António Moniz de Palme (Edição 831)

Ivan IV, “O Terrível”. Será antepassado de Vladimir Putin???

• António Moniz de Palme*

Edição 831 (14/07/2022)

Ivan IV, “O Terrível”. Será antepassado de Vladimir Putin???

(Primeira Parte)

Compreendendo bem a diferença que existe entre uma colectividade simpática, pacífica e trabalhadora e os prepotentes que a governam e escravizam, ocupando lugares dos quais não podem democraticamente ser corridos, continuarei a divagar sobre o sociável Povo Russo que não tem culpa dos dislates do seus governantes, embora sejam eles a pagar caro as consequências. E conheço bem a sua capacidade de sofrimento e de resistência através dos tempos. O último Czar foi substituído por uma série de ditadores que se iam, sucessivamente trucidando, para evitarem ser liquidados ao dobrar da primeira esquina, pelos seus companheiros de chefia. E nestes jogos políticos violentos, não tinham tempo para reformar a fundo a sociedade, trazendo a paz e o bem estar às populações. Mas, secretamente, sonhavam ocupar o lugar do Czar e da sua Família, quando suprimissem definitivamente todos os possíveis concorrentes. No fundo, revelaram que a revolução bolchevista tinha por objectivo essencial a ocupação do trono do Czar! O resto era apenas paisagem.!!! Na prática, os objectivos revolucionários esfumaram-se, restando apenas um estado ultra prepotente, com salários de miséria, com excepção dos responsáveis do partido. Tal seria possível…? Atirarem com os doutrinadores às malvas!!! Perante o meu espanto, mesmo após a queda do Muro de Berlim, o parque automóvel continuava paupérrimo, com os velhos “Ladas” que anteriormente pertenciam a agentes da KGB. Passaram a circular agora nas mãos do cidadão vulgar que os adquiriu, a preço de ouro, embora uma autêntica sucata, presa por arames e cordéis e que os novos proprietários, com o espírito fleumático das estepes, conduziam ufanos e felizes. Porém, como por milagre apareceram, na ribalta, enormes e luxuosos Mercedes e outras viaturas topo de gama, com vidros à prova de bala, tripulados por motoristas impecáveis, ladeados de auxiliares de metralhadoras na unhas, não com a função de abrir a porta aos seus amos, mas para responderem a tiro às tentativas para os liquidar. Segundo informação bichanada pelos funcionários de turismo, geralmente antigos professores, cultos e que procuravam ganhar uns cobres nas novas actividades, para equilibrar os parcos orçamentos domésticos, lamentavam que os responsáveis pelas prepotências do aparelho comunista, como eram os únicos que estavam em contacto com a economia capitalista europeia e americana e que conheciam os seus intricados meandros, tivessem tomado conta de tudo que pudesse dar lucro. Na verdade, as pessoas integradas no aparelho do Estado e na “Nomenclatura” quando viram as coisas mal paradas e a oposição aos comunistas tomar conta da situação, mudaram de comportamento e apanharam o comboio do capitalismo, antes que por ele fossem atropelados, ocupando as chefias das empresas do Estado e as chefias das representações das empresas estrangeiras., como se tais bens fossem privados. Claro que o assunto “CONCORRÊNCIA” era demasiado complicado para as suas cabeças de gente que apenas sabia obedecer cegamente aos superiores ou dar ordens aos inferiores, sem qualquer explicação. Naturalmente, o necessário exercício para alimentar o respectivo raciocínio estava anquilosado e parado há séculos…! Os chefes da polícia política, bem ou mal, tomaram conta dos lugares da administração e os subordinados, como apenas sabiam dar tiros, transformaram-se em guarda-costas dos novos patrões. E perante a revolta da população, que teve esperança num futuro democrático, devido às promessas feitas por alguns dirigentes, assistiu-se à criação de monstros que sonharam encarnar a figura de novos czares e resolveram assumir os comportamentos ditatoriais dos antigos dirigentes comunistas e, para não perderem a passada, iam liquidando a concorrência, à moda dos gangsteres americanos. Uma mistura estranha dos direitos sagrado dos czares e do prosaico poder de mandar matar populações inteiras para alargar o império, mesmo contra a vontade dos governados. E os indícios de uma vida democrática foram se perdendo no pó do caminho, confundindo-se capitalismo desenfreado com a desejada democracia em liberdade, acordando, sem saberem como, num novo regime de terror. A população assiste muda, desesperada e revoltada à nova situação. Os que escravizaram o próximo, sem dó nem piedade, durante a ditadura comunista, como se nada tivessem com o assunto, não se coibiram de comprar andares novos em luxuosos condomínios fechados, cujo custo ascendia a centenas de milhares de Euros.  Ainda por cima, e como já referi, esses antigos dirigentes comunistas, ainda aprendizes do capitalismo selvagem e mafioso, entretêm-se a mandar matar os possíveis concorrentes, imitando o que faziam os dirigentes comunistas aos seus rivais. Putin é o exemplo acabado desse tipo de democratas, que pessoalmente não acreditam na liberdade dos outros e que se julgam uns privilegiados, uns predestinados para escolher os destinos de todo um Povo e de, em seu nome, praticar as maiores barbaridades possíveis. É um seguidor medíocre de Ivan, O Terrível.

