidade cultural e política dos seus componentes. Os meus amigos, que não frequentaram Coimbra e andaram por outros estabelecimentos de ensino, não compreendiam muito bem o modo de ser e de actuar dos estudantes de Coimbra, nesta matéria. Ora bem, desde a fundação da Velha Universidade, através da Bula De Statu Regno Portugalie, de 9 de Agosto de 1289 que, em 1290, foi criada a mais antiga Universidade. Esta, acabou por ser transferida para Coimbra em 1307. Desde essa altura, a respectiva academia iniciou uma luta acesa com as autoridades, para manter a independência académica perante o Poder Central, bem como a justa participação em várias decisões da administração da Universidade. E El Rei, perante esta situação, estranhamente, não se metia, esperando que ambas as partes chegassem a um acordo, idêntico ao que vinha acontecendo nas universidades mais antigas do Mundo. No fundo, Sua Magestade não contrariava tal luta surda contra o fundamentalismo da administração, nunca mostrando aos estudantes que protestavam o seu agrado ou o seu desagrado. Via sensatamente em que paravam as modas. No fundo, estava iniciada a luta pela autonomia universitária. E tal processo demorou séculos, mas foi conseguida. Por esse motivo, nas alturas de maior melindre, nas épocas de menos liberdade, a Academia não podia dar o flanco e tomar posições irreversíveis, contra qualquer decisão do poder central., o que seria pretexto para uma intervenção que, num ápice, daria cabo do que tanto tinha custado a conquistar!.Quando tomava atitudes, incluindo no tempo do regime anterior, na Segunda República, a Academia de Coimbra nunca poderia perder o sentido de que a autonomia, com qualquer atitude politica mais agressiva, podia ser perigosamente prejudicada.. Apareciam em Coimbra estudantes de Lisboa a exigirem que a Academia tomasse as mesmas atitudes que os estudantes de determinada faculdade lisboeta. Nunca perceberam que a Academia apenas se poderia levantar como um todo, quando fosse para acabar com o regime existente. Muitos nomes bem conhecidos nunca perceberam,. Nunca compreenderam tal. Não direi os seus nomes, pois muitos já não fazem parte do número dos vivos. Os grupos académicos com grande influência na Universidade, eram constituídos por gente de todas as proveniências políticas. Todos se conheciam, todos se criticavam, mas todos se protegiam. E além do mais, mal um estudante punha o pé na Estação Velha com a bagagem física e mental, entrava num círculo social em que o factor principal era o companheirismo e a vida académica. Todos sabiam quem pertencia à extrema esquerda e à extrema direita, todos sabiam quem eram os comunistas, todos desconfiavam que alguns coleguinhas prestavam serviços à PIDE. Contudo, quando alguém se metia em sarilhos tinha a solidariedade de todos, ficando escondido em casa de um amigo, se preciso fosse, até passar a tempestade. E, para acabar este artigo, com algum espírito vibrante da juventude académica e o romantismo que baste, aqui vai uma lufada de ar fresco estudantil. Na verdade, não posso deixar de recordar com muitas saudades as serenatas de rua, feitas após as sessões de estudo, a desoras, pela facção mais boémia da academia. O guitarrista Assis e Santos e a sua sabedoria enciclopédica sobre a história do Fado, o Zé Niza e a música que emprestava à poesia cantada, o Adriano Correia de Oliveira e a sua voz doce, fresca e inconfundível, o meu saudoso amigo Zeca Afonso, um humanista e um dos maiores poetas do nosso Século, com a sua voz característica e o Zé Maria Lacerda e Megre com a sua alegria contagiante. Além, de todas estas celebridades, este Vosso amigo, à guitarra, acompanhava este fabuloso grupo de artistas da vida académica coimbrã.Que saudades…

(Homenagem ao fundador da Universidade, El-Rei D. Dinis)

24/11/2022



Edição 837 (10/11/2022)

Coimbra, uma jangada de poesia académica e de canções encantadoras   – Homenagem a António Bica, Estudante de Coimbra que participou na luta pela Liberdade Académica

