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Cultura

• Textos de António Alexandrino e poemas de Carlos Paiva

Edição 725 (12/10/2017)

• António Alexandrino

Passa um quarto de século de emissão televisiva da SIC e abertura do audiovisual aos privados. Longe de ter sido um marco simples e sem consequências. Na verdade, daí resultou uma verdadeira revolução num “país até aí a preto e branco” (Nuno Azinheira).

E, num instante, passaram 25 anos! Quase nem se deu por isso! Neste intervalo, há mais de duas gerações de portugueses que não sabem o que era terem apenas dois canais de televisão!

A 6 de Outubro de 1992, surgia a SIC e, a 20 de Fevereiro de 1993, a TVI. Era o início de uma mudança social, de uma transformação do campo mediático, de uma alteração da essência e substância de uma certa ideia de televisão, no dizer de Felisbela Lopes, professora universitária e investigadora na área dos media da Universidade do Minho. Para a referida académica, a data de 6 de Outubro de 1992, com a chegada da SIC, significa “a informação como contrapoder”. Neste contexto, e na esteira de Felisbela Lopes, recuamos até um tempo de “partidas rápidas” (com a SIC a assumir velozmente a liderança), de “falsas partidas” (com a TVI a iniciar um projecto ligado à Igreja que se tornou rapidamente insustentável) e de “corridas de fundo” (com o operador público numa busca incessante da sua identidade). Um tempo notável, sem dúvida, que leva Umberto Eco a ver aqui a transição daquilo a que chama a paleotelevisão (a TV do tempo do monopólio) para a neotelevisão (a TV da era da concorrência).

Mais do que “uma janela, os novos dispositivos televisivos privados pretenderam ser um espelho para as audiências, encarando o quotidiano como principal referente da programação. E isso desenvolveu-se sempre em duas dimensões: a temporal, na medida em que as emissões se submetem ao ritmo dos estilos de vida dos portugueses, ainda que também os estruturem; e a espacial, pois aquilo que se vê no pequeno ecrã encontrou sempre a sua âncora nos lugares que habitamos. Olhamos para a TV e ali está ela a dizer-nos: «olha para mim, eu estou aqui, eu sou eu e eu sou tu». E nós, maravilhados, não a largamos. E foi graças a isso que a televisão foi conquistando o seu poder. Colossal nestes anos.”

Com o aparecimento da SIC, parecia impossível concorrer com a RTP, que já levava algumas décadas de existência e granjeava popularidade junto do público No entanto, bastaram três anos para o primeiro canal privado português ultrapassar o canal generalista público. Em 1995, o sucesso da estação de Carnaxide parecia imparável. “Chuva de Estrelas”, “Perdoa-me”, “All you need is love”, “Na cama com…”, ou “Ousadias” são alguns dos novos programas que romperam com o que, até aí, a RTP transmitia. Quer nos conteúdos, quer na forma – até as cores dos cenários foram uma forma de a televisão reflectir um país com outras cores… “uma lufada de ar fresco para o público, já um tanto anestesiado pela linguagem convencional de uma RTP acomodada… Em cinco anos, a TVI, canal que mantivera, durante anos, uma aparente letargia, esboçou a corrida pela liderança. A partir de 2001, conseguiu garanti-la no horário nobre, e progressivamente foi conquistando protagonismo noutros espaços horários. Todavia, a RTP, num contexto de opção inteligente, afastou-se de uma concorrência aberta com as TV privadas, ignorando tácticas que se guerreiam no mesmo terreno.

Muito mudou, relativamente ao país que éramos nos inícios dos anos 90. E nessa mudança a televisão teve, decerto, um papel importante. Mais, em determinados campos sociais. Na política, a sua influência foi decisiva. Nos primeiros anos, a SIC foi sempre um contrapoder que desgastou enormemente uma determinada ideia de oásis que o cavaquismo queria fazer vingar. Os congressos partidários reconfiguraram-se; as campanhas e as noites eleitorais submeteram-se às exigências audiovisuais; os políticos viram-se obrigados a seguir novos ritmos e a apresentar outro discurso. O mundo do futebol também se transformou. Os programas que falam sobre o mundo da bola, popularizados pelo célebre “Os donos da bola”, que Emídio Rangel quis fazer inicialmente com os presidentes dos principais clubes, criam uma agenda estruturante daquilo de que se ocupam os clubes e fazem jorrar para a opinião pública intermináveis e inesgotáveis polémicas. O campo da justiça não ficou imune. Muita gente lembra, hoje, a intensa mediatização do julgamento do padre Frederico, na Ilha da Madeira. Outros processos, amplamente mediatizados e nem sempre da melhor maneira, deram espaço que chegue…

A televisão revolucionou o país. Inequivocamente. Mas nem tudo o que fez merece aplauso. Deixou esquecidos muitos campos sociais e promoveu entretenimentos grotescos! Os jovens com menos de 20 anos conhecem, sobretudo, uma oferta televisiva que se divide entre o “Big brother” e os seus formatos derivados e a ficção nacional. Demasiado redutor!

Ao comemorar um quarto de século das privadas, impõe-se uma reflexão séria daquilo que a TV foi, mas, mais que tudo, também do que quer ser. Urge fazer este debate.

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Cínico canino

• Carlos Paiva

Oh maldito mundo

Deveras infecundo

Dos que se têm por raça

Acima da populaça

E bem assim maldito

O outro bocado aflito,

Gente reles e tosca,

C’ o bater de asas de uma mosca

Logo se amedronta

E tão em baixa conta

Diante todos se tem,

Que não merece de sua mãe

O sangue esparzido nas coxas.

Oh talheres de louças

Ratadas nos rebordos,

Espécie de bacalhau com todos,

Seco, como convém,

No estendal do meu desdém,

E demolhado após

P’ra se comer a sós,

À luz de candeia gasta.

Oh maldito quem se engasga

C’ o a própria espinha

Por não saber que a tinha

E nela se ergueu um dia!

Ah como tudo me causa azia,

Eis-me refeição fria

De mesa onde não queria

De mim sentar-me ao lado…

Ponho-me à borda do prato,

Minto depois ao garçon

Dizendo que “estava bom,

Só não trago apetite

P’ra comer tamanho biltre”,

Coisa que se disfarça

Levando para casa,

Num hermético tupperware,

O que não apetece nem se quer,

Ou p’ra que falta paciência…

Oh maldito, desta existência,

Tão variegado menu,

P’ra quem preza comer-se cru.

Livrai-me do tormento

De refogar-me em lume lento,

Eu tão só a pátina

Fóssil de um velho tacho

A ser raspado pró lixo.

Sou hoje apenas isto:

De todo o possível, somente ‘não’,

Comida própria p’ra cão

Que, por dormir ao abandono,

Nunca morderá, ao menos, a mão ao dono…

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Edição 724 (28/09/2017)

As nossas ALDEIAS: As 7 maravilhas… ou… «Já não vive ninguém  em 281 aldeias de Portugal continental» (parte 2)

• António Alexandrino

Aflorada a problemática das “centenas de ALDEIAS à beira da morte”, na edição anterior, e nas circunstâncias de análise possíveis, deixámos ‘no ar’ a questão: “Que fazer?”

Das três possibilidades aí explanadas, retomamos a terceira, com algumas dicas inspiradas na comunicação social, ‘com a devida vénia’: “escolher onde vale a pena investir e criar condições de sustentabilidade”. Para o efeito, e a título de exemplo, apresentam-se alguns casos, tidos como susceptíveis de passar das intenções à concretização.

Dir-se-á que a presente abordagem é apenas um pouco de nada. Sem dúvida. Estudos e projectos têm vindo a surgir, no âmbito das preocupações que aqui lembramos. Nesta conformidade, se enquadra o projecto-piloto “Aldeias com futuro”, propondo estratégia de sobrevivência e revitalização de zonas altas, desenvolvido para a cooperativa Dolmen, liderado pelo geógrafo José Alberto Rio Fernandes.

Canadelo. Habitantes: 121. Altitude: 300 metros. Com “elevado potencial turístico”, florestal e agrícola, dista 16,5 Km da sede do concelho, Amarante, mantendo muitas “características do rural autêntico” e uma forte relação com a serra do Marão. Necessita de requalificação de caminhos, arruamentos e edifícios. Sem transportes colectivos.”

Cruzeiro. Habitantes: 78. Altitude: 700 metros. Na serra da Aboboreira, tem forte ligação a Baião, a 9 Km, e é servida de transportes colectivos. Tem perfil urbano, mas “estilo de vida tipicamente” rural e potencial agrícola… Com intervenções recentes, necessita de requalificação de lavadouros e sinalização informativa e de orientação.

Loivos do Monte. Habitantes: 74. Altitude: 700 metros. A 9,2 Km da vila de Baião, partilha o perfil urbano e o “estilo tipicamente rural” de Cruzeiro. Com matriz de floresta autóctone, destaca-se, na serra da Aboboreira, pelo edificado de valor e potencial turístico. Necessita de requalificação de lavadouros e de sinalização  informativa e de orientação.

Travanca do Monte. Habitantes: 89. Altitude: 800 metros. Aldeia a crescer (!), com boa ligação à sede, Amarante (a 15,2 Km). Situada na serra da Aboboreira, possui valores ambientais e potencial turístico. Necessário: zona de aparcamento, reorganização de largo central, recuperação de zona de espigueiros, placas de localização e identificação e requalificação de edifícios.

Panchorra. Habitantes: 86. Altitude: 1100 metros. De perfil “essencialmente turístico”, na serra de Montemuro, a 18,3 Km de Resende, apresenta diversidade de flora e fauna e potencial agropecuário. Precisa de aparcamento e recepção, requalificação de edificado e de valorização de estruturas com cobertura de colmo.

Lembre-se, à guisa de epílogo, o que anteriormente expressámos:

“E não perder a esperança na revitalização… ter pessoas nas aldeias é muito importante para o país…”

“Podem as aldeias ser turísticas ou assentar no turismo, mas não devem ser pensadas na lógica dos urbanos e da aldeia para a fotografia…, mas na lógica dos que lá vivem e lá voltarão a viver, tirando proveito da terra”.

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angulosa_mente

• Carlos Paiva

 

Cada terra tem seu uso,

Cada roca tem seu fuso –

É, por isso, natural entre tantos

Haver igual montante de ângulos

Através dos quais, distintamente,

Se vê o mundo à nossa frente.

Desde logo o ângulo recto

Prima por seu ar circunspecto:

Nele, entre as demais facetas,

Como semelhar duas varetas

Em perpendicular posição

(Ou braço que se cruza, pois então),

Sobressai o intersectar-se

Abcissa com coordenada,

O que significa o encontro

De outro com díspar ponto.

Digamos que nele converge

O ortodoxo e o herege,

Buscando cada um equilíbrio

Que os furte ao martírio

De obstinação que afunila…

Já outro diferente se perfila,

Compondo notório caso:

Trata-se do ângulo raso,

O qual, de aspecto não adunco,

Faz com que nele vislumbre

O símbolo, deveras consensual,

De tudo se ver por igual,

Como se fora possível

Estar tudo ao mesmo nível!…

Tal ângulo, que tudo aplana,

Arauto é do que se engana

Co’ a ilusão de o não fazer jamais…

De ângulos, porém, há mais,

Como o agudo, por exemplo,

Ilustração do entendimento

Que se concretiza e afirma

Quão mais a gente se aproxima;

Não descurando outro, assaz luso,

Que é, entre tantos, o obtuso,

O qual não estará longe, calculo,

Por mesma razão, do ângulo nulo….

Seja como for, qualquer dos ditos,

Nos vértices estabelecidos,

Desperta em mim querer vê-los

Como são no mundo os cotovelos,

Os quais mais doerão, ou menos,

Consoante aquele perspectivemos

Desde um que outro ângulo,

Qual deles o mais humanamente humano…

Quanto a mim, não sei qual seja,

Já fui um, outro, e o que sobeja,

Tanto já só quero que tão mais viva

E em mim se amplie a perspectiva

E um dia veja, qual Deus perfeito,

O mundo em ângulo completo,

Assim convirjam em mim cosmos, caos,

Só p’ra ser, enfim, inteiro a 360º!

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Edição 723 (14/09/2017)

As nossas ALDEIAS: As 7 maravilhas… ou… «Já não vive ninguém  em 281 aldeias de Portugal continental» (parte 1)

Por Lazarim, relativamente perto de Lamego, a aldeia semi-abandonada da Anta

Em plena Serra de Montemuro, a aldeia de Levadas, pertencente à freguesia de Cabril

 

• António Alexandrino

Fechadas as ‘contas’, que terão suscitado um, quando muito, mediano entusiasmo na ‘proclamação’ das 7 maravilhas, encontradas por votação aleatoriamente surrealista em prol da(s) ALDEIA(s) preferida(s), eis-nos agora perante outras contas do mesmo ‘rosário’.

Com efeito, a realidade coloca-nos face a uma crueza de difícil ou mesmo impossível equação: em 281 aldeias de Portugal continental já não vive ninguém! O despovoamento, com a consequente desertificação, é mais grave nas zonas de montanha. Mais de 677 lugares, situados a 700 ou mais metros de altitude, já têm 50 ou menos habitantes e correm mesmo o risco de desaparecer – centenas de aldeias à beira da morte!

Com dois terços da população entre Viana do Castelo e Aveiro e entre Leiria e Setúbal e as autoestradas a “acelerar o despovoamento do interior com o aumento da velocidade e o conforto na deslocação”, definham sobretudo as aldeias afastadas de vilas e cidades.

Ocorre por migração – mormente para a sede do concelho, para cidades maiores e/ou para o estrangeiro –, ou com a morte dos poucos mais velhos que se mantêm, como explica Rio Fernandes, catedrático de geografia humana da Universidade do Porto. Culpa, também, das políticas agrícolas que têm vindo a destruir as explorações familiares e o mundo rural, na opinião de João Dinis, dirigente da Confederação Nacional da Agricultura – “Milhares de agricultores que estavam a ocupar e a produzir no território tiveram de sair”.

Uma análise ao último Censo aponta para centenas de lugares com 50 ou menos habitantes, um dado que, para Rio Fernandes, é “relevante”, não havendo “capacidade de sustentação demográfica, face à idade dos habitantes”.

Com o patrocínio de Rui Pedro Julião, especialista em informação geográfica da Universidade Nova de Lisboa, chegou-se à listagem acima referida: 677 aldeias com menos de 50 residentes, em altitudes iguais ou inferiores a 700 metros.

Em média, havia 27 pessoas por lugar. Em 314 delas, a população era inferior a 26. Em 79, os habitantes oscilavam entre um e dez. Centenas de aldeias a morrer? Rio Fernandes: “Sim, é possível concluir isso”.

Com a estagnação demográfica, o envelhecimento da população e a forte emigração, “é de supor que acelere o processo de despovoamento dos lugares de menor dimensão e mais excêntricos” (afastados dos centros com alguma dimensão, caso das sedes de concelho e/ou outras).

Aqui chegados: Que fazer?

Três hipóteses: “não fazer nada; acomodar o encerramento de aldeias, mantendo a qualidade de vida dos resistentes; escolher onde vale a pena investir e criar condições de sustentabilidade”.

E não perder a esperança na revitalização. É que ter pessoas nas aldeias “é muito importante para o país”, aproveitando o “valor dos territórios – económico, social, ambiental e paisagístico – em contraste com o abandono e a monocultura, designadamente, de eucalipto”.

Podem as aldeias ser turísticas ou assentar no turismo, mas “não devem ser pensadas na lógica dos urbanos e da aldeia para a fotografia, do ‘resort’, mas na lógica dos que lá vivem e lá voltarão a viver, tirando proveito da terra”.

Voltaremos ao assunto, em próxima oportunidade.

 

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Soneto Atravesseirado

• Carlos Paiva

É instantâneo que a alma sinta

De todos mais encantado fascínio,

Porventura dá por si nesse domínio

De verde bruma que é Sintra.

 

Deve a vila a fama que a reputa,

Além de à clorofila, à sua doçaria,

E daí, claro, tão caudalosa romaria

De que farei também mea culpa,

 

Porquanto do Fofo à Queijada

Não há, a bem dizer, a que se resista…

Deixará, porém, língua mais consolada,

 

Ainda mais se comido por inteiro,

Esse doce, o melhor, quiçá, que exista,

Acaso se meta a língua… no Travesseiro.

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Edição 722 (27/07/2017)

Futebol para além do futebol, ou… Éder e a ingratidão

• António Alexandrino

Caiu recentemente o pano (passe o lugar-comum) sobre a Taça das Confederações, que teve lugar na Rússia. Mais uma vez, como sempre: ilusões e desilusões; vários candidatos à vitória final, uns por ‘devoção’, outros por ‘obrigação’… enfim, estes eventos costumam dar “pano para mangas”! Não vamos dissecar ‘filão’ tão aleatório como é o futebol, no âmbito dos respectivos certames, asserções sociais, implicações económicas… para o efeito não faltam ‘púlpitos’ em abundância, nos vários canais televisivos, de onde pregam muitos, e nada menos sábios, “especialistas” na matéria…

“Está tudo bem quando bem acaba”, diz o rifão. Nem sempre… além de que “acabar bem” passará por múltiplas consonâncias de entendimentos, sobretudo estando em jogo imensos jogos de interesses, tal o imenso e conspurcado pantanal em que o futebol se transformou.

A “Selecção”, palavra que o saudoso Eusébio carinhosamente usava para se referir à estrutura que devia ser “de todos nós”, dado que nela deveria estar a nata, os melhores, na qualidade de detentora do troféu alusivo ao ‘Euro 2016’, lá esteve, candidata, muito justamente, a arrecadar a Taça das Confederações, sem favor. Só que, desta vez, nem tudo esteve ‘bem’, nem ‘acabou bem’.

Éder fora o jogador a quem o destino ‘incumbiu’ de marcar o golo mais importante da história futebolística de Portugal, na final de Paris, frente aos anfitriões gauleses. Então, qual “patinho feio”, Fernando Santos terá entendido ‘dar-lhe uns minutos’, quando já se esgotava o tempo de jogo, ante o espectro das “grandes penalidades”.

Ora, Éder foi esquecido pelo mesmo Fernando Santos, que entendeu mantê-lo em casa, sem um lugarinho nos 23 chamados à “Selecção”. No entanto, as memórias de tão alto momento da história do futebol português não podem rumar ao reino do esquecimento! Não ser convocado para a Taça das Confederações foi decisão incompreensível, visto que, queira ou não queira o senhor Fernando Santos, aquele golo vai ficar na retina dos portugueses por muito e muito tempo. Tivesse sido outro o marcador… e ainda estaríamos a ‘levar’ com as imagens repetidamente, repetidamente…

Obviamente que das convocatórias devem constar jogadores em forma, mas Éder, não estando embora no melhor momento, deveria ter sido convocado pelo seu mérito e por ser, de certa forma, um ‘herói’ – afinal contribuiu decisivamente para a primeira conquista de um título europeu de futebol, a nível de Selecções! Não se trata de um qualquer sentimentalismo barato, mas o reconhecimento das qualidades de bom jogador que ele é. A este propósito, cite-se Goethe: «A ingratidão é sinal de fraqueza. Nunca encontrei um homem de valor que fosse ingrato». E, se Fernando Santos «desfrutou de todas as mordomias, prémios, elogios, também o deve a Éder» (Francisco Pina). Quem nos diz que, se Éder tivesse jogado na Rússia, não tivesse acontecido aquele triste fiasco do falhanço de todas as penalidades, cena nunca vista num campeão europeu?!

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Breve história do pequeno acólito

• Carlos Paiva

 

Em casa do pequeno acólito

Há fome, dor e pancada.

 

É um pequeno oráculo, feito em pedra,

Coberto com telhas de loisa.

 

Nele se fazem oblações a um pai tirano,

Oferendas bastas de submissão e silêncio.

 

Em contrapartida, aqui, na Casa dos Fiéis,

Há Pão e Vinho e uma batina asseada.

 

Mesmo o pequeno acólito tem o seu hábito,

Largo, de linho áspero – não é grande coisa.

 

Com ele fica um embrulho mal atado

(nem na manga segura um lenço…).

 

O seu consolo é uma imagem

Da Santa Mãe de Deus,

 

Uma Pietá sobre a parede branca

E que ali parece bem.

 

Fica exactamente do lado oposto ao púlpito

Donde o sacerdote profere a homilia.

 

Sua expressão maternal enternece,

Como toda a dor e desamparo fossem seus.

 

E é então que o pequeno acólito repara,

No seu íntimo de criança, como a sua mãe

 

Só faltam roupas assim,

P’ra ser a Virgem Maria.

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Edição 721 (13/07/2017)

Sistema educativo – urge reduzir o abandono escolar

• António Alexandrino

A redução do abandono escolar precoce para 10% até 2020 é uma das cinco metas da “Estratégia Europa 2020”, a que estamos obrigados. «Travar o abandono massivo e desqualificado será um importante indicador da qualidade do nosso sistema educativo, dos nossos sistemas sociais e da nossa democracia» (Luís Mesquita, Director da E20M).

Apesar dos avanços registados nos últimos anos, em recuperação ainda do atraso que herdou do passado, diga-se, Portugal continua, no entanto, com baixos índices de qualificação da sua população adulta. Saído do 25 de Abril de 1974, o sistema democrático estabeleceu um quadro legal exigente e avançado, consagrando o direito à educação, para todos os cidadãos, no texto da Constituição da República Portuguesa (artigos 73º-79º). Aí se dispõe, também, que compete ao Estado assegurar esse direito. Além disso, a Lei de Bases do Sistema Educativo garante a todos os portugueses o direito à educação, competindo ao Estado a responsabilidade de o promover.

Todavia, «a situação no país é ainda uma grave descoincidência entre o quadro legislativo e as práticas sociais correspondentes» (idem, L. Mesquita). A nossa democracia continua a não ser capaz de fazer cumprir o quadro ‘generoso’ de princípios de que é ‘autora’, sendo a referida descoincidência particularmente notória na cooperação europeia. A actual “Estratégia Europa 2020”, a estratégia europeia para o crescimento e o emprego, vem introduzir uma “nova urgência no cumprimento destes princípios”, não somente como obrigação interna, mas como compromissos assumidos por Portugal enquanto membro da Comunidade.

Milhares de jovens continuam a abandonar a escola, sem que tenham completado a sua formação básica e sem terem obtido as qualificações necessárias à sua integração social. As fracas qualificações dos jovens portugueses «são um grave problema social, envergonhando Portugal na comparação internacional, na UE e na OCDE» (idem). O abandono precoce da educação e formação (APEF), indicador-chave da cooperação europeia em educação, dá conta da percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que abandonam a escola e a formação, sem completar o Ensino Secundário, a nova “escolaridade obrigatória”. Em Portugal, a taxa de APEF continua a ser uma das mais elevadas da Europa (13,8%), agravada pelo facto de os nossos jovens abandonarem a formação com muito fracas qualificações, muitos sem o 6º. ou o 9º. anos, circunstância que se não verifica em qualquer outro país da UE. Portugal apresenta igualmente as mais altas taxas de cidadãos, entre os 25 e os 34 anos, com baixas qualificações em toda a zona OCDE. O mais recente relatório da OCDE, “Society at a Glance 2016”, dá conta de que mais de um terço dos jovens portugueses não completa a sua formação secundária, registando a terceira maior taxa, só ultrapassada pelo México e pela Turquia. Com efeito, isto acontece num país com uma das mais altas taxas de pobreza na UE (25,3%) e com um desemprego jovem que atinge valores inquietantes (30%), um dos cinco piores da UE.

Urge ocuparmo-nos seriamente desta «emergência social, abandonando as estratégias de negação ou atenuação que procuram diminuir a sua gravidade e premência». Se ao nível da prevenção e intervenção dispomos de boas práticas instaladas, ao nível das medidas de compensação, o país é manifestamente deficitário. O desafio que hoje se coloca a Portugal é o da promoção de acções de compensação, claramente orientadas para os estimados 300 mil jovens que se encontram em abandono precoce, com baixas qualificações e portanto, «em risco de exclusão social» (idem, Luís Mesquita).

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Água intoxigenada

Para o concidadão sarar a ferida

Aberta pelos golpes desta vida,

Recomendamos – cura até feitio plácido! –

Água intoxigenada, com ph ácido,

A qual, aplicada com propósito,

É melhor que qualquer linfócito!

O paciente pode estar apopléctico,

Mas o poderoso efeito anti-céptico

Transforma-o num apoiante dinâmico

Deste costume, ora mediterrânico,

De explorar a torto e a eito…

Com água intoxigenada, está feito!,

Pode o golpe ser profundo

E parecer que anda doido este mundo,

Mas basta uma gotinha só,

Que logo se desata o nó

De qualquer dor lancinante.

Abram alas ao fármaco-governante,

Que tem a solução inteligente

Para a malta andar contente

Com o rumo que anda a seguir isto,

Embora com mais chagas que Cristo

Cobrindo-lhes a pele, particularmente flagelada.

Enfim, haja saúde… e água intoxigenada!

• Poema de Carlos Paiva e Foto de Hugo Carvalhal

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Reset

Sítio onde chego a cada passo dado:

O incerto, o desconhecido – é aí o meu lugar.

É lá que quero, um dia, ser encontrado,

Como em mais nenhum pudera estar.

Ora parto a procurar-me, de novo, sem pressa,

E a cada desencontro, a vida, por magia, recomeça.

• Poema de Carlos Paiva e Foto de Hugo Carvalhal

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Edição 720 (22/06/2017)

Manuel Alegre vence Prémio Camões 2017

• António Alexandrino

O poeta reagiu à notícia com “serenidade e alegria”, após reunião do júri, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O Prémio Camões é o mais importante para autores de língua portuguesa e ‘vale’, para o vencedor, a soma de cem mil euros.

A professora Paula Morão, presidente do júri, explicou a razão da escolha: “Penso que faz todo o sentido e que o Prémio Camões é uma referência fundamental para a obra de Manuel Alegre. Considero o prémio justíssimo e adequado, pelo escritor e pela figura cívica que ele é”.

Como poeta, Alegre começou a destacar-se nas colectâneas ‘Poemas Livres’ (1963-1965). Mas o grande ‘salto’ nasce com os seus dois volumes de poemas, ‘Praça da Canção’ (1965) e ‘O canto e as armas’ (1967), apreendidos pelas autoridades do ‘Estado Novo’, mas com grande circulação nos meios intelectuais.

Manuel Alegre recebeu a notícia da vitória com “serenidade e alegria”, salientando que lhe dá “particular satisfação” a atribuição deste prémio, até porque Luís de Camões é um dos que mais aprecia, lembrando ter reeditado, recentemente, o livro ‘Vinte poemas para Camões’. No entanto, o poeta, de 81 anos, esclareceu que “o reconhecimento maior é o que me vem dos meus leitores através dos tempos, vencendo várias formas de censura. Naturalmente, uma distinção desta natureza tem o significado que tem”.

O presidente da República considerou a presente atribuição “uma homenagem justíssima a uma figura da literatura portuguesa”. E, “nos termos do próprio prémio contribuiu e contribui para o enriquecimento literário e cultural, não apenas português, mas do mundo da lusofonia”, concluiu.

De Vasco da Graça Moura, respigámos o seguinte juízo, acerca do poeta Manuel Alegre e sua produção poética:

«Em Manuel Alegre conflui uma rica herança da poesia portuguesa, de Camões a Junqueiro e a Gomes Leal, de Nobre e Pessanha a Torga, na destreza versificatória, na sonora musicalidade e na eloquência poderosa de um lirismo cuja veemência tanto se exprime na poesia de amor e de exílio como na de indignação e de protesto. Estas características, que por vezes se aproximavam já de uma toada épica, têm evoluído para a expressão de uma angústia metafísica muito pessoal, como no magistral e denso ‘Senhora das tempestades’, a que, à falta de melhor termo, poderíamos chamar de  “epopeia” interior». (In “Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc.XXI”, Porto Editora).

Manuel Alegre é o único autor português a fazer parte da antologia “Cent poèmes sur l’exil”, editada pela Liga dos Direitos do Homem, em França (1993). Em Abril de 2010, a Universidade de Pádua (Itália) inaugurou a Cátedra Manuel Alegre, tendo em vista o estudo da Língua, Literatura e Cultura Portuguesas. Em 1998, recebeu o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro ‘Senhora das Tempestades’, que lhe valeu, ainda, o da Crítica Literária, galardão atribuído pela Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários, tendo recebido, no mesmo ano, o Prémio de Literatura Infantil António Botto, pelo título ‘As naus de verde pinho’. Em 1999, foi distinguido com o Prémio Pessoa, pelo conjunto da sua obra; nesse mesmo ano, recebeu o Prémio Fernando Namora, pelo romance ‘A terceira rosa’. Além destes, muitos outros prémios e condecorações, a que se acrescenta o Prémio ‘Vida Literária’ 2015/2016.

Todavia, dar visibilidade e evocar um autor deve materializar-se, trazendo a lume a sua obra, divulgando-a. Dada a importância de Alegre no campo literário e, inclusive, em contexto, cuja oportunidade se foi situando marcadamente no tempo, aqui deixamos um  excerto de um poema (pleno de actualidade), entretanto musicado por António Portugal e divulgado por cantores ‘de intervenção’, nomeadamente, Adriano Correia de Oliveira.

 

«TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.

 

Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.

 

Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém diz.

[…]

E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.

[…]

E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.

 

 

Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.

 

Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não».

 

À guisa de posfácio, ‘ouçamos’ o poeta sobre ‘O QUE SEI DE POESIA’:

«Não sei falar de literatura. Não sei se sei falar de poesia, Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que «os ritmos em que se exprime constituem a forma do mundo». Sei, como o poeta russo Mandelstam, que «escrever é um acontecimento cósmico». E que cada palavra é um pedaço do universo. Ou como dizia Klebnikov: «na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo». Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho. Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais do tempo através dos múltiplos sentidos ou do sem-sentido da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forças maléficas.

A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de mediação. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, «mudar a vida», como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.

A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica. A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel «il miglior fabbro». O poeta, dizia Cioran, «é aquele que leva a sério a linguagem». E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve «sonidos negros». É então que a poesia acontece. Isto é o que eu sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais».

‘O QUE SEI DE POESIA’ Texto escrito e lido durante uma sessão consagrada a «Trinta Anos de Poesia» na Faculdade de Letras da Universidade Católica de Viseu, Maio de 1996 (In ‘Manuel Alegre – Obra Poética’, Publicações Dom Quixote)

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Tratado de Ornitologia

• Carlos Paiva
• Foto: Hugo Carvalhal

Atenção, caro amigo, a quando dialogas

Com qualquer dessas famigeradas ornitólogas,

As quais, entre outras coisas, comos sabes,

Aturadamente estudam comportamento das aves,

Peculiaridades, habitat, diferenças anatómicas,

E umas outras tantas questões biológicas,

Das quais produzirei, se for esse o teu contento,

Algumas, avulsas ilustrações, só p’ra seu exemplo.

 

Comecemos, desde logo, pela respectiva plumagem

Que umas aves ostentam, outras não trazem,

Sem que, com isto, tais devam ser interpretadas

Como sendo, umas, penosas, e as demais, depenadas.

Ajamos, por isso, com todo o rigor e cuidado

Aquando da descrição – científica, claro – do ser alado.

 

Outro pormenor em que deteremos nosso fito

Prende-se, naturalmente, com o formato do bico.

É diferente, sem dúvida, o do abutre do de um canário,

Mas é, de qualquer ave, seu bico extraordinário:

Além do canto, ali leva o alimento desejado,

No bico avidamente recolhido até se lhe encher o papo.

 

Mas são mais os conteúdos na ornitológica cartilha,

Onde destacaremos, no dito estudo, a inevitável anilha,

Instrumento que, ao investigador, amiúde indicia,

De uma pássara, qual lhe seja a família,

Entre outros mais elementos de seu meio,

Como saber se procria em ninho próprio ou alheio;

Ou então – coisa que, por aí, muitas vezes aparece –

Se copula com outros que não da mesma espécie…

 

As pássaras, seja como for, são criaturas de Deus,

E mui triste seria o mundo não povoassem nossos céus.

Daí que revista, inequivocamente, grande valor

O que é, das ornitólogas, seu denodado labor;

E nós, comuns mortais, daremos também o contributo

P’ra que a vida, sem pássaras, não se recubra de luto,

E toda e qualquer ornitóloga, que privações, decerto, passa,

Enfim, sempre cuide e dê de bom comer à sua pássara!…

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Edição 719 (08/06/2017)

Antonio Sarabia faleceu a 3 de Junho, em Lisboa

• António Alexandrino

Antonio Sarabia, escritor mexicano. Nasceu em 10 de Junho de 1944, na cidade de México. Estudou Ciências Técnicas da Informação na Universidade Ibero-americana. Quando começou a trabalhar, fê-lo dedicando-se ao jornalismo radiofónico e à publicidade.

Aos 72 anos, faleceu na madrugada do passado dia 3 de Junho, em Lisboa, cidade onde se encontrava radicado, há vários anos.

Os convidados do vulcão” e “A taberna da Índia” são os títulos mais emblemáticos escritos por Antonio Sarabia. Todavia, dir-se-á que se trata de um escritor de afirmação ‘tardia’. Com efeito, a sua primeira obra, “Tres pies al gato”, um livro de poemas, foi publicada em 1978, aos 34 anos. Porém, o seu interesse pela literatura e pela escrita remontava já à década anterior, tempo em que publicou diversos contos em revistas literárias mexicanas. Dada a sua apetência para singrar no campo da escrita literária, tomou a decisão, no final dos anos 70, de pôr de parte o mundo da publicidade e da rádio, para se dedicar inteiramente à literatura. Dos inícios da década de 80 até meados dos anos 90, viveu alternadamente em Paris e Guadalajara.

Com o seu primeiro romance, “El alba de la muerte”, mais tarde intitulado “Faixa de Moebius”, logrou ser finalista do prémio internacional ‘Diana-Novedades’, em 1988. Nos anos 90, começou por escrever “Amarilis” e “Los avatares del piojo”, mas havia de ser com “Os convidados do vulcão” (em 1996) que se consagraria como um dos grandes nomes da literatura mexicana. A ponto de a obra ser também traduzida para idiomas diversos, com assinalável sucesso. No mercado português, “O regresso do paladino” é um dos livros disponíveis de Sarabia.

Para além destas obras, publicou “El cielo a denteladas” (2001), “Acuerdate de mis ojos” (2003), e o livro de viagens “El refugio del fuego” (2004), em cooperação com o fotógrafo Daniel Mordzinski.

Pese embora o facto de o ritmo de publicação haver baixado significativamente nos últimos anos, escreveu “Los dos espejos” (2013) e, já este ano, lançou em França “La femme de tes rêves”, tradução de “No tienes pardon de Dios”, um romance policial.

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Causa nostra

• Carlos Paiva
• Foto: Ana Rosa

Será que como nós se contempla

Deus num espelho?

E logo Ele, assim tão velho,

Bem além dos poucos e oitenta

Com que morreu meu avô…

Quantos sulcos em seu rosto,

 

Pernas trôpegas, peles flácidas?…

Talvez Ele as eras passe-as

Sem consideração de Si próprio,

Seu existir mais não seja, afinal,

Que interminável solilóquio,

E com nada mais se rale…

 

Ah se Deus a Si se visse

No reflexo de Si análogo,

Talvez, enfim, se distraísse

Como quem folheia um catálogo

Na sala de espera de Si Mesmo

E o joga depois num cesto,

 

Entediado com o que viu…

Haverá, na Eternidade, fastio?…

Não terá Deus alter-ego

(Não carecerá de tal cúmplice),

Que tenho Ele não se concebe

Múltiplo, sequer dúplice…

 

Dar-lhe-ia eu como prenda

Espelho que O reflectisse!

Falar com quem nos entenda

Torna o tempo, de passar, menos triste,

E dias assim pesam menos

Entre céus, purgas, infernos…

 

Mas disso Deus não precisa,

Revê-se, afinal, no que cria

E, sendo assim, chegada a meia-tarde,

Quando o Divino amodorra,

É bem certo que se flagre

Contemplando a sua obra:

 

Diante de si, inteiro, se perfila

O Universo, tela inconclusa!

Por instantes, o olhar oscila,

Logo fixa, por fim se aguça –

Se é p’ra que a Si se veja,

Esse, sim, é espelho que sobeja!

 

Deus, cerimoniosamente, consulta,

Ante Si, essoutro rosto que avulta

Em tão polimorfo vidro,

E, na compleição que esquadrinha,

Mácula descobre, subitamente aturdido,

Que julgava que não tinha!…

 

Algo destoa, não é direito,

A obra, c’ o obreiro, se desconforma;

Tudo o que é humano, ei-lo

Distorção, desbote, assimetria de forma,

Parecença apenas porque se força,

E Deus tão feio… por causa nossa.

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Edição 718 (25/05/2017)

Facebook  –  Quem controla o que lemos no Facebook?

• António Alexandrino

Pergunte-se: qual o ‘tamanho’ do telemóvel? Inês Cardoso (Professora do 2º Ciclo) faz as seguintes observações, que poderemos considerar como resposta: “Se roubarem os livros a um miúdo, ninguém virá à escola… Se lhe roubarem o telemóvel, aparece logo o pai… ou a mãe e/ou alguém mais … Que adolescente sobrevive, hoje, sem um telemóvel?” Acrescentaremos nós que a esta problemática se adiciona o factor ‘modelo-moda’… e daí a comparação a pôr à prova pais, colegas da escola, professores, etc., etc. E daí ao ‘Facebook’ é um saltinho!

O Facebook está sediado em Menlo Park (Califórnia) e foi lançado a 4 de fevereiro de 2004 por Mark Zuckerberg. “O móvel e a realidade virtual são as grandes apostas da empresa”. Hoje, a rede social tem já mais de 1,09 mil milhões de utilizadores diários.

“Fragilidade do ambiente informativo” (Luís Santos – Universidade do Minho)

Em Portugal, segundo o Social Bakers, já existem mais de 5 milhões de utilizadores no Facebook. Paulo Querido, jornalista e consultor de novos media, entende que “a manipulação do algoritmo é fundamental para o utilizador e para a satisfação dos clientes que compram anúncios e geram receitas… A empresa não tem qualquer tipo de responsabilidade na sociedade, além do cumprimento das leis”. Por seu turno, Luís Santos, especialista em novos media na Universidade do Minho, salienta que o Facebook não tem uma estrutura editorial, o que “acrescenta fragilidade ao novo ambiente informativo”. O investigador da UM destaca o facto de os próprios algoritmos serem criados por pessoas, tornando falsa a questão da gestão não humana destes fluxos informativos: “O grande risco associado a esta intervenção reside no facto de se confiar cada vez mais numa única plataforma para recebermos os nossos conteúdos. As pessoas preferem entregar a sua atenção àquilo que o Facebook escolhe” – conclui P. Querido.

O que acontece no Facebook… não se fica pelo Facebook (Ivo Neto, jornalista)

O sentimento de impunidade parece ‘nortear’ o comportamento dos utilizadores das redes sociais, sendo o Facebook o expoente máximo. Entre os mais jovens, o exemplo mais recente é o da viagem de finalistas a Torremolinos. Vídeos mostrando quartos destruídos e televisores na banheira foram publicados pelos próprios alunos e até exibidos “com orgulho”. O problema veio depois, quando as imagens apareceram nos jornais e nas televisões. Com a mesma pressa com que chegaram à rede, assim de lá foram apagadas. Só que já era tarde para eliminar o seu rasto. Os vídeos e os prints proliferavam por todo o lado! Com efeito, “a pegada digital pode ser tão corrosiva como a de carbono”. Na Alemanha, um paramédico desenhou um bigode semelhante ao de Hitler na cara de um migrante inconsciente e partilhou o ‘feito’ com os seus colegas, tendo ainda solicitado aos amigos para não partilharem as imagens nas redes sociais, mas já não foi a tempo. Consequência: o despedimento.

No ‘Dia da Internet Segura’, a PSP alertou para as cautelas relativamente àquilo que se partilha nas redes. A sensação de impunidade no universo digital é aparente, bastando um print para eternizar uma simples falha. A linha que separa o digital do real é cada vez mais curta. E, se não desatamos a insultar quem passa na rua, esse cuidado deve ser transportado para as caixas de comentários das redes sociais. Na rede, todos são inocentes… até que um simples print prove o contrário.

