António Moniz Palme (Ed. 736)

Edição 736 (22/03/2018)

O Marquês de Pombal e a caça aos Gambozinos, para apanhar outra modalidade de fantasmas (parte 2)

Regressado da sua estadia oficial em Londres, Sebastião José de Carvalho e Melo não esqueceu o que tinha visto em matéria de educação. Claro que mal tomou conta das rédeas do poder, resolveu implementar uma Reforma profunda no Ensino. Assim, começou pela Universidade de Coimbra, como alias anteriormente D. João III já tinha tentado levar a cabo. Acontece que certos aspectos dessa reforma poderiam ter a oposição dos Jesuítas, que tinham grande influência espiritual no País. Na verdade, eram Eles os confessores régios e da nobreza, bem como de todas as pessoas importantes que davam cartas na vida social. E o Marquês de Pombal, em vez de discutir o seu programa educacional, começou a ver os Jesuítas, igualmente como viu os Távoras, um empecilho à sua ascensão social e aos seus projectos políticos. È bom recordar que, em Inglaterra, terá aprendido as doutrinas do Naturalismo do Séc. XVIII, tão em voga e muito discutidas no meio cultural londrino. Na perspectiva de Oliveira Martins, para Ele a religião não era um instinto ou um sentimento, mas uma engrenagem necessária, subordinada ao maquinismo da sociedade. Aos espíritos geométricos da sua escola passavam despercebidos e obrigatoriamente desconhecidos os fenómenos complexos e profundos da alma religiosa. No fundo, inconscientemente, comportava-se como um verdadeiro ateu, reduzindo Deus a um simples arquitecto. A espiritualidade visionária e sentimental não era com o novo governante. Nesta linha de actuação, extinguiu a Universidade de Évora, grande centro de ensino, e iniciou a Reforma da Universidade de Coimbra. Igualmente tomou conta do Tribunal da Inquisição, que passou a Tribunal Régio sob o seu controle absoluto. Não acabou com a Inquisição, como as pessoas progressistas e esclarecidas esperavam, mas serviu-se da mesma para os seus próprios fins…! Entretanto, o Marquês nunca se esqueceu que durante o terramoto os jesuítas tinham clamado que estavam a sofrer um castigo de Deus, pela actuação ímpia de José Carvalho e Melo, fulminando a imagem do Marquês com anátemas de toda a ordem…! .A resposta veio rápida. Os jesuítas foram acusados de terem colaborado no atentado a D. José. Assim, foram afastados da Corte e impedidos de confessarem a Família Real. Ao mesmo tempo, foi enviada uma carta para Roma, pedindo autorização para a Mesa da Consciência julgar os jesuítas, pelo sacrílego atentado contra a vida do Rei. Daí, seguiu-se a detenção de todos os jesuítas e, em 1760, um ano após o atentado ao Rei D. José, a sua expulsão do Reino, bem como o sequestro dos bens da congregação. Todos expulsos não, pois guardou no cárcere o velho Padre Malagrida, para mais tarde nele cevar publicamente o seu ódio aos jesuítas, mandando-o enforcar e ordenando fossem queimados os seus despojos. Roma protestou pela perseguição feita sem qualquer culpa formada. Como resposta, no ano seguinte, Roma viu ser expulso de Lisboa o Núncio Apostólico.

Recordo um facto histórico que revela bem o espírito vingativo do Marquês de Pombal, em que foram actores de primeira grandeza Gonçalo Anes, o célebre Bandarra, sapateiro de Trancoso, bem como as sua profecias, actores estes protegidos pelos Heróis do 1º de Dezembro de 1640 e pelo Padre António Vieira. O Povo adorava as trovas do Bandarra, que chegou a ser considerado um santo de altar. O Sapateiro de Trancoso, nas suas profecias em verso espalhadas de mão em mão por todo o território, adivinhou o fim dos Filipes, a queda do domínio castelhano, e a subida ao trono do novo Rei D. João IV., Duque de Bragança. A Inquisição não conseguiu acabar com Ele nem, após o seu falecimento, fazer desaparecer da lembrança colectiva as suas profecias em verso, pois as trovas, em 1675, foram consideradas livres do poder da Inquisição, por intervenção do próprio Papa. Claro que, quando morreu, no ano de 1545, foi colocada uma lápide no Túmulo de Bandarra, em Trancoso, testemunhando a admiração dos portugueses. Curiosamente, no tempo do consulado do Marquês, foi picada essa lápide, sendo rebocada a cal, para não poder ser lida pelos vindouros. O ódio aos jesuítas estendeu-se inexplicavelmente à história, procurando fazer desaparecer a memória de uma personalidade protegida pelo jesuíta Padre António Vieira e amado pelo Povo Português como símbolo profético da Restauração e da nossa Santa Independência.

A expulsão dos Jesuítas, educadores durante décadas e décadas, obrigava a remodelar a instrução pública de cima a baixo, começando tudo do zero. Claro que para remodelar não basta decretar, numa folha de papel, um novo modelo de ensino. Pode decretar-se abundantemente, mas tais intenções leva-as o vento, quando não existem os instrumentos necessários para levar a cabo a transformação do ensino e há uma absoluta ausência de educação no corpo da colectividade. Numa das quatro casas extintas de ensino dos Jesuítas de Lisboa, na Casa da Cotovia, foi instalado o Colégio dos Nobres. Ora, tanto a Nova Universidade de Coimbra como o Colégio dos Nobres eram institutos de Ensino Superior ao nível do mais moderno ensino europeu, criando-se cadeiras de filosofia natural, sendo instalados museus, observatórios, gabinetes científicos, sendo instituído o ensino do direito natural e da história civil dos povos, todavia, não existiam os meios mínimos para concretizar os objectivos criados, como apontou Oliveira Martins ao programa educacional pombalino. Claro que foram chamados professores estrangeiros, pois com a ausência do escol jesuíta não havia professores capazes para o desempenho desse ensino, se bem que o mesmo não estaria naturalmente apto e na disposição de ministrá-lo e, por outro lado, não estaria imbuído certamente pelo novo espírito naturalista que o devia animar.

Enfim, mais que não fosse, a expulsão dos jesuítas terminou com a maior e melhor rede de ensino secundário do país. Tal ensino envolvia cerca de 20 mil alunos, que ficaram sem escolas e, durante muitas décadas não foram alcançados novamente estes números. O marquês de Pombal, segundo Rómulo de Carvalho, criou, um vazio quase total da actividade pedagógica. Quando em toda a Europa, no Séc. XVIII, foram estabelecidos grandes programas de alargamento e de universalização do ensino, Portugal ficou em flagrante desvantagem em relação aos seus parceiros europeus. A caça aos gambozinos, isto é aos jesuítas, foi completamente desastrada e foi apenas fruto do seu ódio pessoal à congregação, criada por Santo Inácio de Loyola e reconhecida pelo Papa, em 1540.

Após esta resenha pessoal sobre o assunto, resta fazer um diagnóstico ao diabolizado Espírito Jesuítico de que tanto se falou e criticou e que constituiu um fantasma para as aspirações do Marquês de Pombal, sempre desfraldado pelos seus admiradores.

 


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