“Quando o Hilário cantava, altas horas no Choupal, toda a tricana escutava a sua voz de cristal”

Esta referência às cantorias do mítico médico coimbrão, cantor e guitarrista, passou a identificar uma das figuras mais populares da história da velha universidade portuguesa. Ele representa o romantismo de gerações e gerações de cantores de Coimbra, bem como o culto profundo pela poesia, sua parceira, hino desde sempre da Lusa Atenas. Claro que não vou aqui recordar, por completamente escusado, as vibrantes paixões, mantidas entre estudantes e as bonitas raparigas do Mondego, tendo por cenário o Choupal. Coimbra tinha um ambiente profundamente monástico, devido às instalações conventuais utilizadas, bem como à qualidade dos professores, normalmente ligados à Igreja, circunstâncias que conferiam um sentido muito especial ao meio académico. Com hábitos apertados da vida conventual, com horas de oração e tempos infindos de meditação, além do estudo profundo da matéria das sebentas. Foi motivada por essa paz de espírito que convivia com a vida académica que os reis portugueses escolheram a quietude de Coimbra para lugar privilegiado dos estudos universitários, na altura ainda bem atrasados relativamente a outros centros coevos da cultura europeia. Pois bem, quem olhar para a história da canção coimbrã, verifica facilmente que o Fado de Coimbra faz intrinsecamente parte da tessitura da sua história social. Mediante as limitações do dia a dia, impostas pelo ambiente externo e o real isolamento da sua vida de estudante, na primeira oportunidade, o “estudante bragante chapéu de alguidar”, como eram conhecidos pelos não estudantes, sublimava os rigores monacais, que eram obrigados a viver, com uma explosão artística, não só poética, como igualmente musical., dedicada prosaicamente à vizinha do lado. Tais arroubos artísticos tornaram-se habituais, sendo o amor físico forçosamente contrariado e sublimado em bonitas poesias. Com o estudante que vinha tirar o seu curso para Coimbra e que transportava no seu alforge, além das vitualhas para alegrar o estômago, sempre trazia bem escondidas as modinhas da terra que o viu nascer e que cada um resolvia personalizar à sua maneira, exteriorizando a sua personalidade não só geograficamente, mas igualmente culturalmente. Era a forma de involuntariamente dar a conhecer como se vivia no agreste interior transmontano e beirão, ou se encarava a vida difícil e pobre da ingrata labuta nas terras do Minho e do Alentejo. António Menano, homem da Beira, saiu de Fornos de Algodres, sua terra natal, para se ir formar a Coimbra. Foi acompanhado por um grande grupo de familiares, desde o pai aos irmãos e primos,. Todos eles transportavam o instrumental que lhes dava alento nos intervalos dos estudos, ajudando a convivência social possível, e mantendo acesa a sua criação artística. Toda a família, bem ou mal, tocava guitarra e  viola, Todos cantavam bem ou mal canções por si criadas e que homenageavam a história do seu País e da sua Região, a paz e saudade da sua terra e as belezas femininas do Mondego, cuja gestos desabridos, o seu à vontade e a sua capacidade de resposta,  faziam corar os inocentes estudantes, seus admiradores incondicionais.. E a sua beleza e garridice, na aridez do meio académico, sempre com a fiscalização do olho comprido eclesiástico e com a rigorosa e intransigente guarda da universidade à espreita. Além do mais, a vida agravada pela inveja e pela má língua dos populares, seus vizinhos, que habitavam as colinas universitárias. Devo acrescentar que os famosos Archeiros, embora tivessem tido origem nessa polícia universitária, que tinha o mau hábito, por uma questão de dor de cotovelo, de denunciar os elementos da academia que pisassem o risco, vieram a ter um comportamento totalmente diferente. Na verdade, os simpáticos Archeiros, instituição muito mais recente, nunca assumiram os costumes de carcereiros impiedosos, da