 

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Ode ao fala-barato

• Carlos Paiva / • Foto: Hugo Carvalhal

‘Ó p’ra mim c’o meu Tablet!…’

Usa-o, consta, inclusive na retrete,

Onde googla, encostado ao lavabo:

“Como limpar bem o rabo…”

Nisto, tem saber em alto grau,

É tal qual o bacalhau:

Há 1001 formas de fazê-lo.

Rabo asseado, com ou sem pelo,

É motivo de muito orgulho,

Embora por ali saia o entulho

Que o nosso organismo produz…

Mas, enfim, na hierarquia dos cus

Tem posição mais altaneira

Esse órgão fazedor de cagamerdeira,

Tão gerador de catarse,

Que é a sua boquinha faladeira!

Bem que podia calar-se,

Mas… não há maneira!

 

Carlos Paiva

 

 

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Edição 717 (11/05/2017)

Francisco: Papa do povo, um Papa revolucionário?

• António Alexandrino

Jorge Mario Bergoglio é o nome ‘civil’ do Papa Francisco (o ‘Papa Chico’, como amistosamente é designado, em sectores da gente jovem). Nascido em Buenos Aires, de pais migrantes oriundos de Itália, foi um jovem como tantos outros. Gostava de futebol, de tango (dançador exímio, ao que é dito) e tinha um ‘fraquinho’ por mulheres, tendo chegado a ‘pedir a mão’ de Amalia Damonte, quando ambos tinham 12 anos…

À data em que damos corpo a estas linhas, já muito se tem falado e escrito (e irá continuar) de Francisco e de Fátima. A religião cristã (leia-se: ‘católica’) aí está muito presente no espaço público. Diz-se que Francisco é “muito mediático”, factor que poderá contribuir, sobremaneira, para mudanças que se impõem, para que as pessoas com fé se sintam «integradas na Igreja que os homens constroem» (Felisbela Lopes).

Eis-nos a menos de uma semana para o 13 de Maio que, este ano, assume em Fátima uma outra dimensão com as cerimónias do “Centenário das Aparições/Visões” (??) e a visita do Papa Francisco. Os media têm vindo a congeminar diferentes ângulos, para falar daquilo a que os mediólogos Daniel Dayan e Elihu Katz apelidaram de “eventos mediáticos”, isto é, grandes acontecimentos que atingem um volume ainda maior, devido à mediatização que sempre e inevitavelmente os acompanha. Assim será em Fátima (qual delas, se há ‘várias Fátimas’?!), onde Bergoglio vai ser aclamado. Com emoção.

Mas estará este Papa a fazer mesmo uma revolução?

Ao longo dos anos, os papas têm tornado o centro um “lugar nómada”. Foi deste modo com João Paulo II; depois, um pouco menos com Bento XVI e agora bem mais com o Papa Francisco. É inegável que os líderes da Igreja católica romana têm uma enorme capacidade para arrastar consigo multidões, movidas por uma fé que as viagens papais potenciam e acentuam, mormente quando essas deslocações se fazem pelo estrangeiro. Aí, actores sociais e os media ‘unem-se’ para “fazer crescer” a expectativa da visita. É ‘normal’ que assim seja. No entanto, também dentro de portas, Francisco tem uma assinalável popularidade, inclusive, junto de pessoas que se confessam ‘não crentes’. Ainda recentemente o site italiano Linkiesta acentuava a diferença entre a participação dos italianos nas cerimónias dos 60 anos do Tratado de Roma e na peregrinação que o Papa fez nesse fim de semana a Milão. Os jornalistas relevaram «a multidão monstruosa» que seguiu o Pontífice e «o número ridículo de participantes» que celebrou o acto fundador da União Europeia»!

Não se pense, todavia, que Francisco é unânime. Tal seria uma ingenuidade! Não o é, designadamente, nos sectores mais conservadores da Igreja, que não lhe poupam ásperas críticas. Cartazes de origem anónima foram difundidos por Roma, no início deste ano, com fortes críticas ao Papa, neles sobressaindo uma pergunta, sarcástica: «Onde está a tua misericórdia?». O Vaticano entendeu bem a mensagem – estava ali a resposta à ‘ousadia’ que o Pontífice manifestara, quando pôs em causa o poder da Ordem de Malta e dos Franciscanos da Imaculada ou quando arriscou “ignorar certos cardeais”. A voz da tradição vai fazendo passar, em surdina, a ideia de que a renúncia do Papa não é para colocar de lado, quando há já o precedente do seu antecessor, Bento XVI. A pressão é máxima à volta da Praça de S. Pedro, apesar de a hierarquia mais corrosiva da Igreja não ter a coragem de assumir o complot

Francisco vai gerindo a oposição que encontra a cada passo, beneficiando de um “ambiente mediático” muito propício à sua mensagem. Nesta conformidade, o Papa, ao longo destes quatro anos de pontificado, tem conseguido fazer passar uma generalizada sensação de que existe uma “revolução em curso”. Recentemente, a revista “Courrier Internacionale” concede-lhe largo destaque, afirmando, em extenso dossier, que estamos face ao único líder mundial próximo do povo, arriscando um discurso anticapitalista que confere centralidade àqueles que foram empurrados para as bordas da sociedade. Num tempo em que «a Esquerda laica se revela incapaz de reabilitar esses deserdados», a posição de Bergoglio é de contracorrente, e popular. Todavia, há uma reforma que aguarda a sua vez: a dos dogmas da Igreja.

Na verdade, o Papa Francisco tem no acolhimento de todos uma preocupação presente em cada discurso, mas a Igreja continua a guardar para si alguns “tabus de estimação”, ao não reconhecer, entre outros: a comunhão aos divorciados, os métodos contraceptivos, a ordenação de mulheres, ou as crianças fora do casamento… limitações demasiadas para uma religião que tem continuado a fechar a porta a pessoas com fé. Essa gente viu no Papa Francisco uma oportunidade de esperança. Só que… o seu poder é limitado, perante um Vaticano estruturalmente aziago a «mudanças e com regras que parecem fossilizadas há séculos».

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Pele de Papel

• Carlos Paiva / • Foto: Hugo Carvalhal

Pele mais não é

do que folha de papel, assim se diga:

Uma vez concebida,

é perfeita e é lisa,

E vai daí o tempo, que a tudo

e a todos fustiga,

Enruga a folha, que logo é pó,

logo é cinza…

Sei que há quem nessa folha escreva

sem respeitar margens,

E outros há a cuja escrita

nada se possa apontar.

Disto, pouco percebo.

Uns e outros, lá terão suas vantagens;

Sei lá, se até há quem dela faça um avião,

só para poder voar…

E outros, que a usam

tão-somente p’ra rabiscos?…

P’ra eles, é simples folha de rascunho

e nada mais.

Diante dos nossos olhos,

a folha é senão emaranhado de riscos –

Parece querer dizer tempestade,

mas ansiando por um cais…

Eu, nela, escrevo de tudo:

páginas de tristeza e de alegria.

Há frases que me saem lapidares,

outras, deixo-as a meio…

Deus censura-me a sintaxe,

não me pode co’ a ortografia,

Diz-me que antes que asneire mais,

tenho de aprender primeiro

A não dar os mesmos erros…

Não Lhe vou na conversa.

Torno-Lhe que quando escrevo

escrevo com todo o zelo,

Só que às vezes falta-me o tempo,

escrevo à pressa.

Se desse p’ra rever o texto,

como não quisera eu fazê-lo…

Mas como o que está escrito está escrito

e não dá p’ra corrigir,

Talvez, quem sabe, reprove afinal

neste exame tão cruel…

Pode ser que Deus, em tempo

‘inda por escrever, ‘inda por vir,

Ignore quanto errei e me dê, p’ra viver,

outra folha de pa-pele!…

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Edição 716 (27/04/2017)

Faleceu Maria Helena da Rocha Pereira – Portugal perdeu a sua maior autoridade dos Estudos Clássicos

• António Alexandrino

Aos 91 anos, faleceu, no Porto, onde residia, Maria Helena da Rocha Pereira. Era a mais respeitada especialista e pioneira em Estudos Clássicos e foi a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra (1956), grau que, à época, era uma exclusividade dos homens. Oito anos depois, tornou-se a primeira mulher a ser professora catedrática da mesma instituição, o que, de acordo com o Reitor (João Gabriel Silva) «no seu tempo era um enorme desafio». Aí leccionou até 1995, tendo  granjeado um prestígio que, como diz João Gabriel Silva, a coloca entre os «grandes vultos do século XX na Universidade de Coimbra». Enfim, a Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira é uma referência. Uma referência notável!

Segundo o helenista Frederico Lourenço, «Foi a pessoa que mais contribuiu para o desenvolvimento dos Estudos Clássicos em Portugal, formando gerações de alunos… em Coimbra e outros à distância», sob o signo de «um extraordinário exemplo de rigor científico, de objectividade histórica, de seriedade académica». Por seu lado, a Academia das Ciências de Lisboa, de que era sócia emérita na Classe de Letras, definiu-a como «autoridade mundial em estudos sobre a Cultura Clássica Greco-Latina», destacando que, «até à sua aposentação (1995), dirigiu centenas de dissertações de mestrado e teses de doutoramento».

Nascida no Porto, em 1925, Maria Helena da Rocha Pereira aprendeu a ler aos quatro anos. O seu pai “gostava muito das coisas latinas e dizia versos da Eneida de cor”, como Helena confidenciou à comunicação social, em devido tempo. Contrariando tudo o que se esperava de uma jovem da sua condição naquela época, Maria Helena licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra (1947), de onde saiu para dar aulas de Latim e Grego Antigo no Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Porto. A devoção incondicional aos estudos fez com que abdicasse de se casar e ter filhos. Em 1950, prosseguiu os estudos entre Coimbra e Inglaterra (Oxford), onde teve como professores grandes especialistas, nomeadamente, eruditos alemães, fugidos ao nazismo.

Entre os mais de 300 livros e artigos que publicou, encontram-se os ‘obrigatórios’ “Estudos de História da Cultura Clássica” (dois volumes editados pela F.C. Gulbenkian) e os dois volumes de antologias de textos gregos (Hélade) e de textos latinos (Romana). Rocha Pereira traduziu para português obras de diversos autores latinos e gregos (entre eles, Platão e Eurípides). No entanto, além de se dedicar aos clássicos propriamente, estudou também a sua influência na literatura portuguesa. Em “Portugal e a Herança Clássica e Outros Textos” (Ed. ASA), analisou a esta luz as obras de autores nacionais, desde os quinhentistas Camões e António Ferreira (autor de A Castro), até escritores do século XX, como Miguel Torga, José Gomes Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade. Em 2009, é-lhe atribuído o doutoramento Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa. Foi galardoada com vários prémios, a saber: o Troféu Latino (da União Latina); o Prémio Universidade de Coimbra (2006); o Grande Prémio Vida Literária, pela Associação Portuguesa de Escritores (2010).

À guisa de poslúdio, entendo oportuno aditar algumas notas. Maria Helena da Rocha Pereira suscitava da parte dos seus alunos um respeito e admiração indeléveis. “Mestra por excelência”. Tive a honra de ser seu aluno, quando Cursava Filologia Clássica na Universidade de Coimbra. No entanto, a obra que nos lega vai fazer perdurar o seu nome, resistindo à erosão voraz e indeclinável de Saturno (deus do Tempo), na senda do poeta Horácio (65-8 a.C.):

«Exegi monumentum aere perennius / Regalique situ pyramidum altius, / Quod non imber edax, non Aquilo impotens / Possit diruere aut innumerabilis / Annorum series et fuga temporum. / Non omnis moriar multaque pars mei / Vitabit Libitinam…»

“Erigi monumento mais duradouro do que o bronze, / e mais alto do que as decaídas, régias Pirâmides, / que nem a chuva voraz, nem o Aquilão (vento norte), impotente, / poderão destruir, nem dos anos a incontável / sucessão e a passagem dos tempos. / Não morrerei de todo, e de mim a maior parte / escapará a Libitina (deusa das exéquias, a morte)…”

Horácio, “Odes” III, 30 – Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.


Sonho de uma noite de Abril

• Carlos Paiva / • Foto: Ana Rosa

Sonhos como este devem ser menos que um em mil:

O calendário, na parede escalavrada, acusava 25 de Abril,

E havia nas ruas como que o ruído

De grito de um povo oprimido.

Vim espreitar à janela, curioso, inquisitivo,

Mas, no pavimento, nem um, sequer, ser vivo…

Que estranha ilusão em mim se produzia

Àquela incipiente hora do dia.

Lá fora, o silêncio sobre tudo,

E, dentro de mim, um estertor surdo,

Um rugido insubmisso, uma vozearia

Desde o Terreiro à Mouraria,

Obra de milhão e outros tantos.

O ano é 3000 e não sei quantos,

Os números diluem-se-me na retina,

Parece-me ver alguém à esquina,

Mas não, enganei-me. O crepúsculo

Atiça em mim qualquer músculo

Susceptível ao humano

E torna-se irrelevante o ano;

Só o dia e o mês

Ressoam a qualquer coisa, ainda, de português.

Pelas sete, há, como insectos,

Gente a emergir dos becos,

E o zumbido que o ar vergasta

Vai desde ali até à Praça,

Multidão que quase se atropela, incauta,

Movida por não sei que flauta.

Por qualquer rua ou viela,

A multidão é mar que encapela

Ou rio que serpenteia em S,

Desagua, em pleno estuário, e desaparece…

Que estranha forma de vida

É ser corrente diluída,

Gota que noutra se imiscui,

Um ser que se liquefaz e dilui,

E, dentro de mim, abissal,

A consciência de um Portugal

Que a luz diurna pulveriza,

No sonho, apenas, se concretiza,

É só pó de relicário,

Folha mil vezes caída, ainda, do calendário,

Um canto chão e varonil

E ainda à espera de ser… Abril.

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Edição 715 (13/04/2017)

Cogumelos/fungos – distância curta entre «tão amigos» e… «fatais»

• António Alexandrino

Os fungos estão em toda a parte. Alguns até são comestíveis. Todos os dias, a todo o momento, por eles somos beneficiados ou prejudicados.

É grande a abundância e a variedade de cogumelos comestíveis. ‘Como diz o outro’, até se pode admitir que todos são comestíveis, embora alguns o sejam apenas uma vez…! Frescos, secos, em conserva, congelados, podem ser cozinhados de formas diversas, como entrada, sopa, prato principal ou sobremesa.

Os fungos poderão vir a ser uma componente de embalagens biodegradáveis. A ideia foi apresentada, no final do ano passado, por investigadores da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), a partir de um compósito de origem natural – o “polímero verde”. O projecto foi, inclusive, já premiado.

A existência de cogumelos venenosos, alergénicos e alucinogénios é muito comum e conhecida desde tempos remotos. Registos dos mais antigos de fungos são estatuetas representativas de cogumelos que datam de 300 a 200 a. C. Especialistas defendem que os fungos terão uma antiguidade de 360 milhões de anos.

No ano 2000, foi encontrado, numa Floresta do Estado americano do Oregon, o maior fungo do Mundo. É um tipo específico de fungo – o Armillaria. Mede 3,8 km de comprimento, um megafungo que terá 2300 anos. Devido à sua cor amarelada, foi apelidado de “cogumelo-mel”.

Um produto português, único no Mundo (um fungicida orgânico, à base de proteínas, produzido a partir da semente germinada do tremoceiro), é produzido numa fábrica de Cantanhede. O produto é exportado para os Estados Unidos da América e é usado para proteger videiras, morangos, tomates e amêndoas contra fungos.

“Amigo do pão e dos doces”, o fungo do género Saccharomyces é muito usado no processo de fermentação de massas de pães, biscoitos, bolos e tortas. O gás carbónico libertado durante a fermentação faz com que as massas cresçam.

Diferentes tipos de fungos são os que se encontram na natureza. Dir-se-á que em escassos centímetros da pele da nossa mão poderão ‘residir’ alguns milhares. Há-os prejudiciais para a saúde humana, há-os que são utlizados como alimentos e até aqueles a partir dos quais se podem extrair substâncias para a elaboração de medicamentos (caso da penicilina), ou os que servem para fermentação da cerveja.

«Os fungos são muito mais próximos de nós do que as bactérias. Felizmente nós temos um sistema imunológico extraordinário» – afirma Ricardo Boavida Ferreira, professor catedrático do Instituto Superior de Agronomia.

Na prática, os fungos estão em toda a parte, sendo o vento um dos seus mais importantes condutores. Encontram-se no solo, na água, em animais, nos vegetais, no homem e em detritos em geral. Podem ser microscópicos ou atingir um tamanho considerável, como deixámos já referido.

Sem que nos apercebamos, somos diariamente beneficiados ou prejudicados directa ou indirectamente pelos fungos. «O ser humano ingere, todos os dias, centenas de esporos. O que vale é que temos umas defesas excelentes», como refere Ricardo Boavida Ferreira.

De acordo com os especialistas, há milhões de espécies de fungos que habitam o nosso planeta. Cogumelos, leveduras, bolores, mofos, por exemplo, são utlizados na culinária. Outros podem ser usados como medicamento. Actualmente, são conhecidos cerca de 73 mil espécies de fungos, apesar de os especialistas acreditarem que possam cifrar-se em 1,5 milhões de espécies!

«Uma grande variedade de fungos pode infectar-nos, provocando irritações superficiais na pele e infecções mais graves que podem envolver os músculos, ossos e órgãos internos. Algumas destas doenças podem ser fatais, especialmente para pessoas com o sistema imunitário debilitado», salienta Ricardo Boavida Ferreira.

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Sexta Santa

• Carlos Paiva

Cristo, amanhã é Sexta-Feira, dia sagrado,

Mas eu tenho um desejo em mim guardado

Que tu, com certeza, muito apreciarás:

Não terás que suportar Judas ou Barrabás,

Mas só e apenas – e escuta o que te digo –

Trocares, por favor, de lugar comigo,

Porque, não sei, mas soa-me que crucifixão

É preferível a viver, assim, nesta nação…

Sei que enfrentaste a cruz sem medo,

Mas tu tinhas Pilatos, e eu tive Pedro,

E os seus Passos não foram os da Paixão,

Mas sim os não sei quantos Passos da Desilusão!

Entre o seu feitio e o de Judas, haverá certas comunhões,

Embora aquele nos tenha vendido aos milhões,

E este, coitado, vendeu-te por uma bagatela,

Tanto que, arrependido, se dependurou pela goela.

Estás a ver, Cristo, como ficas a ganhar?

Eu, se fosse a ti, trocava já de lugar!

Olha que se não é parecida, é quase a mesma

Esta situação a que uns chamam Quaresma,

Porque eu também sofri longa, extrema penitência,

Designada, ao que sei, por Programa de Assistência,

E se por 40 dias, 40 noites jejuaste pelo deserto,

Eu jejuarei ainda por 40 anos, é o mais certo,

A sonhar com esse tempo dos contos de réis…

Olha que assim conquistas mais fiéis.

Olha para mim: o meu ventre já não sangra,

Mas, como tu, também ando de tanga,

E já sofri, na pele, chicotadas dolorosas,

Como quando o banco avançou c’ as penhoras

E o senhorio pediu renda de não sei que mês…

Meu sacrifício sobrepuja o teu, como vês,

E não transmitirá tanta dor teu sudário

Como a que exprimo ao ver minha folha de salário!

Oh!, não fiques aí assim, de braços abertos, moribundo,

Desce daí e toma o meu lugar neste mundo!

Talvez Deus me tenha abandonado, por que razão não sei –

Terá sido algum imposto que não paguei?!

Algum subsídio de que eu não prescindi?!…

Cristo, por favor, troca comigo, eu estou aqui,

Caído, de esperança já não tenho sequer um pingo…

Ahn?, o que dizes? OK, está bem. Falamos então no Domingo…

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RÁDIO LAFÕES

• Lurdes Maravilha (2017)

Rádio Lafões é uma estação

Em S. Pedro do Sul Situada

Que põe toda esta região

Ao par das notícias sem pagar nada

 

Sintonize o seu aparelho em 93.0 usando

O ponteiro que gira no mostrador

Terá à sua escolha o som com o comando

Adaptado ao som que quer pôr

 

Das notícias às músicas bonitas

Novas e do tempo dos nossos avós

Uma estação a levar-nos as mais pedidas

Convosco, nunca estamos sós

 

Ligados em directo a Rádio Lafões

Põe os seus ouvintes a par do que se está a passar

Em todas as distâncias e direcções

Mesmo no seu PC basta aprender a sintonizar

 

Graciosamente Rádio Lafões poderá ouvir

Faça dela a sua preferida estação

Ela percorre o mundo em canais para servir

Todos quantos têm um receptor à sua mão

 

“Mais alto e mais além”

Um programa de Fernando Morgado

Leva a poesia com ventos de bem

A cada coração a voz de um fado

 

Parabéns a quem com amores e carinhos

Aos microfones lhe emprestam a sua voz

Os ouvintes pagam com abraços e beijinhos

Vós sois o despertador da sentinela para todos nós

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Edição 714 (23/03/2017)

CUBO MÁGICO – «dos movimentos ao raciocínio lógico»

• António Alexandrino

O ‘cubo mágico’, ou ‘cubo de Rubik’, pode ser resolvido até por uma criança de três anos! Invenção do professor de arquitectura húngaro Ernö Rubik, em 1974, o cubo mágico vem gerando nos utilizadores tantas frustrações como paixões, pela dificuldade em pô-lo na posição original, depois de baralhado. Tem vindo a ser inspiração para muitos outros puzzles, das mais variadas formas e tamanhos.

A marca de 4.73/segundos constitui o recorde do Mundo de resolução do cubo mágico numa posição aleatória. Há quem o consiga resolver de olhos vendados (depois de o memorizar), debaixo de água, com os pés ou com uma só mão…

O cubo de Rubik foi ‘estrela’ nos anos 80 e início de 90. Perdeu popularidade, mas continua vivo – mundo fora, todos os fins de semana, há competições de resolução do vulgarmente denominado “cubo mágico”, regulamentadas pela World Cube Association (WCA). Também Portugal tem os seus entusiastas que se têm reunido em competição, aberta ao público, no Exploratório – Centro Ciência Viva de Coimbra.

O puzzle tridimensional com seis faces (cada qual com nove autocolantes coloridos, que se baralha e fica resolvido quando as faces atingem uma só cor), está conotado com uma inteligência superior. No entanto, isso é mito, garante o professor de informática e representante nacional da WCA, António Gomes: «Com motivação e prática, é possível resolver o cubo em qualquer idade. Até uma criança de três anos consegue. Só é preciso aprender o método, treinar e mexer o cérebro». Não há receita, previne António Gomes. «Cada embaralhamento é resolvido de forma intuitiva», e são tantas as maneiras de baralhar o cubo de Rubik, que uma vida não chegaria para as resolver todas. Todavia, há passos a seguir e é necessário entender a mecânica do objecto. Ensinar algumas regras e soluções matemáticas para alinhar todas as cores do cubo é justamente o que tem vindo a fazer, num ateliê de quatro sessões de uma hora no Exploratório de Coimbra, com acesso a crianças até 12 anos, a jovens a partir dos 13  e adultos. A adesão é um facto – «São momentos a menos em que está agarrado ao computador, ao telemóvel ou à televisão», diz Sónia, mãe do Bernardo, de 9 anos. «É uma forma de os retirar da frente dos ecrãs», entende António Gomes.

Praticar a resolução do cubo de Rubik, objecto lúdico que também «nos põe a pensar», tem várias vantagens, segundo o representante nacional da WCA. Não só estimula a motricidade ‘fina’ (movimentos de precisão), sobretudo na juventude, como o raciocínio lógico/matemático e a capacidade de abstracção. Além disso, exercita a memória e a concentração e potencia a tomada de decisões rápidas.

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Amor matarruano

• Carlos Paiva

O Amor é esta coisa que acontece

Quando nos falta o gasoil, avaria o GPS,

E andamos perdidos pelos montes,

Desbravando insuspeitos horizontes…

Olha se não me tem secado o motor,

Não te teria encontrado, meu Amor,

Quando parei junto a ti, tão menina,

E perguntei onde umas bombas de gasolina…

E tu, cujo cabelo era como lã de ovelhas,

Ficaste c’as bochechas tremendamente vermelhas,

E disseste-me, c’o teu sotaque montanhês,

Que por ali não havia nem GALPes nem BêPês,

E que o meu rocinante ia morrer à sede…

E p’ra meu azar, não havia por ali rede,

E p’ra onde quer que olhasse

Era garantido que a paisagem não mudasse…

A gente perde-se, sim, mas é p’ra se encontrar,

E por isso me convidaste a sentar,

Repartiste a tua broa de milho, rija que nem cornos

E com uns bolores azuis, decerto bónus,

Porque já te renderas a todo o meu encanto…

Ai Deus, que eu me perca aqui para o ano,

Pois não há Amor como o Amor matarruano…

Foto: Hugo Carvalhal

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Edição 713 (09/03/2017)

Des/Acordo Ortográfico – o recrudescimento da polémica, com proposta da Academia de Ciências de Lisboa, apontando no sentido do regresso de acentos, consoantes mudas e do hífen

• António Alexandrino

Pára<>para; pôr<>por; braço-de-ferro<>braço de ferro… Enfim, usando uma palavra tão ao gosto do nosso saudoso Jaime Gralheiro, «peregrina» por aí um autêntico cafarnaum, qual Torre de Babel! O exemplo ‘cá da casa’(entenda-se: ‘Gazeta da Beira’) também dá para tudo… cada qual escreve como lhe “dá na gana”! Diremos que tal panorama não serve, nem ‘se recomenda’… À boa maneira lusitana, damo-nos bem com a indefinição…com os tão nossos e tão ‘brandos costumes’…!

Vem isto a propósito do “documento de aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico de 1990” (AO90), recentemente aprovado pelo Academia de Ciências de Lisboa. Documento esse recebido pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) “com satisfação”, face ao carácter «por vezes ambíguo, omisso e lacunar» do AO em questão. Aí se propõe o regresso das consoantes mudas, do acento gráfico e do circunflexo, assim como do hífen, entretanto desaparecidos, e muito contestados por diversos sectores da sociedade. Foi a citada recomendação aprovada por 18 votos, e apenas 5 votos contra.

O estudo apela no sentido do regresso das consoantes mudas em palavras como “recepção” e “espectador”, isto é, nos casos em que geram uma concordância absoluta de sons (homofonia) que podem levar à “ambiguidade”. Deve ‘regressar’ o acento agudo em palavras com pronúncia e grafia iguais (homógrafas). Exemplos: “pára”, forma do verbo “parar”, que se confunde com a preposição “para”; “péla”, nome e forma do verbo “pelar” que se confunde com “pela” (preposição “por” em contracção com “a”).

É também recomendado que regresse o acento circunflexo em vários vocábulos homógrafos de outros. É o caso do verbo “pôr”, para evitar a confusão com a preposição “por”.

Defende-se, no citado estudo, o emprego do acento circunflexo “nas flexões em que a vogal tónica fechada é homógrafa de outra flexão da mesma palavra”. Exemplos: “pôde”, forma do perfeito do indicativo do verbo “poder”, para se distinguir de “pode”, forma do mesmo verbo no presente do indicativo; “dêmos”, presente do conjuntivo do verbo “dar”, para se distinguir de “demos”, perfeito do indicativo do verbo.

Igualmente é recomendado o uso do acento circunflexo para as terceiras pessoas do plural do presente do indicativo. Exemplos: “vêem”, “crêem”, “lêem” ou do conjuntivo, como “dêem” dos verbos “ver”, “crer”, “ler”, “dar”.

Defende aquele estudo a acentuação gráfica, na terminação verbal “-ámos”, relativa ao perfeito do indicativo dos verbos da 1ª conjugação (todos os que terminam em “-ar”).

Relativamente às consoantes mudas, em casos de concordância absoluta de sons (homofonia), a Academia sugere os vocábulos “aceção”, que pode confundir-se com “acessão” (consentimento); “corrector”, que pode confundir-se com “corretor” (intermediário); “óptica” que poderá confundir-se com “ótica” (audição); “espectador”, diferente de “espetador” (o que espeta). Mantém-se também quando a consoante muda «tem valor significativo, etimológico e diacrítico. Exemplos: “conectar”, “decepcionado”, “interceptar”».

A propósito do hífen, por «clareza gráfica», recomenda-se o seu emprego quando os elementos dos compostos, com a sua acentuação própria, não mantêm, se considerados isoladamente, a respectiva significação, isto é, quando «o sentido da unidade não se deduz a partir dos elementos que a formam».

O referido documento está disponível na Internet, em http:/ /voc.cplp.org.

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Escaleira

Essa escaleira,

Umas vezes limpa, outras imunda,

Conta histórias de tudo

Quanto a circunda:

Homens e mulheres,

Anónimos entre tantos;

E cães e gatos,

Espreguiçando-se, lânguidos,

Sobre ela,

Quando o sol a chicoteia –

Indiferentes, todos,

À vida que passa alheia,

Fazendo, dessa escaleira,

Qual majestoso sólio…

Pudera, porém,

Ser um quase nada de espólio,

Pois que, ao passar, todos,

Enfim, a pisam,

E nessa obstinada pressa

Mal a divisam,

Ali, subjugada a seus pés,

Liminarmente esquecida,

Ela pouco mais

Do que matéria empedernida…

Mas isso que importa?

Assim a não vejo.

Olho-a, sim, mas c’ o olhar

Do meu desejo,

Pois que todos os dias,

Mal o sol fenece,

Um deus, algures, escuta

E atende a minha prece,

E já tudo se transfigura,

Tudo aí é quimera:

É nessa escaleira, a fim do dia,

Que o meu Amor me espera…

Texto: Carlos Paiva
Foto: Ana Rosa


Edição 712 (23/02/2017)

JOSÉ AFONSO – Trinta anos após: a sua vida, a sua obra, o seu exemplo

• António Alexandrino

Hoje, 5ª Feira, 23 de Fevereiro, passam 30 anos, desde o dia em que José Afonso nos deixou. A data é um pretexto para homenagem a José Afonso, poeta e cantor, sendo recordado com iniciativas diversas, em todo o país e na Galiza, que sempre lhe guardou um carinho e um respeito muito especiais. Para Paulo Esperança, vice-presidente da Associação José Afonso (AJA) compete não propriamente «celebrar a morte» do Zeca, mas sim «celebrar a sua vida, a sua obra e o seu exemplo cívico

Em destaque, múltiplas actividades. Assim, em Faro teve lugar o primeiro dos “30 anos, 30 concertos” organizados pela AJA. Aí ‘compareceram’ Mafalda Murta, Afonso Dias, Luís Galrito, a Orquestra Clássica do Sul e outros nomes, alguns dos quais ‘romperam as sandálias’ acompanhando as andanças dos “Cantares do Andarilho”: Rui Pato, Francisco Fanhais, Manuel Freire. Em Aveiro, o Auditório da Associação Mercado Negro apresentará o documentário “Não me obriguem a vir para a rua gritar, de João Pedro Moreira. Em Lisboa, na sede da AJA, terá lugar o recital “José Afonso e as palavras”, com a poetisa e actriz Júlia Lello e Marta Ramos a interpretar algumas das canções do Zeca. Em Braga, o Conservatório Gulbenkian  recebe um tributo com o grupo Canto d’Aqui, Artur Caldeira, Ana Ribeiro e Uxia. O livro “Escritas do Maio – escrever com José Afonso”, de Miguel Gouveia, vai ser reeditado; obra vocacionada para os estudantes mais novos, designadamente, os do 1º ciclo, propõe exercícios de escrita poética. No âmbito da música, também terá lugar uma reedição: o disco “Galiza a José Afonso”, que reúne a gravação de um concerto de homenagem ao cantor, no decurso de um espectáculo, em Vigo, em Maio de 1985, com a participação de vários artistas portugueses e galegos.

José Afonso marcou a história da música portuguesa, por diversas razões. É a amiúde recordado como, de uma forma um tanto redutora, “cantor de intervenção”. Sem deixar de o ser, «José Afonso é muito mais do que isso», no dizer de Paulo Esperança, ciente de que «durante anos tentou colar-se a José Afonso o rótulo de cantor de intervenção ou cantor da revolução». Para a AJA, este artista deu muito mais do que isso, devendo ser «analisado na sua globalidade», sem o confinar à ‘Grândola’ ou aos ‘Vampiros’, porquanto o autor «tem canções de amor lindíssimas e a grande parte da obra musical do Zeca nem sequer tem a ver com aquilo que as pessoas normalmente consideram canção revolucionária».

O vice-presidente da AJA sente que a obra de José Afonso tem vindo a encontrar eco na gente mais nova e elogia a nova geração de artistas que assumem essa influência e demonstram o seu apreço pelo autor de “Cantigas do Maio”. Grande parte da herança da obra manifesta-se, quantas das vezes, por músicos mais anónimos em pequenos espaços, um pouco por todo o país.

No entanto, Paulo Esperança entende que mais ainda há a fazer no sentido de as novas gerações reconhecerem a importância do autor de “Grândola Vila Morena”. «O ensino oficial devia prestar mais atenção ao José Afonso, não só na vertente musical, mas também poética», reconhecendo entretanto que tal depende também «da sensibilidade dos professores…»

 


Requiem por um amigo

• Carlos Paiva

Oh mas que fim de vida,

Mas que desgraça,

De um artista suicida

Darem nome a esta praça!…

‘Inda por cima,

Prá miséria não ser escassa,

Ao fim de uma avenida

Onde quase ninguém passa…

Quem diria coisas tais?

E logo tu, irmão dilecto,

Que além do mais

Foste também arquitecto…

Ah tanto monumento, prédio, casa,

E ser tua morada

Uma simples campa rasa,

Sem direito sequer a lápide…

 

Mas, no meio disto,

Houve quem quisesse

Saber de ti, amigo artista.

Assim a turba não esquece

Que foste alguém,

Que exististe…

Penso longamente nisto; porém

Não deixa de ser triste

Que tenham escolhido

Sítio tão fora de mão.

Mais valera ser esquecido –

Excomungado… porque não?

Pergunto-me como terás ido.

Foi da Ponte Salazar?

Ou porventura c’ um tiro,

Que era p’ra ser pró ar

E acertou-te, em cheio, no crânio…?

Isso agora não importa,

Já foi há tanto ano,

E se há de ti memória

É por causa desta placa,

Erguida a meio da praça.

Confunde-se c’ uma estaca,

Só o mais atento repara

E se dá ao trabalho

De ler teu nome, duas datas,

Além do pouco mais detalhe

Nas expressões ali gravadas:

Basicamente, o que foste,

Ou melhor, o que fizeste.

Fosse como fosse,

Um esforço inconsequente –

 

Sob o tecto dos teus projectos,

Delineados p’ra ser lar,

Vivem, agora, seres obscenos.

Comer, beber e fornicar

É tudo o que ali fazem,

E pouco mais, to garanto.

Não é provável que parem

E olhem, com todo espanto,

Prá perfeição do espaço

Que concebeste no estirador.

Gratidão? É um bem tão escasso.

‘Inda se tivesses sido cantor…

E os teus quadros? Expostos

Nalguma galeria soturna,

À mercê de dúbios gostos,

Não terão melhor fortuna…

Olha, não to queria dizer

(Já não te basta a tua dor),

Mas quem lá vai, após ver,

Diz-se capaz de melhor….

Só eu me compadeço,

Aprecio, verdadeiramente, a tua arte.

Estive lá a ver preço;

Confesso: nalguns casos, um disparate!

Mas acredita, amigo: se tivesse pilim,

Comprava-os todos, de rajada!

Seria menos triste o teu fim,

Nesta praça abandonada…

Até o meu cão,

Que aqui vim passear,

Contempla, com comoção,

Tua placa (onde acaba de urinar).

 

Ai!, como se adiantou a hora!

Distraí-me mais que o devido.

Desculpa, mas tenho de ir embora,

Perdoa-me, caro amigo.

É que estão à minha espera

Em casa, para jantar.

Amanhã, volto co’ a fera.

Se quiseres, entretanto, falar…

E desculpa, se neste longo rosário

Me estendi. Mas prometo:

Chegando a casa, vou ver, no dicionário,

Se foste alguém de jeito,

Ou se gastei o meu latim

Inutilmente. Mas não importa, comparsa,

Eu terei sempre razão: o teu fim,

Estava escrito, era morrer sem graça…


Catarina Rocha

Catarina Rocha, natural de Viseu, já é um nome conhecido no panorama musical português, pois iniciou a sua carreira no fado em 2012, depois de ter terminado os seus estudos (mestrado em Turismo e Desenvolvimento de Negócios, no Porto). Desde 2012, a artista tem feito espetáculos pelo país.

“Novo Mar”, single que anuncia o seu álbum de estreia, é um tema cheio de alegria que fala de um amor marinheiro que andou pelo mundo, mas voltou para ficar; com letra de Fernando Gomes dos Santos e música de Valter Rolo.

“Este álbum é a «minha cara», queria muito que o disco tivesse o meu estilo, os arranjos são muito atuais, e os poemas dizem exatamente o que me vai na alma” – explica a cantora.

O álbum “Luz”, foi produzido por Diogo Clemente (que tem produzido para grande nomes do fado – Carminho, Mariza, Raquel Tavares).

“Luz”, é composto por 10 temas, e contou com a participação de músicos de renome no Fado: Guilherme Banza (guitarra portuguesa), Marino de Freitas (baixo), Vicky Marques (percussão), Diogo Clemente (viola clássica) e Valter Rolo (teclados).

“É um álbum cheio de Luz, com frescura e leveza, mas ao mesmo tempo com temas muito fortes, como poderão constatar!” – acrescenta a artista.

Para além dos autores de “Novo Mar”, conta também com outros autores e compositores de renome, como Tiago Torres da Silva, Manuel Graça Pereira, Cátia Oliveira, José Gonçalez, e temas da autoria de Catarina Rocha.

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Ponta Delgada – o destino de uma viola dedilhada, ou Crónica de um violeiro atento, na senda do Prof. Alfredo Bensaude

• Joaquim Domingos Capela (Engº)

Dos sete aos vinte e dois anos, trabalhei na oficina de meu pai, conhecido violeiro, Domingos Ferreira Capela. Num armário ali existente, encontrei, por entre vários documentos, um que seria apenas a “Nota autobiográfica de um «luthier» amador”, Alfredo Bensaude (1856-1941). Talvez por ser jovem (n.1934) e não ter seguido aquela profissão, mas sim estudos de engenharia, no decorrer do tempo, esta figura desapareceu da minha memória, ‘regressando’ somente em 2010. Ao longo deste espaço de tempo, muita história se passou, da qual deixo algumas notas ligadas aos Açores.

Em Junho de 1990, integrado na tuna da Associação dos Antigos Tunos da Universidade de Coimbra (AATUC), como violinista, visito pela primeira vez os Açores – Angra do Heroísmo. Aí demos um concerto. Visitámos a Ilha, o que me deixou deslumbrado ao ver tanta beleza e um povo simpático e atencioso. Aproveitei para visitar o violeiro João Machado Lobão, que me facultou um livro da autoria do General José Alfredo Ferreira Almeida, titulado “VIOLA DE ARAME NOS AÇORES”, do qual constava a sua fotografia. Seguiu-se Ponta Delgada, onde simpática comitiva nos esperava, na qual se incluía o Dr. António Melo e sua esposa, senhora que gentilmente me levou a casa da colega Drª. Josefina de Medeiros, nascida na Povoação, e que conheci, quando estudante, na Universidade de Coimbra, no ano 1960-61. Perante a sua ausência, deixei uma mensagem na caixa de correio, evocando os nossos belos tempos vividos nesta cidade. Após concerto no Estabelecimento Prisional, deambulámos pela cidade, aproveitando para adquirir aquele livro.

Em Out./Nov. de 2000 a AATUC volta a actuar em Ponta Delgada e Angra do Heroísmo e, pela primeira vez, nas Ilhas do Faial e do Pico. Mais uma vez fiquei maravilhado, o que me leva, em anos sequentes, a completar o roteiro das Ilhas.

