
• António Moniz de Palme*
Edição 836 (27/10/2022)
A corrupção política bem visível
As perturbações na Democracia num País, constituído por uma maioria de gente boa e inocente
(Segunda Parte)

Sempre acreditei no Municipalismo e seria através dele, como na Idade Média, que as forças da província se continuariam a desenvolver, defendendo as liberdades concretas e os direitos locais. A certa altura da minha vida parlamentar, meti-me mesmo numa grande embrulhada. Na verdade, contra a vontade de uma série de industriais falidos de Guimarães e que não gostaram nada que, sem a sua autorização, se se fizesse entrar no Parlamento, uma proposta do PPM, de restauração do Concelho de Vizela, à sua revelia. E se havia a necessidade de criar um novo concelho, este fatalmente seria o de Vizela. Guimarães tinha 78 freguesias, com desconhecimento total dos respectivos órgãos locais pela maioria do Povo. Com a criação do Novo Concelho, Guimarães ainda ficava com 68 freguesias para se entreter… Enfim, a mesquinhez de uns senhoritos, alguns licenciados mas incultos até dizer basta…! Valeram-se da suposta animosidade com a criação de um novo Concelho, alimentada pelo pai do Freitas do Amaral. Com deputados do CDS, do PPM e do PSD, tentou chegar-se a um acordo, mas a conversa azedou e Freitas do Amaral teve a distinta lata de, em público, me declarar que a criação do Concelho de Vizela, só passando por cima do seu cadáver. Claro que prontamente lhe respondi, que arregaçaria as calças para me não sujar, e passaria por cima da sua ilustre pessoa e o concelho de Vizela seria restaurado. E a reunião política vergonhosamente ficou por ali. Na verdade, perante aquele desacato, Francisco Pinto Balsemão fez uma retirada estratégica, em vez de meter na ordem a sua gente da AD.
Entretanto, através do deputado do PPM, António Borges de Carvalho, Freitas do Amaral veio fazer-me a seguinte proposta. Se eu desistisse da criação do Concelho de Vizela, seria nomeado presidente da Fundação da Casa de Bragança. Como seria tal possível? Que competência secreta teria aquele energúmeno de Guimarães para me arranjar tal lugar?!!! Quem lhe terá dado tais competências… Quem ganhou partidariamente com as atitudes de Freitas do Amaral, foi o partido socialista que não se meteu nas confusões e acabou por ganhar as eleições em Vizela.
Na altura, vieram convidar-me para fazer parte de uma lista, concorrente à nossa Câmara Municipal. Claro que aceitaria, se dessa lista fizessem parte elementos de todos os partidos que apoiaram os trabalhos da restauração do Concelho de Vizela. Não aceitaram e pretenderam excluir elementos do PC e da Extrema Esquerda. Não aceitei tal discriminação.
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Edição 835 (13/10/2022)
Oportunismo Político:
A Democracia com que sonhámos, não admite comportamentos anormais de quem dela se pretende aproveitar – Primeira Parte

