António Moniz de Palme (Edição 828)

O Fim provocado da vida – Segunda Parte

• António Moniz de Palme*

Edição 828 (26/05/2022)

O Fim provocado da vida – Segunda Parte

Na primeira parte deste artigo, recordei passagens dolorosas da minha infância com animais de estimação que, por qualquer motivo tinham que ser abatidos por estarem em sofrimento, sem qualquer solução de recuperação. Mesmo mais tarde, já homem feito, o que me custou abater um cavalo que partiu uma perna, ficou sem conserto  e sem qualquer possibilidade de recuperação. O veterinário, após o necessário diagnóstico, ditou a sentença de morte e declarou-me que teria que ser eu a disparar a arma que abateu o meu pobre amigo de cavalgadas. Andei tempos sem fim, de orelha murcha, como se me tivesse falecido algum ente querido. Pois, na verdade, tive que disparar o tiro de misericórdia, para dar o exemplo aos meus subordinados. Esclareço que estava no cumprimento do serviço militar. E diziam-me os meus amigos, sensatamente, que era um dever de caridade acabar com a vida de um pobre animal que estava a sofrer e a morrer a pouco e pouco.

Todavia, o que se passa com os animais irracionais, não é o mesmo que se passa com um ser humano, um ser racional, seja ele da família ou não, seja ele conhecido ou desconhecido. ! A maneira de encarar as situações extremas, terá que ser bem diferente.

Sou crente e para mim o direito á vida é indisponível. Ora, com a propalada Eutanásia elimina-se a vida de um ser vivo para evitar que sofra. Contudo, a morte provocada não é a solução, não é a resposta adequada para o sofrimento de um ser racional. Há já alguns anos, uma jovem rapariga adoeceu e foi lhe diagnosticado um tumor cerebral maligno e de difícil acesso, sendo prevenida a família que iria brevemente acabar os seus dias com dores insuportáveis. Na realidade, a operação para extirpar radicalmente o mal não teve sucesso, sendo comunicado aos seus entes queridos o triste prognóstico. Apesar das dores terríveis que sofria, a pobre rapariga, presa ao seu leito de dor, ainda mais se mortificava devido à próxima primeira comunhão de sua filha. Entretanto, alguém alvitrou e levantou o desconhecido problema da Eutanásia, referindo-se que aquele era um dos casos que justificava tal acção, isto é, o fim da vida provocada pelo próprio homem, visto a doente querer interromper o sofrimento insuportável que tinha, querendo acabar voluntariamente com a sua triste vida. Porém, tal não aconteceu e a doente não partiu para um país onde tal fosse possível. Um ilustre professor universitário de medicina, cujo nome não me atrevo a revelar para não ofendera sua modéstia, sabendo que a pobre mãe tinha dores lancinantes, agravadas pelo facto de não poder assistir á Comunhão da Filha, sabendo que o fim da doente seria terrível, resolveu estudar uma nova solução, acreditando que os médicos devem tentar salvaguardar a vida do seu semelhante, sejam qual forem as condições existentes, revoltado ainda com o que ouviu e achou uma blasfémia, ser aquela situação umas das que justificava a eutanásia. Resolveu então fazer uma intervenção, conseguindo que a doente sobrevivesse mais tempo, durante alguns anos, dando-lhe paliativos que lhe permitiram manter uma qualidade de vida  mínima,  podendo  fazer uma vida normal, tendo ido passar umas férias a uma praia que desejava há muito conhecer e assistido à Primeira Comunhão da Filha,  isto é, vivendo feliz os últimos tempos da sua vida. Note-se que esta situação não foi um prolongamento artificial e inútil da vida da doente, através de uma actuação terapêutica. Essas acções nunca beneficiam os doentes, que mantêm o seu mal estar, não permitindo apenas que a natureza siga o seu curso. A solução, pelos vistos, é a criação de um Serviço Oficial de aplicação de paliativos a doentes terminais e que estão a sofrer. Este exemplo demonstra bem que a Eutanásia não é solução para os doentes, mesmo com a sua aquiescência. Aliás, com a aceitação oficial da Eutanásia, o Estado toma uma posição inacreditável perante o cidadão mais fraco, demonstrando que a vida das pessoas doentes e em sofrimento já não merece protecção, isto é, já não é digna de continuar viva, Sendo tal uma contradição com as verdadeiras funções dos médicos. Os doentes, no fim da vida, têm necessidade de aliviar o sofrimento físico e de ter o apoio espiritual necessário, apoio esse que assenta na confiança que se estabelece entre o médico e o doente, e que tem que ser respeitada.

Legalizando a Eutanásia, um Estado ideologicamente materialista, pode ser tentado, por razões economicistas, a privar os doentes incuráveis de receber os tratamentos adequados e com tal comportamento antecipar o momento da sua morte, encurtando a vida das pessoas para beneficiar o orçamento geral do respectivo Estado. Ora, uma sociedade será tanto mais moderna e avançada quanto melhor trate e cuide dos seus elementos alquebrados pela doença, criando sim uma legislação que impeça os que detêm o poder de o exercer, eliminando os mais fracos. Não pensem que sou exagerado. Tivemos exemplos, bem recentes, dados por sistemas políticos bem actuais, em que os doentes e os diminuídos mentais foram pura e simplesmente eliminados. Lembrem-se do que se passou com o nazismo e com as organizações estaduais positivistas, estalinistas, cujo fim da vida de cada um podia ser determinada pelo poder constituído.

Ora uma sociedade dita avançada e que respeite a Liberdade dos componentes da colectividade, seja qual for a sua categoria social ou económica, será tanto mais civilizada e progressiva quanto melhor trate dos seus elementos mais vulneráveis, estabelecendo leis em sua defesa e constituindo sistemas de tratamento com paliativos que permitam a todos deixar este Mundo, sem sofrimento e com a compreensão e carinho dos que têm saúde. Tais dispositivos legais devem impedir os mais fortes de exercer o seu poder sobre os mais fracos. O ser humano, seja jovem ou velho, seja doente ou tenha saúde, não pode ser visto da mesma forma que um animal de estimação.

António Moniz Palme  2022



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