Em Abril de 1997, vou pela primeira vez à Ilha da Madeira, como turista, visita que, casualmente, viria, anos depois, a ser a causa do reencontro da figura do Professor Alfredo Bensaude. No Museu da Quinta das Cruzes, sito no Funchal, assisto a um belíssimo concerto dado pela Orquestra dos Bandolins da Madeira, dirigida pelo saudoso Maestro Eurico Martins (1954-2014), pessoa que conheci e a quem dei a saber ser violeiro amador. Quinze dias depois, este Maestro batia à porta da minha residência, sita em S. Félix da Marinha, V. N. de Gaia. Depois de ver diversos instrumentos, acaba por adquirir dois bandolins. Mais tarde, pede-me para construir bandoletas, bandolas e bandoloncelos, o que constituiu para mim um desafio fortemente motivador. Desenho o conjunto da ‘família’ com linhas harmoniosas e equilibradas e inicio a sua construção, de tal modo que, por volta de 2005, esta orquestra possuía cerca de duas dezenas de instrumentos. Adquiro, assim, larga experiência no domínio da técnica e da acústica. Sonhei, então, escrever um livro abrangente sobre estes instrumentos e, para o efeito, consulto, durante alguns anos, muito do que existia sobre bandolins e, em 2010, deparo na Biblioteca do Conservatório Nacional de Música de Lisboa, com uma colecção de revistas, “A Arte Musical”, obra de excepcional interesse, por abordar a história da música e da violaria, sendo o seu director uma pessoa conhecida e prestigiada, Michel’angelo Lambertini (1862-1920), amigo pessoal do Dr. Alfredo Bensaude. Numa das revistas (nº 362, Ano XVI, de 15 de Janeiro de 1914, Lisboa), reencontro a ‘autobiografia’ que tinha lido quando jovem. Bem haja, Dr. Alfredo Bensaude, pela coragem de nos ter deixado tal documento e os seus violinos, o que muito enriqueceu a história da violaria portuguesa.

Em Agosto de 2012, visito pela sexta vez Ponta Delgada, onde adquiro um livro,  “A VIOLA DE DOIS CORAÇÕES”, de autoria de Manuel Ferreira, obra de excepcional qualidade, da qual colhi informações interessantes, que me permitiram, em 2013, conhecer: o General José Alfredo Ferreira Almeida, o professor de viola e violeiro Miguel Pimentel, o violeiro Dinis Manuel Raposo e seu filho, o Engenheiro Aníbal Duarte Raposo, o professor de viola Rafael Carvalho, o guitarrista José Pracana e o Prof. Dr. Rui de Sousa Martins, director do museu de instrumentos musicais de Vila Franca do Campo, o qual visitei mais tarde.

Nem nos livros, nem nos contactos havidos, ao longo das minhas visitas ao Arquipélago, vi ou ouvi qualquer referência ao Dr. Alfredo Bensaude, nem eu, tão-pouco, tinha procurado conhecer a sua vida. Estava hospedado no “Hotel Açores Atlântico”. Ocorreu-me pedir informações na recepção sobre a família Bensaude. Foi-me dito ser esta a proprietária do hotel. Manifestei à Administração o desejo de contactar alguém da família, a fim de conhecer a história do Dr. Bensaude. Amavelmente, em 9 de Setembro, sou recebido pelo administrador do grupo que, no fim da nossa conversa, me ofereceu um texto com oito páginas: “Prof. Alfredo Bensaude – UM PEDAGOGO REFORMADOR”. Informou-me ainda ter sido publicado um livro sobre a sua vida, aquando do primeiro centenário da fundação do Instituto Superior Técnico, escola da qual foi o seu primeiro director e onde se encontra um violino de sua autoria. Em 22 de Novembro do mesmo ano, visito o I.S.T. Num dos corredores do edifício principal,  pergunto onde poderia ver este violino. Sorte a minha, pois estava a falar com o Prof. Manuel Francisco Costa Pereira, director do “Museu Alfredo Bensaude”, que teve a amabilidade de me oferecer aquele livro “A Génese do Técnico – Alfredo Bensaude” e de me proporcionar uma visita a este  museu. Na ocasião não foi possível ver o instrumento, por motivos de ordem burocrática.

Li o livro muito atentamente e fiquei espantado com a grandeza da obra deixada por Bensaude, encarnada pela inteligência, pela determinação, pela influência dos valores de família, mas muito certamente pela sua formação recebida nas escolas alemãs. Ressalta ao nosso espírito a sua firme convicção de que o engenheiro deveria possuir duas pernas para bem caminhar, uma delas “a teoria” e a outra “a prática”, visão que sempre defendi enquanto docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Mas a minha grande admiração pelo Dr. Bensaude vai também para o facto de ele ter sido violeiro, faceta invulgar, ou talvez única, em pessoas da alta sociedade, mas muito reveladora da sua grande sensibilidade artística, aspecto que aprecio por ser também violeiro e ambos dedicarmos, ou ‘baptizarmos’, os nossos instrumentos.

O Dr. Alfredo Bensaude diz naquele livro ter sido o seu pai o grande formador do seu carácter e o responsável pelo seu interesse precoce por ciência: «As suas aulas, sobretudo as de geometria, marcaram-me fortemente na minha infância; com ela, senti pela primeira vez a emoção estética provocada por um conjunto bem ordenado de deduções conduzindo a um resultado irrefutável…» Nele, narra ainda: «O ensino do desenho técnico, até então desprezado, fora elevado à categoria de assunto de primeira importância, o que também chocava, pois havia nesse tempo quem sustentasse que os engenheiros não precisavam de saber desenhar, sendo esse o mester dos desenhadores!(…) finalmente, parecia mal a muita gente que os alunos de uma escola superior fossem obrigados a envergar o fato de ganga dos operários, e trabalhar ao lado destes nas oficinas pedagógicas».

Frequentei o curso de serralharia mecânica, na Escola Industrial Infante D. Henrique no Porto; no primeiro ano (1946-47) recebi uma boa formação na disciplina de Geometria, dada pelo professor Arquitecto Teodósio Ferreira, onde aprendi o traçado da elipse, da parábola e da hipérbole (chamadas cónicas) e muitos outros saberes desta área. Por serem o desenho e a arte da violaria duas das minhas paixões, construí, em 1996, a viola nº 20 (violão) em homenagem a este meu estimado professor.

É interessante notar que entre estes dois mestres existia um ponto comum: a Geometria, na qual, perdoem-me a imagem, o cruzamento de duas rectas define um ponto comum.

É-me grato reconhecer, em tão notável Doutor, a força criadora do seu pensamento, reflectida não só na criação daquela Escola Superior, voltada para a técnica, para a ciência e para o futuro, mas também na arte, modelada na madeira dos seus violinos.

Eis os motivos que me levam a doar este cordofone e a colocar no seu interior a seguinte etiqueta:

 

«Viola dedilhada doada ao Museu Carlos Machado para perpetuar a minha admiração por tão ilustre cidadão micaelense, Dr. Alfredo Bensaude, cientista, pedagogo e violeiro.

13 de Março de 2016»

S. Félix da Marinha, 20 de Abril de 2016

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Indefinitivamente

• Carlos Paiva

Isso que não leva nem traz,

Te conduz sequer a alguma paz,

Tampouco desencadeia atrito,

Nunca te induz ao conflito,

Isso que não te amordaça,

Nem é dor que logo passa,

Cujo sexo se não discerne,

Não voa, não rasteja, não é verme,

Isso que não chega a vertigem,

Nem é chão que outros pisem,

Existe, entre líquido e sólido,

Tão confuso por ser tão óbvio,

Isso que é grito inaudível,

Dor que lateja e vibra, insensível,

Chega a divino, de tão humano,

Flui, a cada instante, porque estagna,

Isso que não chora ou regozija,

Nem vendaval, menos ainda brisa,

Algo no meio que não se encontra,

Vértice anguloso em coisa redonda,

Isso, enfim, o que te esmaga,

Delito de existir, pecado insigne,

Te faz não ser, e além nada,

É, simplesmente, o quanto te indefine!…

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Edição 710 (26/01/2017)

Numerologia – Os números decidem a nossa vida e destino?

• António Alexandrino

Mapas traçam perfis que, supostamente, ajudam a descobrir aptidões. Vamos acreditar nesta “ciência”?

Será que aos números incumbe uma finalidade bem mais ampla do que um simples cálculo matemático e que estes determinam a nossa maneira de ser? Ana Sequeira, numeróloga e autora do livro “O poder dos números da sua vida”, lançado recentemente, defende a ideia de que «todos os números à nossa volta estão carregados de significado» e que, através do estudo da data de nascimento de uma pessoa, será possível «predizer as características da sua personalidade e perceber o plano da alma para essa vida e a forma mais fácil de o pôr em prática».

Os adeptos desta pseudociência sustentam que terá sido Pitágoras a descobrir a influência dos números no carácter e no destino das pessoas. Crença esta que, no entanto, é liminarmente enjeitada por matemáticos.

Assim, o matemático António Machiavelo, docente da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, assegura que «Do ponto de vista matemático, não há absolutamente nada que justifique ou que faça algum sentido, quanto a essas associações. Aliás, é muito curioso, porque desde os anos 50 do século passado que se estabeleceu que Pitágoras pode não ter tido nada a ver com matemática, além de que os seus ensinamentos eram transmitidos oralmente. Muitas das coisas que se conhecem hoje de Pitágoras foram escritas 800 anos depois de ele ter vivido. E, ao longo dos séculos, foram sendo ‘embelezadas’». Continua Machiavelo: «Quando se pretende dar alguma seriedade a algo, associa-se um nome importante. Por exemplo, há inúmeras frases atribuídas a Einstein, que Einstein nunca disse».

No entanto, para a numeróloga Ana sequeira, a problemática dos números é para levar a sério: «No meu caso, foquei-me numa visão mais terapêutica». Acredita que a numeralogia pode ser utilizada como uma terapia. E explica: «Pode ser usada como análise comportamental para conseguirmos perceber aquilo que é melhor para nós. A ideia é fazer-se um caminho de autoconhecimento». Nesta conformidade, «a pessoa perceberá o seu comportamento, o propósito de certas experiências da sua vida, passará a conhecer as suas fraquezas e os seus pontos fortes, as dificuldades e oportunidades, os caminhos a evitar e a identificar bloqueios que a impedem de viver ao máximo as suas potencialidades». Mas, atenção, isto «não significa que tenha o destino traçado».

Ana Sequeira diz crer que «a felicidade está ao alcance daqueles que estão dispostos a conhecer-se».  Todavia, o matemático António Machiavelo contrapõe: «Uma coisa é reconhecer que muito no universo pode ser explicado por fórmulas matemáticas», que até podem ser testadas, e que «outra coisa é afirmar que as letras do nosso nome correspondem a números», de modo a que algumas pessoas ‘especiais’ possam dizer quem somos, prever o que vai acontecer, os nossos sentimentos e necessidades e o que fazer.

Para o matemático, «a numerologia, assim como outras pseudociências que carecem de fundamento, não são inócuas: pretendem ‘adiantar’ respostas simplistas aos problemas sérios da vida e podem fazer com que alguns, em vez de resolverem esses problemas do melhor modo, caiam em fantasias que os distraem do mundo real, por vezes com consequências nefastas e evitáveis».

Em posição adversa, há quem, tal como Ana Sequeira, defenda que a verdade é que «os números são omnipresentes e que são usados nas leis e fórmulas que representam o equilíbrio do Universo». Daí, acreditarem que a numerologia «é tão-somente uma porta de entrada para os mistérios da vida».


Taxa de pós-Natalidade

de Carlos Paiva

Pós-Natal vem o período

Em que quase, quase tudo

Volta a ser como era.

Assim se esfuma a quimera

Do espírito natalício (ou natalácio…)

Exemplo: voltei a falar c’ o Acácio,

Tu c’ o Adalbertino,

Corrigindo o desatino

Que durava há ano e tanto.

Toma o perdão do pranto

O lugar, mas, entretanto,

Fica a questão: até quando?

Segundo costume do povo,

Até pouco além de Ano Novo,

O que já é o bastante

P’ra levar vida por diante.

Ouve: aperta a mão àquele moço,

Que logo será o pescoço,

Assim que volvida quinzena

No de Jano, ou quiçá lua cheia,

Tanto vale, tanto faz,

Acesso momentâneo de paz

Até voltar à guerrilha

Do ano que há pouco finda…

É querer moldar o barro

Mas voltar a ser o escarro

Cuspido de um deus menor.

Não se muda p’ra melhor,

Muda-se para o que for,

Para o que der e vier,

É-se o que se pode, não que se quer…

Em relação à vida,

O que seja que se decida

Vem diverso e contrário,

Não se rege por calendário.

Tenho que esta quadra

É maleita que logo passa,

Género de espasmo neurótico,

Embora não careça antibiótico,

Pastilhas Doutor Bayard

São bem capazes de curar

Tão fugaz enfermidade.

No fim, faz somente tua parte –

Votos de Amor, etc., também Felicidade –,

Depois verás, ano dentro,

Mortais restos desse prometimento,

E que viver é só ressaca

Da embriaguez de uma semana,

Um pouco mais, se quisermos –

Até aos Reis, mais coisa, menos…

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Edição 709 (12/01/2017)

Fecho-éclair – Há cem anos que o usamos!

• António Alexandrino

A invenção do ziper, em 1917, teve assinalável impacto na moda, no cinema e marcou a forma como o vestuário evoluiu.

Aproxima-se o dia 20 de Março, data que marca os cem anos do registo da primeira patente do fecho-éclair. Começou por designar-se “C-Curity”, tendo-se popularizado anos mais tarde como ‘ziper’, uma onomatopeia (“sugestão da imagem auditiva de um objecto, por meio de um concurso particular de sons verbais”). Em Portugal, denomina-se ‘fecho-éclair’, pela empresa francesa que os comercializava: ‘Fermeture Éclair’.

Na moda, a grande responsável pela utilização de fechos foi a famosa estilista de alta costura Elsa Schiaparelli. No atelier de Paris, começou a fazer desenhos de coordenados com fechos, numa perspectiva quer utilitária, quer decorativa.

Hollywood e Broadway começaram a usar o fecho para transmitir imagens de sexualidade, na década de 40. Disso é exemplo o musical de Rogers e Hart, com o famoso ‘striptease’ com o refrão de “zip”. Igualmente Rita Hayworth, no filme “Gilda”, usou o fecho como provocação sexual. E já Aldous Huxley fizera este tipo de associação em “Admirável Mundo Novo”.

No final da década de 40, após a Segunda Guerra, os zíperes tornaram-se comuns nas calças masculinas e no pronto-a-vestir. Os zíperes nos uniformes, durante a Guerra, são por muitos associados à sua popularização. Na década de 50, o zíper era o fixador para tudo, desde as calças às saias, das mochilas aos casacos de couro.

Esta invenção transporta consigo enorme maleabilidade. Com efeito, se o fecho-éclair se estraga, tal não é motivo para que um casaco ou um vestido se tornem irrecuperáveis.

Se olharmos com atenção para os fechos da nossa roupa, poderemos encontrar a sigla YKK, cujo significado é “Yoshida Kogyo Kabushikikaisha”, o nome da companhia fundada pelo japonês Tadao Yoshida, em 1934, em Tóquio. Esta empresa, a laborar em 71 países, produz 45% dos fechos mundialmente. O segredo do sucesso deste japonês é atribuído ao factor-qualidade; por isso, estes fechos são mais caros do que todos os concorrentes. Com efeito, o empresário nipónico percebeu que um fecho pode arruinar uma roupa. Os lesados serão os vendedores do produto final, sem que esteja garantida a qualidade do produto, o que afinal é uma regra de ouro do senso comum!

E pronto, com cem anos já o fecho-éclair conta… e dado o seu carácter manifestamente prático, poderemos augurar-lhe (ao que é suposto) longa vida!

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Edição 708 (22/12/2016)

• António Alexandrino

Natal sem presépio seria… qual “seria”… obviamente, que “não seria”. Sem mais!… Pode lá falar-se de Natal, sem conceder o devido espaço ao Presépio?

Os presépios, dos mais “vistos” ou tradicionais, aos alternativos (estamos no Século XXI, com umas tantas características fiéis ao tempo que passa) são uma das imagens de marca da época natalícia.

Adaptando-se ao sinal dos tempos, todos os anos chegam novidades ao mercado, embora algumas tragam o sinete que lhes confere uns laivos de originalidade, eivada mesmo de alguma ousadia. Este ano, a proposta mais bizarra veio do site Modern Nativity para quem, se Jesus viesse ao Mundo hodiernamente, e em ‘moldes natalícios’, certamente que a clássica cena que nos habituámos a ver nos presépios passaria por mudanças bem patentes. Ora vejamos.

Os três Reis Magos viriam munidos do GPS para localização adequada da Criança recém-nascida, com a oportuna ajuda do canal do Facebook e a boa-nova seria de imediato publicada no Twitter.

A pensar nisso, a Modern Nativity criou a versão da história católica para o novo milénio. A cena inclui José e Maria a tirar uma “selfie” com o recém-nascido, os Reis Magos a carregarem os presentes de Segway e a vaca a comer ração sem glúten. Junto aos animais, um pastor. É suposto (nem poderia ser outra coisa) estar a ouvir música no seu tablet digital. Este “Hipster Nativity Set” custa cerca de 120 euros – até isso é um sinal deste tempo consumista!

Deixando de lado as propostas alternativas, que talvez deixassem incomodado o mestre setecentista Machado de Castro, criador dos mais belos presépios barrocos portugueses (cite-se, a título de exemplo, a da Basílica da Estrela, em Lisboa) e passemos aos alvitres que as empresas de brinquedos têm lançado. Não será de somenos dizer que “o segredo é a alma do negócio”! Daí que a “oferta” proporcione conjuntos de presépios específicos para crianças de apenas um ano, de quatro anos, e para as mais crescidas.

Isso mesmo propõe a Fisher Price, com o seu presépio Little People, o Kit de Presépio Fofuchas, o presépio Pinypon ou os presépios da Playmobil, com versões até aos quatro anos, e dos quatro aos dez anos, um pouco mais completa, que inclui palmeira, cesta e vassoura.

“A todos um Bom Natal”.

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Edição 707 (08/12/2016)

Eunice Muñoz – Uma Senhora do palco

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• António Alexandrino

Eunice Muñoz está de volta à ribalta, por ocasião dos seus 88 anos e, sobretudo para continuar a sua longa e prestigiada carreira – são já 75 anos no palco e, pasme-se, com ideias de voltar ao activo!

Perante tais perspectivas e um azado ‘cenário’, montado numa sala daquele Teatro Nacional, a Imprensa entendeu, por ocasião dos 75 anos de carreira no teatro, auscultar o que de significativo esta ‘diva’ do palco tinha para lembrar ou revelar. De facto, uma carreira de 75 anos não é coisa de somenos! E aí tivemos a actriz, no dia em que completou tão longo trajecto (29 de Novembro), falando com os jornalistas e desdobrando-se em entrevistas para a rádio e para a televisão. E foi adiantando que, no verão do próximo ano, voltará ao palco para fazer teatro – «só posso dizer que será aqui, no D. Maria, com uma peça de Shakespeare».

Eunice, simplesmente uma Grande Senhora da ribalta, fala de tudo “com um sorriso rasgado e uma disponibilidade desarmante… e pausas muito características, porque os silêncios da actriz também são uma grande lição…”

Pouco depois ela entraria no palco da sala principal, para perpassar uma lição sobre a sua experiência de vida artística. Com efeito, foi em 28 de Novembro de 1941 que se estreou, precisamente no Teatro D. Maria, integrando o elenco da peça “Vendaval”, de Virgínia Vitorino, com encenação de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Eunice evoca esse momento: «Foi um dia de pânico; eu era muito miúda, tinha treze anos, mas a D. Amélia foi extraordinária para mim. Foi sempre uma grande amiga».

Das peças que mais a marcaram, ao longo destes 75 anos, evoca, sem hesitar, “Zerlina”, «uma grande peça, um grande papel».

Na plateia, estudantes de teatro, espectadores e admiradores da actriz, além de convidados especiais. Sobre os problemas de saúde que a afectaram e a afastaram dos palcos, fala em energias negativas que se abateram sobre si: «Foi muito má ao mesmo tempo. Mas, se aprendi algo com tudo isto, é que sinto que melhorei bastante. Entrou em mim uma paz e uma acalmia em relação a tudo, que têm sido muito importantes. Eu hoje dificilmente me aborreço com alguma coisa».

Apesar dos seus 88 anos e com um incomum currículo de 75 anos, vamos aguardar.

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Descaído em graça

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Crédito da Foto: Ana Rosa (www.instagram.com/ana_rosa122/)

 

• Carlos Paiva

Quê? Cair na graça das musas,

Se, de graça, nada nos dão?

E considerai, então, as lusas,

Que, do modo como são,

Nos têm em tal estima,

Tão aquém de gentalha,

Que é a graça tão ínfima,

Não vai além de migalha!…

Tágides, eu nunca vi,

Embora delas ouvisse,

De um poeta que outrora li,

Assomarem à superfície

Do caudal que vem de Espanha,

Gerando nesse vate

Inspiração tão tamanha,

Que lhe subiu a arte

Ao mais elevado cume

De todo o Monte Parnaso.

Eu não lhe tenho ciúme;

Embora poeta raso,

Meu talento é bem outro,

Não obstante ser pouco:

É lutar, corpo a corpo,

Sobre a lama, sobre o lodo,

E nessa dura contenda

Onde se quebram ossos,

Subtil mistério se desvenda

Aos olhos nossos:

O sublime opositor

Dessa arena onde cais

Conhece o teu Ser de cor,

Os passos por onde vais,

Teus movimentos, de improviso,

Antecipa, são desviados,

Sabe estar onde preciso,

Tem-nos estudados

A tal ponto e tanto,

Que a cada assalto

Regressas ao teu canto

Desse beligerante palco

Confuso, completamente aturdido,

E é então que dás conta

De estares a lutar contigo

E que a vitória se encontra

No golpe não desferido,

Em nova ferida, que abre e dói –

Da inspiração, todo o sentido

É, afinal, não ser tudo o que se foi…

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Edição 706 (24/11/2016)

Leonard Cohen – o músico que foi poeta até ao fim

• António Alexandrino

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Há anos que Leonard Cohen constava da bolsa das apostas do Nobel da Literatura, sem no entanto ser considerado favorito – a Bob Dylan, imprevistamente, foi-lhe atribuído o prémio, este ano… O maior relevo literário viera-lhe de Espanha, há cinco anos, aquando da atribuição do Prémio ‘Príncipe das Astúrias’.

Senhor de uma voz única (um tanto ‘rouca’, arrastada, cava e grave), o poeta, cantor e compositor, de nacionalidade canadiana, nascido em 1934 numa família judaica em Montreal, morreu aos 82 anos (feitos a 21 de Setembro passado). Há poucas semanas, no decorrer de uma entrevista à ‘New Yorker’, havia produzido esta afirmação desconcertante: “Estou preparado para morrer”. Cohen vivia em Los Angeles, nos Estados Unidos. Lançara o seu último álbum (o 14º de estúdio), no mês passado (“You want it darker”) que reflecte, também, sobre a sua própria mortalidade, como que em jeito de “carta de despedida”.

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A notícia da morte deste lendário poeta, compositor e artista, entretanto divulgada pelo seu agente na página do Facebook do músico («… perdemos um dos visionários mais prolíficos e respeitados do mundo da música») como que a todos apanhou de surpresa.

Em Julho passado, Leonard deparou-se com a morte de Marianne Ihlen, sua musa e companheira, norueguesa, com quem viveu na ilha de Hydra – e que inspirou a canção ‘So long, Marianne’. Poucos dias antes de ela morrer, escreveu- lhe uma carta, porventura profética: «Acho que vou seguir-te muito em breve. Sei que estou tão perto de ti que, se esticares a mão, acho que consegues tocar na minha».

Tinha 16 anos, quando começou «a esculpir os primeiros versos» e  licenciou-se em literatura na Universidade McGill, em 1955. A sua morte desencadeou  múltiplas reacções, no âmbito de diversas áreas e quadrantes. Para muitos de nós, «Cohen era o maior de todos os escritores de canções. Impossível de imitar, por mais que tentássemos»  (Nick Cave). O seu primeiro disco, “Songs of Leonard Cohen” publicou-o em 1967, aos 30 anos – e estão lá já dois clássicos do padecimento amoroso: “Suzanne” e “So long, Marianne”. A estes, à guisa de uma hipotética, ainda que aleatória, ‘primeira escolha’, juntemos “Bird on the wire” (uma das suas canções mais emblemáticas),1969; “Avalanche”, 1971; “Hallelujah” (provavelmente a sua canção mais conhecida e aquela que foi alvo de mais versões), 1984; “Take This Waltz” (adaptação de um poema de Frederico Garcia Lorca, um dos poetas da preferência de Leonard Cohen), 1986.

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Cogito… asinus sum!

 • Carlos Paiva

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Há certo e determinado burro que eu conheço,

O qual, não parecendo o que sou, é aquilo que lhe pareço

(Como diria, com truques de linguagem, o António Aleixo,

Referindo-se a sentidos cuja interpretação aqui vos deixo…).

Estoutro burro, por comer palha sempre no mesmo pasto,

Perdeu, por azar, a noção do quanto o mundo é vasto,

E por zurrar, sempre e ainda, nas mesmas pastagens,

Desconhece, afinal, haver naquele outras tantas linguagens…

Mais: o facto de tal pasto estar ao fundo de um remoto vale

Faz com que se julgue um burro sem par nem igual,

Tanto que, estando aí, e zurrando nas quatro direcções,

Pensa ser absoluto senhor de todos os conhecimentos e razões

Dos quais é composto este mundo – e pudera! -,

Pois remoendo, dias e noites a fio, na mesma erva,

Todo aquele pouco que come, para ele, é muito,

E se calha a provar doutra coisa, é acontecimento fortuito

E a não repetir de futuro, e isto porque aquele corpo,

De tão habituado àquele palhame, já não quer outro,

E assim, quando zurra, num zurrar arrogante e burgesso,

Repete, invariavelmente, quase sempre, o mesmo verso;

E se o contrariam, zurra ainda de modo mais feroz,

E só fica, enfim, plenamente satisfeito c’ o eco da própria voz,

O que quase sempre sucede, estando em tal vale encurralado,

E não lhe interessando entender as dietas doutro gado,

Seja da vaca, do boi, do potro, do cavalo, ou do bisonte,

Os quais até conhecera, pudesse ver além do estreito horizonte…

Mas não! Pasta e zurra, zurra e pasta, enche o bandulho,

E zurra outra vez, mas a pontos de tal barulho

Não se saber, estimados senhores, ao fim e ao cabo,

Se é obra do seu focinho, ou se é proeza do seu rabo!

Assim como assim, vai daí que D. Consciência, sua proprietária,

Responsável máxima destoutra exploração pecuária,

Não fora, por deletérias influências de terceiros e malignas,

Perder este burro o seu cúmulo de virtudes asininas,

Melhor fez, e não perdendo tempo a pensá-las,

Onerou o pobre burro com canga e um par de palas,

Para que, a salvo de toda a maldade estrangeira,

Paste e zurre, sim, mas sempre da mesma maneira!

Abençoado seja tal burro, fora os que ainda estão p’ra vir,

Pois p’lo focinho ou p’lo rabo, já é certo o que vai sair!

É deixá-lo andar, co’a vista afunilada e a canga na cerviz,

Pois assim como vai, está bem que é burro… mas é feliz!

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Edição 705 (10/11/2016)

Mário Cláudio, vencedor do Grande Prémio APE, pela segunda vez

• António Alexandrino

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Mário Cláudio conquistou pela segunda vez o Grande Prémio de Romance e Novela. Trinta anos depois, o escritor foi novamente galardoado com o Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE). “Retrato de rapaz”, escolhido por maioria, foi o livro que mereceu a preferência do júri.

O autor de “Guilhermina”, depois de “Amadeo” (distinguido em 1985), voltou a conquistar um dos mais relevantes prémios literários portugueses. Junta-se, assim, a um lote restrito de escritores, que ganharam por duas vezes (Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes e Maria Gabriela Llansol).

O livro “Retrato de rapaz” concitou a escolha de três elementos do júri (Ana Paula Arnaut, Miguel Real e Miguel Miranda), tendo os restantes (Maria João Cantinho e Isabel Cristina Mateus) votado em “Impunidade”, de H. G. Cancela.

Publicado pela D. Quixote – editora de sempre de Mário Cláudio – no ano transacto, “Retrato de rapaz” foi o segundo volume de uma trilogia dedicada à relação entre seres de diferentes gerações. Na novela distinguida, o autor faz uma ficção em torno da vida de Giacomo, um discípulo no estúdio do artista da Renascença Leonardo da Vinci.

A trilogia, que incluiu “Boa noite, senhor Soares” – uma revisitação do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares – chegou ao términus já este ano, com “O fotógrafo e a rapariga”. A narração tem como protagonistas o escritor inglês Lewis Carroll e Alice Lidell, a jovem que inspirou “Alice no País das Maravilhas”.

Sob o patrocínio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, da Fundação Calouste Gulbenkian, da Imprensa Nacional Casa da Moeda, do Instituto Camões e da Sociedade Portuguesa de Autores, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE vai na 33ª edição e tem um valor pecuniário de 15 mil euros.

No entanto, Mário Cláudio não pára de escrever e, por ocasião da publicação de “O fotógrafo e a rapariga”, revelou que está a trabalhar num romance passado na actualidade, mas que atravessa várias fases históricas: «A figura central é Camões. Como ele é lido em várias épocas e as construções de que a sua obra foi sendo alvo».

Edição 704 (20/10/2016)

Sessão de entrega de prémios realizou-se no dia 30 de setembro

Concurso literário “Vouzela, um património a descobrir” premiou dois trabalhos

• Redacão

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Na edição anterior já demos notícia sobre a sessão de entrega de prémios do concurso literário “Vouzela, um património a descobrir”, promovido pela ADRL – Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões, em parceria com o Município de Vouzela, o jornal “Gazeta da Beira”, os Agrupamentos de Escolas de Vouzela (AEV), de Vouzela e Campia (AEVC) e a Escola Profissional de Vouzela (EPV).

 

Anúncio da edição do próximo ano

Satisfeita com a participação no concurso, a vereadora Carla Maia sublinhou a qualidade dos trabalhos apresentados. “Este é o momento para agradecermos aos concorrentes, enaltecermos a sua ousadia em participar e darmos os parabéns pelos trabalhos apresentados.

É bom saber que temos pessoas atentas à nossa terra, à sua riqueza histórica, cultural e patrimonial e que, acima de tudo, a estimam e valorizam.

Foi muito positivo sentir isso nos vossos textos”, salientou a vereadora que aproveitou o momento para anunciar a abertura do concurso para o próximo ano.

Por sua vez, Raquel Ferreira, na qualidade de coordenadora do Concurso enfatizou o anúncio feito por Carla Maia ao mesmo tempo que informou que seriam introduzidas algumas alterações no regulamento da próxima edição.

 

A Fonte da Nogueira

• Paula Lobo, de Oliveira de Frades – venceu na categoria aberta à população em geral

Descendo a Rua S. Frei Gil, em Vouzela, passamos a casa dos Távora do lado direito, imponente na sua herança histórica, aguarda o regresso dos áureos dias em que o seu brasão ostentava a nobreza da sua linhagem. Por entre o casario antigo, chega-se à Ponte Medieval conhecida como Ponte Romana sobre o tímido Rio Zela. É aí que tomando a direção do lado esquerdo vamos encontrar adiante, a fresca água que brota da Fonte da Nogueira. Construção simples e enigmática suporta dois modestos arcos em que o da direita ostenta o Brasão Real de quem a mandou construir. Entre os arcos, um banco convida a um descanso depois de saciada a sede. A água do rio canta a sua marcha alegre de quem tem pressa de ir, de chegar ao seu destino mais adiante na Foz onde se junta ao Vouga. Sobre a Fonte diz-se dos Amores e que quem dela beber, casará em Vouzela. Pouco se sabe desta bela fonte e menos ainda das histórias que lhe deram fama de romântica. Mas há a história que o velho salgueiro-chorão conta a quem o souber escutar, que a ouviu dos seus avós que haviam ouvido dos seus…

Decorria a primeira metade do século XVI…

Aquela noite estava iluminada por uma lua de prata. O Infante dispensou a guarda, continuou a descer a rua em vez de se recolher à pequena casa que o hospedava. Chegado à ponte, debruçou-se, olhando a estreita corrente de água que à luz do luar transparecia os redondos seixos do rio. Olhou em redor, ninguém por perto, apenas o murmurar da água e o coaxar das rãs. Pensou em como era agradável aquele lugar, longe do palratório dos anfitriões da Casa da Cavalaria e demais convidados que o tentavam impressionar com atenções e cuidados numa faustosa ceia de boa vitela regada com bom vinho, fazendo justiça à fama que a região tinha. O estômago, não habituado a tais fortes comidas, reclamou vigorosamente. Despiu a casaca de fino tecido bordado que trajava, pousou-a sobre a varanda da ponte, respirou fundo o ar fresco da noite que trazia consigo o aroma húmido dos campos de pasto e das mimosas e sentiu paz. Foi interrompido por um ruído que parecia vir mesmo debaixo de si, sob da ponte.

Olhou na direção do barulho tentando perceber a origem e enxergou um vulto numa evidente fuga pelas escadas existentes no muro da margem direita do rio. O Infante, jovem de armas experiente, num salto ágil agarrou-o fortemente sem lhe dar hipótese de fuga. Uma nervosa voz feminina fez-se ouvir enquanto tentava soltar-se dos braços que a prendiam:

– Por favor, deixai-me ir! Não fiz nada de mal, nem tinha intenção! Por favor! Por favor! – Sossegai, senhora. – Pediu o Infante, libertando-a. – O que fazeis aqui a estas horas da noite e sozinha? Quem sois? Como vos chamais? Respondei! – Inquiriu com autoridade.

– Não digais nada ao Infante, senhor! Pois ele poderá ficar mal impressionado com as gentesde Vouzela. – Implorou a mulher assustada.

– Dizer ao Infante? Mas se… – Pensou melhor. – Não contarei se responderdes às minhasperguntas, senhora.

Mais calma, a mulher contou o que a levava ali àquela hora da noite:

– Sou lavadeira da Casa da Cavalaria. Lavo aqui, debaixo da ponte, a roupa da minha senhora,mas hoje, quando arrumava o rol, dei pela falta de um toucado. Se a senhora souber que perdi uma peça, castiga-me severamente. Por isso voltei para o procurar, a noite está tão clara que parece dia.

– Encontrastes o que procuráveis?

– Sim. Está aqui, no bolso da minha saia, senhor guarda, vêde. – E metendo a mão ao bolso,tirou um toucado branco que estendeu ao Infante.

Ele anuiu com a cabeça e pensou: “Ela julga-me um guarda, não me reconheceu.“ A ideia de se passar por outra pessoa agradou-lhe e sorrindo, ergueu os olhos do toucado para a mulher:

– Como vos chamais, senhora?

– Rosa, senhor. – Sentindo o olhar que a fitava curiosamente, baixou humildemente o seu.

– Rosa… uma flor iluminada pela luz de prata da noite… – Murmurou ele.

De súbito, sentiu o estômago revoltar-se de novo. Levou a mão à barriga e o seu rosto contorceu-se levemente de dor. Rosa, sem hesitar, deu um passo na sua direção, pousou a mão no ombro do infante e genuinamente preocupada, procurou:

– Estais bem? Que tendes senhor?

– Nada de grave. A ceia ainda anda às voltas aqui dentro, só isso.

– Estais enfartado!

– Sim, estou enfartado.

– Vinde comigo. – Pediu-lhe Rosa, voltando-lhe as costas. – Segui-me, vinde.

O Infante seguiu Rosa que caminhava ao longo do leito do rio em sentido contrário à sua corrente. Alguns metros adiante, o caminho terminou frente a um arvoredo baixo denso, dominado por uma frondosa nogueira entre outras. Rosa parou, avançou para a árvore, afastou algumas ervas e dirigindo o olhar para o Infante, ofereceu:

– Bebei desta água, senhor guarda, ficareis bem melhor. Garanto-vos!

O Infante aproximou-se e viu um pequeno regato que corria discretamente por entre as fortes raízes da nogueira que havia crescido teimosamente por entre as fragas.

– Um regato? Beber água do regato?

– Não se trata de um regato, senhor. Prometei-me que não contareis a ninguém. Prometei!

– Prometo, mas se não é um regato é o quê?

– Uma nascente! Revelou Rosa triunfante. – Somente eu sei da sua existência! Descobria-a hámuito tempo, desde que lavo aqui. É uma água muito boa, muito saudável senhor, provai!

O Infante, habituado a tratamento real, hesitou um pouco:

– Mas como bebo se não tenho caneca?

– Irei buscar uma para vós.

– Não! Beberei de vossas mãos. É a vossa nascente, dar-me-eis a beber nelas.- Resolveu-se,completamente encarnado no anonimato e decidido, inclinou-se dando-lhe a entender a sua firme intenção de beber das mãos da rapariga.

Rosa juntou as mãos em concha, apanhou cuidadosamente a água e levou aos lábios do Infante que bebeu, uma e outra e outra vez. Enquanto bebia, pôde contemplar de perto a figura feminina diante de si. Rosa era ainda uma jovem mulher de olhos castanhos que cintilavam à luz da Lua. Os lábios perfeitos de uma boca pequena enfeitavam-se com um sorriso franco e cativante. O cabelo solto, ondeado como as ondas do mar, tinha a cor das castanhas do outono e o cheiro dos campos floridos da primavera. Reparou nas suas mãos pequenas de dedos finos que condiziam com o corpo proporcionado de estatura mediana Pensou em como era bela. “Somente os seus trajos a distinguem das mulheres da Corte. A beleza desta rapariga supera a de damas e de princesas.” Invadiu-o uma imensa ternura por aquela mulher. A presença dela era atraente, deliciosa como um doce que se degusta lentamente. Deu por si a pensar que não se importaria de ficar ali eternamente. Teve vontade de lhe dizer coisas bonitas como as que estava a sentir. Segurou as mãos dela entre as suas, olhou-a nos olhos e citou o seu querido amigo Gil Vicente:

– “ A serra é alta, fria e nevosa; vi venir serrana gentil, graciosa. Cheguei-me per’ela com grã cortesia. Disse-lhe: senhora, quereis companhia? Disse-me: escudeiro, segui vossa via.” Ela sentiu um misto de pejo e atração por aquele homem tão encantador, culto, de pele branca magnífica e cabelo sedoso que citava poemas.

-Sou uma lavadeira… Vós sóis um escudeiro do Infante Real e não sei o vosso nome ainda. O Infante, sentindo-se confortável e com receio de a assustar com a sua verdadeira identidade, decidiu manter aquela por mais algum tempo. Pensou no seu escudeiro mor.

– Gabriel. Chamo-me Gabriel.

– Tendes nome de anjo, senhor. Gosto, gosto muito de Gabriel…

As suas palavras foram interrompidas por vozes vindas de perto. O Príncipe pensou que já teriam dado pela sua falta e andariam à sua procura. Com receio de ser desmascarado, procurou terminar aquela conversa, despedindo-se.

– Devem ser os outros que me chamam para o meu turno de vigia. Tenho de regressar. – E,aproximando-se de Rosa, tocou-lhe os lábios com os seus. Pediu-lhe que regressasse ao outro dia, à mesma hora, àquele mesmo lugar, junto à nascente que ela partilhara consigo. E partiu na direção das vozes.

Na noite seguinte, quando Rosa chegou, já o Infante aguardava por ela. Assim que se encontraram frente a frente, a ansiedade vivida em todo o dia transformou-se num beijo apaixonado num abraço prolongado tentando concentrar naquele instante todo o tempo que, intuitivamente, sabiam não voltar a ter.

– Como esperei por este momento, minha doce Rosa!

– Tive receio que vos arrependêsseis. – Desabafou ela, olhando timidamente para o chão.Pegando-lhe o queixo com carinho, levantou-lhe a cabeça, fixou seus olhos nos dela e disselhe com ternura num sorriso aberto e franco:

-Arrepender-me? Como podia arrepender-me de querer estar com uma mulher tão bela, como vós? Arrepender-me-ia se não viesse.

– Gabriel, sou apenas uma lavadeira, de uma pequena vila…

– Não! Sois bela e quero que esta noite seja tão bela quanto vós! Dais-me de beber, minhaflor? – Interrompeu-a, abraçando-a de novo.

– Trago caneca, senhor.

-Quero matar a minha sede de vossas mãos. Dai-me de beber da vossa nascente, por vossas mãos.

E como na noite anterior, Rosa juntou as mãos, apanhou a água da nascente e deu a beber ao Infante.