Quando iniciei a minha actividade política, cheio de boa vontade e de coragem, no meu modesto campo de acção, comecei a concluir que nem tudo era como eu pensava. Nem pouco mais ou menos…! Os cidadãos, normalmente, actuavam para satisfazer os interesses públicos e nunca para se servirem de situações a seu belo prazer. Contudo… bem enganado andava eu…
E não era necessário ir muito longe. Na Primeira República, foi inventado um sistema dispendioso, que só dava para gente com posses e que, desse modo, ultrapassava os engulhos de votar contra a religião e contra os melindres provocados pelas práticas contra a vontade dos considerados os mais sérios da Comunidade. Pois bem, dado o pontapé nas convicções do bom Povo, o eleitorado tinha obtido o voto em determinado sentido. Contudo, para ajudar a esquecer, reuniam-se os votantes que tinham obtido o voto em determinado sentido, à volta de uma mesa para se banquetearem com “Carneiro com Batatas”. Claro que apenas os chefes de fila com posses podiam fazer face às despesas deste tipo de propaganda política. Na verdade, ao chamariz do “Carneiro com Batatas” ultrapassavam-se situações bem difíceis de resolver, por não serem bem aceites pelo Povo. Normalmente, estavam em discussão projectos da maçonaria e dos seus chefes. Pois bem, mas este tipo de actuação política está já diluído no tempo e pelo menos com demasiados elementos novos…Ou não estará?!!! Mas vamos ao que interessa. Comecei como funcionário público, no Porto, subdelegado do Ministério do Trabalho, entregando-me à resolução dos problemas laborais com todo o entusiasmo, ultrapassando muitas vezes os limites naturais da minha competência, e indo mais longe, sem medo, na tomada de soluções que estavam na minha mão. Devo dizer que não me penteava lá muito bem com o regime, mas compensava tal, com a profunda amizade que tinha pelo Delegado do Ministério do Trabalho, Sr. Dr. José Rebelo Cotta, trabalhando dia e noite, para conseguir que a resolução dos problemas surgidos na Rua do Breiner fossem sempre tomadas a favor dos trabalhadores e a contento dos responsáveis do poder central. Entretanto, no ambiente do funcionalismo, começou a germinar a ideia de que Marcelo Caetano era incapaz de resolver prontamente o problema de África e de substituir o regime político vigente por uma maioria mais aberta às novas modas europeias. E para a generalidade dos portugueses, se não se actuasse prontamente e se Marcello não fosse prontamente substituído por outro chefe de fila mais capaz, a comunidade portuguesa não iria fazer uma transição calma e moderada para um futuro democrático, sem os dramas que já se anteviam nas províncias ultramarinas. Assim sendo, cerca de mil personalidades independentes e moderadas resolveram reunir-se num almoço, nos serviços da Câmara, do Porto, em 17 de Maio de 1970, onde seria discutido o problema do Ultramar e a liberdade e transparência nas eleições. Conseguimos trazer junto de nós Franco Nogueira que daria uma pancada grande no regime, abrindo a porta a um substituto de Marcelo Caetano, personalidade incapaz de modificar o que quer que fosse.
Mas Franco Nogueira roeu-nos a corda. Começou por exigir ver os nossos discursos, tendo saneado tudo o que neles significava a necessária mudança.
Para nos tentar calar, prometeu voltar ao Porto, para não deixar perder aquela ocasião. Entretanto, Professores de várias universidades ficaram entusiasmadíssimos com o que pretendíamos, no fundo correr com Marcelo Caetano para solucionar África e evitar o pior, lavando a cara do regime. Porém, Franco Nogueira nunca mais nos respondia e chegámos à conclusão que inventava pretexto atrás de pretexto para não tomar atitudes. Até uma presumível doença da mulher foi desculpa para não cumprir o que tinha prometidos aos organizadores. Enfim, a mudança do regime e o problema da Guerra do Ultramar, pelos vistos, eram intocáveis. Nós sentíamos que estávamos a perder o pé e que iria aparecer um qualquer movimento revolucionário, com gente mal preparada, subordinando os interesses nacionais aos apetites internacionais sobre as nossas matérias-primas. Entretanto apareceu, na ribalta, para criar ainda mais problemas, como Secretário de Estado, uma figura estranha e nebulosa, esperta mas mal preparada cultural e politicamente, um Sr. Dr. Silva Pinto que, à partida, nos proibiu de fazemos parte do referido grupo que queria correr com Marcelo. O grupo sempre tinha um milhar de componentes! Perante aquele cenário… Imediatamente pedi a demissão do lugar de subdelegado que ocupava na Delegação do I.N.T.P.do Porto. Apesar das ameaças que sofri, não desisti e pedi mesmo a demissão, por escrito. Vem então o Secretário de Estado fazer-me torpes propostas ao ouvido e por interposta pessoa, comunicando-me que se resolvesse desistir da minha actividade política, para me compensar, nomear-me-iam para o lugar de presidente de uma Caixa ou para o lugar de Governador Civil de Bragança. Como podem calcular fiquei de boca aberta e mais nada quis da gente da situação. Contudo, pergunto a mim próprio: – Quem daria competência a funcionários do Estado de dispor a seu belo prazer de lugares da Comunidade Política?!!! Enfim, somos um país do terceiro mundo. Liderado por tiranetes de pacotilha. Na verdade, inacreditável. Os meus amigos José Luís Nogueira de Brito e Francisco Lucas Pires, nem queriam acreditar no que lhes contei. O Nuno Tavares, um funcionário do Ministério do Trabalho, foi utilizado como intermediário, para me passar recados.
Fora dos quadros de Ministério do Trabalho, por duas vezes em reuniões socias, o Dr. Silva Pinto veio tentar cumprimentar-me e eu virei-lhe olimpicamente as costas, ficando o pomposo membro do governo com a mão estendida perante as pessoas presentes, que estavam mortas que tal acontecesse. O regime marcelista caiu, mas a falta de democraticidade nas nomeações dos lugares, continuaram de vento em popa. Devo acrescentar que o Dr. Silva Pinto mudou-se com armas e bagagens para a nova situação política. Foi deputado do partido socialista. E esta hein? A conversa tem que mudar, pois tal deputado e antigo membro do governo de Marcello já faleceu. Parece que era protegido do inefável Jorge Sampaio.

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