António Moniz de Palme (Edição 829)

• António Moniz de Palme*

Edição 829 (16/06/2022)

Miguel Strogoff, e a minha visão romântica do Povo Russo – Primeira Parte

Não vou estragar o dia aos meus leitores com o desgraçado conflito entre a Rússia e a Ucrânia, um País soberano, onde a Democracia é uma realidade e foi conquistada pela vontade popular. Aliás, é um país independente desde 1991. Vou esquecer-me da situação miserável agora criada pela força bruta das armas e sim passear-me pela minha memória e pelos acontecimentos que guardei com simpatia, para tentar esquecer a realidade.

A Rússia e o seu Povo, os seus costumes, a sua cultura e as suas estepes frias e intermináveis alimentaram sempre o meu mundo imaginário e parte dos meus devaneios de aventuras de jovem a despertar para a vida. O seu modo de ser intrinsecamente diferente, a sua estranha vida, sempre alinhavada pelo poder intransigente e muitas vezes brutal, criaram, em mim, um desejo invencível de conhecer e conviver com os Europeus perdidos com a sua Pátria, nos antípodas do Ocidente Europeu.

Perante a invasão da Ucrânia e a tentativa de destruição de toda uma pacífica colectividade, prefiro divagar sobre a Cultura Russa e o seu Povo, não repetindo os clichés permanentemente ouvidos pelas desgraças que vão acontecendo com a prepotência de Putin. Outrora, outras injustiças ocorreram na vida habitual do Povo das Estepes e para ultrapassar tal situação, que me desviava do romantismo russo que tanto apreciava, ia ouvindo as “Danças do Príncipe Igor” de Borodine,  assistindo ainda aos bailados de Igor Stawinsky que, autenticamente, me faziam entrar em órbita. “O Pássaro de Fogo”, “A Petruchka” e o Rito da Primavera”, eram para mim o supra sumo da arte, fazendo-me os seus acordes arrepiar a minha sensibilidade mais profunda e as imagens fantásticas que os seus bailados propiciavam, transportavam-me para um mundo misterioso de fantasia sem fim. Isto, embora os meus amigos e melómanos da altura não gostassem da sua estranha música, torcendo ainda o nariz às obras de Serghei Prokofiev, de Rachmarinov e de Rimsky Korsakov. Devo dizer que muitos dos intelectuais acabados, do meu tempo e da geração dos meus Pais, conhecedores profundos dos meandros do mundo da Música e do Bailado Clássico não apreciavam declaradamente os autores russos que tanto me encantavam. Claro que os gostos mudaram num instante e muitos já tinham esquecido os comentários de outrora, bem pouco agradáveis às obras de tais compositores. Mas, independentemente da atracção pela cultura das Estepes e da sua história e pela leitura sôfrega dos romances dos escritores da grande Rússia, pairava entre nós, permanentemente, uma visão romântica de toda a cultura eslava. Nesse aspecto, Júlio Verne acabou por ser um grande responsável pelas minhas fantasias sobre a Europa de Leste com o fantástico herói Miguel Strogoff, o correio do Czar Alexandre II, que teve a desdita de ser apanhado pelos invasores dos extensos territórios da grande Rússia. Eu explico. A Rússia foi invadida pelos Tártaros e o Czar tinha forçosamente que enviar alguém da sua confiança, em missão secretíssima, atravessar a Sibéria e ultrapassar as linhas inimigas, no território ocupado pelos invasores tártaros, para avisar o seu irmão, o Grão Duque da cidade de Irkutsk, de que o seu colaborador Ogareff, era um traidor, feito com os Tártaros. Miguel Strogoff, para não dar nas vistas, fez viagem de comboio, acompanhado por jornalistas estrangeiros, que faziam a reportagem dos acontecimentos militares, e por uma jovem, Nádia Fedor, que ia juntar-se ao pai que, fora desterrado para a Sibéria. Contudo, Miguel Strogoff, natural de Omsk, sua terra natal, não resistiu à tentação de ali se apear, para visitar sua mãe. Claro que foi preso e identificado pela polícia tártara. Como nada tinha feito de condenável, pois nenhum documento comprometedor foi encontrado na sua posse, não foi condenado à morte mas, para o afastarem de qualquer actividade política, resolveram aplica-lhe o terrível castigo tártaro, a cegueira, sendo-lhe tirada a capacidade de ver e, posteriormente, seria abandonado no meio do deserto gelado. E assim foi. O correio do Czar, foi julgado em público, e o carrasco, como mandavam as regras, encostou aos seus olhos uma lâmina em brasa, que imediatamente cegava o desgraçado a quem esta pena era aplicada. Acontece que a Mãe de Miguel Strogoff estava no meio do público que assistia a tão bárbaro castigo, chorando convulsivamente, acompanhada pela companheira de viagem do filho, Nadia Fedor. Perante aquele espectáculo da mãe a chorar, os olhos de Strogoff encheram-se de lágrimas, isolando os órgãos de visão do correio do Czar do calor da lâmina. Acabada a função punitiva, Miguel Strgoff foi abandonado à sua sorte, percebendo que as lágrimas vertidas de comoção por ver a sua pobre mãe desesperada, lhe tinham evitado a cegueira, pois via mal, mas via. Revelou esse segredo à Mãe, antes de partir, mas nada disse a Nádia que o acompanhou no resto da viagem, pensando que o seu companheiro de desgraça, Miguel, estava mesmo cego para sempre. No fundo, foi a maneira de os inimigos não desconfiarem que ele via. Claro que o romance de Júlio Verne, acaba com um fim cor de rosa, para agradar aos leitores. O aviso foi feito ao Irmão do Czar, seguindo-se a prisão do traidor Ogareff. Por outro lado, foi levada a cabo uma carga de cavalaria do exército do Czar, combinada com as forças cossacas, tendo tudo acabado com um romance de Miguel Strogoff com a bonita Nádia. Enfim, um epílogo de filme americano, mas que alimentou ainda mais a minha imaginação e a mística russa que já possuía. Já gora direi que os célebres cossacos que aparecem em tantos romances de aventuras, eram colonos russos e ucranianos que, nos finais do Séc. XVI, se fixaram nas fronteiras entre a Rússia, a Polónia e a Turquia e com o seu espírito guerreiro, serviram de tampão ao Império Russo, pois contiveram as tentativas de invasão de Tártaros e Turcos. Claro que as minhas ideias românticas sobre esta matéria, desabaram bem depressa, quando em 1917, Estaline lhes tirou brutalmente a sua tradicional autonomia, que sempre fora respeitada ao longo da história e os perseguiu pelo seu amor à Liberdade e hostilidade à sujeição de qualquer espécie.

Seria a minha primeira desilusão profunda com a Rússia, mas não a última. Deixei-me de divagações românticas e comecei a estudar a fundo a história russa. Independentemente dos lamentáveis factos passados no Séc. XVIII, com a anexação da Estónia, da Letónia, bem como com a anexação da Crimeia e a ocupação da Finlândia, os Russos, na Guerra Caucasiana, cometeram um autêntico genocídio dos Circassianos, que povoavam a Circácia, na Caucásia Septentrional. Perdi completamente todas as ilusões, pois a partir daí uma corrente sem fim de atropelos aos Direitos Humanos e ao Direito dos Povos, não mais acabou. O rosário de desgraças para os Povos dominados pela União Soviética, constituiu uma espécie de Teia de Penélope de terror, que só acabou com a queda do Muro de Berlim. Tais realidades, fizeram-me sensatamente separar as águas. O Povo é uma realidade, outra coisa são os seus governantes e as ideologias que os escravizam.



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