A noite estava serena, mas as nuvens escondiam a Lua, cobrindo aquele lugar com um manto de escuridão. Sentaram-se junto à nascente, encostados à nogueira guardiã do tesouro de Rosa que passou a ser de ambos. Conversaram. Ele falou do que conhecia, de lugares distantes, de pessoas e costumes diferentes; da Corte, lugar de hábitos caprichosos e ambiente conspirante. Ela falou do que conhecia, dos prados verdejantes onde o gado pastava, das sementeiras sofridas e das colheitas festejadas, das pessoas simples e alegres da Vila, dos costumes que celebravam. Ele, ouvindo-a, pensava em como era simples e tranquila a vida ali, sem as responsabilidades e exigências de príncipe que era. Ela, ouvindo-o, pensava em como seria magnífico correr mundo, conhecer novos costumes; as damas da Corte trajadas em belos vestidos feitos à medida, de tecidos finos bordados, cortejadas por valentes cavaleiros, longe da monotonia e rudeza da vida que levava como serviçal.

– Acompanhais sempre o Infante nas suas viagens? – Questionou-o ela cheia de curiosidade.

– Quase sempre… – Sem querer entrar em detalhes.

– E como é ele, é como dizem?

– E o que é que dizem do Infante?

– Que é gentil, muito inteligente, que é um poeta! Que deveria ser ele o herdeiro da Coroa emvez de seu irmão, pois é amado pelo povo… – Também o amais, o Infante Luís… como o povo?

– O meu coração está cativo, senhor.

-Quem o aprisionou, Rosa perfumada, que roubais a beleza à madrugada primaveril orvalhada?

Sentindo as palavras do Infante como carícias percorrendo-lhe o corpo, Rosa sorriu e confessou:

– Foi um escudeiro, da guarda de sua alteza O Infante D. Luís, que o capturou no momentoque suas mãos tocaram na minha pessoa.

O Infante tocou-lhe o rosto num gesto meigo, acariciou-lhe o cabelo, cheirou-o, puxou-a para si e beijou-a apaixonadamente. Rosa inclinou-se lentamente para trás, encostando-se à sua nogueira cujas folhas caídas no chão serviam de manto, fechou os olhos, deixou-se despir de receios e deu-se. Sentindo-se protegida pelo homem que a possuía, abriu-lhe o seu mundo e ele entrando, entregou-lhe o seu no qual não se distinguiam preconceitos, destinos nem condições sociais. Despidos eram iguais. Partes que se complementam, que se compreendem na linguagem muda dos amantes. Os seus olhares intuíam o desejo um do outro numa permuta de carícias e sensações profundas que vinham ao de cima em explosões de prazer.

Mais tarde, acordaram com o ladrar exaltado dos cães. Surpreendidos por se terem rendido ao cansaço da entrega apaixonada, tomaram consciência de que o nascer do dia estava eminente. A custo, pesando-lhe cada palavra na luta interior entre o amor que acabara de viver e a responsabilidade do império que se impunha crescer, o Infante segurou-lhe as mãos e com os olhos rasos de lágrimas, que ocultou, começou numa voz trémula:

– Tenho de partir, minha Rosa. Parto logo que nasça o dia.

-Mas senhor, tendes mesmo de ir? Tendes mesmo de me deixar?

-Sim. Tenho… – Disse-lhe, sentindo o coração apertar-se e a voz presa na garganta.

– Vireis um dia buscar-me, Gabriel?

– Virei um dia matar a minha sede.

– E eu virei aqui esperar por vós…

Quis beijá-la de novo. Beijar todo o seu corpo, beijá-la até à sua alma. Prendê-la nos seus braços, levá-la consigo para proteger aquela flor. Pensou na entrega dos dois que ainda há poucas horas acontecera naquele mesmo lugar, tão diferente da dor da despedida. Por momentos, ocorreu-lhe ficar, era bom estar ali, estar com aquela mulher, mas tinha consciência de que não era um homem livre para fazer essa escolha. Fechou os olhos, cerrou os dentes, mas não conseguiu evitar que duas lágrimas, rolando-lhe pelo rosto, caíssem nas mãos de Rosa. Sem conseguir pronunciar mais nada, partiu.

– Gabriel…

A promessa reconfortou Rosa. Decidiu-se esperar pelo homem a quem se entregara de corpo e alma. Nada a faria demover da sua decisão, demorasse o tempo que fosse preciso. Era necessário dizer-lho, pensou, era preciso que soubesse que esperaria por ele independentemente do tempo que levasse. Deitou numa corrida, passou a ponte e à cabeça logo lhe veio a imagem da noite em que subiu as escadas assustada. Sentiu de novo no seu corpo as mãos de Gabriel segurando-a firmemente quando ela fugia receosa de ser denunciada e mal interpretada a sua presença ali, tão perto de onde o Infante estava instalado. Subiu a rua, em passos apressados. Sentia o coração bater fortemente no seu peito. Determinada a reafirmar o seu amor, não se demoveu quando deparou com o grupo de guardas que atarefada e ordenadamente, tomavam os seus lugares no cortejo que se formava frente à Casa dos Távora. A rua estreita obrigava à concentração apertada da pequena multidão que compunha o séquito real. Foi a custo que se infiltrou, tentando localizar o seu amado. Olhava para todos aqueles que pareciam ser Gabriel, fixava todos os rostos, mas nada. Sentiu um empurrão violento nas costas. Voltou-se e deparou com uma figura imponente, um escudeiro de grande estatura que a interpelou:

– Que fazeis aqui mulher? Sois tola? Desandai, o príncipe vai sair agora, ide, ide!

– Procuro o Gabriel. Procuro o guarda Gabriel, preciso falar-lhe! – Pediu-lhe corajosa eobstinadamente.

– Só há um Gabriel aqui, mulher. E não vos conheço de lado algum para que tenha de vosfalar. Ide, depressa, ou mando-vos prender! – Gritou-lhe o escudeiro.

– Não, não! O Gabriel, o guarda…

Sentiu uma mão agarrar-lhe o braço puxando-a para fora da parada quase formada agora.

– Anda comigo, Rosa. Que estás a fazer? Queres arranjar problemas? Anda, vamos para juntodas outras, que estão a guardar lugar para ver a partida do Infante. Estás a vê-las ali, ao cimo da rua? Tem boa vista. Anda rapariga!

Deixou-se levar sem ouvir palavra do que a amiga Sara lhe dizia. Na sua mente a resposta daquele bruto, tão diferente do seu amável Gabriel, ecoava como chocalhos, como o grasnar de corvos, como o uivo de lobos. Junto das amigas não falou, mas uma ideia fê-la animar: dali, poderia ver o cortejo e certamente conseguiria localizá-lo, não havia dúvida. Respirou fundo, tentando acalmar, sorriu e esperou.

A pequena praça de terra batida, onde muito mais tarde seria construída a Capela em honra a S. Frei Gil, estava repleta de gente que havia vindo à capital do concelho para ver o Infante D.

Luís partir da sua estadia de dois dias no Concelho. Era a primeira vez que um membro real vinha a Lafões depois de D. Manuel I ter concedido Foral à Vila de Vouzela. O Infante quis conhecer a região que lhe estava destinada, por vontade de seu pai ao nomeá-lo Duque de Beja, juntamente, com as vilas da Covilhã, Seia, Almada, Moura, entre outras, outorgadas por escrito mais tarde, já pelo punho do Rei, seu irmão D. João.

O povo, vestido nos seus trajes domingueiros, amontoava-se curioso tentando alcançar um lugar que permitisse ver o real aparato, fascinado com os cavaleiros nas suas armaduras imaculadas, aprumadamente montados nos seus belos cavalos de raça pura. O sol nascente, incidia reluzente no séquito, espalhando sobre a multidão os reflexos no metal como raios divinos num quadro celeste provocando um encantamento tal nos assistentes, que ficaram em silêncio quando as trompetas deram sinal do início da marcha, ouvindo-se apenas os cascos dos cavalos batendo na terra seca do caminho e o tilintar das armas.

Alheia a tudo, Rosa fixava cada rosto à procura do seu amado Gabriel. Um a um. À medida que cada rosto lhe devolvia a desilusão de não ter encontrado o que pretendia, o seu coração batia com mais força, mas convicto de que acabaria por bem sucedida. Atreveu-se olhar o Infante por curiosidade. Majestoso, montado num belo cavalo negro, trajando um elegante fato de veludo fino castanho e preto, debruado a fios de ouro, caseado com botões dourados reluzentes, o Infante tinha os seus olhos verdes postos nela quando Rosa o viu. De súbito, tudo pareceu girar à sua volta. Teve uma súbita vertigem, o vómito ficou-lhe preso na garganta e as suas pernas trementes, pareciam vergar-se perante o peso da sua surpresa. Agarrou-se, para não cair, ao braço de Sara que, deslumbrada pelo aparato, disse-lhe sem desviar os olhos para Rosa: – “Ele é tão bonito, não é Rosa, o Infante?”

Os seus olhares ficaram presos um no outro no instante que durou uns escassos segundos, mas que lhes pareceu uma eternidade. Ele percebeu a desilusão de Rosa ao descobrir a verdade. Houve momentos em que teve incerteza se ela alguma vez o teria reconhecido ou não, mas o olhar sofrido dela diante dele, desvaneceu qualquer dúvida. O seu coração apertou-se de novo.

Apertou-se pela separação daquela mulher tão simples, humilde, muito longe de o merecer

 

como amante, mas que o conquistara ao ponto de a querer perto de si. Junto a si todos os dias como sua mulher. Estavam tão perto e tão longe ao mesmo tempo! Deu-se conta como carregava o peso da culpa de não ter sido honesto e o peso da culpa de ter feito com que se apaixonasse por si. Sabia que Rosa iria ficar à sua espera, como havia prometido. E ele? Será que alguma vez iria ser capaz de cumprir a sua promessa de a ir buscar? Será que alguma vez teria coragem de enfrentar a Corte, o que esperavam dele, as suas responsabilidades como príncipe, como Infante? O olhar de Rosa era espinho a enterrar-se profundamente no seu coração. Ainda de olhos presos nos dela, fez-lhe uma subtil vénia inclinando levemente a cabeça. Olhou em frente, aprumou o seu porte e deixou-se levar.

Rosa manteve os olhos postos no infante. Queria que ele visse neles a sua indignação pela mentira, a sua dor pela traição, pois era assim que se sentia, traída, usada, completamente abandonada agora. Largou o braço de Sara e intuitivamente levou a mão ao seu ventre. A multidão seguiu o cortejo até aos limites da Vila, como se tratasse de uma cerimónia religiosa aclamando ali e além o seu Rei, dando vivas ao Infante gentil e generoso até que atrás de si, a praça ficou vazia. Um grupo de cães escanzelados, aproximou-se timidamente à procura de alguns restos que pudessem ter caído no meio da confusão, lutando entre si pela posse das míseras côdeas que encontraram. Somente Rosa permaneceu no seu lugar. Somente o seu corpo, pois sua mente percorria todos os momentos que havia passado com Gabriel, procurando compreender porque lhe havia mentido. A dor, a revolta, não lhe permitiam ver que fora o seu pressuposto que o tomara como um simples escudeiro. As lágrimas soltaram-se como chuva de tempestade, as pernas fraquejaram novamente e deixou-se cair de joelhos no chão.

Nas semanas seguintes Rosa não foi à sua nascente, nem se aproximou do local onde conhecera o Infante. As memórias daquele lugar eram demasiado dolorosas para si. Estava magoada com aquele que a enganara; estava zangada consigo própria por se ter permitido pensar que um homem da sua condição haveria de se apaixonar por ela. Queria fugir dali, fugir das suas memórias, fugir das suas ilusões, mas não tinha coragem de partir. Uma mulher sozinha não era bem vista, não estava segura. No entanto, o seu coração queria ficar perto de tudo o que lhe lembrava Gabriel. O seu sorriso, o olhar que a tinham cativado, eram uma constante na sua mente. Por vezes, parecia-lhe ouvi-lo claramente, chamar por ela.

Certo domingo, de um outono cinzento, Sara foi ter com Rosa ao fim da Missa.

– Andas sumida. Mudaste de poiso? Olha, pois não sabes o que perdes.

– Não tens nada a ver com isso! E o que perco eu, afinal?- Resmungou Rosa.

– Olha, lá para os lados onde lavavas a ceroulas dos Almeida, andam a construir uma fonte.Dizem que foi o Infante D. Luís que mandou como reconhecimento pela sua estadia e pela estima das gentes de Vouzela que muito bem o receberam. Vieram homens de fora para a construir. Podias arranjar um marido que te agradasse, ou queres ficar velha sem conhecer homem?

– Que dizes, mulher?- Gritou Rosa, sentindo o coração bater fortemente, pois naquele momento teve o pressentimento de que a fonte era a sua nascente e largou a correr pelas ruas de Vouzela em direção à nogueira. A chuva caía gelada no seu rosto, no seu corpo mal agasalhado. Corria sem ver onde colocava os pés calçados numas chinelas gastas pelo uso, o seu pensamento gritava-lhe “ Traidor, Traidor! Não acredito que roubastes a minha nascente também!”

As obras iam adiantadas já. A construção simples erguia-se frente à nogueira imponente que agora tinha o seu segredo cristalino exposto. A água da nascente caía para um de dois tanques já edificados lado a lado.  Ao ver o seu lugar invadido, Rosa chorou toda a dor que até ali tinha suportado. Apesar de todas as provas de que o Infante a tinha enganado e faltado à sua promessa, apesar da sua dor profunda, havia algo dentro de si que recusava acreditar que Gabriel a tinha traído. Não era possível que ela se tivesse equivocado, o olhar dele parecia-lhe dizer o contrário. E porque haveria ele de lhe mentir? Porque haveria ele de prometer que voltaria se não tinha intenção? Não, não era possível. Quanto mais pensava, mais confusa ficava. Os factos diziam-lhe uma coisa, mas o seu coração dizia-lhe outra. “E como vou amar o filho, se não amar o pai?” Perguntava-se, acariciando o ventre. A chuva continuava a cair, ensopando-lhe as roupas que vestia. Nessa mesma noite, as febres vieram e Rosa adoeceu gravemente obrigando-a a ficar resguardada por várias semanas até que recuperasse o suficiente para ficar livre de perigo.

Aquela manhã primaveril tinha despertado bem-disposta. O sol tímido brilhava num céu azul que havia vencido o nevoeiro da madrugada e os pássaros celebravam os raios de sol num chilreio alegre e contagiante. De passos pouco seguros, Rosa deixou o povo seguir para a missa domingueira e desviou o seu destino. Foi ver a fonte que diziam estar terminada, da qual todos gabavam a boa água dando graças ao príncipe D. Luís tê-la construído. Respirou fundo, a brisa fresca e húmida entrou-lhe pelas narinas fazendo-lhe doer os pulmões ainda ressentidos da pneumonia que a havia atacado. Passo a passo, desceu a rua. Chegando à Ponte Romana parou. Dali podia ver parte da fonte. O seu coração estremeceu. Retomou a  marcha lenta e seguiu até se encontrar diante da fonte, daquela que era a sua fonte. Os tanques estavam protegidos por três paredes robustas, partilhando a quarta que os separava a meio. Dois arcos simples frontais. À esquerda, o tanque que recebia a água da nascente, ao encher, vertia  para o tanque do lado direito cujo arco, maior, ostentava a Coroa Real. “ O tanque sem coroa dá de beber ao tanque Real” – Pensou. Reparou depois num banco feito de duas pedras sobrepostas encostado a meio dos arcos, como que a convidando a um descanso ou a uma espera…

Só então Rosa compreendeu o motivo daquela fonte. Era um presente do Infante para ela. Recriava o momento em que ela deu de beber ao seu Infante e o banco aludia à sua promessa de ali ir todos os dias esperá-lo. Sentiu o seu bebé mexer dentro de si pela primeira vez. Sorriu. Sentou-se no banco frio. Tocou-lhe, tocou as pedras da fonte acariciando a aspereza do granito. Encostou-se e, suspirando profundamente, perdoou ao seu Gabriel, perdoou ao Infante e perdoou a si própria por ter duvidado.

– Senhora, dais-me de beber? – Ouviu de uma voz perto de si.

Abriu os olhos e deparou com a figura de um homem diante de si trajando uma capa, mal deixando ver o seu rosto.

– Mas senhor, se não tenho caneca para vos dar a beber. – Respondeu-lhe Rosa.

– Dai-me de beber da vossa nascente por vossas mãos, minha Rosa orvalhada.

Rosa não voltou a ser vista em Vouzela a partir daquele dia, tendo desaparecido sem deixar rastro algum.

Pouco tempo depois, o Infante D. Luís que nunca casou, apresentou à Corte o seu filho. Este único filho, D. António Prior do Crato, haveria de ser aclamado Rei de Portugal em 1580.

Nota: “António I de Portugal, mais conhecido pelo cognome de o Prior do Crato, era filho natural do Infante D. Luís e neto de D.

Manuel I, tendo sido um dos candidatos ao trono português durante a crise sucessória de 1580. A 24 de Julho de 1580, durante a preparação para a esperada invasão espanhola, D. António foi aclamado rei de Portugal pelo povo, no castelo de Santarém. D. António pedira ao povo que o aclamasse apenas regedor e defensor do reino, mas já o povo rejubilava. É aclamado também em Lisboa, Setúbal e em numerosos outros lugares. No entanto, um mês mais tarde, a 25 de Agosto, as suas forças são derrotadas na batalha de Alcântara pelas do duque de Alba.”

Um estudo recente tenta demonstrar que D. António era filho legítimo do Infante D. Luís, filho de D. Manuel I por Violante

Gomes. Nele vem reproduzido um assento da Sé de Évora, de 15 de Junho de 1544, descoberto por Luís de Mello Vaz de São Payo, no qual um baptizando é filho de uma escrava “de Pero Gomes, sogro do Infante D. Luís”.[O autor do estudo argumenta que “não podemos crer que o cura da Sé chamasse sogro ao pai da manceba do Príncipe, mesmo que com ele vivesse maritalmente”. Também refere que este assento “fornece o nome, que não vimos mencionado em nenhuma outra fonte, do pai de Violante Gomes”.

in wikipedia

FONTE DA NOGUEIRA

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Edição 704 (20/10/2016)

BOCAGE e as “redes sociais”

Congresso assinalou final da comemoração dos 250 anos do seu nascimento

• António Alexandrino

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Bocage nasceu a 15 de Setembro de 1765. Passaram-se 250 anos (medidos à data de 2015), tendo o poeta dado azo a comemorações, ao longo de um ano, comemorações que se encerraram no passado mês de Setembro, com a realização do congresso internacional “Bocage e as Luzes do Século XVIII”.

Sabendo nós da sua forma de ser e estar na ‘sociedade civil’, algumas questões poderão colocar-se, no tempo que passa (tempo fortemente marcado pelas tecnologias). Com efeito, se Manuel Maria Barbosa du Bocage estivesse vivo, estamos em crer que seria de esperar um membro activo da sociedade, mas talvez sem filiação em qualquer partido político. Deparar-se-nos-ia um cidadão empenhadamente preocupado com o respeito pelos direitos humanos, sempre alinhado pelos pareceres progressistas e valores da Revolução Francesa. Esta é opinião de pessoas diversas, nomeadamente, Daniel Pires, investigador da vida e obra do poeta setubalense, responsável pelo Centro de Estudos Bocageanos, opinião partilhada à margem do congresso acima referido. “Claro que Bocage teria um objecto de crítica muito mais frequente no passado quadro legislativo, já que esse Governo foi um desastre para o país”, frisa Daniel Pires.

No entanto, outras vozes entendem não só relevar estes pressupostos, mas também trazer à liça outras vertentes que a modernidade aponta como incontornáveis. Assim, Álvaro Arranja, autor da obra biográfica “Bocage, a liberdade e a Revolução Francesa”, pensa que Bocage vincar-se-ia hoje contra o desinvestimento na cultura, avalizando-se como um líder de opinião. “O discurso economicista que se tem implantado na nossa sociedade e que nos pretende dominar totalmente levaria Bocage a fazer muitos poemas satíricos como aquele que dedicou ao avarento médico”, afirma Álvaro Arranja para quem o “Elmano Sadino” tiraria “o maior partido das redes sociais para partilhar os seus poemas”.

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Edição 703 (29/09/2016)

TINTIN – A revista que vai dos 7 aos 77 anos

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• António Alexandrino

Tintin não envelhece, apesar dos seus 70 anos. O 70º aniversário desta reputada publicação (para os ‘jovens dos 7 aos 77 anos’) evoca, no livro “La grande aventure du Journal Tintin”, em 777 páginas, o percurso da obra, reproduzindo bandas desenhadas de quase todos os heróis que lhe deram corpo.

Passava o dia 26 de Setembro de 1946, quando Tintin, “personagem icónica” de Banda Desenhada, criada pelo belga Hergé, era lançado nas bancas, através da revista «Le Journal de Tintin”, não se imaginando porventura o sucesso que lhe estava destinado. Com efeito, recuperava ainda a Bélgica das feridas da II Guerra Mundial, quando uma nova publicação infanto-juvenil surgia para se tornar um marco na história da BD. Dado à estampa pelas ‘Editions du Lombard”, o volume tinha uma versão em holandês (‘Kuifje’) e contava 12 páginas, embora somente quatro tivessem Banda Desenhada, assinadas por Cuvelier, Jacobs, Laudy e Hergé.

Hergé era o director artístico e o pilar da publicação. No entanto, para isso foi necessário que o editor, Raymond Leblanc, antigo membro da Resistência, lhe desbloqueasse  uma autorização de trabalho, porquanto sobre ele recaíam acusações de colaboracionismo, por ter publicado Tintin no jornal ‘Le Soir’, durante a ocupação da França pelos nazis.

O primeiro número cifrou-se em 80 mil exemplares e, volvidos apenas três meses, a revista crescia para 16 páginas. Dois anos mais tarde, nascia a versão francesa.

Quanto aos heróis, foram-se multiplicando: Alix, Bernard Prince, Michal Vailland, Ric Hochet, Luc Orient, Comanche, Simon du Fleuve, Thorgal e muitos outros preencheram páginas e páginas de histórias aos quadradinhos recheadas de humor, aventura, ficção e fantasia, que fizeram sonhar gerações sucessivas de “jovens dos 7 aos 77 anos” e definiram nova forma de narrar em BD, durante décadas.

Em Portugal, as histórias do Tintin belga apareceram no “Diabrete” (1951) e no “Cavaleiro Andante” (1952), tendo sido também publicados pelo “Zorro”, “Titã”, “Flecha”e “Foguetão”. Em 1968, nascia a versão portuguesa, que aliava ao melhor da sua congénere belga as séries de sucesso da emergente revista “Pilote”. Assim, pela primeira vez, uma única publicação reunia Tintin, Astérix e Lucky Luke, que marcaram também muitos leitores portugueses.

O Tintin belga findou em 1988, tendo ainda tentado reviver, embora sem êxito, na “Tintin Reporter” e na “Hello BéDé”.

 

 

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• Sofia Costa

Outeiro de Sul, 01 de Agosto de 2016.

Ocaso-Apresentacao

Galeria “Leituras (In)esperadas

Vouzela, 22 de Julho de 2016

No dia 22 deste mês, na Galeria “Leituras (In)esperadas, foi lançado o livro de Manuel Martins da Costa, O Ocaso do Sonhador. Uma cerimónia muito simples onde compareceram muitos familiares e amigos que ainda conservavam na memória o autor e o seu trabalho.

A tarde estava agradável e o calor do fim do dia começava a misturar-se com os múrmuros das pessoas que se iam juntando, proporcionando um ambiente familiar e convidativo. A sala encheu rapidamente para dar início à festividade.

Os presentes foram deleitados com a bela música do grupo ARS NOVA. As três cantoras e o maestro interpretaram temas não só populares e da região (“Maçadeiras” e “Chora a videira”) como também peças mais eruditas, e ao gosto do autor, numa harmonia que nos deixou a todos mais libertos e comovidos.

Seguiu-se a leitura pela neta de Manuel Martins da Costa de um texto escrito por Mariana Bettencourt. Sem alguma vez ter conhecido o autor, a médica e escritora fez um retrato luminoso da obra ao mesmo tempo que, a partir dela, reconstrói de forma precisa o ambiente do autor, os seus valores e a evolução do seu pensamento.

Assim, no seu Ocaso, o Sonhador poderá não ter uma Fé religiosa no sentido formal (sente que as suas orações são como bater à porta de uma casa vazia) mas não deixa de manifestar uma profunda crença no Ser amado. Insubmisso a qualquer Dogma, adota a máxima de Protágoras que proclama o Homem medida de todas as coisas; desconfiado da autoridade política, elogia o Homem buscado por Diógenes, que prefere a luz do sol aos favores dos poderosos. Faz alusão ao Super-Homem de Nietzsche, cuja tragédia foi ter largado a mão ao Amor. Torna-se assim apologista de um racionalismo apaixonado, dentro da lógica cristã de Pascal.

Não menos impressionante, Cesaltina Sobral proclamou, com emoção, palavras que demostraram, mais uma vez, a grandeza de espirito do autor e as suas preocupações com o bem-estar comum. Os muito conhecidos rouxinóis, apresentados por Manuel Martins da Costa a muitos, foram relembrados durante o discurso, deixando familiares e amigos com saudades do canto do pássaro e das palavras do amigo.

Nos «Rouxinóis», foi onde vi pela primeira vez a concretização do «Sonho Voluntário» deste livro, na transformação da natureza selvagem, numa natureza aperfeiçoada pela criatividade e trabalho manual de Manuel Martins da Costa que aí criou um locus admirabilíssimo.

Da demanda da literatura oral e tradicional, em que o Herói vai vencendo penosos

obstáculos, até atingir a perfeição, merecedora da sua felicidade, até ao sartreano «Ohomem só se conhece em situação» no seu interagir com os outros, recusando o «Sonho Involuntário», está na minha leitura, o cerne deste livro.

Neste tempo em que a urgência, o curto prazo e a popularidade imediata nos impedem a escuta, a concentração e o desenho de uma realidade mais humana, é urgente ler «O Ocaso do Sonhador» para recusarmos a alienação do «Sonho Involuntário». Embora, frequentes vezes, tenhamos de carregar um saco de víboras, é importante chegar ao Ocaso com a tranquilidade e a certeza de que a nossa vida, tal como a de Manuel Martins da Costa, não foi em vão.

Também a intervenção de Vasco Coutinho foi tocante. O ex-aluno do autor recordou os serões, as conversas e o presunto que as acompanhava. Revelou igualmente a admiração que, não só ele mas muitos outros, tinham por Manuel Martins da Costa. Trouxe das profundezas das memórias e do coração o grande homem que era, dando particular destaque à sua enorme capacidade de escutar e de, com poucas e sábias palavras, nos elevar para outros horizontes e perspetivas onde os nossos dramas existenciais se dissolvem no vento que nos impele a progredir.

A última palavra coube ao filho, Paulo Manuel Rodrigues Martins da Costa, que tentando fazer justiça aos ensinamentos do pai, nos proporcionou um momento de reflexão relativamente ao livro e, acima de tudo, à generosidade do autor. No final fez um agradecimento a todos os presentes e a todos aqueles que nos proporcionaram aquele agradável encontro.

Depois de muitas palmas sentidas e umas lágrimas escondidas, o serão teve o seu fim, fim este que foi meramente um começo no lançamento do grande livro cujo o nome fica, “O Ocaso do Sonhador”.

Não resisto a acrescentar a esta crónica um poema dedicado ao meu avô (que a minha avó finalmente conseguiu resgatar de um inviolável cofre, depois de lhe ter encontrado a chave) e que, certamente, inspirou o autor no título e mensagem da sua obra. (a data do poema antecede o início da escrita do livro em aproximadamente seis anos)

 

Sonhador

(poema dedicado a: Martins da Costa)

Amigo de todos,

Vê as flores de cada um,

Olhar penetrante,

Riso conquistador,

Olhos da cor do

Céu fazendo lembrar

A esperança que ainda

Tem na vida.

Sonhador vive num

Mundo que não é o meu.

Não se guarda

Atrás do muro,

Luta com toda a

Sua força, é um

Vagabundo da verdade.

Não vive na indiferença,

Todos os pormenores

O toam no coração,

Coração que se abre

A qualquer um.

Aventureiro, apanha

Um barco e dá

Boleia a todos,

Para todos flutuarmos

No oceano cintilante.

Sentado na areia

Quente da praia

Olhando o sol;

Na janela olhando

O céu negro,

Chovendo, sempre

Com um sorriso

Nos lábios. Na selva

Não se perde

Entre as árvores.

Sabe para onde

Vai, e ele próprio

É luz que guia

Os outros através

Da floresta, que

Nos guia até

Ao cume da montanha,

Põe mais uma

Peça no puzzle

De cada um.

Vive nas estrelas.

Lavra a vida das

Outras pessoas removendo

As pedras. É o sol em pessoa.

Pedro J S Carvalho

1/07/84

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Edição 701 (28/07/2016)

Intervenção de Vasco Coutinho na apresentação do livro “Ocaso do Sonhador”

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Manuel Martins da Costa criou nos seus alunos uma impressão tão forte que no meu caso me transportou a este lugar hoje.

Esse facto, esse estar connosco, deve-se ao estabelecimento de uma grande relação de amizade, de admiração, das leituras e sobretudo das palavras que arrastaram momentos cúmplices.

O tempo com o meu Professor era um tempo interior, da nossa realidade, mas também um tempo cósmico, de nós com a substancia de todas as coisas e as interrogações naturais da adolescência.

Na sua capacidade de nos induzir espanto e perplexidade, foi sempre capaz de fazer com que nos perguntássemos como e quando nos chegou às mãos a Liberdade, a tolerância, a aceitação da diferença a solidariedade

Ensinando-nos a ouvir, desafiou-nos a escrever- Que relatássemos experiências e que as deixássemos ocupar o lugar dos sonhos.

Dizia-me o Paulo num telefonema recente que ouvia o Pai a ler-me o “Ocaso do Sonhador “por telefone, imaginem como me sentia gigante por tamanha honra ouvindo-o em primeira mão.

Este livro tem uma crítica literária feita pela Mariana Bettencourt Viana Gatão, amiga da Família e que espelha a essência do sentido do homem e da sua escrita.

O Martins da Costa fala de si mesmo, do seu tempo, da sua vida, dos seus afectos, das suas dores, dos seus ideais, de si mesmo em carne e osso.

Visitei o Outeiro algumas vezes desde que nos conhecemos e comi com certeza o melhor presunto de salgadeira da minha vida, soube aqui pela Dª Maria da Luz que era a Sogra que tão bem o fazia.

Também subi o elevador de cordas para o Miradouro construído numa árvore de onde observávamos a paisagem e conversávamos.

Dos lugares de estar e conversar foi feita a nossa amizade.

Quando adoeceu, visitei-o algumas vezes e mencionou como fundamentais para as minhas leituras futuras três autores, Nietzsche Holderlin e Shakespeare.

Na sua mesinha de cabeceira tinha sempre o Livro de Nietzsche – Assim falava Zaratrusta, atrevo-me a ler esta parte do capítulo – A Outra Área da Dança:

Próximo tenho medo de ti – Longe amo-te.

A tua Fuga atrai-me.

A tua procura pára-me, sofro!

Mas quem não sofreria por amor de ti.

 

A sua vida como Professor e activista das causas sociais levaram-no a coordenador do plano Nacional de Alfabetização, o que demonstra a sua génese humanista e a sua vontade de tornar o Homem mais Livre.

O meu Professor Martins da Costa acreditava no Homem, como medida de todas as coisas, preferia a luz do Sol aos favores dos poderosos.

No legado que nos deixou, que me deixou, há uma paixão pela vida ou como Ibsen dizia – que a vida fosse como o poema da grande conciliação entre a felicidade e o dever.

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Iniciativa realizou-se a 22 de julho na Galeria Leituras (In)Esperadas

Livro “O Ocaso do Sonhador” foi apresentado em Vouzela

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A Galeria Leituras (In)Esperadas recebeu no passado dia 22 de julho, pelas 21h30, a apresentação do livro “O Ocaso do Sonhador”, publicação póstuma de um romance inédito da autoria de Manuel Martins da Costa.

A apresentação feita por Vasco Coutinho, antigo aluno do autor, e a sessão contou com a atuação musical do grupo Ars Nova.

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Participam também o Presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira, Maria da Luz Martins da Costa, Mariana Bettencourt Viana e Cesaltina Sobral.

“O Ocaso do Sonhador” é um romance filosófico sobre o ocaso da vivência da utopia. O protagonista, o Sonhador, percorre uma demanda, mas é também um pensador que discorre sobre a realidade e o mito e que questiona o Homem.

Manuel Martins da Costa nasceu a 23 de setembro de 1932, em Oliveira do Sul, concelho de S. Pedro do Sul. Concluiu o curso da Escola Normal em Goa, licenciando-se mais tarde em Filosofia e Ciências Pedagógicas na Universidade de Lisboa.

Lecionou no Ensino Primário, Preparatório, Liceal e no Magistério Primário. Foi ainda coordenador do Plano Nacional de Alfabetização e manteve, ao longo da vida, uma intensa atividade cívica.

 

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Edição 700 (14/07/2016)

Camilo de Oliveira

O comediante morre aos 91 anos

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• António Alexandrino

Nascido em 1924, com uma carreira de 70 anos, em palco e na TV, Camilo de Oliveira, uma das grandes figuras da comédia em Portugal, cruzou várias gerações com o seu humor. Por certo que muita gente recordará ‘papéis’ como o do padre Pimentinha – “Sabadabadú”, 1981 – aquele simpático e inefável cura, quando se lamentava, premonitoriamente ou não (“Isto é que vai uma crise?!” ao sentar-se no confessionário, sempre que não aparecia ninguém para confessar pecados!

O seu desaparecimento suscitou reacções diversas, que não se fizeram esperar e atravessam gerações. Amigos e colegas evocam um actor excepcional, de grande talento e rigor: “Figura essencial da comédia portuguesa da qual fica grata memória. Tinha um humor muito doce” (Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República);

“Foi crítico hábil de costumes, retratando com fina ironia a sociedade das últimas décadas com personagens no teatro e na TV. Mestre da comédia portuguesa que contribuiu de forma extraordinária para a vitalidade do teatro de revista em Portugal” (Luís Filipe Castro Mendes, Ministro da Cultura);

“Um grande profissional de teatro, um ‘gentleman’ e um homem muito divertido” (Florbela Queiroz, actriz);

“Ficará para sempre na nossa memória, como o último grande comediante” (Júlio Isidro, apresentador).

Foram cerca de 70 anos, nos teatros de Lisboa e em digressões pelo país, especialmente dedicados ao riso, às vezes em parceria com actores como Ivone Silva, Beatriz Costa, António Feio e Nuno Melo. Aliás, com Ivone Silva, protagonizou um dos pares de enorme sucesso em programas televisivos, “Os Agostinhos”, da autoria de César de Oliveira e Melo Pereira (em 1981), distinguido internacionalmente com menção honrosa no Festival Rosa de Ouro de Montreux, na Suiça.

Camilo de Oliveira, sportinguista “dos quatro costados”, formou, por sua iniciativa, diversas companhias teatrais, dirigiu revistas e encenou peças. É suposto que tenha participado em 47 revistas, 24 comédias e vários programas de televisão, como “Camilo em sarilhos”, “Camilo, o pendura”, “Camilo na prisão”, “A loja do Camilo”, “As aventuras do Camilo” e “Camilo & Filho Lda”.

De acordo com opinião generalizada dos colegas de profissão, Camilo era um “homem bom, com um temperamento por vezes nada fácil, mas muito amado por todos… excelente profissional, primava pela exigência. Camilo sabia muito bem o que estava a fazer, e sendo exigente em palco, era disciplinado e exigente consigo próprio… tinha os tempos certos de comédia e tinha uma enorme cumplicidade com o público”. O investigador Luciano Reis classificou-o mesmo como “um dos maiores decanos da história do teatro e da interpretação em Portugal, um exímio na arte de representar”.

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Edição 699 (30/06/2016)

Prémio Camões 2016 contempla autor brasileiro recluso

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• António Alexandrino

Raduan Nassar apenas tem três livros editados – todos na década de 1970. Caso para se dizer que também neste contexto a quantidade, só por si, não é vantagem que baste. Nassar é o vencedor da 28ª edição do prestigiado galardão.

Raduan Nassar, o influente escritor brasileiro, de 80 anos e de origem libanesa, retirou-se da vida literária, há quase quatro décadas!

Recai a escolha sobre um nome prestigiado da literatura de língua portuguesa. A preferência do júri não causa propriamente admiração. No entanto, foi com enorme “surpresa”, “admiração” e “orgulho” que Nassar, segundo palavras do secretário de Estado, Miguel Honrado, recebeu a notícia.

De acordo com o comunicado do júri, «o autor revela, no universo da sua obra, a complexidade das relações humanas», não se coibindo de abordar uma faceta mais «agreste e incómoda». Os jurados relevaram ainda a «plasticidade da linguagem numa obra que privilegia a densidade acima da extensão». O ministro da Cultura português, Luís Filipe Castro Mendes, endereçou ao escritor as suas “mais vivas felicitações pela justíssima atribuição do Prémio Camões à sua pessoa e à sua obra”.

Comparado a Thomas Pynchon ou J. D. Salinger, pela aversão à face mundana da literatura, R. Nassar, como dissemos, escreveu apenas três livros, todos na década de 1970: ‘Um copo de cólera’, ‘Lavoura arcaica’ e ‘Menina a caminho’. Os dois primeiros encontram-se esgotados, há anos, prevendo-se que esta atribuição do Prémio conduza a nova edição.

Nos últimos meses, tem-se assistido a uma notória redescoberta internacional dos seus livros. Como prova disso, refira-se a inclusão do nome do escritor – graças à tradução para inglês de ‘Um copo de cólera’ – na lista dos semifinalistas do “Man Booker Prize”. Uma escolha muito saudada por muitos dos seus pares, designadamente, o angolano José Eduardo Agualusa.

Há menos de três meses, Nassar surpreendeu a opinião pública brasileira, ao trocar o habitual isolamento pela participação num evento de apoio a Dilma Rousseff.

A escolha de Raduan Nassar comprova, mais uma vez, a supremacia do eixo Portugal-Brasil, quanto a vencedores do Prémio Camões. Com efeito, apenas em cinco das vinte e oito edições a preferência do júri não recaiu sobre escritores dos dois países: José Craveirinha (1991), Pepetela (1997), José Luandino Vieira (2006 – prémio entretanto recusado), Arménio Vieira (2009) e Mia Couto (2013).

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Edição 698 (09/06/2016)

ARS NOVA  EM CONGRESSO INTERNACIONAL, NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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A 25 de Maio, o grupo ARS NOVA de Manhouce, a convite do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG), marcou presença com uma brilhante actuação no Congresso Internacional “Estudos de Género em debate – percursos, desafios e olhares interdisciplinares”, realizado a 25, 26 e 27 de Maio, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da UNIVERSIDADE DE LISBOA.

Com um repertório variado, entre música tradicional, música erudita (G. F. Haendel e G. Puccini) e música de intervenção (José Afonso e Fernando Lopes-Graça), o ARS NOVA conquistou a assembleia, composta por investigadoras/es de vários países: Cabo Verde, Brasil, Inglaterra, EUA, Noruega, Itália, Holanda, Suécia, Japão, Guiné-Bissau, Turquia, Polónia e França.

Para além dos muitos aplausos que surgiram da aula magna do ISCSP, o interessante foi algumas pessoas da assistência subirem ao palco, no final, a saudar o Grupo e a afirmar que, embora não tivessem entendido a língua, ficaram muito impressionadas com a música e com a forma como as jovens cantaram, emocionalmente envolvidas. Uma delas afirmou mesmo que lhe tinham vindo as lágrimas aos olhos, tão comovida que estava, uma prova de que a música e o canto podem unir pessoas de diferentes nacionalidades. Depois quiseram tirar fotos – Margaret Abraham, presidente da Associação Internacional de Sociologia; Beverley Skeggs e Rosemary Deem da Universidade de Londres; Virgínia Ferreira da Universidade de Coimbra; Anália Torres, coordenadora do CIEG; Paula Pinto e Manuela Tavares, também do CIEG; Maria José Magalhães, da Universidade do Porto e presidente da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta); e Ana Paula Canotilho, também da UMAR.

O Grupo, constituído pelo professor António Alexandrino (piano/arranjos e direcção musical) e pelas vozes de Adriana Gomes, Ana Rita Trindade, Cíntia Gomes e Susana Alves, está de parabéns pelo espaço que conquistou junto de pessoas de outros países.