A primeira parte do filme “Ivan Grozniy” de Sergei Eisenstein, com o seu encantamento, abriu-me os olhos, pois a segunda foi proibida por Stalin!. Cada responsável russo procura, à sua maneira, copiar a mítica figura de Ivan, o Terrível. O que vale é que o Povo Russo além de sofredor, tem uma infinita paciência de Job e o arrepiante espírito fatalista do nosso fado menor. Toda a história da sucessão do poder, é um encadeamento sangrento de desgraças. Nem os Romanov dela conseguiram escapar. O pior é que o Povo igualmente sofria com as lutas entre os que partilhavam o poder. Para ilustrar esta miséria sucessiva, relatarei uma pequena historia, bem significativa do terror permanente em que vivia a gente simples. Dimitri, filho de Ivan o Terrível e da última mulher deste, quando Ivan morreu, foi assassinado, ocasionando uma série de perseguições e razias, das quais nem os sinos escaparam! . Ora bem, em Ublitch, quando o príncipe foi cobardemente assassinado, a mando da primeira mulher de Ivan, houve um homem da população que estava a arranjar o telhado e do posto de observação em que estava viu cortarem o pescoço à inocente criancinha, à sua mãe, última mulher do falecido Ivan, e a todos os acompanhantes destes, que saiam de uma cerimónia religiosa. Perante aquele terrível espectáculo, a pobre testemunha ocular, encarrapitado no telhado, começou a tocar desesperadamente a rebate, não parando de fazer badalar o sino da igreja, para chamar a atenção dos que andava a trabalhar nos campos. Com o toque permanente e desesperado do sino, a população acorreu e linchou os autores daquela infame mortandade. O lindíssimo sino que enfeitava a torre da igreja, tinha sido ofertado por Ivan à localidade. Com a morte violenta do príncipe Dimitri, subiu ao trono o filho mais velho de Ivan e da mandante daquele crime nefando, que o pai considerava incapaz de ocupar o lugar de czar, tendo manifestado essa opinião aos seus conselheiros. Na verdade, esse descendente, apesar de ser um homem feito, gastava o santo dia a brincar com sinos e sinetas que coleccionava, sendo incapaz de levar a cabo qualquer tarefa responsável. Porém, o “boyardo”, isto é a personalidade de um escalão superior, amante da mãe desse filho, mandou trucidar toda a população de Ublitch e apenas deixou viva uma centena dos mais fortes para transportarem o sino da Igreja para a Sibéria, para onde foi deportado, sem badalo, às costas dos desgraçados que escaparam à matança e que foram morrendo, de fome e de frio pelo penoso caminho até ao seu triste destino.

.A retirada do badalo do sino, não pode deixar de ser considerado como a supressão do direito de expressão do infeliz sino. Passados muitos anos, após a morte de Stalin, foi autorizado o regresso do sino à sua Igreja, que foi transportado da Sibéria, perante a alegria dos povos por onde o pobre sino passava. Para felicidade da gente simples, foi o badalo libertado do cárcere onde estava encafuado, regressando aos braços amigos do seu sino e da sua gente. Até um sino foi desterrado para a Sibéria, por abuso de liberdade de expressão!!!  Pobre Povo Russo.  E por hoje, chega de relatar tristezas históricas.



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