polícia anterior. O tratamento das bebedeiras e das tropelias estudantis não se comparavam às terríveis perseguições feitas pelos esbirros de uma polícia dirigida pela facção mais fundamentalista da administração clerical. Forçosamente, com tanta fiscalização e cautelas para não escandalizar o clero e o constante exercício de meditação constituíram um escape para que a música e a poesia passassem obrigatoriamente a fazer parte intrínseca do seu ser. Elaborar umas novas rimas e musicá-las, fazia parte do dia a dia dos estudos. Torno a repetir, apesar dos hábitos monásticos da velha universidade, os enfastiados estudantes pensaram ser esta a melhor forma de ocupar os tempos livres e de arejar a aridez da matéria das sebentas. Cantar um novo fado e dizer uma nova poesia numa roda de amigos e tudo mudava…!. E se António Menano levou para Coimbra as canções da Beira, na altura altamente influenciadas pelas desgraças da grande guerra, o seu amigo Edmundo Bettencourt transportou nas suas malas, de fundo do porão, certamente a velha viola açoriana de cordas de arame, além das modinha arrastadas com o langor e o timbre de cada Ilha.. Por influência de tertúlias de amigos e  conhecidos, foram sendo constituídos vários grupos de cantores e tocadores, com ligações íntimas entre eles e que desenvolveram culturalmente a universidade, Como já referi, trazendo para Coimbra as tradições da sua terra e a maneira de cantar do seu Povo..E não se pense que me refiro a excepções. Existiam grupos de todas as proveniências. Um grupo havia, oriundo de Viseu, que deu brado. Chefiado pelo Dr. Carvalho Homem, grande e notável guitarrista e, mais tarde pelo ser filho Prof. Armando Carvalho Homem, a quem se juntou um dos melhores guitarras de sempre, Octávio Sérgio de Azevedo, visiense, nascido nas terras de S. Pedro do Sul. Tal grupo, a quem se juntou Bernardino e Rui Pato, cedo entrou na celebridade, actuando por toda a Europa.  O grande cantor Dr. Lacerda e Megre, umas das mais prestigiadas vozes académicas, sempre alegrou as serenatas das noites de verão, com o seu cunho pessoal bem minhoto, o mesmo fazendo o seu filho Zé Maria…Como na minha terra se sabia que eu era guitarrista e que, por vezes, participava em serenatas, terei que confessar que quando cheguei a Coimbra, o amigo do meu Pai, Sr. Luís Duarte, pai do Manuel Alegre, exigiu que fosse a sua casa para assistir a um ensaio do grupo de fados que lá se reunia.. E lá fui com a minha guitarra dizer o pouco que sabia. Na altura, os ensaios eram naquela casa, pois o António Portugal estava noivo da minha amiga Teresa Alegre Duarte, filha do dono da casa. Os outros elementos eram o Jorge Godinho, que me deu aulas durante algum tempo, esporadicamente o Jorge Tuna, o Levy Baptista, o Manuel Pepe, o Jorge Alão e os cantores Luis Gois e Machado Soares. Mais tarde, comecei a tocar e a fazer serenatas com o guitarrista Arménio Assis e Santos e seu filho Miguel, acabando por formar um grupo de Fado de Coimbra na Associação dos Antigos Estudantes, sediada no Porto, constituído por conhecidos violas de Coimbra, o antigo Presidente de Câmara, Eng. Aureliano Veloso, o conselheiro Mário Araújo Ribeiro, o Manuel Campos Costa, o Eng Prado e Castro, eram os acompanhantes dos excelentes cantores Napoleão Amorim. José Archer de Carvalho, José Maria Lacerda e Megre, Henrique Tomás Veiga, Gomes Alves, Alfredo Correia e Sousa Pereira. O autor de imensos fados de Coimbra, Ângelo Araújo, honrou-nos diversas vezes com a sua presença, o mesmo acontecendo com Almeida Santos, com Camacho Vieira e com Teotónio Xavier. Muito me honrei de ter acompanhados estas estrelas do fado. Resta acrescentar que muitas vezes o guitarrista de Viseu Octávio Sérgio, seguido pelo seu amigo, o viola Humberto Matias, participava nas nossas serenatas. Com eles vinham os cantores Heitor Lopes, Mário Rovira e Nunes de Oliveira.



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