O transporte do Grupo foi assegurado por carrinha da Câmara Municipal de Vouzela que mais uma vez demonstrou solidariedade para com este Grupo.

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Exposição de fotografia sobre Cuba em Vouzela

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• Redacção

Para os amantes de fotografia decorre em Vouzela uma exposição de fotografia de Cuba, no Museu Municipal, da autoria de Raul Torres Robles.

À conversa com o casal vouzelense Celeste Carvalho e António José Carvalho, nasceu a ideia de mostrar à região um dos seus trabalhos de fotografia. Com o apoio da ‘Casa Museu’ e em parceria com o Município de Vouzela, foi escolhida uma das colecções de Raul, entre diversas que primam pela excelência. Acresce que Raul Torres está ligado a Vouzela por laços familiares, visto o avô de sua esposa, Mário de Almeida Campos de Melo, ter raízes em Vouzela, terra que ele considera também “um sítio maravilhoso”.

Raul Torres Robles nasceu em Puerto Rico (E.U.A.), em cuja Universidade se licenciou, indo em seguida viver em “Greenwich Village”, em Nova Iorque. Mudou-se para a Europa, pouco depois. Entretanto, ‘elege’ as suas duas paixões – a fotografia e a música. Para as alimentar, trabalha como executivo em empresas internacionais. Viveu e trabalhou em vários países: Espanha, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Senegal, Holanda, Argentina, Suécia, Madagáscar e, agora, entre França e Portugal. Actualmente, reparte o seu tempo entre o ensino superior e a fotografia – exposições (França, EUA, Itália, Espanha, Marrocos, Portugal) e reportagens de moda, casamentos, eventos culturais, retratos… Enfim, “um viajante infatigável, fotografando incansavelmente”.

A abertura da exposição, que vai estar patente até 30 do corrente mês de Junho, no Museu Municipal de Vouzela, teve lugar no passado dia 4 de Junho, com a presença do Sr. Presidente da Câmara de Vouzela, Engº Rui ladeira, e de numeroso público.

‘Gazeta da Beira’, bem como algumas das pessoas presentes, colocaram algumas questões, que vamos sintetizar. Sobre a escolha de Cuba, para a realização deste trabalho, Raul diz que «Quando a revolução triunfou e Fidel entrou em Havana, eu era um jovem universitário… O povo cubano é um povo especial, maravilhoso, apesar das carências. Então a sua música… por todo o lado se canta e dança, faz parte da sua cultura! Eu, porto-riquenho, mas sempre identificado com o povo cubano… Quis mostrar com esta colecção de fotos (tiradas entre Abril e Maio de 2010) uma visão muito pessoal desse país extraordinário, como o vivi e vi pelos meus olhos… Não quis mostrar a pobreza, miséria e as necessidades que estão presentes constantemente e em toda a parte, nem mostrar os poucos recantos restaurados, destinados a turistas estrangeiros… Ao que me propus foi capturar com olhares, paisagens e momentos esse desejo de sobrevivência, com uma certa alegria e felicidade da vida, deste povo nobre e generoso…».

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“Histórias do Mar e Outras Histórias Que Um Dia Hei de Inventar…”, novo livro de Carlos Almeida

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Carlos Almeida, escritor, professor e ativista cultural, natural de Santa Cruz da Trapa, vai apresentar o seu mais recente trabalho no Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa no âmbito da Feira do Livro, no próximo dia 7 de junho.

Este novo livro, “Histórias do Mar e Outras Histórias Que Um Dia Hei de Inventar…”, conta também com a colaboração do seu filho Daniel Almeida que na ilustração.

Como o próprio autor refere, este livro trata de “…um conjunto de histórias que nos transportam para um mundo feito de ambientes sustentáveis, onde cada gesto humano é um carinho à natureza”.

Através deste trabalho o autor assume a sua preocupação com o ambiente e a natureza, mas com um olhar de esperança no futuro.

“são momentos de afeto para com a natureza em desequilíbrio, gritos de alerta que se desprendem das feridas suportadas em silêncio, gestos de esperança no olhar sonhador de uma criança …”

É a “descontinuidade temática e experimentalismo técnico” que caracterizam a produção artística e literária de Carlos Almeida.

Carlos Almeida nasceu de forma acidental, como o próprio diz, em Lisboa. Mas foi aqui nas Beiras que construiu a sua vida. As suas raízes familiares e culturais estão sedeadas em Santa Cruz da Trapa. Vive em Viseu desde 1987.

É professor de História e dirigente do Gicav-Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu. Aqui dirige o Festival Internacional de Banda Desenhada de Viseu. Também na Banda Desenhada representa o Gicav na Comissão de Honra no Festival de BD da Amadora.

Toda a obra de Carlos Almeida estará exposta, no Centro Cultural Casa do Povo, na Feira do Livro em Santa Cruz da Trapa que decorrerá entre os dias 6 e 12 de junho.

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Edição 696 (12/05/2016)

Os Navios da Noite” – João de Melo

(“O formato curto dos contos para narrar uma história longa: a condição humana”)

• António Alexandrino

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‘Gazeta da Beira’, em devido tempo (edição de 28 de Janeiro p. p.), referiu a distinção concedida ao escritor João de Melo com o prémio Vergílio Ferreira 2016, tendo em conta o conjunto da sua obra.

Eis-nos, entretanto, perante “Os Navios da Noite” (dezoito contos), chegado às bancas, em Fevereiro passado, um tanto antes da entrega do prémio Vergílio Ferreira, evento esse que teve lugar no passado dia 1 de Março, na Universidade de Évora, com um programa e circunstância de elevado gabarito.

O escritor inicia o livro, ora em apreço, introduzindo uma citação de Álvaro de Campos:

«Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,

Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas

E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.

Navios que se afastam ponteados de luz na treva,

Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro

Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.»

Definir um escritor somente através de um dos seus livros é sempre metodologia redutora. Especialmente quando é autor não somente de ficção, mas também de ensaio, crónicas e, inclusive, de um livro de poesia. Tal sucedeu, entre outros, com o escritor João de Melo, no que respeita a “Gente Feliz com Lágrimas” (1988) – «título estranho de um romance em que a autobiografia e a ficção se enleiam sem se confundir», palavras de Luísa Mellid-Franco, para quem “Os Navios da Noite” mais não parece ser do que «o avesso daquela partida vencedora e esperançosa dos Açores para o mundo, levada a cabo pelo Nuno Miguel».

Os Navios da Noite” – Inicia-se com o conto “O Ponto de vista do Vencido”, antecedido de uma curta introdução de Jorge Luís Borges (aliás, magistralmente escolhida): «Há sempre algo de grandioso na derrota / que não pertence à vitória»; acaba com uma ‘fábula de resignação’ (Sílvia Souto Cunha) em “Pão com Laranjas”, no qual um narrador, perante a possibilidade de usufruir dos três desejos concedidos a Aladino, termina escolhendo, com receio dos castigos inerentes, continuar a ser o que é: «Nem pobre nem rico: um ser remediado com o produto e o suor do seu trabalho; e saudável o bastante para estar vivo, conhecer e amar este mundo (que é tão belo, tão real à nossa medida!), fruir dos ligeiros prazeres de que também se vive – os quais devemos levar em desconto das nossas dores espirituais; e continuar a ser aquilo que a mãe natureza resolveu fazer de mim em primeira mão: nem belo nem feio, fruto nado e criado de uma têmpera que assenta na personificação do chamado homem comum; e ser e parecer digno o suficiente para poder olhar-me, cada dia pela manhã, ao espelho da única verdade que a todos pertence: estando limpa e tranquila, a minha consciência será também a beleza única e verdadeira de um homem entre os homens.» Todavia, até aportar a esta última página sobre «os anseios e desejos de redenção da pequena vida – a única doença de que ninguém conhece possibilidade de cura», o autor leva-nos a navegar por águas turbulentas, embarcados num ‘mega-navio’ (‘germânicamente’ magnânimo), prestes a afundar, onde as “misérias” suplantam, enfim, a grandiosidade: rombos assinaláveis, incêndios na casa das máquinas, inexistência de botes salva-vidas para todos os passageiros.

“Os Navios da Noite” “somos nós, e é o país a atravessar a noite escura da crise e não só. Estes 18 contos são dedicados aos vencidos da vida, derrotados que passam na escuridão como barcos insignificantes” (Sílvia Souto Cunha). Aí deparam-se-nos histórias, como a do professor, preso político torturado em Caxias, que ‘racha’ sob o peso dos «infernos da tortura e da dor»; ou a do desgastado padre Filomeno, empachado dos pecados alheios, que desiste, sendo visto como possuído pela Besta, julgado e castigado em fogueira inquisitorial; ou a da professora Aida, regressada, após 15 anos de ausência, a um «país na mais funda lástima», com «velhas senhoras que vão e vêm das compras nas lojas e nos mercados do bairro» a quem «inculcaram um imenso remorso: o seu país está doente de morte porque elas deram de comer e de beber aos filhos e aos maridos… um país doente das modestas prendas que elas lhes deram pelo Natal e no dia de aniversário… país doente dos seus sonhos… por tudo isso elas choram, choram, choram». É ainda o ‘regressado’ José Maria (Eça de Queirós), viúvos e doentes, viajantes de cruzeiro a quem tudo acontece… isto é, “gente infeliz com lágrimas”…

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Edição 696 (12/05/2016)

XXIV Aniversário de Cavaquinhos e Cantares à Beira

• Rita Alexandrino Mendes Rocha

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Nos dias 6 e 7 de maio de 2016, o Grupo de Cavaquinhos e Cantares à Beira comemorou o seu XXIV aniversário, à noite, em Queirã, no Salão da Junta de Freguesia de Queirã.

O dia 6, sexta feira, foi dedicado ao teatro, contando com a representação da peça de teatro ”O Ilustre Conferencista” do Grupo da Associação Recreativa Desportiva Cultural de Oliveira de Baixo, Bodiosa. A noite terminou com “Prata da Casa”, Veteranos da Freguesia de Queirã e suas Harmónicas que tocaram as suas “gaitas de beiços”, recriando um “baile à moda antiga”.

No sábado, dia 7 de maio, atuou o Grupo de Cavaquinhos da Casa do Povo de Alcofra e o grupo Anfitrião- Cavaquinhos e Cantares à Beira.

Ao longo destes 24 anos de existência, o grupo tem –se dedicado  à recolha, preservação e divulgação da  música tradicional desta região, quer nacional, quer internacionalmente,  estando já a preparar a comemoração do 25.º Aniversário. Para as “ Bodas de Prata”, entre outras atividades, estão já em preparação a Monografia da Freguesia de Queirã e um DVD, do qual constará a recriação de algumas tradições que já caíram em desuso como é o exemplo de “sarrar a Velha, Apupar aos cabaços…”, rezas e outro património oral e imaterial.

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Manuel Veiga publicou novo livro

• António Bica
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Manuel Veiga

Manuel Veiga tem escrito na GAZETA, embora com intermitências.

Publicou agora, Abril de 2016, terceiro livro de poesia, “DO ESPLENDOR DAS COISAS POSSÍVEIS”, pela editora POÉTICA EDIÇÕES (poética-livros.com/loja) que já publicara outro livro seu, “POEMAS CATIVOS”.

Os poetas são artífices das palavras a expressar emoções, como Manuel Veiga.

A estimular a leitura, respiga-se, realinhando dos poemas:

“Tacteio os sinais furtivos, as emoções breves nas palavras por dizer. Insubmete-se o poema na prestidigitação dos dedos em busca da exactidão da forma.

Mãe, presença iluminada que pressinto em cada passo. Os teus cabelos brancos. As lágrimas no céu. O menino, milagre de ti, filho incréu.

A tua bênção, pai; antes que as margens se afastem infinitamente, passo as tuas bênçãos à carne da minha carne, no sorriso da criança com teu nome, António.

Éramos a gravidez do tempo, a explosão dos cravos, a gloriosa madrugada e o fecundo Abril de um filho.

Eclesiais bênçãos sobre as searas, exorcizando pragas. O povo em coro: aleluia. Além, nas nuvens, Ceres e Pã.

Imanência de sopro, frágil senda, calcinados sonhos nos ombros do poeta. Celebramos divinos, como se poeta náufrago, ou gargalhada do destino. Inaudíveis sons, bailado da memória, fio de água a desenhar a paisagem, fogo no interior da pedra.

Delicada flor no coração dos homens, busca milenar dos dias solares. Há um dia outro, brisa que incendeia, Abril límpido, justiça no rosto do povo. No alvoroço das palavras, reinventados os dias claros e o fogo solar.

A distância se condensa entre o momento breve e a eternidade. Palavra frémito, cadência solta, alvoroço. Explosão de punhos em gestos erguidos, na alegria solidária, na luta ombro a ombro. Os braços, árvores de raízes no coração das auroras, Mozart saltitante, fogo divino derramando-se. Crescer, viver, abraçar o mundo, tudo no nada que se é, António.

Perdido na cascata dos teus cabelos negros, na ânfora do teu corpo, menina, colhemos flores em inóspitos caminhos .”

Cabe ao leitor avaliar a qualidade da poesia, lendo o livro, não pelos olhos de outro. Por isso não se comenta.

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Mário de Sá-Carneiro – no Centenário da sua morte

Efeméride motivou iniciativas diversas

• António Alexandrino

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Sá-Carneiro nasceu em Lisboa, a 19 de Maio de 1890, e morreu em Paris, a 26 de Abril de 1916.

O centenário da morte do escritor foi assinalado com várias iniciativas, nomeadamente, uma exposição em Paredes de Coura, outra na Biblioteca Nacional e um “programa especial” na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

A exposição levada a efeito em Paredes de Coura (“Mil anos me separam de amanhã”) teve como peça “central” a nota de suicídio do escritor, deixada a Fernando Pessoa, mostrando, ainda, o espólio de uma colecção privada com correspondência e edições originais dos seus livros.

«Mário de Sá-Carneiro, ‘O homem são louco’» foi o título da exposição inaugurada em 26 de Abril, lembrando “a forma em que [Fernando] Pessoa se referiu ao seu amigo e espírito contemporâneo” Sá-Carneiro, pela Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), aquando da apresentação da mostra. Como adianta a BNP, refira-se que a exposição em apreço constava de oito secções: ‘Publicações em vida’, ‘Publicações na primeira metade do centenário da morte’, ‘Publicações na segunda metade do centenário da morte’, ‘Correspondência’, ‘Prosa’, ‘Poesia’, ‘Orpheu’ e ‘Miscelânea’.

Em 2007, a Biblioteca Nacional adquiriu em leilão, na galeria do Potássio4, por 33 mil euros, obras de Mário de Sá Carneiro, entre as quais figurava um manuscrito que passou “a ser o documento mais importante do espólio do escritor”, na posse da BNP, como realçou à Lusa o seu então director, Jorge Couto.

A Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, Lisboa, promoveu “um programa especial, que juntou Ricardo Vasconcelos, especialista em Mário de Sá-Carneiro, a Miguel Simões e a Suzana Branco, criadores de uma visita guiada, em forma de áudio-teatro”.

Coimbra – Os primeiros livros do escritor.

O “primeiro livro” da biblioteca de Sá-Carneiro, juntamente com outros sete da sua infância, estão guardados na Universidade de Coimbra, onde o escritor foi estudante. “Spelling Book” terá sido o primeiro da biblioteca do então menino Mário de Sá-Carneiro, em que a sua assinatura é repetida várias vezes e no qual se encontra a seguinte inscrição: «O primeiro livro que se comprou para o Mário», datada de 1895 (aos cinco anos de idade). Na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, estão oito livros. Os achados foram descobertos “numa caixinha”, em 1994, contendo os livros apontamentos, pequenos versos e até desenhos, que poderão ser de sua autoria.

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A Corda Musical

A corda

Acorda

Luzes de imaginação

Imagens de beleza

Alegria e tristeza…

A corda

Acorda sentimentos

Num som maciço e doce

Tal qual como se fosse

Um toque de veludo

Cheio de amor.

E esse toque é quase tudo

Da alma do tocador.

A corda

Desperta corações

Como a guitarra num fado,

Faz libertar emoções.

 

A corda,

Com outras cordas,

São amarras de navios

Entrelaçados de fios.

Têm som forte e profundo

Quando vibram

Batidos pelas tempestades,

Cordas que acordam saudades

Suspiros e ais

Passeando pelo mundo

Ou agarrados ao cais.

Cordas que içam velas

Soltas ou enfunadas

Cordas tensas, esticadas,

Que soam com vento ao passar

Dia ou noite

De breu ao luar.

Quanta magia há nelas…

Qual será o seu destino?

Adivinhamo-lo

Nos sons de um violino.

Cordas que acordam o despertar

Naquele sino da aldeia

Que o faz voltar no ar…

Cordas que embalam o sol poente

Às Trindades

Nas horas de meditar.

Cordas

Que acordam fúrias,

Torrentes, furacões,

Calmas quentes,

Amores serenos…

E paixões.

 

Cordas

Que acordam o mundo,

O mar sem fundo, Céu e Inferno

Verão inverno

O que é místico e eterno…

Estranho e fantasmagórico

O que a corda acorda

No seu vibrar harmónico…

Numa nota só,

Há alegria e dó

No seu cantar,

Oh mão abençoada

Que lhe tocas apaixonada

Sem receios ou medos…

A corda é apenas

Mais um dos teus dedos!

• José Manuel Cachim, 15 de Maio, 1999

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Cows from outer space

•  Carlos Paiva
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Foto: Delfim Dias

25 de Abril de 1974 – a estação orbital

Estacionada a ziliões de km do planeta

Regista a passagem, acoplada a um cometa,

De uma nave interestelar colossal

Que vem a despenhar-se, sem deixar marcas,

Num país algures em plena Europa.

Entre os destroços, abre-se uma porta

Donde sai um poderoso exército de vacas.

Estas vacas, emissárias de Hipócrito,

Um tirano alienígena com mau feitio,

O pior trambolho que o cosmos já pariu,

Estas vacas, dizia eu, vieram parar a sítio inóspito:

Este sítio, que não lembra ao diabo,

É a própria pátria do Camões e do Pessoa,

E é curioso que nessa altura, em Lisboa,

Siga a revolução, embora em tom moderado.

Ora, estas vacas são vacas, mas não são parvas –

Foram meticulosamente treinadas, são uma tropa de elite,

E enquanto não falta na rua quem grite,

Estas vacas, com artimanhas e bem calculadas palavras,

Conseguem, num acto inesperado, apossar-se do poder!

Muitas sobem ao palanque e, altissonantemente, mugem;

É a hora, meu senhores, de o altifalante perder a ferrugem,

E tem que ouvir mesmo quem não quiser…

As vacas não perdem tempo: novas ordens são decretadas,

Projectos de lei, um ror de regras ainda por inventar –

Cúmulo: as vacas chegam a proclamar-se ‘sagradas’

E com habilidade para tratar de assuntos sérios,

Até metendo o focinho na forragem do outono,

E também noutros assuntos, de que não percebem corno,

E assim ascendem a cargos de chefia nos ministérios.

A bem segura distância, e por controlo remoto,

Hipócrito comanda, de surra, a sua horda,

Que, ah!, já veste fatos, sorri, anda na moda,

Mesmo que à volta tudo descambe e dê pró torto.

Aliás, discretamente tudo se parece encaminhar

Para a instalação de um festim lúbrico,

Ainda por cima à conta do erário público…

Enquanto isso, as vacas, naturalmente, continuam a avacalhar,

E não tarda que, nas parangonas dos jornais,

Surjam notícias de tão notório avacalhamento:

Buracos, golpadas monumentais, derrapagens de orçamento,

E uns outros tantos esquemas e aldrabices mais!

Não tarda que o povo sua indignação já mostra

Perante as ditas vacas sagradas do poder,

Porque prometam lá o que irão fazer,

O que têm feito, quase sempre, é uma indescritível bosta!

Dão cabo, por completo, do asseio geral,

Pois, a cada vez que sua farfalhuda cauda se arreda,

Lá de dentro sai uma rajada sonora de merda,

Tanto que já mais parece uma vacaria Portugal!

Mas acaso alguém pergunta como delas nos livrar –

O que fazer com tais seres?, mandá-los p’ra onde?… –

É caso curioso, há sempre alguém que, bovinamente, responde:

‘Ah não, são sagradas, não se lhes pode tocar…’

 

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Edição 695 (28/04/2016)

UMBERTO  ECO, “uma inteligência única”

 

695_Cultura-UmbertoEcco

«Como as senhoras, os autores não têm idade» (Ana C. Leonardo). Efectivamente, a obra ‘imortaliza’ o escritor. Já Horácio (enorme referência literária mundial, grande poeta do período clássico da literatura latina – nascido em 65 antes de Cristo) mui sabiamente alertou para o fenómeno da criação literária: «Exegi monumentum aere perennius…» – ‘erigi um monumento mais perene do que o bronze…’ (Odes, III, 30).

Umberto Eco deixou-nos recentemente, aos 84 anos, tendo falecido na sua casa, em Milão. O mundo chora a morte do filósofo romancista. “Exemplo extraordinário de intelectual europeu, aliava uma inteligência única com uma incansável capacidade de antecipar o futuro”, destacou Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano. Outrossim, para Marcelo Rebelo de Sousa (presidente da República Portuguesa) Umberto Eco “Foi um intelectual na melhor tradição europeia: conciliou erudição com uma capacidade invulgar de trazer o livro e a leitura para novos públicos, cruzando fronteiras difíceis de ultrapassar”.

Para quem foi crescendo a ler o escritor, ainda que apenas os seus ensaios mais acessíveis, e descontado o romance “O nome da rosa”, que o popularizou, o seu desaparecimento significa o empobrecimento do mundo (não se entenda nisto uma frase gasta de retórica), mas porque é mesmo um mundo que desaparece: um mundo povoado pelo que ainda restava da figura do intelectual do séc. XX, culto, interventivo, universal – asserção que o próprio Eco traduziu por palavras, em Junho passado, na Universidade de Turim, ao insurgir-se contra o que denominou “l’invasione degli imbecilli”, explicitando de seguida: “Prima parlavano solo al bar dopo un bicchiere di vino, senza danneggiare la collettività… a resistência à imbecilização do mundo ficou mais difícil com a sua morte” (Ana C. Leonardo).

Penso em mim como um professor sério, que ao fim de semana escreve novelas” – assim se definia Umberto Eco. Filósofo, semiólogo, escritor e professor universitário, deste modo se manifesta o legado deste italiano nascido na Itália de Mussolini, em Alexandria, a 5 de Janeiro de 1932. Era casado com Renate Ramger, uma professora alemã de arte, com quem teve dois filhos. A crítica mordaz e a capacidade de observação estão bem patentes na sua obra e também nas atitudes que foi adoptando ao longo da vida. Como fiador da liberdade e da justiça, preferiu abandonar o grupo editorial da família Berlusconi, na senda do que já era seu hábito denunciar os excessos do outrora primeiro-ministro italiano, com uma ironia fina.

Autor de mais de 40 ensaios, verdadeiras obras-primas (casos de “O signo”, “Os limites da interpretação”, “Kant e o ornitorrinco” e “Como se faz uma tese em Ciências Humanas”) concomitantemente, escreveu sete romances.

Com efeito, a sua carreira como romancista começou já perto dos 50 anos de idade (recorde-se que entre nós é também de iniciação serôdia o nosso Nobel da Literatura, José Saramago). Primeiro, “O nome da rosa” (1980), com o qual ganhou os prémios Médicis Prémio Strega, e fama internacional com a adaptação cinematográfica. Seguiram-se “O pêndulo de Foucault” (1988), “A ilha do dia anterior” (1994), “Baudolino” (2000), “A misteriosa chama da rainha Loana” (2004), “O Cemitério de Praga” (2011) e o “Número zero (2015).

Com uma carreira académica fulgurante, obteve 34 doutoramentos ‘honoris causa’ e fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino, em 1988. Leccionou, entre outras, nas universidades de Yale e Haryard (EUA), além do ‘Collège de France’. Era ainda professor emérito da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha.

• António Alexandrino

 

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Frank Sinatra  – “The Voice

• António Alexandrino

Ed686_SinatraDia 12 de Dezembro. Se Frank  Sinatra (“The Voice” )fosse vivo, faria 100 anos, nessa data.

Há precisamente um século, nascia um bebé numa modesta habitação do nº 415 da Monroe Street, em New Jersey, EUA. Foi-lhe posto o nome de Francis Albert Sinatra

Filho único de um casal imigrante, proveniente de Itália, Frank viria a tornar-se o maior cantor do séc. XX e um ícone da cultura popular. No decurso de 50 anos, gravou mais de 100 discos, 1800 canções! À posteridade legou o epíteto de “a Voz”.

Em 1939, aos 23 anos, começava uma longeva carreira, com a gravação do seu primeiro disco. Pouco depois, já provocava chiliques nas moçoilas da assistência e ‘arrasava’ corações pela América. Rapidamente se afirmou como uma estrela global de primeira – quiçá a primeira.

Embora longa a carreira, Frank Sinatra veio a Portugal apenas por três vezes: em 1950 e em 1971 como turista – jogou golfe em Cascais – e a terceira como cantor. Actuou no estádio das Antas, em 7 de Junho de 1992. Entretanto, a sua estrela artística empalidecia (o que acontece a todos, mesmo aos maiores). Aos 76 anos, então, era já a fase descendente da sua carreira. Apesar do preço elevado dos bilhetes (entre os 15 e os 30 contos), juntou cerca de dez mil pessoas na relva, revestida por alcatifa azul e com algumas mesas para as carteiras mais abastadas. Não consta que esta passagem pela ‘Cidade Invicta’ tenha deixado grande memória. Segundo as ‘crónicas’, terá aportado poucas horas antes de cantar e nem terá pernoitado em solo luso, após a apresentação de 17 canções. Ao que consta, no fim do concerto, não quis cumprimentar Amália que o foi saudar.

Todavia, Frank Sinatra maravilhou gerações; viveu como quis, de jacto em jacto privado, ‘bom vivant’, mulherengo, adepto dos ‘jogos de azar’, caçoando das acusações que o apontavam como mafioso. Falecido aos 83 anos, ‘vê’ o 100º aniversário do seu nascimento comemorado um tanto por todo o lado.

Sem pretensiosismos, fiquemo-nos, por exemplo, com “My way” ou  “My funny Valentine” ou “Stormy weather”…

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Ed. 685  (05/11/2015)

Bocage – 250 anos do poeta

• António Alexandrino

Ed686_bocageNascido a 15 de Setembro de 1765 e falecido em 1805 (com apenas 40 anos), Manuel Maria Barbosa du Bocage, teria, actualmente, 250 anos, se fosse, fisicamente, vivo.

Natural de Setúbal (“Elmano Sadino”), está a ser alvo de homenagens e actividades a condizer, que vão até Setembro de 2016, a serem levadas a efeito pela autarquia setubalense. A iniciar tal programa, para além de situações pontuais, houve lugar, no dia de aniversário, a uma sessão solene e a um concerto da Orquestra do Norte, na Praça Bocage, em Setúbal e ainda, posteriormente, à tertúlia “Eis Bocage: Conversas de Botequim”, com convívio poético, no Largo da Misericórdia.

Sem ambições de grande abrangência, nesta abordagem de apenas umas tantas linhas (Bocage é o maior poeta do século XVIII – “irmão” de Camões na «má fortuna», nas andanças pelo Oriente, nos amores infelizes) fixemos a atenção, no tempo que passa, sobre o que pensaria Bocage da crise e do Portugal de hoje. Nesta matéria, há que ouvir os especialistas. Alguns especialistas sobre o poeta setubalense subscrevem que este reagiria de maneira crítica ao quotidiano português de crise, à assimetria ricos/pobres e à Europa contemporânea na forma de lidar com os refugiados.

Para Álvaro Arranja (“Bocage, a Liberdade e a Revolução Francesa”), hoje, Bocage «basearia as suas críticas fundamentalmente nas políticas tomadas por alguns países da Europa em relação aos imigrantes da Síria, ao mesmo tempo que acusaria a União Europeia de não fazer o seu papel na luta pelos direitos fundamentais da Revolução francesa – igualdade, liberdade e fraternidade.

Por agora, ficamos por aqui, transcrevendo, a propósito, um dos seus sonetos:

«Liberdade querida e suspirada, / Que o Despotismo acérrimo condena! / Liberdade, a meus olhos mais serena / Que o sereno clarão da madrugada!  /// Atende à minha voz, que geme e brada / Por ver-te, por gozar-te a face amena! / Liberdade gentil, desterra a pena / Em que esta alma infeliz jaz sepultada! /// Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha, / Vem, oh consolação da humanidade, / Cujo semblante mais que os astros brilha! /// Vem, solta-me o grilhão da adversidade! / Dos céus descende, pois dos céus és filha, / Mãe dos prazeres, doce Liberdade!»

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Ed. 685  (05/11/2015)

Ramalho Ortigão

• Manuela Tavares

Encontros Intergeracionais em Bondança e Aveloso de Sul

Ed685_DSCF0233No âmbito do Projeto Acolher – Cooperação Intergeracional para um Turismo Ético e Responsável em Meio Rural, inserido na programa Cidadania Ativa da Fundação Calouste Gulbenkian, realizaram-se nos dias 30 e 31 de Outubro, dois encontros intergeracionais nas aldeias de Bondança (Manhouce) e Aveloso de Sul.

Na desfolhada em Bondança participaram perto de 40 pessoas num convívio, onde jovens e pessoas idosas trocaram saberes e cantares. Alguns elementos do grupo de concertinas de Lafões abrilhantaram o baile que se seguiu à desfolhada. O grupo “Fragas (en) canto” com origem no Projeto Acolher cantou músicas e autores como José Afonso, Pedro Abrunhosa e Brigada Vitor Jara, assim como músicas tradicionais, convidando as mulheres de Gestosinho e Bondança a participar, gerando-se um ambiente muito emotivo, em especial, quando o grupo, evocando as pessoas que emigraram, cantou “Para os braços de minha mãe”. A população de Bondança acolheu também com muito agrado o retorno à sua aldeia do antigo presidente da Câmara Bandeira Pinho, agora como visitante associado da Fragas Aveloso.

O mesmo ambiente de convívio e de partilha de experiências registou-se no “Convívio da Castanha” na Associação Fragas Aveloso, a promotora do projecto Acolher, em parceria com a Binaural  Estiveram presentes mais de três dezenas de pessoas, jovens e menos jovens, sendo que uma das jovens do projecto Acolher leu alguns dos poemas publicados recentemente em livro: Ekaterina Malginova. Neste convívio marcou presença o Presidente da Junta de Freguesia de Sul, assim como elementos da Associação Cultural de Rompecilha que convidaram a Associação Fragas para o magusto de dia 1 de Novembro. Neste magusto, foi exibido o documentário realizado por Renato Fernandes, jovem do projecto Acolher, sobre o ciclo do linho em Rompecilha, com origem na visita de jovens do projecto à aldeia a 25 de agosto deste ano.

Estes encontros intergeracionais transformaram-se também em convívios inter-aldeias (Aveloso de Sul, Bondança e Rompecilha), mostrando que as solidariedades também podem ser geradas através do convívio, reanimando antigas tradições que constituíam factores de coesão entre as pessoas, como é o caso das desfolhadas.

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Ed. 684  (15/10/2015)

Ramalho Ortigão

• António Alexandrino

ou  Era uma vez…“As Farpas”

Um século após a sua morte (a efeméride teve lugar no passado 27 de Setembro), vai “matéria” de sobra para o estro do talento de Ramalho Ortigão e, pela cumplicidade de ambos, para o não menos talentoso coautor d’ As Farpas, Eça de Queirós…

São diversas as iniciativas para as comemorações do centenário. A cidade do Porto, onde nasceu, em 1836, de família burguesa desafogada, leva a efeito (entre 29 de Outubro e 14 de Novembro), através da Fundação Engº António de Almeida, um ambicioso programa de homenagem. Igualmente destaque para a Biblioteca Nacional Digital, que vai dar relevo às suas obras mais conhecidas, tal como um conjunto de notícias sobre a sua morte. Também Lisboa, cidade onde faleceu, em 1915, se associa às comemorações, com duas conferências e uma mostra bibliográfica a promover pelo Grémio Literário.

Como ele próprio o frisou, muito ficou a dever aos «sãos e austeros costumes em que foi educado, “como um pequeno saloio”, “no caldo de unto e na broa dos homens do campo”, na casa de lavoura da avó materna. Costumes patriarcais e convivência com um tio frade e um criado soldado: “Fiquei para todo o sempre um tanto frade, um tanto soldado”» (in ‘Dicionário de Literatura’, Prado Coelho). «Na saúde física e na educação recebida, de ar livre, assentam a sua esplêndida saúde moral, as suas virtudes de lutador, o seu amor às coisas concretas, o seu portuguesismo, o seu culto da tradição» (idem).

Cedo começou a leccionar francês no Colégio da Lapa, dirigido por seu pai, bem como a dedicar-se ao jornalismo. Frequenta a Universidade de Coimbra, sem que se tenha diplomado. Intervém na “Questão Coimbrã” com um folheto imparcial e corajoso – ‘Literatura de Hoje’. Em 1868, é nomeado oficial da secretaria da Academia das Ciências, passando a viver na capital, entregue ao jornalismo. Lança-se, com Eça, na longa campanha d’As Farpas. Enfileirou entre os homens da “Geração de 70”, empenhados em criticar vícios e preconceitos da sociedade portuguesa, perfilhando um espírito moderno, positivo, liberal, europeu. Marca dessa geração é também o gosto de viajar. Figura no «grupo jantante» dos “Vencidos da Vida”, com Eça de Queirós, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro e outros. Honra-o a amizade do Rei D. Luís. Em 1895, é bibliotecário do Palácio da Ajuda. Com o advento da República, em 1910, entende que deve renunciar aos cargos da Academia e da Ajuda. Desiludido da acção política, vai regressando progressivamente aos princípios em que fora criado…

Vasta foi a sua produção literária e jornalística, embora só uma pequena parte haja chegado aos nossos dias. Apesar disso, Ramalho Ortigão escapou ao esquecimento a que foi votada a maioria dos vultos desse tempo, nomeadamente, Pinheiro Chagas, Castilho ou Bulhão Pato.

Em parceria com Eça de Queirós, de quem era grande amigo, escreve “O mistério da estrada de Sintra”.

Literatura de viagens: em obras como “A Holanda” ou “John Bull”, Ortigão conseguiu captar o espírito do lugar, sintetizando um conjunto de impressões definidoras e bem humoradas acerca de povos como o holandês e o inglês.

Crítica de arte: Teve um contributo importante para o seu incremento, sobretudo, graças ao livro “O culto da arte em Portugal”.

As Farpas. Obra levada a efeito, em parceria com Eça, numa primeira fase. «Inimitável fresco da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX» (Sérgio Almeida, in JN, 27 de Setembro, 2015), se bem que «a sátira e a verve aí presentes» (idem) estariam à medida do muito que o Portugal de hoje fornece a um bem apurado engenho! Em As Farpas, se revela uma «vocação pedagógica, servida por excepcional poder de observação e de análise» (in Dic. de Literatura, Prado Coelho), que dissecou o país com uma propriedade incomum. Obra escrita «com um objectivo primacial: fazer ver bem. Ver bem é a primeira condição para actuar bem» (ibidem).

No plano artístico, Ramalho é um sensorial, muito atento e vibrátil, face ao mundo exterior. No plano estilístico, muito rico de vocabulário concreto (utensílios, técnicas, vestuário) é «firme, lavado, fluente, comedido – afirmação duma personalidade pelo equilíbrio viril, digamos pela normalidade exemplar» (Prado Coelho, idem).

Ramalho Ortigão: personalidade prática, elegante no vestir, mundano.

Deixamos aqui alguns excertos desta imortal obra. Prevenimos o caro leitor, face à tentação para uma eventual comparação com a actualidade. É que, no tempo que passa, lá diz a bem avisada asserção, “qualquer semelhança com a (quotidiana) realidade é pura coincidência”.

“Leitor de bom senso, que abres curiosamente a primeira página deste livrinho, sabe, leitor celibatário ou casado, proprietário ou produtor, conservador ou revolucionário, velho patuleia ou legitimista hostil, que foi para ti que ele foi escrito – se tens bom senso! […] O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem, por única direcção, a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. O tédio invadiu as almas”.

“Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado: Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam o Poder, trocam o Poder… O Poder não sai duns certos grupos… Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no Poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão – os corruptos, os esbanjadores da Fazenda, a ruína do País! Os outros, os que não estão no Poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País… A política converteu-se em uma associação de intriga, em que os sócios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é impelirem-se e repelirem-se sucessivamente uns aos outros, até que a cada um deles chegue o mais frequentemente que for possível a vez de entrar e sair do governo”.

“Em Portugal, a luta pela vida destrói a altivez moral e dá a sobrevivência à ignorância bajuladora e servil”.

“Como o boi puro, o povo não se desilude nunca, nunca se desengana na lide… O povo é um boi que em Portugal se julga um animal muito livre, porque lhe não montam na anca: – e o desgraçado não se lembra da canga!… O povo às vezes tem-se revoltado por conta alheia. Por conta própria – nunca”.

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EXPOSIÇÃO 4M’s em Braga

• Redação

Ed684_Violinos-Expo-EngCapela_IMG_17474M’s = à Magia das Mãos, da Madeira e da Música. Esta, a chave da fórmula 4M’s. Em que consiste?

Inaugurada em 10 de Outubro p. p., no ‘Museu Pio XII’, na cidade de Braga, sob a presidência do seu Director (Cónego José Paulo Martins) esta exposição de cordofones, patente ao público até ao dia 30 de Novembro, é constituída por 23 instrumentos friccionados (tocados a arco) e dedilhados (tocados com os dedos).

Todos os instrumentos são da autoria do violeiro Joaquim Domingos Capela (Engenheiro e Professor Universitário), pertencente a uma família distinta de violeiros de Anta (Espinho).

Compõem o recheio da exposição: violinos (normais e gravados), viola de amor, viola de arco (violeta), rabeca, crota, família de bandolins, alaúde, violas de mão (barroca, romântica e moderna), guitarras portuguesas (modelo Coimbra e modelo Lisboa) e cavaquinhos (modelo Minho e modelo Lisboa). Parte deste património foi cedido pela Universidade de Aveiro, sendo a maior parte facultada pelo próprio autor.

Os instrumentos, reputados como de alta qualidade, mereceram elevados encómios dos visitantes, muito especialmente o violino ¼, construído pelo autor, na idade de nove anos. Preenche, ainda, a exposição um conjunto de madeiras, ferramentas e vernizes, materiais utilizados pelo autor para descrever o modo de como construir um violino – faceta muito apreciada pelos circunstantes, tendo em conta as dúvidas e perguntas entretanto por eles formuladas.

Completam esta exposição cerca de duas dezenas de livros, escolhidos pelo violeiro Joaquim Domingos Capela da sua extensa bibliografia, dirigidos à arte da violaria e à vida dos grandes violeiros.

Ao terminar o cerimonial, o Director do ‘Museu Pio XII’ dirigiu algumas palavras elogiosas sobre a obra exposta, pela sua qualidade e diversidade, salientando não ter conhecido outro construtor que tivesse abrangido a feitura de instrumentos pertencentes a áreas tão específicas como é o caso de instrumentos  friccionados e dedilhados. Apelou ainda à divulgação da existência desta exposição, por ser pouco vulgar.

Em evento de tal contexto, ficaria um vazio, se não houvesse música, música instrumental. Com efeito, foram tocadas duas peças musicais pelo jovem violoncelista Tiago Mendes.

Como acima ficou dito, esta exposição estará aberta ao público até 30 de Novembro. Fecha à segunda-feira e tem o seguinte horário: 10.00-12.30 e 14.30-18.00.

 

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Ed. 683 (24/09/2015)

ARS NOVA EM LISBOA

Manuela Tavares

Ed683_ARS-Nova_IMG_5523Vestidos azuis de várias tonalidades, vozes límpidas e bem colocadas, em cantares tradicionais, eruditos e de intervenção, encantaram o numeroso público que se juntou no Centro de Cultura e Intervenção Feminista da UMAR, em Alcântara, para assistir ao concerto do ARS NOVA.

Pela primeira vez em Lisboa, este grupo de jovens vozes de Manhouce – Adriana Gomes, Ana Rita Trindade, Cíntia Gomes e Susana Alves – dirigido pelo professor António Alexandrino Matos, afirmou-se pela qualidade e pelo programa escolhido, onde não faltaram compositores como Fernando Lopes-Graça, José Afonso, Mozart e Haendel, sem esquecer o canto da polifonia tradicional.

