A Ucrânia, o motivo das minhas tristezas! Segunda Parte

• António Moniz de Palme*
Edição 830 (30/06/2022)
A Ucrânia, o motivo das minhas tristezas!
(Segunda Parte)

Um facto triste chamou a minha atenção de cavaleiro andante, protector dos infelizes e das colectividades a quem foi tirada a liberdade fundamental e, em nenhum aspecto, podiam escolher a construção do seu futuro. Na verdade, nas minhas investigações históricas descobri um fenómeno chamado HOLODOMAR. Claro que fui averiguar do que se trataria. Não era um romance de aventuras nem uma simples historieta baseada na ficção. Era sim, uma triste realidade. O significado de tal estranha palavra, era pura e simplesmente, MASSACRE PELA FOME. Em 1931, as colheitas, na Sibéria e no Cazaquistão, foram desastrosas. Claro que os responsáveis governamentais teriam que resolver o problema importando cereais ou transferindo o mesmo das regiões onde as colheitas tinham sido melhores. Mas não. Resolveram solucionar o problema á força e sem contemplações, requisitando o cereal produzido por milhares de kolkozes da Ucrânia, do Cáucaso e da Região do Rio Don. Porém como o cereal confiscado iria retirar a possibilidade de alimentar as populações residentes naquelas áreas, aconteceram os consequentes tumultos de protesto, pois não tinha havido a preocupação de dividir o mal pelas aldeias. Como castigo, foram tais regiões submetidas a requisições acrescidas, como lição, não deixando uma palha para a alimentação das populações locais e dos seus gados. O exército moscovita comunista tudo fez para que não chegassem alimentos aos esfomeados como punição pela sua resistência. Em resultado desse comportamento oficial, milhões de habitantes dessas áreas morreram à fome, entre 1932 e 1933. Um autêntico massacre pela fome. É difícil de acreditar em tal, mas houve um genocídio ucraniano pela fome, como castigo pelos seus justos protestos. A Ucrânia ficou a fazer parte das minhas recordações mais negras e mais tristes.
Porém, as coisas mudam de feição e um amigo meu, que profissionalmente tem que correr tudo o que é sítio na Europa, passou a visitar frequentemente a Ucrânia. E, motivado pelas suas palavras, voltei a olhar com interesse para o mapa da Europa e a tirar a Ucrânia da espécie de solitária de isolamento, de que a tinha rodeado. Tem a Sul o Mar Negro e o Mar de Azof, e é habitada por um Povo Eslavo, de Religião Ortodoxa, trabalhador e simpático, qualidades essas constatadas por todos os portugueses que tiveram relações profissionais e de trabalho com elementos do Povo Ucraniano. Por outro lado, a mistura do sangue ucraniano e do sangue russo é uma verdade insofismável. Os casamentos mistos são aos milhares. Embora a língua oficial, desde 1989 seja o ucraniano, uns falam russo e outros ucraniano mas, no conjunto, constituem uma colectividade com vontade própria e com o sentimento de partilharem a mesma Nação
É na Ucrânia que se situam as famosas terras negras, um dos solos mais férteis do Mundo, atravessado por rios que desaguam no Mar Negro. A agricultura e a criação de gado eram e são a base fundamental da economia ucraniana. A competitividade da agricultura é baixa devido à escassa mecanização das explorações e ao predomínio das grandes extensões agrícolas tratadas à mão. Como consequência do acidente nuclear de Chernobyl e consequente contaminação, deixou de ser cultivada 15% da sua área agrícola. O peso do excesso da indústria pesada, dominada pela Rússia, não tem permitido a Ucrânia avançar industrialmente falando, pois tem um fabrico obsoleto e altamente poluente. Desde 1991 é politicamente independente, com um regime presidencialista que tem funcionado a contento da esmagadora maioria da população. O presidente é eleito por sufrágio universal, de 5 em 5 anos, e o Parlamento é constituído por deputados eleitos de 4 em 4 anos, exemplos esses que revelam o verdadeiro espírito democrático europeu e que, pelos vistos, não devem agradar aos governantes vizinhos. O governo russo teme que os Ucranianos tenham um exército para os defender e que cortem com as amarras de subserviência que têm com a economia vizinha. Além do mais, os Russos precisam do celeiro que são as férteis terras ucranianas, além de ricas em minérios e reservas de carvão. A área da Ucrânia é de 603. 700 Km2. Poderá parecer que foram os Ucranianos que andaram a invadir territórios alheios, constituindo um país com terras retiradas aos vizinhos. Contudo, tal não é verdade.
A Ucrânia em 1654 era mínima., tendo sido acrescentada, através dos tempos, pelos Czares e não só. Finalizo este breve comentário sobre a Ucrânia com a publicação de um mapa russo significativo e que demonstra à saciedade como nasceu e se formou a actual Ucrânia.

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