A UMAR – União de Mulheres, Alternativa e Resposta, que nesse dia 12 de Setembro completou 39 anos de existência, sentiu-se muito gratificada com este concerto, segundo declarações de Teresa Sales, Vice-Presidente da Associação, que salientou também o facto de o repertório cantado incluir poemas de José Gomes Ferreira musicados por Fernando Lopes Graça, autores por vezes esquecidos na actualidade.

Manhouce desceu, mais uma vez, à cidade de Lisboa, desta feita através das vozes do ARS NOVA, novel grupo formado em Dezembro de 2014, com origem nas “Vozes de Manhouce” e que se autonomizou, por necessidade de ampliação de repertório e para valorização de outras vozes, mais jovens.

O repertório deste grupo reflecte classe e diversidade, quer no colectivo (coro), quer a solo. Não perdendo as suas raízes tradicionais, ao seleccionar para o seu programa canções como ‘Maçadeiras’, ‘Chora a videira’, ou ‘Este linho é mourisco’, o ARS NOVA enfrenta também os desafios dos cânticos de intervenção, designadamente, as “Canções Heróicas” de Fernando Lopes-Graça (‘Acordai!’, ‘Cantemos o novo dia’ e outras) que ficaram na memória de quem lutou contra um regime de 48 anos que obscureceu o país na cultura, nas mais elementares liberdades e que penalizou quem ousava pensar e agir. Mas é, também, o manancial de José Afonso (‘Milho verde’, ‘Canção de embalar’, ‘Balada do Outono’, ‘A morte saiu à rua’…). Este grupo ousou, ainda, e com êxito, entrar pelos caminhos da música erudita, ao cantar, nomeadamente, ‘O mio babbino caro’ – G. Puccini (1858-1924), Aria da Ópera “Gianni Schicchi”, ou ‘Ombra mai fù’- G. F. Haendel (1685-1759), Aria da Ópera “Xerxes”, ou ‘Ave verum’- W. A. Mozart (1756-1791), ou ‘Panis angelicus’- C. A. Franck (1822-1890).

Os apoios institucionais a este grupo de canto são ainda escassos, mas temos a certeza de que, com persistência na qualidade da sua intervenção, o ARS NOVA vai dar que falar e engrandecer a região de Lafões e as suas gentes.

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Ed. 682 (10/09/2015)

Vale a pena estudar?

• António Alexandrino

Ed682-Cultura_EstudarEstamos em vésperas de as portas das escolas dos vários níveis de ensino (desde as “escolinhas” ao superior) se abrirem, dando realização a mais um ano lectivo/escolar. Os preparativos, como de costume, aí estão “no terreno”, com múltiplas salgalhadas… também “como de costume”.

Legítimo e porventura imperioso questionarmo-nos: será que vale a pena estudar? A expressão, por nós transformada em “questão”, é da autoria do Sr. Professor Manuel António Assunção, digníssimo Reitor da Universidade de Aveiro e, com devida vénia, a trazemos à liça.

Efectivamente, o que está no âmago do problema, «da maior importância para as pessoas e para o futuro do país é a qualificação dos portugueses» (idem, M. A. Assunção). Regista-se, no momento que passa, mais elevado número de candidatos ao Ensino Superior do que em igual período do ano transacto, facto a que é dado especial relevo.

Na verdade, Portugal continua longe da média europeia, no que respeita a pessoas com formação superior: 30% contra 38%, se tivermos em conta quem está entre 30 e 34 anos. Nota-se uma recuperação do nosso atraso crónico muito vagarosa: apenas 3% nos últimos 8 anos! É previsível que não vamos atingir uma das metas 2020, fixadas para a EU: ter 40% da população, na faixa apontada, com um diploma superior.

Dois terços dos jovens que concluem o Ensino Básico não chegam ao Superior. É, obviamente, preocupante! Trata-se de uma «situação paradoxal e muito negativa, quando caminhamos para uma sociedade onde o conhecimento é cada vez mais determinante para o secesso individual e colectivo» (idem).

Razões para que, no passado recente, os candidatos ao Ensino Superior tenham diminuído são múltiplas. No entanto, é de sublinhar uma: a percepção instalada um tanto em largos sectores da sociedade de que não vale a pena estudar. Ora, nada de mais errado!

Não só vale a pena como «constitui um investimento firme para o futuro» (idem). A taxa de desemprego de quem tem um curso superior é muito menor (10% contra 16%); o tempo de espera por emprego é inferior; a remuneração auferida é melhor; as oportunidades e possibilidades de escolha à disposição de quem tem a qualificação superior são muito mais alargadas. Não falando já do bem social e do «acréscimo de cidadania que advêm de termos mais gente com melhor formação e educação» (idem).

Todavia, a situação que o país atravessa não acrescenta facilidades. Bem pelo contrário, impõe aos estudantes e respectivas famílias uma escolha criteriosa do curso a seguir. «O valor antecipável da formação é muito variável e encerra incertezas várias» (idem). Por isso, deve cada qual fazer a sua opção, tendo em conta competências, gostos e sonhos…

Mas, qualquer que seja a opção…, vale a pena estudar!

 

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Ed. 681 (30/07/2015)

Política, Democracia, Cidadania e Ambiente – Laudato si!

• António Gouveia

Ed681_p31No velho sentido clássico, definição ou semântica do que é a ideologia política, seja ela de esquerda, do centro ou de direita, cada uma defendendo os seus valores, tenho-me, enquanto cidadão interventor e político (somos todos políticos), alinhado ao centro, com pequenos recuos de oportunidade e arroubos estratégicos – nasci a 23 julho, meio caranguejo, meio leão, esta é uma crónica de aniversário –  para um e outro lados da balança conforme o prumo, pois entendo que é no centro que está o “justo meio” – isto nos ensina Aristóteles (na sua) “Ética a Nicómaco” -, na medida em que, diz ele, “Se temos razão em dizer que a vida feliz é a vida a que nenhum obstáculo desvia da virtude, e que a virtude é um meio, segue-se necessariamente que a vida melhor é a que consiste num justo meio”. E mais ainda: “Estas mesmas normas devem também aplicar-se à excelência ou à perversidade de uma Cidade e de uma Constituição, porque a Constituição é o estilo de vida de uma Cidade”.

Como sabemos, o termo política deriva do grego, da palavra Πὁλίς (pólis, cidade) cujo sufixo ”tica”, aprendi no liceu, sugere relação, no caso, com a Cidade e forma como esta deve ser governada. Relendo ainda Aristóteles, desta feita no (seu) Tratado da Política e volta aos clássicos, encontro, logo nas primeiras páginas, que “A sociedade que se formou da junção de várias aldeias constitui a Cidade, a qual tem a faculdade de se bastar a si própria, sendo organizada, não somente para conservar a existência, mas também para procurar o bem-estar”. Será esta uma das melhores definições de Política. E diz mais ainda: “O homem é um animal político”- não sei se para nos distinguir dos outros animais sem alma, portanto irracionais, selvagens e brigões -, ou se já então, o maior filósofo de todos os tempos entendia que o lugar e sociedade onde vivemos é uma selva. Talvez seja, pelo que observo.

Aristóteles nasceu na Trácia em 385 a.C., há 2 400 anos, portanto, em Estagiros, pequena cidade fundada por colonos gregos no território que pertencia então à antiga Macedónia (essa mesma, a pátria de Alexandre, o Grande) no espaço geográfico que hoje corresponderá, mais coisa menos coisa, a partes da Grécia, Turquia e Bulgária, nos mares Egeu, Negro e da Mármara, junto aos estreitos dos Dardanelos e do Bósforo, este a dividir hoje a Europa da Ásia, na belíssima e mística Istambul, outrora Constantinopla e Bizâncio. E, por esta razão, tantos séculos passados, tantos os saltos qualitativos que a sociedade deu ao longo dos tempos, na ciência, tecnologia, filosofia, economia, antropologia, nas artes (a política das mais belas mas borram-lhe a pintura, outra arte), espantamo-nos (eu espanto-me) com tudo o que se vem passando: falta de ética, mentira e corrupção, latrocínio e peculato, justificações e desculpas esfarrapadas para crimes bem à vista de todos mas de difícil prova (no direito penal, liberdade e propriedade também chocam entre si), que poucos magistrados têm a coragem de inquirir e punir com medo das consequências e dos poderosos. Tudo, afinal, porque “Homo homini lupus” – frase dita por Plauto no séc. II d.C. e tão bem popularizada por Thomas Hobbes muito mais tarde, no séc. XVII.

Mais curioso é ter sido na antiga Grécia a descobrirem-se estas palavras: política, oligarquia, monarquia, aristocracia, democracia, república, estado e tantas outras por que se movimenta, nos dias de hoje, toda a política nacional e internacional. E mais curioso ainda, passados tantos séculos, estar este país tão longe da igualdade e fraternidade tão apregoadas ao longo dos séculos, mil vezes repetidas. Por mim, dos valores principais a comandarem a sociedade, a liberdade e a propriedade são importantes, também o tão propalado ambiente, outro valor de inegável alcance que o Papa Francisco, com oportunidade vem relembrar na nova encíclica inspirada no belo poema do outrora rico cidadão convertido em “poverello” de Assis – Laudato Si -, poema à natureza que nos sustenta, outro valor tão vilipendiado que até querem privatizar a água, este sim, um valor absoluto, soberano e intocável.

Vamos ter novas eleições a 4 outubro, desta feita para as legislativas, o mesmo é dizer para a Assembleia da República. António Costa, líder do PS, deu o pontapé de saída, renovando os cidadãos que quer ver sentados em S. Bento e sacudindo com coragem, os que aos costumes dizem nada ou coisa nenhuma. Por mim, já tinha mudado a lei eleitoral e, se ela mo consentisse (e devia consentir, a democracia é isso), votaria nominalmente numa lista, escolhia os partidos e, nas listas de nomes, os que eu mais gostasse, por exemplo, a jovem Mariana Mortágua para me representar e, com ela, outras figuras gradas, mulheres e homens sérios e honrados, e que honram a política, que por ela se batem com denodo e galhardia contra esta bagunça que é uma mistela de austeridade para uns e de roubalheira e corrupção para outros. Vivendo nós numa rua de pobres, tal como a Grécia – onde já ouvi isto? -, Bom seria vivermos com mais probidade e menos austeridade, por certo afastaríamos esta crise e este desemprego, animávamos a economia e poupávamos para atenuar este endividamento que a todos nos esmaga e derrota. Enfim, saíamos deste purgatório que é uma cepa torta e arde que até queima as nossas vidas.

 

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Ed 680 (16/07/2015)

O disco de vinil cada vez mais de regresso e em força!

• António Alexandrino

Ed680_VinilNa anterior edição de ‘Gazeta da Beira’, dedicámos parte do espaço “Cultura” aos 40 anos da “Brigada Victor Jara”. Foram 40 anos merecedores dos encómios aí expressos. Todavia, e porque deixámos em aberto a concretização de alguns dados sobre uma vinda da ‘Brigada’ a S. Pedro do Sul, entendeu um assinante de ‘Gazeta da Beira’ fornecer-no-los, o que agradecemos. Efectivamente, aquele grupo actuou no então Cine-Teatro, em 1983, por iniciativa do ‘Cénico’, agremiação a que estava ligado, activamente, o leitor a que acima aludimos.

Ao longo da referida local, salientámos o facto de a sua produção discográfica haver sido, pode dizer-se, no âmbito do vinil, quanto mais não fosse, por uma questão cronológica, porquanto era a forma de produção e divulgação mais fiável no sector. É que, na verdade, o vinil, o disco de vinil, está cada vez «mais vivo» e recomenda-se (acrescentamos nós). Do facto se tem vindo a fazer eco a nossa comunicação social.

Com o aparecimento do CD (Compact Disc), ter-se-á diagnosticado o fim do vinil, sobretudo, o LP (Long Playing), a forma mais perfeita de registo sonoro, na ‘carreira’ desta longeva tecnologia. Outras mortes anunciadas foram tendo lugar, ao longo da História, sem que se tenham concretizado “tanto como isso”! Com efeito, o surgimento do cinema parecia empurrar para o limbo o teatro… o teatro não morreu. Veio a televisão, que tinha por ‘incumbência, liquidar o cinema e, já agora … o teatro… enfim, e outros inventos (especialmente, as “novas tecnologias”) que estariam na calha para liquidar ou obstruir quantos andassem pelas proximidades…, numa espécie de caça “fratricida” e sem tréguas. Mais, independentemente da melhor ou da menos boa utilização de todas estas vertentes, de forma descomprometida, deveremos aceitá-las, todas, como potencialmente possuidoras de capacidades concomitantes e concorrentes, no melhor sentido.

Diz quem sabe (caso dos comerciantes do sector) que as vendas do LP não param de subir e o formato é o preferido pelos melómanos e coleccionadores. Atestam, ainda, que o mercado cresce tanto para os velhos discos usados como para as novidades discográficas que aparecem em ‘rodela negra’. Os interessados em vinil são cada vez mais em maior número. De resto, não se pense que o fenómeno é de há pouco. A tendência sente-se vai para 10 anos e é cada vez mais visível: o vinil está a regressar em força.

Após eclipse devido à ascensão do CD, aí por meados dos anos noventa, os discos de vinil voltaram a ser uma preferência para muita gente, desde há cerca de uma década. Diz o mundo do comércio que o CD lidera as vendas, mas com esta ressalva: há já vários anos que cada vez se vendem mais LP e cada vez menos se vendem CD.

Alguns números. Nos Estados Unidos, a venda de vinil aumentou 50% em 2014. Segundo a Nielsen, uma consultora de análise de tendências e hábitos de consumo, o mercado dos LP aumentou 260%, desde 2009, prevendo-se que este ano os números vão continuar a subir. De acordo com a “Forbes”, os três primeiros meses de 2015 apresentam vendas de vinil 53% superiores às do mesmo período do ano passado.

Há cada vez mais lojas que apostam nos discos de vinil, sendo significativo o seu número, mormente em Lisboa e no Porto. Mas também as feiras de artigos usados, como a ‘Vandoma’ (Porto) ou a ‘Feira da Ladra’ (lisboa) costumam ser locais apreciados por quem procura discos a preço em conta. «Cada vez mais artistas optam por editar em vinil, muitas vezes sendo o único formato físico escolhido, em detrimento do CD… Abrimos uma loja, em 2004, e as vendas de vinil foram sempre subindo» (Rui Quintela, proprietário de uma das mais emblemáticas lojas de discos do Porto).

De entre os que compram discos de vinil, nem todos o fazem pelas mesmas razões. «Cada um terá os seus motivos, desde quem alegue que o som é melhor, até ao que gosta das capas neste formato ou porque acha que fica melhor no móvel lá da sala» (idem).

Não há, também, um perfil tipo do comprador, mas uma franja significativa é o melómano na casa dos 30 anos. Se há uns 10 anos apenas os melómanos mais puristas compravam vinil, «neste momento a coisa democratizou-se para as massas e os êxitos…» (Rui Quintela).

Não prometemos, mas voltaremos, eventualmente, ao assunto.

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Ed. 679 (25/06/2015)

Brigada Victor Jara – 40 anos depois!

• António Alexandrino

Ed679_BrigadaVitorJarra_IMG_1477Víctor Jara. Melhor, Víctor Lidio Jara Martinez. Cidadão chileno, director de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e activista político.

Integrou e dirigiu, artisticamente, o Grupo Musical Quilapayún (fundado em 1965), que se perfilava na corrente da “Nueva Canción Chilena” (quem não se lembra… “el pueblo unido jamas sera vencido”?). Na sequência, e em consequência, do golpe militar de 11 de Setembro de 1973 (sob inspiração da CIA e comandado pelo general Augusto Pinochet que instaurou uma longa e feroz ditadura), Víctor Jara foi assassinado, em Santiago do Chile, cinco dias depois, tal como muitos seus compatriotas, inclusive, o Presidente Salvador Allende, que falecera aquando do golpe.

Poucos meses depois, em Portugal, é o 25 de Abril de 1974. E um enorme abanão, em múltiplas facetas da vida nacional, nomeadamente, no campo da música tradicional portuguesa, varre o país. Eram as ‘brigadas’ de alfabetização… a 5ª Divisão do MFA… Ouvem-se nomes, como que ‘novos’, de músicos e musicólogos. Entre outros, Armando Leça, Artur Santos, Michel Giacometti, Fernando Lopes-Graça… Efectivamente, o Estado Novo, nesta matéria, havia “vendido o seu peixe” como lhe conviera, à sua maneira. Surgem grupos, especialmente pela mão de gente jovem, que marcam o panorama cultural.

Brigada Victor Jara. É uma das grandes referências, neste contexto, e está a comemorar 40 anos. Uma ‘referência’ de quem um dos actuais músicos (Arnaldo Carvalho) faz questão de afirmar que «Nós nunca andámos atrás do estrelato… sempre fomos um grupo de causas».

A história da Brigada remonta a Coimbra (“sua génese e a sua cartilha de procedimentos”) e ao pós-25 de Abril. Um grupo onde, ao longo dos anos, entrou e saiu muita gente. Gravaram discos essenciais (ah, vinil, vinil…!) para se perceber a riqueza e a importância da música tradicional portuguesa, de todas as regiões do país, embora tenham relevado algumas, face a outras. Lembra o músico, supra citado, que Michel Giacometti foi sempre a quem a banda mais recorreu nas recolhas  – andou muito tempo por terras transmontanas  a captar tradições em vias de extinção. “A alguns locais ele só conseguia chegar de burro e encontrava sítios virgens com muita canção da tradição oral”.

Nas novas gerações de músicos nacionais, entendem os elementos da Brigada, não falta quem mantenha viva a tradição. Acrescenta Garção Nunes: “Esta geração nova não está tanto a ir buscar a música tradicional pura e dura, mas mais a procurar os próprios instrumentos e a puxá-los para os nossos dias. Isso é evolução e assim é que deve ser”.  Garção Nunes cita exemplos, como os das violas campaniça ou beiroa, “que há 30 anos estavam quase desaparecidas”. Hoje, como diz Arnaldo Carvalho, “há um processo dinâmico e há uma coisa altamente promissora para o futuro que é a progressiva introdução desses instrumentos e sua valorização em todas as linguagens musicais”.

Vão lá 40 anos! Para festejar a data, a Brigada Victor Jara edita a discografia completa, em 10 CDs (com 111 canções de todas as regiões, ilhas incluídas, e um livro com as letras e vários depoimentos de gente próxima do grupo). De acordo com Cristiano Pereira (in JN, 12 de Junho/15, ‘Artes’), «Amiúde arrumada no departamento dos “comunistas”, a música gravada pela Brigada Victor Jara é absolutamente obrigatória para se perceber a identidade e as raízes culturais portuguesas».

Em determinada altura (não temos presente), a Brigada actuou no então Cine-Teatro de S. Pedro do Sul. Emocionante! Hoje, passados que são seguramente pouco menos de 40 anos, é recordação que “faz viver”!

Julgamos oportuna uma alusão, ainda que sumária, ao primeiro LP, intitulado EITO FORA. Dever-se-á esta denominação ao facto de a canção assim conhecida, que dá início a este (ainda) ‘vinil’, ser uma “cantiga de ceifa”, um “Eito Fora”, de Lourosa da Trapa (S. Pedro do Sul). Provém de um amplo trabalho de recolha de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, entre Agosto de 1968 e Outubro de 1970, nas Beiras (Alta, Baixa e Litoral). Na região de Lafões, foram acompanhados e orientados pelos Srs. Dr. José Silvestre e Dr. Jaime Gralheiro. Desta primeira equipa da Brigada faziam parte: Né Ladeiras, Zé Maria, Jorge Seabra, Fernando Amílcar, Jorge Santos, João Ferreira e Joaquim Caixeiro.  

Terminamos esta homenagem à Brigada Victor Jara, transcrevendo da capa do LP EITO FORA o que nos parece “a sua cartilha de procedimentos”:

«Este é o nosso primeiro trabalho gravado e como tal deve ser visto. Representa, no entanto, mais de duzentas actuações em várias zonas do País, especialmente, no Centro. Em bons teatros ou em palanques improvisados de festa de aldeia; no aconchego do ar condicionado ou percorrendo ruelas estreitas ao som da alegria colectiva; justificando o melhor possível o nome que demos ao nosso grupo:

o de Brigada, com intenção,

o de Victor Jara, com admiração e saudade.

 

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DEU-NOS O TRANGLOMANGO, NÃO FICÁMOS SENÃO…MARAVILHADOS!

Ed679_trangloestreiaTViriatoJá os conhecíamos: a começar pela Ana Bento, a “alma mater” da associação e escola de música Gira Sol Azul; o Bruno Pinto, que, com a Ana, organiza o Festival de Jazz de Viseu, e participa em inúmeros projectos musicais como guitarrista e compositor; o Ricardo Augusto, da Infantuna e muitos outros grupos de música tradicional, como acordeonista e cantor com sólida formação musical, que dirige, actualmente, o Coro Azul; a Catarina Almeida, que já gravou com Bernardo Sassetti (álbum “Mood”) e Pedro Abrunhosa (álbum “Momento”) e o jovem baterista Miguel Rodrigues, um sumarento fruto da escola de Música Gira Sol Azul, onde estudou com Márito Marques e Acácio Salero, este último considerado, por José Duarte, um dos melhores bateristas de Portugal.

O próprio projecto, Tranglomango, já era conhecido dos viseenses, em vários concertos, nomeadamente na Feira de S. Mateus de há dois anos. E, no entanto, conseguiram surpreender-nos, no passado dia 21 de Maio, no palco do Teatro Viriato, no concerto de apresentação do seu primeiro disco, “Más Línguas”, a inaugurar a etiqueta discográfica “GiraDiscos”, com a qual pretendem “divulgar e estimular a criação artística na área da música em Viseu e edição discográfica independente”.

Os Tranglomango não são apenas mais uma banda de música de raiz tradicional portuguesa. Os seus arranjos de temas tradicionais têm condimentos originais, com intenso sabor de folk-rock e aromas ainda mais exóticos, numa  subtil (in)fusão de géneros que não adultera, pelo contrário, resgata a música popular portuguesa, tantas vezes mutilada por contrafacções mais ou menos “pimba” ou pretensamente “modernaças”. Os Tranglomango acentuam a autenticidade e a beleza da nossa música tradicional ao conferir-lhe roupagens harmónicas mais urbanas e contemporâneas. Mas também são bem sucedidos ao arriscar na criação original, com duas composições de Ana Bento sobre letras de Fernando Giestas (a divertida “Galinha da vizinha” e a belíssima“Valsa do vestido”, com um elegante bailado da guitarra de Bruno Pinto).

 

De destacar o arranjo de “Lauriberta”, de Ricardo Augusto, e os de Ana Bento da “Moda do Entrudo” e de “São Gonçalo de Amarante”, uma chula tocada em Amarante até ao século XIX por largas dezenas de zabumbas (tocadores de bombos) em ritmos frenéticos e algo orgíacos (ou não fosse S. Gonçalo tão casamenteiro como Santo António), que, talvez por isso, acabou por ir parar ao folclore brasileiro.

 

Igualmente brilhantes são os arranjos colectivos de tradicionais da Beira Baixa, “Cantiga Bailada”, uma das mais bonitas melodias do nosso cancioneiro tradicional, “Má Língua”(aqui também graças à mestria de Joaquim Rodrigues) e “Macelada”, (na Beira Baixa dizem “marcelada”, de macela ou marcela, camomila), com o ostinato rítmico dos adufes a ser substituído pelas batidas do baixo, bateria e guitarra, num jorro de som magnificamente equilibrado por perfeitas harmonias vocais.

Um dos momentos mais bonitos do espectáculo foi a prestação dos pequenos cantores da família Gira Sol Azul – Olívia, Jasmim, Artur, Úrsula – da lavra da Ana e do Bruno – e João, Afonso e Dinis,  dos genes do Ricardo), nessa divertidíssima lenga-lenga tradicional “Papim”, que até dá vontade de ir a correr fazer mais um filho, só para lhe ensinar esta canção ao nível do melhor de José Barata Moura ou Sérgio Godinho/ Jorge Constante Pereira (Os Amigos de Gaspar).

 

Apetece citar José Mário Branco: “A música popular portuguesa é aquela parte da nossa música que, sem nunca abandonar a referência às raízes da nossa tradição oral, coloca essa mesma tradição ao compasso da época em que criamos e vivemos, com níveis de qualidade estética e poética que garantem a sua sobrevivência. (…) Se os portugueses não fizerem a música portuguesa, ninguém o saberá fazer por eles e a humanidade ficará mais pobre”.

É esse o sortilégio que nos foi lançado pelos Tranglomango, palavra originária do galego “tangano-mangano”, que significa bruxedo, feitiçaria, doença atribuída a feitiço, que em português adquiriu tradução multiforme: “tranglomanglo”, “tranglomango”, “trangomango” (Aquilino Ribeiro, “Filhas da Babilónia”), “tranglomanglo” e ainda “trângulo-mângulo”, canção popular de Santa Marta de Penaguião, mais conhecida na divertida versão dos Gaiteiros de Lisboa. Estes serão, certamente, uma das mais  benéficas influências deste promissor projecto de genuínos artistas portugueses, de Viseu e, por extenção, do Mundo, pois canté!

 

Carlos Vieira e Castro

 

 

 

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Ed. 678 (11/06/2015)

ARS NOVA (Manhouce)

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Debate com Mariana Mortágua e Pedro Soares

S. Pedro do Sul, 14 de Junho de 2015, às 15.00

Cine-Teatro Jaime Gralheiro

Programa

1. Chora a Videira* – Popular, Cambra (Vouzela)

2. Milho Verde* – José Afonso (1929-1987)

3. ‘Achégate a mim, Maruxa’* – José Afonso

4. ‘Ombra mai fù’ – G. F. Haendel (1685-1759), Aria da Ópera “Xerxes”

5. Cantemos o Novo Dia  – Fernando Lopes-Graça/Luísa Irene (“Canções Heróicas”, nº 7)

6. A Morte Saiu à Rua* – José Afonso – Adriana

7. Jornada – Fernando Lopes-Graça/José Gomes Ferreira (“Canções Heróicas”, nº 2)

8. ‘Nessun dorma’ – G. Puccini (1858-1924), Aria da Ópera “Turandot”

9. Acordai!* – Fernando Lopes-Graça/José Gomes Ferreira (“Canções Heróicas”, nº 1)

VOZES – Adriana Gomes | Ana Rita | Cíntia Gomes | Susana Alves

*Arranjos, Órgão, Piano e Direcção Musical – António Alexandrino

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ARS NOVA – Esta expressão latina significa “Arte Nova”. Refere-se ao tratado “Ars Nova Musicae” de Philippe de Vitry, bispo de Meaux (França). Foi utilizada, por volta de 1322, para designar um novo estilo de música, com um espectro mais vasto do valor das notas. Por ela se entende a notável fase de evolução musical que decorre durante o séc. XIV e cuja sigla é, na França, a Canção polifónica e, na Itália, o Madrigal. O período da “Ars Nova” coincide com a transição entre a Idade Média e o Renascimento.

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Ed. 677 (28/05/2015)

Ensemble Vocal de Vouzela

Ed677_EnsembleVouzelaFoi vivido mais um momento cultural que agradou ao público presente na Igreja de S. Pelágio. O Ensemble Vocal de Vouzela em parceria com o Município de Oliveira de Frades e a colaboração da Paróquia de Oliveira de Frades promoveu, no passado dia 16 de maio, um concerto de música sacra não litúrgica. Foram interpretadas obras de Mozart, Bach, Haendel entre outras. O Ensemble Vocal de Vouzela – projeto recentemente criado – surge da vontade de apresentar música polifónica vocal. Conscientes das dificuldades inerentes à prática de música vocal de conjunto, 14 pessoas dedicadas que partilham a paixão pela música, envolvem-se num projeto que procura trazer algum reportório vocal erudito que maioritariamente é confinado – quer na prática quer no público – a meios e pessoas diretamente ligados ao mundo profissional da música. Com estreia realizada no passado dia 29 de Março na Igreja Matriz de Vouzela, o Ensemble Vocal de Vouzela é constituído por Inês Santos, Diana Silva, Dolores Tavares, Cristiana Silva, Leonor Lopes, Sara Corgo, Carlos Rodrigues, Diogo Pinheiro, Hugo Pereira, Joaquim Tavares, Luís Filipe Pereira, Dário Amaral, António Alexandrino Matos tendo como maestro Diogo Tavares. Outros projetos serão apresentados brevemente pelo Ensemble, tendo certeza de que com a vontade e qualidade das pessoas que compõem o Ensemble, só se pode esperar grandes feitos.

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Notícia sobre o XI Encontro Cultural de S. Cristóvão de Lafões

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Decorreu, nos passados dias 15 e 16 de Maio, mais uma edição dos Encontros Culturais em S. Cristóvão de Lafões, no Mosteiro de S. Cristóvão. Esta iniciativa, que conta já com 11 anos de idade, promove na região o único debate científico dedicado à presença cisterciense, em longos séculos de História de Portugal. Representa também um momento de aproximação da sociedade civil local a este património, à sua identidade e memória, permitindo, a quem o procura, conhecer melhor o seu passado.

Nesta edição, subordinada aos ecos da vida e obra de S. Bernardo em Portugal, no ano em que decorrem os 900 anos da fundação de Claraval, ouviu-se falar sobre os aspectos da filosofia e combates filosóficos travados por Bernardo, acerca da chegada e do êxito dos monges brancos em terras da Galiza e de Portugal: sobre o modo como se seguiram as prescrições propostas por Cister no uso da cor nas iluminuras dos manuscritos de Alcobaça; sobre aspectos construtivos usados em Cister, acerca da influência dos mestres alcobacenses em edifícios de outras ordens; sobre o modo como, no plano político, se verificou o efeito cisterciense em algumas das decisões relacionadas com as conquistas de Santarém e Lisboa, e ainda sobre o modo como se vão degradando algumas das esculturas da autoria dos mestres barristas de Alcobaça do século XVII.

Este alargado leque de intervenções permitiu que especialistas da área da História (Ermelindo Portela – Universidade de Santiago de Compostela; João Soalheiro – CEHR da U. Católica); Arnaldo Sousa Melo – Universidade do Minho), da História de Arte (Adelaide Miranda – Universidade Nova de Lisboa; Francisco Pato de Macedo – Universidade de Coimbra), da Filosofia (José Meirinhos – Universidade do Porto), da Química (Maria João Melo – Universidade Nova de Lisboa), da Conservação e Fotografia (José Pessoa – Museu de Lamego), não só comunicassem os dados da sua investigação, como discutissem e pensassem uns com os outros e com os diferentes participantes presentes e com formações diversificadas e grande curiosidade, os seus resultados.

No final do 1º dia, encerraram-se os trabalhos com um concerto na Igreja de S. Cristóvão de Lafões, a cargo de grupo coral de Manhouce, o Ars Nova, dirigido por António Alexandrino, que presenteou os ouvintes com belíssimas interpretações de vários autores, mas onde pontuou o canto tradicional de Manhouce. São muito promissoras as vozes de Cíntia Gomes, Susana Alves, Ana Rita e Adriana Gomes, pelo que se deseja que possam vir a encontrar o seu caminho numa formação vocal avançada, a desenvolver em qualquer uma das instituições de música que as queira receber. Esta opção levará, sem dúvida, a transformarem em certezas as promessas que este concerto proporcionou.

Os participantes, quer os conferencistas, quer o auditório, agradeceram o modo como, “com verdadeira hospitalidade cisterciense”, foram recebidos no Mosteiro de S. Cristóvão de Lafões e puderam, mais uma vez, aproximarem-se daquilo que em tempos passados chegou a configurar “uma civilização”. Esta hospitalidade passou também pelo convívio, na hora do almoço de cozinha lafonense, e com o desfrute da beleza da paisagem. A Associação dos Amigos do Mosteiro de S. Cristóvão de Lafões pôde contar com a atenção e colaboração da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Santa Cruz da Trapa e de S. Cristóvão de Lafões, tendo o segundo dia do Encontro decorrido no excelente auditório da casa da Cultura, em Santa Cruz da Trapa.

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Ed. 676 (14/05/2015)

TRIBUTO A ZECA AFONSO

• Manuel Silva

Ed676_ZecaAfonso-DSCN9952Na noite do passado dia 1 de Maio, dia mundial do trabalhador, cantores e músicos de ambos os sexos, alunos  da Universidade Sénior de S. Pedro do Sul, prestaram tributo a Zeca Afonso, no Cine Teatro Jaime Gralheiro, entoando doze canções suas, entre as quais, “Maria Faia”, “Canção de embalar”, “Os Vampiros”, “Canto Moço” e “Grândola, Vila Morena”.

O grupo musical foi dirigido por Miguel Ângelo Pereira, sendo a apresentação das canções feita pelo aluno Acácio de Matos Pinto.

Àquela actuação assistiram várias dezenas de pessoas que, em diversos momentos, interagiram com os alunos da Universidade Sénior.

Este espectáculo foi preparado em pouco tempo. No entanto, quem se deslocou ao Cine-Teatro Jaime Gralheiro assistiu a uma exibição bem sintonizada, a nível instrumental e de vozes.

O maior momento de inter-acção, envolvendo cantores, músicos e público, verificou-se no final, quando todos cantaram de pé “Grândola, Vila Morena”. Na assistência encontravam-se pessoas de todas as idades, condições sociais, identificadas com vários partidos e ideologias ou que não se interessam por política.

O autor destas linhas  recordou que 41 anos antes, com apenas 14 anos, então aluno do 4º ano (actual 8º ano) da Secção Liceal de S. Pedro do Sul, assim chamada, dada a sua dependência funcional do Liceu Alves Martins, de Viseu,  participou na primeira manifestação política da sua vida, no 1º de Maio de 1974, que encheu praças e ruas desta hoje cidade, em apoio da revolução do 25 de Abril.  Como agora se viu, o mesmo espírito, apesar das conhecidas contrariedades, permanece vivo na nossa terra.

Na assistência encontravam-se presentes Vitor Figueiredo, presidente da Câmara Municipal de S. Pedro do Sul e vereadores da maioria socialista, bem como Alberto Paulino, Presidente da União das Freguesias de S. Pedro do Sul, Várzea e Baiões.

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Ed. 674 (16/04/2015)

Ensemble Vocal de Vouzela

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Casa cheia foi o que se verificou na noite do passado dia 29 de Março, na Igreja Matriz de Vouzela, durante a apresentação do Ensemble Vocal de Vouzela. Trata-se de um coro polifónico (a quatro vozes) constituído por coralistas de Vouzela, sob a direcção do maestro Diogo Tavares.

Com a finalidade de apresentar ao público a identidade da música vocal erudita – que se tem vindo a perder ao longo dos tempos – o Ensemble Vocal centrou-se num repertório de cariz sacro, não litúrgico.

Na primeira parte do concerto, foi destacada a música a cappella, com as seguintes peças: Hossana Filio David (Franz Schubert), Kyrie (Ariel Ramirez), Tantum Ergo (Anton Bruckner) e Stabat Mater (Zoltán Kodály).

Seguiu-se a apresentação da Tocata e Fuga em Ré menor, de J.S.Bach, com interpretação ao órgão do Prof. António Alexandrino Matos.

A terminar o concerto, foram apresentadas obras para coro e órgão: Ave Verum de Elgar, bem como a obra sublime de Mozart Ave Verum e, a concluir, Canticorum Jubilo, de Haendel.

Naquela que marca a primeira apresentação pública do Ensemble Vocal de Vouzela, destaca-se a presença de todo o executivo municipal, bem como os aplausos da centena de pessoas que se encontrava na Igreja. Nesta noite de Domingo de Ramos – início da Semana Santa vivida intensamente pelas gentes de Vouzela – fica marcado este novo projeto que só foi possível através da entrega, espírito de sacrifício e dedicação dos coralistas que trabalharam para oferecer à população este magnífico concerto. O maestro Diogo Tavares destacou publicamente o trabalho dos seus companheiros de viagem, explicando que todo o trabalho que fizerem foi em troca de valores como a amizade e a paixão pela música. De facto, tal nível artístico só é possível quando os intervenientes dedicam o que inteiramente têm, o que nos leva a concluir que Vouzela possui gente com muito valor!

 

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Ed. 673 (26/03/2015)

Órgão de Tubos da Igreja do Convento – Município promove a recuperação deste valiosíssimo exemplar do património sampedrense

• António Alexandrino

Ed673_Orgao-IgrejaConvento_DSCN6634Na edição nº 645 de “Gazeta da Beira” (26 de Dezembro de 2013), publicávamos uma local, de nossa autoria, alusiva ao órgão de tubos da Igreja de S. José do Convento Franciscano.

Entendemos oportuno voltar agora ao assunto. Com efeito, por louvável iniciativa do actual executivo municipal, presidido por Victor Figueiredo, e na sequência de uma colaboração institucional celebrada com a Fundação INATEL, o referido instrumento acaba de ser alvo de necessária intervenção, a cargo de António Simões, Mestre-Organeiro a quem, tal como abaixo se menciona, já em 1996 o Município entregara a recuperação do órgão.

No entanto, apresentamos substancial parte da citada publicação, dado que, para além da mera informação, julgamos poder despertar interesse nos leitores de “Gazeta da Beira”. Eis o texto, com algumas, embora poucas,  actualizações:

«Muito provavelmente só umas tantas pessoas saberão que a Igreja de S. José do Convento Franciscano, de São Pedro do Sul, tem um antigo e belo órgão de tubos.

“Uma relíquia”, de “valor incalculável”, segundo o apreço de quem entende do assunto. Foi construído pelo organeiro António Xavier Machado e Cerveira, o mais notável fabricante de órgãos português e o que mais trabalho produziu (105 órgãos, dos quais este é o nº 17). Datando da segunda metade do séc. XVIII (1788), este é um instrumento com 227 anos.

Segundo o Prof. Pedro Dias, do Instituto da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, as suas características mais evidentes são: “o estilo concheado que se usou em Portugal, a partir de D. José I e compostos por madeiras correntes marmoreadas a vermelho, verde e azul e talhas douradas; a mísula, de perfil triangular com anjos na base e balcão com painéis de madeiras comuns, seguindo-se os corpos das tubagens de chumbo; a parte alta, de linhas quebradas, é coroada com urnas, dois anjos e uma alegoria à música; possui ainda rendilhados de talha dourada, sendo as madeiras marmoreadas em azuis, verdes e vermelho”.

Na tampa protectora do teclado pode ler-se: «ESTA OBRA MANDOU DOURAR O EX.mo S.r D. F.r JOZE DO MENINO JEZUS BISPO DE VIZEU. ANNO 1789».

Órgão de ‘tipo ibérico’, possui cerca de 500 tubos. O teclado (a consola) vai de (C1) a (C5). Dispõe de 7 registos para cada uma das mãos; pedal de tambor; pedais auxiliares para abrir e/ou fechar cheios/palhetas.

Depois de mais de 30 anos calado, foi alvo de restauro, na década de 90 do século passado, a expensas e por iniciativa do executivo municipal, então presidido pelo Dr. Bandeira Pinho. Tendo o trabalho de recuperação sido da responsabilidade do Mestre-Organeiro António Simões, de Ansião (Leiria), foi inaugurado em 24 de Novembro de 1996, em concerto, a cargo do organista Rui Paiva […].

Afinal, quem foi Machado e Cerveira? Nascido em Setembro de 1756, em Tamengos de Anadia, faleceu em Caxias, em 1828. Era irmão do famoso escultor Machado de Castro, pela parte do pai, Manuel Machado Teixeira, também ele grande organeiro e escultor em madeira.

Machado e Cerveira é autor de monumental órgão da Igreja dos Mártires, em Lisboa, o seu primeiro órgão, que ainda existe e em perfeito estado de funcionamento. Foi incumbido de construir quase todos os órgãos das igrejas reedificadas depois do terramoto de 1755, quer em Lisboa, quer em terras vizinhas. Fabricou outros desses instrumentos para outras igrejas de vários pontos do país, inclusive, para o Brasil. Alguns são de grande porte. Os órgãos produzidos por António Xavier Machado e Cerveira são famosos por uma sonoridade brilhante e por um toque de carácter ornamental, visto ser também um notável escultor em madeira».

 

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Ed672 (12/03/2015)

“Correntes d’Escritas” 2015 – Galardão para Fernando Echevarría

• António Alexandrino

Ed672_premioEchevarriaNa sua 16ª edição, o encontro, talvez já o maior e mais prestigiado certame do género, decorreu no passado dia 25 de Fevereiro, no habitual cenário (Póvoa de Varzim), com muito do costume e algo de novo (designadamente, o espaço).

Efectivamente, o seu progressivo ‘crescimento’ obrigou à procura de um “novo quartel-general”, o Cine-Teatro Garrett, pois são muitos os seguidores, para além dos autores convidados (45 portugueses e 15 estrangeiros).

As habituais lotações esgotadas, que “Correntes de Escritas” tem vindo a registar nas anteriores edições, levaram a organização a procurar outras soluções. Se a Biblioteca Municipal e o Hotel Vermar deixaram de corresponder às exigências do evento, face à constante procura de público, o problema do espaço estará, por agora, solucionado. Para isso, em muito contribuem os 470 lugares ao dispor, com a adopção do referido Cine-Teatro Garrett como palco preferencial para as sessões. Localizado junto às principais artérias varzinistas, permite que o impacto deste encontro de escritores de expressão ibérica beneficie, inclusive, o comércio local. Com efeito, são largas as centenas de pessoas que rumam até Póvoa, em busca de momentos de “partilha entre escritores e leitores”.

O formato de festival mantém-se idêntico ao de anos anteriores. Assim, as mesas-redondas são o fulcro das actividades. Com frases lapidares e/ou enigmáticas (“O silêncio é o sal da escrita em construção” ou “Da escrita em ruínas transpiram as intermitências da vida”, alguns exemplos) se dá o mote para intervenções que chegam a contornar o tema proposto, constituindo um exemplo da liberdade criativa do encontro.

Dos autores convidados (sessenta) a representação lusa esteve em franca maioria, facto que em parte se explica pelas restrições orçamentais, que levam a organização a limitar o número de estrangeiros. De entre estes, vai o destaque para Leonardo Padura, de dupla nacionalidade (espanhola e cubana), autor de Hereges, o seu mais recente e muito elogiado romance, entretanto apresentado ao público português. O mesmo se diga do espanhol Carlos Castán, contista de mérito que se guindou às esferas da fama, no romance, com Má luz.

Dos autores portugueses, salientem-se Eduardo Lourenço, Ana Luísa Amaral, Mário Cláudio, Germano Almeida e Manuela Gonzaga.

Autores “repetentes”: Onésimo Teotónio de Almeida, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, Nelson Saúte. No entanto, um terço dos participantes marcou presença pela primeira vez, o que traduz uma tentativa de algum ‘rejuvenescimento’.

Todavia, o interesse do evento não se limita aos debates. Na esteira de anos transactos, a presença das editoras fez-se notar com a apresentação de vários livros. São os casos, entre outros, de O fotógrafo e a rapariga, de Mário Cláudio, e O osso da tristeza, de João Rios.

Categorias e outras paisagens é o livro de Fernando Echevarría com que o autor venceu o Prémio Literário Casino da Póvoa. «A poesia é um género que exige muita atenção, muita leitura e, por isso, é que se lê tão pouco: porque custa, mas tudo o que custa é que dá prazer», afirmou Echevarría, a propósito do seu escrito. No dia em que o poeta completou 86 anos, veio à Póvoa agradecer a distinção.

Fernando Echevarría suplantou nomes como Tolentino Mendonça, A. M. Pires Cabral e Nuno Júdice. “A obra revela um carácter monumental, impressionante pelo seu fôlego”, entendeu o júri.

Outros prémios foram atribuídos. “Locus” (para jovens escritores), a Cândida Oliveira de Sousa, de Viana do castelo; Conto Infantil Ilustrado, a Uma amizade misteriosa, do 4º A do Externato Paraíso dos Pequeninos, de Lourosa, e Fundação Dr. Luís Rainha (para trabalhos sobre a Póvoa) a O céu do mar, de João José da Conceição Morgado, da Covilhã.

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Ed671 (26/02/2015)

Faleceu a escritora Luísa Dacosta

• António Alexandrino

Ed671_LuisaDaCosta«São várias as gerações que, ao longo dos anos, cresceram a ler os seus contos e, através deles, adquiriram o gosto pela leitura». Assim se referiu à autora, aquando da sua morte, ocorrida no passado dia 15 de Fevereiro, aos 88 anos, Jorge Barreto Xavier, secretário de Estado da Cultura.

Luísa Dacosta é pseudónimo literário de Maria Luísa Pinto dos Santos. Nascida em Vila Real de Trás-os-Montes (1927), licenciou-se em Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professora, dedicou grande parte da sua vida aos mais jovens. Com efeito, escreveu numerosas obras de literatura infantil. Personalidade rica e polícroma, fazemos referência a algumas facetas que, embora necessariamente sumárias, nos darão uma visão de conjunto no que à sua obra concerne.

Os seus escritos, predominantemente curtos, “são contos ou crónicas em que retrata um tempo e uma sociedade, tipos e modos de viver a que não falta uma visão entre o terno, o lúcido e irónico” (vide personagens de Província, a sua primeira obra, publicada em 1955) “ou «O bom nome das famílias» em Corpo Recusado (1985) implicando a  observação minuciosa e a finura típicas da cronista” (Cfr. Dicionário de Literatura, Direcção de Jacinto do Prado Coelho, Coordenação de Ernesto Rodrigues, Pires Laranjeira, Viale Moutinho – Livraria Figueirinhas, Porto). Especiais cambiantes denota no registo de um mundo em vias de desaparição em A-Ver-o-Mar (1980) e em Morrer a Ocidente (1990), “retratos da comunidade piscatória e rural dessa praia  do litoral norte, que se aproximariam da etnografia (descrição de costumes, modos de vida, linguagem) se não houvesse neles a intervenção de um eu que interage com o meio, fazendo lembrar António Nobre ou Raul Brandão de (respectivamente) Os Pobres e Os Pescadores” (idem, supra).

Não só nas crónicas de temática urbana como nas provincianas, a autora mostra uma “vocação visualista, sensível como é aos pormenores descritivos – cores, cambiantes de luz, materialidade das coisas; em especial atenta ao quotidiano sem história das gentes banais, traça em filigrana cenas que vão constituindo uma memória de tempos e lugares portugueses, e a dela própria. De facto, todo esse mundo exterior forma camadas, sedimentando-se para compor uma figura de sujeito mulher, atravessando todos os textos, desde os mais antigos” (idem).

A paisagem. Seja a da província transmontana da infância, quer o Porto e a aldeia de pescadores da idade adulta, não se confina a um cenário ou a um pretexto para a descrição, mas é sobretudo passagem para o universo do eu que lhe confere a subjectividade, “transpondo a crónica para o tom intimista próprio do diário, da autobiografia e do memorialismo, até por tomar como temática dominante o amor deceptivo… Na construção da narrativa em fragmentos ou em deriva, balanceando o exterior e o sujeito íntimo, Luísa Dacosta exercita o gosto de contar” (idem), inclusive, nas obras para crianças.

Para além dos indicados, aqui ficam outros títulos, especialmente para crianças: Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu (1969); O Príncipe Que Guardava Ovelhas (1974); O Elefante Cor de Rosa (1974); Teatrinho do Romão (1977); A Menina Coração de Pássaro (1978); Nos Jardins do Mar (1981; A Batalha de Aljubarrota (1985); História com Recadinho (1986); Os Magos Que não Chegaram a Belém (1989); Sonhos na Palma da Mão (1990); Aleluia na Manhã (1994).

Prémios recebidos por Luísa Dacosta, no âmbito da sua actividade literária:

Em 1992 – Prémio Máxima de Literatura, pelo livro Na Água do Tempo – Diário;

Em 2002 – Prémio Uma Vida, Uma Obra (atribuído pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto);

Em 2010 – Prémio Vergílio Ferreira (atribuído pela Universidade de Évora)

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Ed. 670 (12/02/14)

Bob Marley – A voz que ecoa e se perpetua

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• António Alexandrino

Muitos de nós, por certo, se lembram, talvez com uma ponta de nostalgia, daquela música, com um ritmo agradável ‘à primeira’ (o reggae), que vinha da Jamaica, sobretudo veiculada por um tal Bob Marley, com ou sem os Wailers.

É que o cantor jamaicano, falecido de cancro em 1981, aos 36 anos, faria agora 70, continuando a ser a referência privilegiada da música reggae. Nascido a 6 de Fevereiro de 1945, na vila Nine Mile, e apesar de curta haver sido a sua vida, levou o reggae a todo o Planeta e o seu legado mantém-se bem vivo.

Conhecido no mundo da música como o “Rei do reggae”, Bob Marley teve uma morte prematura. Um cancro venceu Bob Marley. Iniciada na primeira metade dos anos 60, a sua carreira revelou-se uma das mais influentes da história da música de âmbito popular e a ele se deve a apresentação ao Mundo do reggae.

Deixou um punhado de obras fundamentais – “Catch a fire”, “Exodus” e “Uprising” – e calcula-se que tenha vendido mais de 75 milhões de discos. Ao difundir o raggae pelo Planeta a cabo, deixou muitos herdeiros, inclusive, em Portugal. Para Ricardo Costa (Richie Campbell), o mais sucedido cantor reggae luso na actualidade, «Qualquer pessoa que faça reggae fora da Jamaica só o faz porque Bob Marley pôs o reggae na boca do Mundo». Richie Campbell não se lembra do primeiro contacto com a música reggae de Bob Marley – «Era novo de mais para ter essa memória, porque foi desde que nasci». Campbell passou pela fase da adolescência «em que não queria ouvir a música da minha mãe», até regressar a Marley, mais tarde, «para um processo de redescoberta». E o resultado é este: Hoje, Richie Campbell é o nome mais popular do reggae nacional. «Ouvimos muita música sobre festa ou amor na rádio sem conteúdo absolutamente nenhum e o Marley conseguiu aliar perfeitamente melodia a uma mensagem forte», afirma Richie, não poupando elogios ao jamaicano. Refere ainda que a música de Marley «convida a meditar sobre várias mensagens que são muito fortes e continuam a ser muito pertinentes hoje em dia». E «essa é a grande essência do Bob Marley: não é música como entretenimento, é música como instrumento para provocar o pensamento das pessoas».

«A música do Bob Marley tem o significado de um acordar de consciência», diz um cantor do Porto – Dentinho – que esteve já envolvido em várias bandas de reggae, seguindo agora carreira a solo. «O Bob passa essa força de nunca desistir e que é notória nas suas músicas, mostrando sempre um lado positivo no meio do negativo». Lembra que «ele foi um grande ícone da música jamaicana, que levou ao Mundo a sua mensagem e a sua música, com um grande impacto ainda nos dias de hoje». Quanto ao presente do reggae, por terras lusas, entende que «algo de bom se está a solidificar e que a mensagem está a ser passada».

 

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Ed. 663 (30/10/14)

Carlos do Carmo, o Senhor Grammy

Ed662_CarlosCarmo• António Alexandrino

Na anterior edição de Gazeta da Beira, aqui evocámos o nome da fadista Amália Rodrigues. Passavam quinze anos, após a sua morte. Então, aludimos, entre outros, a Carlos do Carmo, na qualidade de, além de outras ‘virtudes’, renovador do fado. Isto, apesar de ele próprio entender que «Sinto que é sempre pouco o que dou ao fado… e ele tem-me dado tanto…»

Aos 74 anos de idade, e quando celebra 50 anos de carreira, Carlos do Carmo, “Uma das mais emblemáticas vozes da Música Portuguesa”, com múltiplos prémios recebidos (que, inclusive, já marcou presença no Olympia de Paris), é agraciado com um Grammy Latino, o galardão da máxima distinção internacional a reconhecer os artistas pela excelência musical. Carlos do Carmo é o primeiro artista português a receber o prémio (como que uma espécie de “óscar” da música), a ser entregue em 19 de Novembro no MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas. Distinção que partilhou com as antigas e as novas gerações de fadistas (Camané, Ana Moura, Carminho, Cristina Branco, Aldina Duarte, Mariza, Mafalda Arnauth), com os quais, e sem complexos, gravou, incorporando o novo fado, na certeza de que a inovação é o caminho certo para a sua preservação e continuidade. Com efeito, pode dizer-se que «Carlos do Carmo nunca descansou à sombra da tradição» (Alfredo Leite, in JN de 03/07/14). Lá estarão outras figuras da música, entretanto contempladas, a receber prémio idêntico: Ney Matogrosso, Willy Chirino, César Costa, Duo Dinámico, Los Lobos e Valeria Lynch.

Nascido em Lisboa, de mãe também ela fadista (Lucília do Carmo), Carlos do Carmo partiu do fado tradicional, tendo-se estreado na casa de fados lisboeta O Faia, propriedade dos seus pais. Gravou o seu primeiro disco em 1964 (“Carlos do Carmo com a Orquestra de Joaquim Luiz Gomes”). Embora ligado ao fado tradicional, sempre assumiu o gosto por outras áreas musicais e por intérpretes como Franck Sinatra ou Jacques Brel.

Profissional no mais verdadeiro sentido, é deveras relevante a exigência desde sempre colocada na escolha dos meios e recursos para o desempenho da sua arte de cantor fadista. Nesta conformidade, escolhe bons músicos a acompanhá-lo e prima na selecção dos poetas, autores dos textos. Ao “construir”, de forma consistente, um repertório, o Texto merece-lhe o maior cuidado, a ponto de o fadista Marco Rodrigues a ele aludir, no sentido de que «cria imagens com as palavras que diz e da forma como as diz». De facto, percebem-se com elevada perfeição as palavras que canta. Por outro lado, é vasto o leque de poetas, quer no tempo, quer na diversidade, quer na qualidade: Antero de Quental, Bocage, Joaquim Pessoa, José Saramago, Ary dos Santos, Fernando Pessoa, Almeida Garrett, Teixeira de Pascoaes, António Gedeão, Carlos de Oliveira, Frederico de Brito, Pedro Homem de Melo, Maria Teresa de Noronha, Poesia Popular, Manuel da Fonseca. Na oportunidade, cite-se este último: «Do Sul ao Norte, Trovador que canta Província a Província, Carlos do Carmo canta, lírico e lúcido, o povo que somos» (capa do LP “Um Homem no País”).

E, com esta «voz imaterial», alguns dos temas, só para referir alguns, de uma carreira de 50 anos, ‘vieram para ficar’: “Canoas do Tejo”, “Estrela da tarde”, “Um homem na cidade”, “Os putos”, “Por morrer uma andorinha”, “Lisboa menina e moça”.

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Ed. 662 (16/10/2014)

Ed662_amalia• António Alexandrino

Passam 15 anos, após a partida de Amália, mas “o seu legado mantém-se inalterado”. Pode dizer-se que o mito mora ao nosso lado (‘Povo que lavas no rio’…). Continua a motivar novos intérpretes, poetas e compositores.

Quinze anos após, há que reconhecer que o fado tem vindo a ganhar “novas cores”, com a renovação que seria inevitável, tendo, no entanto, como referência, a figura, a grande senhora que foi Amália, goste-se muito, ou simplesmente nem se goste de fado.

Na calha da sempre tentadora presunção da procura da sucessão, dir-se-á (com o músico/musicólogo Rui Vieira Nery) que “Não há segundas Amálias” e que “Qualquer tentativa de colagem demasiado mimética à figura de Amália será sempre uma caricatura apagada daquilo que era a verdadeira Amália. As grandes fadistas da nova geração são aquelas que estão a conseguir autonomizar-se da herança de Amália”.

Carlos do Carmo, o primeiro português premiado com um Grammy, reconhece que “há gente de muita qualidade no fado, desde músicos a intérpretes.

Ana Moura, a intérprete de “Desfado”, entende que “o fado está cada vez mais presente e para ficar”. Justifica a pujança do género com o facto de se verificar o aparecimento de uma “nova geração de fadistas, de compositores, de músicos que trouxe algo de novo que faz com que as gerações mais jovens também se identifiquem mais facilmente com o género”.

Quanto ao surgimento de novos valores, Rui Vieira Nery afirma que se pode falar de fado «pós-moderno», por se verificar uma característica fundamental da pós-modernidade – “a mistura de passado e presente, a nível da música, de letras, de estilo de canto”. Para isso, os fadistas e as fadistas mais jovens congregam várias influências, o que “é típico de uma vida cultural muito globalizada”, marcadamente pós-moderna.

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Ed. 661 (25/09/2014)

Léonard Cohen – As mesmas palavras e a mesma voz, cada vez mais grave e áspera, aos 80 anos

• António Alexandrino

Ed661_LCoehnNa presente edição, continuamos no sempre imenso mundo da música.

Para nós que vivemos o tempo daquela voz, grave, lenta, um tanto monocórdica, já “vista” e ouvida… um pouco de nostalgia até “sabe bem!” E cá o temos: Léonard Cohen.

Nascido em Montreal, numa família judia. E vão 47 anos de discografia (13 álbuns), «sem “inventar” uma partícula que seja, felizmente» (Emanuel Carneiro, JN). Mantém-se a voz e as palavras. A voz, cada vez mais grave (a idade não perdoa), numa linha de rumo que, «hoje mais do que nunca, consubstancia um porto de abrigo avesso ao excesso de música medíocre e de existências em aceleração e exposição contínuas» (idem).

Efectivamente, o músico canadiano assinala a chegada aos 80 anos, com o lançamento de um novo disco – “Popular problems”. São mais nove temas, dos quais se destacam ‘Slow’ e ‘Nevermind’.

Nascido a 21 de Setembro de 1934 (“Tive uma infância muito messiânica” – declararia), «o cepticismo benigno que lhe enforma a existência está-lhe nos genes e na desventura» (idem).

Iniciada a carreira em 1967, Cohen manteve-se fiel a todos os temas que nortearam a sua visão estética – «religião, amor, sexo, labirintos psicológicos, arte em si mesma e, até, política, embora com dose substancial de ambiguidade – a forma como os submeteu à sua própria linguagem sempre esteve dependente das suas convulsões existenciais». A sua discografia reflecte fielmente as suas ‘perspectivas existenciais’.

A «intensidade emotiva intrínseca a cada um dos seus gestos e aos consequentes relatos não perde pela ‘subtileza’ com que são expostos; por vezes, no caos, um murmúrio fala mais alto do que um grito» (idem, ibidem). A confirmá-lo, canções como “Bird on the wire”, “Famous blue raincoat”, “Take this waltz”, “Hallelujah”, “Suzanne”, “I’m your man”, “So long, Marianne”, “Sisters of mercy” ou “Closing time”.

Bondade, ironia, resignação, sarcasmo, humor… Léonard Cohen não é para levar a sério? Terá dias, bem como uma grande capacidade de «olhar o espelho e perceber que no reflexo está o osso de que são feitas as palavras que lhe garantiram o acesso à torre da canção» (Emanuel Carneiro, JN).

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Ed. 660 (11/09/2014)

PACO DE LUCÍA –  o génio da guitarra flamenco, era filho de mãe portuguesa

• António Alexandrino

Ed660_Paco-LuciaÉ a vez de PACO DE LUCÍA, aqui na Gazeta da Beira, segundo critério anteriormente delineado.

Paco de Lucía (Francisco Sánchez Gómez, de seu nome) nasceu em 1947, em Algeciras, Espanha. A mãe era portuguesa – Lúcia Gomes, cujo nome foi linguisticamente adaptado para o termo espanhol Lucía. Aquando da sua morte, aos 66 anos, vítima de ataque cardíaco (brincava na altura com seus netos, na praia em Cancún, no México), a Autarquia de Algeciras decretou três dias de luto, tendo o seu presidente comentado que «a sua morte transforma o génio em lenda».

Aos 66 anos, o espanhol era considerado um músico revolucionário e “fora de série” – «É de salientar o hipervirtuosismo de Paco de Lucía, que transpõe todas as fronteiras da virtuosidade técnica», segundo a opinião do compositor e guitarrista português Pedro Caldeira Cabral. “Revolucionário da guitarra e um dos principais responsáveis pela popularização do flamenco”, esta arte muito lhe fica a dever pelo impulso e divulgação que, ao longo de quatro décadas, Paco de Lucía lhe imprimiu, levando o flamenco aos quatro cantos do Planeta. «Transformou o flamenco, uma linguagem tradicional, própria de uma região, numa música universal» – nas palavras do guitarrista Pedro Jóia.

Em sucessivas digressões artísticas, assinalou a sua presença em dezenas de países. Apontado como um dos maiores guitarristas da música contemporânea, Paco foi galardoado com o Prémio Príncipe das Astúrias 2004, tendo recebido, no mesmo ano, um Grammy pelo melhor álbum de flamenco.

Subiu pela primeira vez a um palco aos 12 anos, na senda de seu pai, também guitarrista. No seu livro “A new tradition for the flamenco guitar”, Paco de Lucía releva o profundo impacto do pai, sem o qual teria sido impossível chegar aonde chegou – «Não acredito no génio espontâneo e o meu pai obrigou-me a tocar quando eu era pequeno». Mitos e lendas chegaram a narrar que o pai lhe amarrava as pernas à cama para o obrigar a trabalhar, coisa desmentida pelo músico: «Não era bem assim, era mais psicológico; eu dizia-lhe que trabalhava dez ou doze horas e via a felicidade no seu olhar».

Aos 18 anos, gravou o primeiro álbum, pouco antes de se encontrar com o cantor Camaron de la Isla, outro portento do flamenco. Ambos gravaram mais de uma dezena de discos, considerados como grandes obras do flamenco moderno. Simultaneamente, Paco trabalhou várias interpretações do repertório clássico espanhol, gravando obras de Manuel de Falla, de Isaac Albeniz e o “Concerto d’Aranjuez”, de Joaquin Rodrigo. “Partilhou palcos e cumplicidades com grandes figuras como John McLaughlin e Al di Meola”.

 

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Ed. 659 (31/07/2014)

Futebol para além do futebol – «o lado obscuro da magia do futebol» (II Parte)

• António Alexandrino

Ed659_diamantesnegros-filmeDizíamos (I Parte, edição anterior da GB) que “daqui parte a história de “Diamantes negros”. Repescando, no entanto, vocabulário aí trazido à colação (comprar, vender, emprestar, dispensar, trocar…), recorde-se que os primórdios do filme nos dão as imagens de um grupo de jovens negros (no Mali), jogando uma partida de futebol, sob a observação de um atento e entendido olheiro. Os jovens, sonhando porventura com uma possível fuga para a mirífica e utópica Europa do futebol; o olheiro, a soldo de algum  “empresário”, pensando no recheio da conta bancária!

Dois desses jovens, passando por Portugal, aportam a Espanha, para serem colocados em grandes clubes, sob a miragem de triunfar no futebol europeu. Mas o sonho tem os seus escolhos e estes adolescentes, na sua crença ingénua, vão deixar-se arrastar por um mundo implacável e cruel, que os trata como simples mercadoria.

“Diamantes negros” é expressão que faz lembrar Eusébio, a “Pantera Negra”, que em Moçambique havia começado por dar uns pontapés numa bola de trapo. Estará na memória de muitos aquilo que, já à época, foi a sua chegada a Lisboa e a disputa um tanto rocambolesca desencadeada pelos dois maiores clubes da então “Metrópole”.

JOVENS CHEGAM À EUROPA

E SÃO TRATADOS

COMO  MERCADORIA

Se assim aconteceu há mais de cinquenta anos, quando o futebol estava ainda longe de ser a indústria que hoje conhecemos, como não serão os seus contornos no tempo que passa? Isso mesmo nos mostra o filme, rodado num país onde a modalidade tem a expressão que sabemos, e onde se encontram alguns dos clubes mais poderosos do Mundo, movimentando interesses colossais. Difícil será, diz quem já conhece, assistir, impávida e serenamente, a um jogo de futebol, depois de visionar “Diamantes negros”.

Vai para 20 anos que o mundo do futebol, dentro da ‘geografia’ europeia, se agitou com o “caso Bosman”, caso que aliás recebe o nome de um pouco mais ou menos obscuro futebolista belga. Processo ‘animado’ que levou à “lei Bosman”, recurso legal para a livre circulação dos futebolistas profissionais, dentro da Comunidade Europeia. Suposto era que o jogador profissional granjeasse espaço e fosse, de facto, livre de negociar o seu contrato. Mas não tanto assim, porquanto uma ‘nova espécie’ espreitava a oportunidade – os “empresários”. Esta estirpe é quem ‘detém’ o jogador e com ele pratica o tráfego… São uma espécie de «donos» de uma classe entretanto transformada em nova escravatura, não importando de que tipo: uns, embora poucos (a elite), escravos de luxo (objecto de transacções chorudas); outros, nem tanto… e outros (muitos) até com salários em atraso. São estes senhores quem conjuga os verbos que indicámos: comprar / vender / emprestar / ceder. “O jogador x foi vendido por… tantos milhões!” (é sempre aos milhões, em atropelo e socialmente ofensivo, no tempo e circunstâncias em que estamos). Tudo isto com a Comunicação Social a ‘ajudar à festa’…, tanto pelo que se escreve como pelo que se diz nos vários ‘púlpitos’ de programas ditos desportivos da nossa excelência televisiva. Este vocabulário, noutros tempos, desapareceu da linguagem corrente desportiva… por ser manifestamente ‘tonta’, tendo-se empenhado nisso pessoas, organizações e cidadãos em geral. Regressou com a força que aí vemos!

Tudo quanto se possa dizer não passará da ponta do iceberg! Poderíamos terminar,  referindo alguns (os menos invisíveis) aspectos relacionados com a Selecção, que devia ser a “de todos nós”, dado que nessa estrutura deveria estar a nata, os melhores, com ausência de jogos e jogatanas de interesses ao dedo dos empresários e superempresários, dos patrocinadores e do compadrio.

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Ed. 658 (17/07/2014)

Futebol para além do futebol – «o lado obscuro da magia do futebol» (I Parte)

• António Alexandrino

Acaba de cair o pano (passe o lugar-comum) sobre o Campeonato do Mundo de Futebol, realizado no Brasil. Como sempre, muitas ilusões e desilusões, vários candidatos à vitória final, uns por ‘devoção’, outros por ‘obrigação’… enfim, os grandes eventos costumam dar “muito pano para mangas”. Não vamos dissecar filão tão abundante, como é o futebol, com os respectivos campeonatos, asserções sociais, implicações económicas… não temos bisturi capaz para tanto… e não faltam púlpitos em abundância, nos vários canais de TV, de onde pregam muitos, e não menos sábios, especialistas na matéria…

“Está tudo bem quando bem acaba”. Nem sempre… além de que ‘acabar bem’ passará por múltiplas maneiras de entendimento, sobretudo quando em jogo estão imensos jogos de interesses, tal o imenso e conspurcado pantanal em que o futebol se veio transformando… Avançamos desde já com algum vocabulário do campo do interesse mercantilista, da linguagem do mercado: comprar, vender, emprestar, trocar (tal como o cidadão vai à feira para conjugar estes verbos – comprar, vender, trocar… o burro, por exemplo). E lá que há burros muito dotados, virtuosos… por isso, desejados, para compra, venda, troca, empréstimo (ainda que com o resgate de alguma cláusula de rescisão, de relevo ou não) lá isso há…

JOVENS CHEGAM À EUROPA

E SÃO TRATADOS

COMO  MERCADORIA

Não terá sido mera coincidência a estreia do filme “Diamantes negros”, exactamente em 12 de Junho, dia do início de mais um Campeonato do Mundo de Futebol, no Brasil (este, o segundo realizado e não ganho por/naquele país). De facto, é a altura certa para se ver um filme de produção espanhola, em 2013, que coloca o dedo em diversas feridas  do mundo do desporto que, decerto por mérito próprio, conquistou o estatuto de ‘desporto-rei’. Deveria a “Copa do Mundo” ser uma manifestação das virtudes de uma modalidade amada por tanta e tanta gente. Existe, porém, uma diferença que “raia a perversão entre os milhões que movimentam o mundo do futebol” (João Antunes, in JN, 11/06/14) e os salários chorudos que auferem as suas grandes estrelas e “a pobreza de quem ainda vibra com uma bola de trapo nas ruas e nas praias deste Mundo e as instituições que entendem o futebol como uma forma de valorizar quem pouco mais tem na vida, de eliminar distinções raciais ou outras, de dar um sonho a quem tem, no dia a dia, uma vida de pesadelo” (idem, ibidem).

“Diamantes negros” inicia-se no Mali, onde um grupo de jovens se diverte, jogando uma partida de futebol. Terão por certo em mente os seus ídolos, eles próprios transportados para todo o Mundo por uma implacável e global máquina mediática. Na assistência, um atento e entendido olheiro. Alguém deveras interessado nas maravilhas da bola… ou nos milhões que algum ou alguns daqueles jovens podem representar para as suas contas bancárias? Como em outras actividades económicas, pelo meio pulula uma imensidão de intermediários (“empresários”, que é o termo mais adequado a esta forma de ‘empreendedorismo’), cuja única finalidade é o lucro.

Daqui parte a história de “Diamantes negros”.

(Continua)

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Ed656_OscarlopesDepois de haver passado um ano (em 22 de Março p. p.), após a morte de Óscar Lopes, Gazeta da Beira entende dedicar, na presente edição, um pouco deste espaço a esse homem de capacidade intelectual invulgar, uma das personalidades mais notáveis da Cultura Portuguesa do século XX.

Óscar Luso de Freitas Lopes nasceu em Leça da Palmeira, em 1917, numa família da classe média, conservadora e monárquica. Professor, ensaísta, linguista e crítico literário. Licenciado em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa, e em Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, é também diplomado em Estudos Ingleses pela Universidade de Cambridge e pelo Conservatório de Música do Porto.

Exerceu funções docentes em liceus de Vila Real e Porto. Perseguido e afastado do ensino oficial, por motivos políticos, foi mais tarde impedido de leccionar «no nível da sua elevada competência», no ensino universitário. Em consequência da sua dedicação a causas de carácter humanista, foi perseguido e preso pela PIDE, tendo passado seis meses, isolado, na prisão («por assinar papéis contra a bomba atómica», como ele próprio disse!) e impedido de sair do país, para apresentar os seus trabalhos científicos. Após Abril de 1974, Óscar Lopes foi admitido na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tendo exercido as funções de presidente do Conselho Directivo e de vice-reitor da Universidade. Aí fundou o Centro de Linguística e leccionou várias cadeiras relacionadas com esta área de investigação.

A par de regular e extensa produção escrita (cerca de centena e meia  de publicações) participou em inúmeros colóquios, no país e no estrangeiro, com uma «disponibilidade e gentileza que tornam rara a sua generosidade intelectual e humana» (Eduardo Prado Coelho, in Dicionário de Literatura). Tido em apreço como um ‘mestre seguro’, pelo rigor da informação e pelo extraordinário conhecimento dos autores da literatura portuguesa, foi e continua a ser considerado uma ‘autoridade’ no meio escolar e académico. Durante décadas, sucessivas gerações de estudantes aliaram o seu nome à História da Literatura Portuguesa, em parceria com António José Saraiva (1ª ed. em 1953; 17ª ed. em 1996), «dimensionando assim, de forma permanente, mas sempre em aberto, uma componente central na obra oscariana: a de historiador da literatura» (idem). No âmbito das suas preferências, no que à produção literária concerne, cabem Camões, Eça, Cesário, Pessanha, Raul Brandão, Aquilino, Pessoa (estes, os dois maiores escritores do Séc. XX), Eugénio de Andrade, Agustina, Cardoso Pires e Herberto Hélder.

No domínio da investigação linguística, refira-se a “Gramática Simbólica do Português” (1971), que é obra pioneira nos estudos da semântica, em Portugal, onde o Autor “recorre a precursora teorização proveniente da formalização lógico-matemática”.

Espírito aberto e tolerante, Óscar Lopes conjuga um “forte empenhamento nos seus ideais políticos e sociais a uma humildade e simplicidade de conduta que tornam cativante a sua personalidade” (idem). «Ensaísta arguto e informado, a sua competência enciclopédica guindou-o a um lugar de excepção na cultura portuguesa. O seu vasto saber interdisciplinar faz dele um dos últimos de uma geração de mestres, modelares na combinação da análise do plano microtextual com o das grandes sínteses, exemplares na articulação de uma sensibilidade estética com uma formação clássica e humanista, dir-se-ia, intemporal» (idem).

Por isso e por tudo, como escreveu Rui Sá, “obrigado, Óscar Lopes!

• António Alexandrino

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INVESTIGAR A VOZ proporciona mais um prémio internacional à soprano Filipa Lã

ed655-p31_FilipaLaFilipa Lã, soprano, é já nossa conhecida, no âmbito da voz, ou não estivéssemos numa região, onde o canto é como que uma “instituição”. Referimo-nos ao canto popular, especialmente, ao que é cultivado pelas cantadeiras de Manhouce. Em 2010, a Professora Filipa dirigiu e ministrou um Workshop de Técnica Vocal ao Grupo das “VOZES DE MANHOUCE”, de Isabel Silvestre e Companhia.

Mais recentemente, 16 de Abril de 2013, aquando das comemorações do Dia Mundial da Voz, promovidas pelo Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro (e sob a sua orientação), as “Vozes de Manhouce” participaram no evento “As Várias Faces da Voz Humana”, designadamente, no que respeita às ‘tradições orais na aprendizagem da música tradicional portuguesa’.

Agora, a soprano, de 39 anos, acaba de receber a sua sexta distinção, no campo da investigação em Vocologia, prémio este atribuído pelo Instituto Internacional de Canto da Croácia, dada a sua contribuição para o estudo da voz. “Fez-me retomar a emoção da arte e repensar os motivos de estudar a música”, reconhece. Galardão a juntar a outras distinções havidas, quer no país, quer no estrangeiro (Estónia, Estados Unidos da América, Inglaterra). Desenvolve, presentemente estudos em ordem a “como treinar vozes profissionais”.

Vinda de terras da ‘Lã e a Neve’, é natural da Covilhã. Começou a cantar no coro da igreja local, aos cinco anos, tendo seguido para o Conservatório, onde, a par com aulas de canto, experimentou violoncelo e piano. É possuidora de um currículo académico rico, diversificado e vasto que vai até ao doutoramento e pós-doutoramento, incluindo uma licenciatura em Biologia, que muito útil se torna na sua investigação. O seu domínio de especialização abrange a aplicação de conhecimentos biomédicos, no campo da fisiologia e acústica vocais, para a optimização da performance. Filipa Lã tem conciliado a investigação em Música, na área da Voz, com performance. Como cantora, tem vindo a realizar diversos concertos de Canto e Piano, explorando um repertório variado (canções portuguesas, francesas, alemãs, inglesas, espanholas, russas); solista em concertos com orquestra.

Vive de forma empenhada, se não mesmo apaixonada, o estudo da voz (o “casamento entre ciência e arte”, como ela própria diz). É-lhe reconhecido o esforço em manter a ligação «entre a racionalidade que a pesquisa exige e a emoção que sente quando o som lhe sai das cordas vocais». Dá aulas na Universidade de Aveiro e investiga o comportamento do corpo humano quando se canta, bem como a influência de factores diversos sobre a voz. O método contraceptivo da pílula e os efeitos da menopausa são aspectos a que dedicou atenção, em teses académicas. Como diz, “a voz é um alvo hormonal; os ‘castrati’ (castrados) são um exemplo histórico de como variações nas concentrações de hormonas esteróides sexuais podem interferir com a qualidade vocal de um indivíduo”.

Merecem-lhe interesse a singularidade do canto minhoto e o fado, que são objecto de estudo em projectos nacionais e estrangeiros.

Para ela, a VOZ “é um código escondido” que pode revelar uma personalidade: se fuma, passa por dificuldades e tensões… Usar bem a voz implica exercícios e cuidados que vão ao pormenor da forma como se respira. E estudá-la exige “técnica e imaginação”. Por isso, há que encontrar recursos e meios adequados (espectrógrafos, electro-laringógrafos …). É que “ouvir não chega”, é preciso ‘ver’ e entender a voz e as suas variações.

António Alexandrino

 

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Ed654_GracaMouraAos 72 anos, desaparece uma grande e multifacetada figura da cultura portuguesa actual, um dos grandes artesãos da nossa língua. Poeta, romancista, ensaísta, tradutor, político. E não só.

Atentemos no que dele se escreveu e disse, aquando da sua morte, ocorrida no passado dia 27 de Abril:

«O mundo de Vasco é o mundo todo com o seu mistério e o seu enigma insondáveis» (Eduardo Lourenço, ensaísta).

Na poesia portuguesa, é senhor de «obra considerável e daquelas que irá ficar» (Nuno Júdice, poeta).

«Homem de grande abertura nas questões culturais, nada sectário e um bom camarada» (Manuel Alegre, político e poeta).

«Um humanista dos tempos de hoje – frontal, corajoso, determinado, mas também um poeta e ensaísta dotadíssimo» (Guilherme d’Oliveira Martins, Presidente do Tribunal de Contas).

«Um grande vulto da cultura portuguesa. Tradutor de excelência, grande poeta e escritor; pessoa de excelente trato; grande defensor da cultura portuguesa» (Carlos Tê, poeta).

«A cultura portuguesa perdeu o seu último aristocrata, homem de uma cultura infindável» (Manuel Alberto Valente, editor).

«Portugal perde um grande poeta, um defensor da língua portuguesa. O Vasco foi um dos intransigentes defensores da pureza da linguagem contra essa mudança que se pretende» (Maria Teresa Horta, escritora). Efectivamente, foi uma das vozes mais críticas do Acordo Ortográfico, tendo deixado e explicado no livro ‘A perspectiva do desastre’ as razões pelas quais abominava tais alterações impostas ao Português. Nesta conformidade, como presidente do Centro Cultural de Belém, funções que assumira em 2012, proibiu o uso do AO nos textos produzidos na instituição.

Este portuense, da Foz do Douro, onde nasceu em 1942, tirou o curso de Direito e exerceu a advocacia, mas orientou posteriormente a sua actividade, por forma a merecer o que acima fica dito. Registe-se, inclusive, a sua envolvência na vida política – era uma figura do PSD. Foi secretário de Estado da Segurança Social no V Governo Provisório liderado pelo General Vasco Gonçalves, em 1975, no qual permaneceu cinco meses. Foi, ainda, deputado europeu (era um europeísta convicto), integrando o Grupo do Partido Popular Europeu.

Refiram-se, no entanto, algumas facetas relacionadas com a sua produção e vivências literárias.

Ainda estudante, publica o primeiro livro de poesia, em 1963 – “Modo Mudando”; “Poemas Escolhidos” (1996); “Poesia” (2000). Esta poesia é marcada por «um vivo sentido intelectual, pela ironia, pelas suas referências culturais, pelas ‘ágeis recorrências de retórica’, havendo uma convergência de outras formas expressivas desde a música às artes plásticas» (in ‘Dicionário de Literatura’ – Direcção de Jacinto do Prado Coelho).

Publica o seu primeiro romance, intitulado “Quatro Últimas Canções”, em 1987. «Geralmente, na sua obra ficcional, transparece um sentido irónico e, por vezes, burlesco, uma visão descomprometida e tendencialmente pessimista das relações humanas, uma expressão alegorizante referida a expressas circunstâncias de ordem histórica» (idem, ibidem).

No domínio do ensaio, publicou vários livros, muitos deles no âmbito dos estudos camonianos e da nossa literatura contemporânea.

Escreveu obras teatrais e de natureza diarística (“Circunstâncias Várias”, 1995).

O Presidente da República agraciou Vasco Graça Moura com a Ordem de Sant’Iago da Espada, tendo então o próprio resumido tudo quanto fez em vida, na seguinte frase: «A poesia é a minha forma verbal de estar no Mundo».

O reconhecimento pelo seu labor e obra produzida acarretou-lhe prémios diversos (vide JN, de 28 de Abril p. p., com a devida vénia): Prémio Pessoa, Prémio Vergílio Ferreira, os prémios de Poesia do PEN Clube Português e da Associação Portuguesa de Escritores, que lhe atribuiu o Grande Prémio de Romance e Novela, a Coroa de Ouro do Festival de Poesia de Struga, o Prémio de França para Poesia Estrangeira, o Prémio de Tradução do Ministério da Cultura de Itália e a Medalha de Florença, o Prémio Morgado de Mateus, o Prémio Europa – Cátedra David Mourão-Ferreira da Universidade de Bari, em Itália, entre outros.

 

Deixamos a transcrição de um dos seus poemas, inserto em “POEMAS PORTUGUESES – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, Porto Editora.

 

ritos de não passagem. desinventário

sobre histórias dos cavalos de ferro, de antónio lopes

onde os comboios já não passam, onde ervas desoladas

e fetos do silêncio invadem os carris, onde apodrecem

tempo e locomotivas, onde há apeadeiros

vazios, instalações desertas, máquinas abandonadas, onde

 

os vagões são monturos de sombras e de estofos

puídos, ombreiras esbeiçadas, molas que não funcionam e

eixos que empenaram, sem passageiros, cestos, garrafões,

lenços de chita, varapaus, chapéus,

 

sem cheiros, luzes, fumos, silvos, sem mulheres

de arrecadas, serapilheiras, bilhas e farnéis, sem

horas nem desoras, sem nomes de estações soletrados

ao ritmo dos freios, sem magalas nem caixeiros viajantes,

 

sem doentes a caminho do hospital, sem gente

que vai pagar a décima, ou reza, ou joga as cartas,

ou vem de cotim preto de enterrar alguém,

ou ri de algum contentamento, ou traz saudades,

 

sem galinhas engaioladas, sem cartuchos de tremoços,

sem castanhas assadas, sem arrufadas e regueifas,

sem jornais, sem revisor nem maquinista,

onde o cimento se esboroa, a madeira se esburaca, as coberturas

 

se destelham, a água já não corre, as vendedeiras

desapareceram, as manivelas deixaram de servir,

onde os relógios perderam os ponteiros,

onde enferrujam cancelas e lanternas, tabuletas

 

de “pare, escute, olhe”, pilares de pontes velhas,

onde ferros retorcidos, pedregulhos, silvas, cardos,

entre algum rio e algum monte, uma charneca e um olhar,

se amontoa sucata, apenas sucata para a alma,

 

e não se passa nada e não passa ninguém.

(Lacoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves, 2005)

 

• António Alexandrino

 

Nota da Redacção

Este espaço é destinado pela “Gazeta da Beira” à Cultura, designadamente, no que concerne a pessoas, personalidades e/ou instituições, as quais este jornal entenda serem merecedoras de relevo. Não, necessariamente, porque morrem, mas também, e sobretudo, por isso. Obviamente, dentro de uma equação jornalística levando em linha de conta ser a GB um periódico regional e quinzenário. Procura-se, por norma, não ir além de um assunto por cada edição e sem uma rígida obediência ao acontecer cronológico dos factos. Daí que alguns, porventura em maré de oportunidade discutivelmente aleatória, tenham de aguardar sua vez, espaçando-se no tempo.

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ASSOL apresentou exposição inovadora na Casa da Música

A música está “Ao Alcance de Todos”

Ed653_CasaMusica-PortoNo âmbito da iniciativa “Ao Alcance de Todos”, na Casa da Música (Porto), terminou no passado domingo de Páscoa a exposição “Música de Todos os Tempos”, com instrumentos musicais construídos a partir de papel reciclado por pessoas portadoras de deficiência no Centro de Atividades Ocupacionais da Associação de Solidariedade Social de Lafões (ASSOL), sediada em Oliveira de Frades. A construção destes instrumentos ocorreu durante o verão do ano passado e foram agora expostos na Casa da Música.

A exposição elaborada pela ASSOL integrou um vasto programa da iniciativa “Ao Alcance de Todos” que ainda decorrerá até 30 de abril. A iniciativa organizada pelo Serviço Educativo da Casa da Música, que tem como objetivo juntar pessoas com necessidades educativas especiais e mostrar que a música não tem fronteiras e está ao alcance de todos, independentemente da condição física ou mental de cada um.

O sentido de comunidade não será posto de parte e estão incluídos, nas atividades propostas, workshops, performances de núcleos que desenvolvem trabalho artístico fora da Casa da Música e atuações que recuperam memórias musicais.

Apesar da maioria das iniciativas terem entrada livre, há algumas atividades cuja entrada e participação tem o valor de dois e seis euros. O programa de “Ao alcance de todos” pode ser consultado na íntegra no site oficial da Casa da Música (http://www.casadamusica.com).

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Festival de artes em maio

“Viseu a…” também vai passar por S. Pedro do Sul

Ed653_Viseu-aO festival de artes “Viseu a…” regressa no final do próximo mês de maio, envolvendo centenas de pessoas em espetáculos de dança, teatro, circo e música, não só na capital de distrito, mas também em concelhos vizinhos.

O diretor do Teatro Viriato, Paulo Ribeiro, anunciou que o festival de artes vai acontecer de 24 de maio a 01 de junho. Para além de Viseu, o programa também integrará espetáculos em S. Pedro do Sul, Mangualde, Nelas e Tondela.

“Foi sempre um sonho do Teatro Viriato sair fora de portas e nós fizemo-lo sempre de forma muito localizada, muito cirúrgica. Trabalhávamos com outras instituições, com escolas, mas nunca invadimos a cidade e, de repente, temos este projeto”, afirmou Paulo Ribeiro.

A primeira edição deste festival realizou-se no ano passado em vários espaços da cidade de Viseu, com espetáculos consecutivos durante 24 horas, e foi considerada um sucesso.

Como se trata de uma candidatura aprovada no âmbito da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões, a ideia foi, depois da primeira edição, alargar o festival a concelhos vizinhos.

Paulo Ribeiro explicou que cada cidade terá iniciativas diferentes, exemplificando que, em Nelas, o encenador Graeme Pulleyn está a preparar o espetáculo “Romeu e Julieta” com a comunidade cigana.

O festival conta com a consultoria e coordenação artística de Madalena Victorino e Giacomo Scalisi.

Paulo Ribeiro frisou que o programa do festival quer “deixar memórias, projetar para o futuro, contribuir para que as gerações possam ter um olhar diferente sobre o seu papel na sociedade”.

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Centro Social e Paroquial de Queirã apresenta Projeto de Arquitetura

Ed653_Centro-Social_QueiraNo dia 4 de abril de 2014, pelas 15 horas, o Centro Social e Paroquial de Queirã, apresentou no salão de atividades, recentemente terminado, o Projeto de Arquitetura do Lar de Idosos e Apoio Domiciliário. O projeto apresentado contará com uma  área a construir de 2388 m2, terá uma capacidade para  30 utentes  em regime residencial e 30 em apoio domiciliário; manterá 6 postos de trabalho e criará 12. O projeto terá um custo previsto de 1,5 M Euros e terá um Impacto Financeiro previsto no concelho de 2 M Euros nos primeiros 5 anos de funcionamento.

Nesta cerimónia estiveram presentes e usaram da palavra, entre outros, o Presidente do Centro Social, Sr. Padre Francisco Domingos,   o Diretor do Instituto Segurança Social de Viseu,  Dr. Telmo Antunes, a presidente da Junta de Freguesia de Queirã, Dr.ª Susana Outeiro e Sr. Presidente da Câmara Municipal de Vouzela, Eng.º Rui Ladeira.

Todas as entidades demonstraram interesse na execução do projeto, sendo desta forma uma mais-valia, não só para a freguesia de Queirã, mas também para todo o concelho de Vouzela e região. Este projeto tornar-se-á uma realidade em 2015,  dependendo ainda da aprovação de candidaturas.

• António José Gomes Rocha

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Eugénia Lima, “a notável acordeonista portuguesa”

Todos vamos sendo ‘povoados’ por diversas referências que nos sobrevêm com o decurso de nossos dias, sob o beneplácito de Saturno (deus do tempo, na Antiguidade Clássica). Mormente na infância, na adolescência ou na juventude.

Ed652_eugeniaLimaNessa já um tanto afastada circunstância, quem tivesse um ‘rádio’ lá na terra, que se fizesse ouvir na rua (de preferência, em elevado volume sonoro), era um pessoa ‘importante’. Mas havia poucos ‘rádios’… e a televisão ainda vinha a caminho. Eventos importantes ‘vinham’ no bico desta ‘cegonha’ e era frequente as pessoas irem a casa do sr. fulano de tal, para acederem ao privilégio.

No dia a dia, o ‘rádio’ debitava a música que a “Emissora Nacional” emitia, ao gosto e ao sabor popular(!). Mas a verdade é que era uma gostosura, pese embora a questão relacionada com o ‘nacional-cançonetismo/cantiguismo’, ouvir referências musicais, como era o caso de Eugénia Lima e o seu acordeão. Aquele acordeão parece que até falava! Ela era, de facto, a rainha do acordeão, um instrumento na linha de apreço da música popular, sobretudo.

Eugénia de Jesus Lima acaba de nos deixar, aos 88 anos.

Filha de José Ferreiro, afinador de acordeões, nasceu em Castelo Branco, no ano de 1926. Cedo, aos 4 anos de idade, se apresentou em público, no Cine-Teatro Vaz Preto, em Castelo Branco, tocando “Lavadeiras de Caneças” (de Frederico de Freitas), no final de uma sessão de filmes mudos. Era o início de actuações em toda a Beira Baixa, que lhe valeram o qualificativo de «miúda de Castelo Branco». Em 1935, integrou o elenco da revista Peixe-Espada, no Teatro Variedades, em Lisboa. Em 1936, o Governo concedeu-lhe uma licença extraordinária para actuar no Casino do Estoril, visto a legislação da época não permitir a apresentação pública remunerada de menores em casas de espectáculo. Prosseguiu então a actuando em vários teatros e casas de fado (Éden Teatro, Solar da Alegria, Retiro da Severa).

Na mesma altura, iniciou os seus estudos musicais com dois músicos da Banda do Regimento de Cavalaria 6 de Castelo Branco. Aos 13 anos, candidatou-se ao Conservatório de Lisboa, para frequentar o curso de acordeão, desiderato entretanto indeferido, visto que este instrumento não integrava os currículos daquela instituição. Viria, todavia, aos 55 anos, a receber o diploma do Curso Superior de Acordeão de Paris.

Em 1957, fundou e foi a primeira directora da Orquestra Típica Albicastrense, em Castelo Branco.

Acordeonista de sucesso, Eugénia Lima cedo começou a gravar a solo, tendo registado mais de uma dezena de discos, com temas populares, de diversos compositores, versões para acordeão e várias composições de sua autoria. Compôs mais de 200 obras que se integram em géneros como corridinho, fado-canção, valsa, vira, marcha, paso doble, rapsódia, fox-trot, mazurca, tango, polca, chula, chorinho.

Possuidora de uma excelente técnica, aplicada a um repertório eclético, o seu estilo pauta-se por uma notável capacidade de improvisação e de ornamentação, aliadas a uma notável exploração dos recursos do instrumento.

Verdadeira embaixadora deste instrumento, quer no país, quer em diversos países estrangeiros, Eugénia Lima tornou-se um modelo para várias gerações de acordeonistas.

É credora de várias distinções. Obteve o 1º Lugar no Concurso de Acordeonistas (Emissora Nacional); foi premiada com o “Óscar da Imprensa” para a melhor solista de música ligeira (1962); foi a primeira artista a apresentar-se como convidada especial no programa da TF1 Le Monde de l’Acordéon (1979); foi condecorada com o grau de Dama da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1980); foi-lhe conferido o Diploma de Honra da União dos Acordeonistas de França (1984); foi-lhe atribuída a Medalha de Mérito Cultural (Ministério da Cultura – 1986); foi condecorada com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1995). Em 2011, aos 85 anos, a acordeonista foi homenageada em Castro Marim, numa sala esgotada, com a participação de 81 acordeonistas, tendo ainda tocado e deixado aos circunstantes a sua linha de conduta  artística: «as músicas que fiz, foram feitas por amor à arte e reflectem o estado de espírito naquela altura; mais de oitenta por cento das minhas músicas nasceram no palco, de improviso».

A seu tempo, a artista pedira aos seus familiares que entregassem ao Santuário de Fátima aquele que considerava o seu companheiro e mais importante acordeão, ao longo da sua carreira, instrumento “que possuía uma extraordinária afinação, resultado da mestria de seu pai”.

O nome de Eugénia Lima figura no Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis.

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Ainda a 15ª edição de “Correntes d’Escritas”

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Algo do que ficou dito

• Antonio Alexandrino

Ao longo do certame (19-22 de Fevereiro), ‘o espírito louco’ dos 62 escritores afro-ibero-americanos, numa sala com 600 lugares, permanentemente ocupados, produziu, na e para além da literatura, aquilo que poderá ser considerado como uma denúncia incisiva, irónica e frontal do incómodo por que passa a sociedade portuguesa. Diremos mesmo que a ‘PALAVRA’ terá estado no seu melhor. Daí entendermos valer a pena regressar ao assunto.

Respigámos, com a devida vénia, e sem mais comentário, algumas citações, de entre outras, que fazem parte de um manancial deveras interessante, mas desgraçadamente real.

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Eduardo Lourenço

De Eduardo Lourenço, o professor que, aos 91 anos, pede meças: «A crise vem de fora, mas de onde?… As tragédias gregas tornaram-se banais. Há 100 anos, esta Europa entregou-se a uma auto-destruição que foi o primeiro momento do buraco negro em que fomos caindo, e que não tem precedentes. Ao fim deste século de horrores que culminaram com o Holocausto e Hiroshima, pensávamos que íamos entrar numa espécie de planície. Mas afinal não é o que está acontecendo. E nós estamos aflitos com isso. Dá a impressão de que, de repente, fomos invadidos, não por uns castelhanos arcaicos nossos vizinhos, e que são nossos irmãos e primos, mas por uma espécie de vampiros, como aqueles que o cinema de Hollywood ilustra. Não é por acaso que o tema dos vampiros se tornou moda. Os vampiros são emissários da morte, é como se estivéssemos a viver uma espécie de apocalipse em directo, e esse apocalipse não é só de gente armada, é de qualquer coisa que nos suga o sangue e o sentido daquilo que vivemos… Com algum tempo e sorte havemos de sair do atoleiro em que estamos mergulhados».

Ou de Hélder Macedo: «Na minha juventude e adolescência era bem mais complicado fazê-lo. Estamos a ser diariamente ofendidos neste país e estamos bem comportados de mais. Temos a obrigação de sermos malcriados. Vamos celebrar o grande e universal manguito».

De Rui Zink: «Há uns tempos houve um senhor que teve um problema com o professor doutor Presidente da República. Parece que lhe chamou ‘palhaço’. E vi logo uma palavra fantástica, que podia ser a gralha do ano: o Presidente professor doutor Cavaco Silva mora no ‘Palhácio’ de Belém».

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Lídia Jorge

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João de Melo

Ou de Lídia Jorge: «Escrevemos com todas as raivas e alegrias que a vida nos vai dando. Mas escrevemos, sobretudo, com esse espírito louco que permanentemente tentamos dominar».

O escritor João de Melo, que em devido tempo, pela mão da Pintora Helena Liz e de seu marido Dr. António Liz Dias, vogou até esta região de Lafões, onde passou a ser presença repetida, deu alguns motes, acutilantes e deliciosos: «Hoje, em Portugal, é Deus quem parte e reparte com o Diabo, ficando este com a melhor parte». E continuou o autor de “Gente Feliz Com Lágrimas”: «Não sei quem veio de fora, nem por que motivos as coisas deixaram de ser nossas – mas voga por aí uma presença estranha, o rosto invisível e absoluto de um qualquer ocupante estrangeiro. Ele mudou o nome das coisas e a precisão doméstica dos nossos sítios. Tomou conta dos lugares públicos. Aquartelou-se nas casas, nas tribunas e nos templos. E agora impõe-nos uma ordem social e espiritual que nunca foi nossa: ou seja, uma religião sem princípios, a confraria da imoralidade». E prosseguiu, traçando um sarcástico retrato do país: «São populares e risonhos os amanuenses e os ditadores do país onde já não acontece nada. Basta-nos, para que isto ainda exista, haver lá no alto um cardeal primeiro-ministro, alguns bispos e curas nos ministérios e uns quantos noviços por secretários de Estado – mantendo-se assim a nossa ilusão acerca da existência do país. Bastam-lhe os lugares sentados no Parlamento e um talentoso orador a gritar ao povo; bastam-lhe dois escritores e meio para falar por todos; doze actores de teatro e cinema, dez polícias e um general, um maestro de batuta erguida ante as cinquenta e duas cabeças de uma orquestra, zero vírgula um arrependidos políticos confessos, dois vírgula zero seis professores e sindicalistas, três médicos e meio engenheiro, um cantor de fados e treze guarda-costas, um agricultor e oito industriais, um futebolista e três quartos de outro, um careca idoso e outro careca que ainda exibe o cartão jovem ou o título de novo empreendedor – e fica completo o comício. Vão-se os homens desta terra que em tudo deixou de valer a pena desde que sua alma se fez pequena. Vão-se os anéis e os dedos, os pomares e as vinhas, as searas de trigo e os pinhos, os pássaros e o milho – e calam-se pouco a pouco as vozes e os sinos».

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“Correntes d’Escritas” – 15ª edição com uma mão cheia de estreias

• António Alexandrino

Entre 19 e 22 de Fevereiro – “quatro dias de celebração da língua” –, teve lugar o mais antigo festival literário de expressão ibérica, na Póvoa de Varzim.

Por um auditório lotado (600 pessoas – número que terá ultrapassado as expectativas), passaram sessenta autores, 26 dos quais estreantes.

Festival de reencontros, visto proporcionar a presença de escritores que o público se habituou a ver, ano após ano, é também um festival de estreias. Entre os eleitos, Miguel Sousa Tavares, Golgona Anghel, Patrícia Portela, João Ricardo Pedro, José Rentes de Carvalho, Joaquim Bértholo e o galego Manuel Rivas. No entanto, a lista de estreias incluiu mais uma dúzia de nomes, entre os quais, o fotógrafo Alfredo Cunha, António Mota, José Ovejero, Margarida Ferra e António Gamoneda (uma das grandes atracções do evento poveiro).

Apesar de o elenco primar pela novidade, o mesmo se poderá dizer do local escolhido para a realização das actividades. A Biblioteca Municipal, local onde durante vários anos decorreu a iniciativa, cedeu a primazia ao Hotel Axis Vermar.

O “diálogo” entre a literatura e outras artes passou por uma oficina de escrita para cinema, com a presença do realizador António Pedro Vasconcelos.

Como não podia deixar de ser, o lançamento de livros. Dentre eles, ‘Livros nómadas do sangue’ (João Rios), ‘Máquina de lavar corações’ (Renato Filipe Cardoso), ‘A pata da cobra’ (Maria Quintans)…

Pesem embora as novidades previstas para a edição deste ano, o figurino que tem vindo a notabilizar o festival manteve-se. Assim, não faltaram as mesas-redondas, com frases tão desafiadoras como «pensamentos não são correntes de ninguém» ou «de correntes e cont(r)a-correntes se faz a poesia». Ou as conversas “a dois” (a duas?), como Filipa Leal e Maria Teresa Horta, ou ainda Isaque Ferreira e Cruzeiro Seixas.

Refira-se, enfim, a conversa entre o nosso conhecido e amigo escritor João de Melo e Onésimo de Almeida, a propósito dos 25 anos de “Gente feliz com lágrimas”.

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Concomitantemente, no primeiro dia das “Correntes” (19 de Fevereiro), era lançado o livro “Escrita íntima – Correspondência 1932-1961”. A publicação reúne missivas entre Maria Helena Vieira da Silva (falecida em 1992) e seu marido, Arpad Szenas.

O evento teve lugar no auditório da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, que acolhe o espólio do casal de artistas plásticos, em Lisboa.

O livro – um conjunto de 53 cartas escolhidas – foca a correspondência entre ambos, documentando «os raros e curtos períodos em que estiveram geograficamente separados». Embora tenham sido poucas as ausências para trocar cartas, «esses documentos revelam não só os afectos, mas outras informações interessantes sobre pintura, contactos com amigos e família ou exposições que visitavam».

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Mike Horn – aventura rima com loucura?

• António Alexandrino

Ed648_Mike-Horn“Era difícil respirar, o ar queimava-me os pulmões e tinha medo de que congelassem” – assim se expressava Mike Horn, depois de caminhar, sozinho, dois anos no Árctico.

Mike Horn, cidadão suíço, nascido na África do Sul, é um exemplo de determinação e coragem. Atravessou a nado os seis mil e novecentos quilómetros do rio Amazonas, socorrendo-se apenas de uma pequena prancha de fibra («particularmente empolgante e aterrorizante»). Deu uma volta ao mundo, sozinho, seguindo sempre debaixo da linha do Equador, sem qualquer transporte motorizado, sempre a pé, de barco à vela, de piroga ou de bicicleta. Solitário, percorreu o Círculo Polar Árctico, sem motores, em barco à vela, de esqui ou a pé, ao longo de mais de vinte mil quilómetros, durante mais de dois anos e com temperaturas de 60 graus negativos.

Mike Horn é um dos maiores exploradores vivos. Aventureiro destemido, afronta as capacidades da resistência humana nos cenários mais inóspitos do Planeta. Defende que “o impossível só existe até se encontrar uma maneira de torná-lo possível”. Diz que se sente vivo quando supera o medo e parte ao desconhecido.

Não contente com as suas façanhas, juntou-se ao norueguês Borge Ousland e, juntos, tornaram-se nos, até hoje, dois primeiros (e únicos) humanos a caminharem até ao Pólo Norte durante o inverno, em escuridão permanente e sem assistência motorizada, onde «a paisagem fantasmagórica evoca um planeta petrificado em noite eterna».

Para Horn, “o homem que quer viver fora da zona de conforto”, estas decisões são um desafio ‘natural’. Realça que “uma pessoa não pode tornar-se num explorador, nasce para isso, está no ADN”. Face a tal currículo, precisará de perigo constante para sentir-se feliz ou realizado? A resposta é natural e óbvia: “Gosto é do desafio em superar o medo e procurar saber mais sobre mim, mesmo quando estou perante o perigo”.

Mike Horn dá conta das suas aventuras “em livros bastante recomendáveis”, bem diferentes de toda a literatura produzida pela nova geração de exploradores ou aventureiros, no entanto ainda não traduzidos para a língua portuguesa – “Latitude zero”, “Conquérant de l’impossible” e “Objectif: Pôle Nord de nuit” («ser louco é enfiar uma gravata e ir para um escritório»).

Nesta conformidade, ocorre-nos o poema ‘D.SEBASTIÃO, Rei de Portugal’, de Fernando Pessoa (‘Mensagem’):

«Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?»

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Ary dos Santos – ‘As Palavras das Cantigas

• António Alexandrino

Ed647_ArySem palavras (a “letra”) não há canto. Canto esse que pode valer por si (‘a cappella’), ou é acompanhado por instrumento(s) – de resto, é uso muito antigo. Assim faziam, na velha Grécia, os aedos (‘aedo’: poeta grego da época primitiva, que cantava ou recitava com acompanhamento da lira – Homero foi o mais célebre dos aedos). Assim fizeram, mais tarde, os trovadores. Assim sucede, hoje, com muitos intérpretes, no campo da música e do espectáculo musical.

Com a lira se representava Apolo, eleito Patrono das Artes pelas divindades inspiradoras das mesmas – as Musas. De ‘musa vem a palavra ‘música’; com ‘lira’ se relaciona a palavra ‘lírica’ (a poesia). A música e a poesia andaram sempre de mãos dadas.

A poesia portuguesa não foge à regra e, «logo nas suas fontes trovadorescas… a cítola era companheira inseparável da palavra», como diz Natália Correia no prefácio de “AS PALAVRAS  DAS CANTIGAS”,  colectânea dos poemas de Ary dos Santos escritos para Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Fernando Tordo, José Afonso, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira, Tonicha, entre outros.  Quem não se lembra dos festivais televisivos, por exemplo…?

Isto, a propósito dos 30 anos após a morte do poeta José Carlos Ary dos Santos, efeméride ocorrida no p. p. dia 18 de Janeiro. Fernando Tordo foi quem mais musicou e cantou Ary dos Santos, tendo-o feito com cerca de 100 poemas. Nesta conformidade, houve lugar a um espectáculo comemorativo, no Teatro São Luiz, intitulado “Ary rima com Lisboa”, com Fernando Tordo (voz e guitarra), a cantora Mitó Mendes (do grupo ‘A Naifa’) e João Tordo, escritor, como contrabaixista.

É a ‘rima’ de Ary que, para além de outras múltiplas e variegadas ‘rimas’, rima com ‘Lisboa’ que, de acordo com Natália Correia (idem, op. cit.), e evocando o cantor Carlos do Carmo por exemplo (“Um Homem na Cidade”), é «… essa Lisboa, cidade do seu tormento em que as noites são feitas do basalto da tristeza; metrópole das misérias escondidas à socapa pelo Amarelo da Carris; o cauteleiro que, apregoando as horas de boa sorte, consome o fado da pouca sorte; a eternidade friorenta do homem das castanhas à esquina do inverno; a coisa mais triste deste mundo que é a velhinha sentada no banco do jardim, estátua da desgraça que amargou até ao fundo, fazendo com os ossos as maneiras de estar ali, rainha das chagas, sentada sobre o mundo… nessa Lisboa cujos azulejos, vestindo-a de azul e branco, são ladrilhos da saudade, é nessa cidade do pouco Tejo, pouco Tejo do cacilheiro e muita mágoa de quem saudosamente espera (o quê?) que o poeta tem a sua raiz. Lisboa é o seu amor a sua aventura e o seu desespero. O lugar onde ele persegue a ternura que está rodeada por cardos. Porque ao fim e ao cabo o amigo está sempre longe.»

“Cavalo à solta”, “Desfolhada”, “Laranja amarga e doce”, “Lisboa, menina e moça”, “Estrela da tarde”, “Menina”, “Quando um homem quiser”, “Tourada”, “Os putos”, são algumas das cantigas a que compositores e cantores deram corpo e continuam a povoar o mundo da nossa canção.  

Nascido em Lisboa, em Dezembro de 1937, Ary dos Santos publicou os primeiros versos aos 14 anos, após a morte da mãe, quando fez parte da Antologia do Prémio Almeida Garrett. No entanto, para além das ‘cantigas’, Ary deixou-nos um espólio poético assinalável: “A Liturgia do Sangue”, “Tempo da Lenda das Amendoeiras”, “Adereços, Endereços”, “Insofrimento in Sofrimento”, Fotosgrafias”, “As Portas que Abril Abriu” e “O Sangue Das Palavras”.

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Cinclus trouxe centenas a Vouzela

Ed647_cinclusA 4ª edição do Festival de Imagem de Natureza de Vouzela chegou ao fim com  balanço positivo. O Cinclus conseguiu trazer centenas a Vouzela, encheu as salas e dinamizou a vila e o comércio local.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Eusébio – a realidade e o mito

• António Alexandrino

646_p29_eusebioA comunicação social levou às últimas a temática. Não é que falte matéria para outras contextualizações – “infelizmente!”, dirão uns… pensarão outros. Com efeito, sobre Eusébio e seu desaparecimento físico muito se disse e escreveu, porventura num misto de nostalgia, de saudade… daquele Eusébio que “habitou” a mocidade de muitos de nós; daquele Eusébio de quem o Estado Novo (“orgulhosamente só”) se apossou, tentando ‘usá-lo’, tal como fez com Amália; lendas consagradas e respeitadas em todo o mundo, talvez os embaixadores de maior visibilidade e de melhor aceitação, não só para “estranja”, mas sobretudo para os nossos compatriotas, obrigados a procurar lá fora o que o solo pátrio lhes não proporcionava. No entanto, “povo e lenda, ambos, feitos poesia – esse lugar mais habitável do que o real”, como escreveu alguém.

Poucas são as personalidades capazes de gerar largo consenso universal elogioso. Um dos melhores futebolistas de sempre (no país e no mundo), transformou-se num “ícone de Portugal”. O que espanta é o facto de grande parte dos portugueses, que o homenagearam, não o terem visto jogar ao vivo, tendo recebido dos seus pais e avós o testemunho das suas gestas, que viram confirmadas através de imagens de fraca qualidade e a preto e branco. Apesar disso, suficientemente elucidativas para eternizarem a elevada velocidade que punha nas suas corridas, a potência das seus remates, a alegria com que jogava e galvanizava os seus companheiros, a força que transmitia ao público e, enfim, um raro fair-play e sentido de camaradagem, mesmo no duro da derrota, ao desfazer o mito que alicerçava a ideia de que «um homem não chora». Eusébio chorou. Sem disfarçar a mágoa.

‘Gazeta da Beira’ presta homenagem a um homem que conseguiu unir transversalmente o País ao seu redor: possuidor de uma simplicidade, de uma humildade e de uma afabilidade invulgares, derrubou barreiras políticas e raciais, uniu gerações e conseguiu “guindar-se a um patamar acima das rivalidades clubísticas doentias ou das origens sociais de cada um. Um homem cujo nome é repetido e respeitado em todo o mundo. Os homens assim também morrem, mas não desaparecem, somente reforçam o seu estatuto de lenda.

“Monumento de si próprio”, a transformação em mito aconteceu muito antes do dia da sua morte, Para a memória colectiva (dos portugueses e de amantes do futebol em todo o mundo), “Eusébio continua aqui”.

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«Havia nele a máxima tensão

Como um clássico ordenava a própria força

Sabia a contenção e era explosão

Não era só instinto era ciência

Magia e teoria já só prática

Havia nele a arte e a inteligência

Do puro e sua matemática

Buscava o golo mais que golo – só palavra

Abstracção ponto no espaço teorema

Despido do supérfluo rematava

E então não era golo – era poema.»

Manuel Alegre

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Arquivo da memória de Dão Lafões e Paiva vem a público

binaural_2014A Binaural – Associação Cultural de Nodar, uma entidade cultural situada no concelho de São Pedro do Sul e que se dedica desde 2004 à pesquisa artística e social em zonas rurais de montanha, anuncia publicamente a criação do Arquivo da Memória de Dão-Lafões e Paiva, uma iniciativa financiada pelo Programa Cultura 2007-2013 da União Europeia e pela Direção Geral das Artes, que consiste num repositório audiovisual, catalogado e descrito de acordo com critérios rigorosos, representativo da herança cultural de territórios de montanha, tendo como objectivo introduzir sentidos de pesquisa inovadora nas formas de documentar, comunicar com comunidades rurais e difundir os resultados finais obtidos junto de públicos locais e externos.

Numa primeira fase, a concluir e a disponibilizar online até Fevereiro de 2014, o arquivo reunirá os seguintes documentos, recolhidos/acolhidos pela Binaural/Nodar entre 2006 e 2013:

* 140 entrevistas audiovisuais, a habitantes de mais de 30 aldeias do concelho de São Pedro do Sul, Castro Daire e Vila Nova de Paiva, abordando toda uma série de temáticas relevantes para perceber o passado e presente das comunidades rurais: rituais sagrados e santos locais, ciclos dos cereais (linho, milho e centeio), pastorícia, a floresta, as minas, criação de animais, paisagens e sua transformação, história das povoações, histórias de emigração, guerra colonial, desenvolvimento económico e transformações sociais, a caça, a pesca, a fauna, a flora etc. etc.

* 40 recolhas sonoras e audiovisuais de eventos sagrados e profanos, de situações sociais e de trabalho realizadas nos vales do Paiva e do Vouga

* 300 paisagens sonoras e audiovisuais realizadas nos vales do Paiva e do Vouga

* 75 criações artísticas sonoras e multimédia acolhidas pela Binaural/Nodar desde 2006 no vale do Paiva e Maciço da Gralheira (São Pedro do Sul) e cujas temáticas se relacionam intimamente com o território e suas gentes.

O Arquivo da Memória de Dão-Lafões e Paiva será no futuro objeto de novas parcerias, de forma a gradualmente se extender a novos municípios, promovendo-se assim uma rede local de pesquisa etnográfica multimédia com um trabalho consistente e com rigor metodológico e com um pendor eminentemente endógeno, ou seja, feito por gente da terra para as gentes da terra, logo com um elevado sentido de identidade territorial.

O primeiro ciclo de apresentações públicas do Arquivo da Memória de Dão-Lafões e Paiva irá decorrer num conjunto de espaços e em parceria com diversas instituições do concelho de São Pedro do Sul (município, freguesias, escola secundária, IPSS, e associações), tendo o seguinte programa:

Dom. 19 jan, 15h00 Cine Teatro de São Pedro do Sul

2ª F. 20 jan, 15h00 Agrupamento de Escolas de São Pedro do Sul

3ª F. 21 jan, 15h00 Centro Social de Vila Maior

4ª F. 22 jan, 15h00 ARCA – Associação de Solidariedade Social, Sta. Cruz da Trapa

5ª F. 23 jan, 15h00 Lar da Misericórdia de Sto. António – São Pedro do Sul

6ª F. 24 jan, 21h00 Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Oliveira e Aveloso (freguesia de Sul)

O Arquivo da Memória de Dão-Lafões e Paiva insere-se na Rede Tramontana de documentação cultural de zonas de montanha do Sul da Europa que inclui os territórios dos vales do Vouga e Paiva (Portugal), os vales do Sieve e do Arno (Toscânia, Itália), as montanhas do Gran Sasso e Monti della Laga (Abruzzo, Itália) e os Pirinéus Centrais (Midi-Pyrenées, França). Para além da Binaural/Nodar, fazem parte da Rede Tramontana as seguintes organizações culturais: Nosauts de Bigòrra, Numériculture Gascogne e Eth Ostau Comengés (todas de França), Bambun, La Leggera e LEM Italia (todas de Itália).

Ligação para o sítio Internet da Rede Tramontana:tramontana

http://www.re-tramontana.org

• Luís Costa (Coordenador/Coordinator)

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Gazeta da Beira organiza debate que procura perceber qual o futuro da Europa

Que Europa para termos futuro?

• Patrícia Fernandes

p29_europaA Gazeta da Beira vai promover um debate, no próximo dia 25 de Janeiro, a realizar no cineteatro de S. Pedro do Sul, pelas 15h, o qual, procurará reflectir sobre o futuro da Europa. Carlos Carvalhas, econonomista e ex secretário-geral do PCP, Amadeu Carvalho Homem, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e José Manuel Pureza, professor de Relações Internacionais, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, aceitaram o desafio e vão dar o seu contributo para explanar esta temática tão importante e que a todos diz respeito.

A Europa assume na actualidade um papel fulcral nas nossas vidas. Hoje em dia, somos também cidadãos europeus. Esta é, contudo, uma realidade alheia à maioria, relembre-se que as eleições europeias são as que registam a maior abstenção.

As eleições para o Parlamento Europeu são já para o ano e há muito em jogo, é preciso despertar consciências. Importa reverter este cenário marcado pelo desinteresse nesta União Europeia, importa dar a conhecer a Europa aos europeus, que são todos os portugueses, que somos todos nós.

Perante este cenário actual, em que, mais do que por portugueses somos governados por europeus, importa repensar políticas e descortinar soluções. São muitas as perguntas que se impõem: Que Europa queremos para o futuro? Que Europa precisamos? O que é que tem que mudar?

Ciente da importância que este tema tem na actualidade, ciente que o debate saudável é vital para uma sociedade instruída, capaz de criar as bases sólidas fundamentais para que possamos exercer o papel de cidadãos a Gazeta da Beira lança esta desafio aos nossos leitores e a todos cidadãos em geral. Contamos com a vossa presença e com a vossa participação. A nossa prioridade é dar resposta as vossas dúvidas, preocupações e interesses pelo que, aguardamos também pelas vossas perguntas, as quais pedíamos o favor de nos fazer chegar a partir do seguinte email: gazetadabeira@sapo.pt. Só assim, conseguiremos uma iniciativa plena. Contamos convosco, esta iniciativa é vossa!

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Órgão de Tubos da Igreja do Convento

• António Alexandrino

Orgao-IgrejaConvento_DSCN6634Muito provavelmente só umas tantas pessoas saberão que a Igreja de S. José do Convento Franciscano, de São Pedro do Sul, tem um antigo e belo órgão de tubos.

“Uma relíquia”, de “valor incalculável”, segundo o apreço de quem entende do assunto. Foi construído pelo organeiro António Xavier Machado e Cerveira, o mais notável fabricante de órgãos português e o que mais trabalho produziu (105 órgãos, dos quais este é o nº 17). Datando da segunda metade do séc. XVIII (1788), este é um instrumento com 225 anos.

Segundo o Prof. Pedro Dias, do Instituto da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, as suas características mais evidentes são: «o estilo concheado que se usou em Portugal, a partir de D. José I e compostos por madeiras correntes marmoreadas a vermelho, verde e azul e talhas douradas; a mísula, de perfil triangular com anjos na base e balcão com painéis de madeiras comuns, seguindo-se os corpos das tubagens de chumbo; a parte alta, de linhas quebradas, é coroada com urnas, dois anjos e uma alegoria à música; possui ainda rendilhados de talha dourada, sendo as madeiras marmoreadas em azuis, verdes e vermelho».

Na tampa protectora do teclado pode ler-se: «ESTA OBRA MANDOU DOURAR O EX.mo S.r D. F.r JOZE DO MENINO JEZUS BISPO DE VIZEU. ANNO 1789».

Órgão de ‘tipo ibérico’, possui cerca de 500 tubos. O teclado (a consola) vai de Dó (C1) a Ré (C5). Dispõe de 7 registos para cada uma das mãos; pedal de tambor; pedais auxiliares para abrir e/ou fechar cheios/palhetas.

Depois de mais de 30 anos calado, foi alvo de restauro, na década de 90 do século passado, a expensas e por iniciativa do executivo municipal, então presidido pelo Dr. Bandeira Pinho. Tendo o trabalho de recuperação sido da responsabilidade do organeiro António Simões, de Ansião (Leiria), foi inaugurado em 24 de Novembro de 1996, em concerto, a cargo do organista Rui Paiva. Necessita já de nova intervenção, ainda que não complexa.

Afinal, quem foi Machado e Cerveira? Nascido em Setembro de 1756, em Tamengos de Anadia, faleceu em Caxias, em 1828. Era irmão do famoso escultor Machado de Castro, pela parte do pai, Manuel Machado Teixeira, também ele grande organeiro e escultor em madeira.

Machado e Cerveira é autor do órgão da Igreja dos Mártires, em Lisboa, o seu primeiro órgão, que ainda existe e em perfeito estado. Foi incumbido de construir quase todos os órgãos das igrejas reedificadas depois do terramoto de 1755, quer em Lisboa, quer em terras vizinhas. Fabricou outros desses instrumentos para outras igrejas de vários pontos do país, inclusive, para o Brasil. Alguns são de grande porte.

Os órgãos produzidos por António Xavier Machado e Cerveira são famosos por uma sonoridade brilhante e por um toque de carácter ornamental, visto ser também um notável escultor em madeira.

 

Em São Pedro do Sul celebrou-se o Natal

Concerto de Natal na Igreja de São José do Convento Franciscano de São Pedro do Sul

No passado dia 21 de Dezembro realizou-se um Concerto de Natal na Igreja de São José do Convento Franciscano de São Pedro do Sul, organizado pela Câmara Municipal de São Pedro do Sul.

O concerto, divido em duas partes, contou com a participação do grupo Alafum e do grupo Vozes de Manhouce com Isabel Silvestre e António Alexandrino.

Na primeira parte o Alafum apresentou música tradicional com vozes e diversidade instrumental.

Na última intervenção do Alafum houve a integração de um grupo de pessoas da Universidade Sénior de São pedro do Sul que conjuntamente apresentaram uma cantiga da tradição natalícia – Ó Rosita!

A segunda parte abriu com António Alexandrino, interpretando, ao órgão de tubos, a peça Prelúdio e Fuga de J. C. Simon, alemão, compositor organista do século XVIII, contemporâneo de Bach.

Segui-se a participação de Vozes de Manhouce com Isabel Silvestre e António Alexandrino.

Do reportório de Manhouce fizeram parte peças da polifonia tradicional, Lopes Graça (Acordai!, canção nº 1 das Heróicas) e outras músicas alusivas ao Natal tendo terminado com a Miraculosa.

Este evento integrou-se num vasto programa natalício promovido pelo município sampedrense que contou com Animação de Rua entre os dias 20 a 23 de Dezembro pelos alunos da Universidade Sénior de São pedo do Sul, pelo Rancho Folclórico as Lavradeiras de Negrelos, grupo de danças e cantares de Norte a Sul A Tileira, Associação Desportiva e Cultural de lourosa, rancho da freguesia de Serrazes, Rancho Folclórico de Pindelo dos Milagres; a Chegada do Pai Natal à Praça do balneário rainha D. Amélia; Teatro e cantares de Natal. No próximo dia 28 teremos a I Corrida de São Silvestre, Cantares Populares e no dia 31 Festa de Passagem de Ano, com entrada livre, na Praça do Município com o Grupo Musical “Jorge Manuel”.

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