M. Guimarães Rocha (Ed. 701)

Legalengas dum fim-de-semana

 

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Num fim de semana do passado mês de Maio, fui mais uma vez “enganado pelos manda-chuvas”, que previram tempo bom e soalheiro e afinal fez  um tempo engelhado, coberto com manta de nuvens bem escuras, embora com temperatura agradável. Claro que não fui eu o único a ser iludido pela certeza incerta da meteorologia, mas a culpa foi minha, pois não consultei a última previsão. Já lá estava escarrapachado, preto no branco, que o tempo ia mudar e repentinamente, o que obrigou os cientistas a “emendar a mão”, que neste caso, deve ser a mão de São Pedro, pois eles leram bem os seus complicados e sofisticados aparelhos de precisão meteorológica.

Mas agora, vendo as coisas à distância de dias, até foi um fim-de-semana engraçado, direi mesmo proveitoso! Proveitoso para mim e para a minha neta, que o meu filho me endossou no dia anterior “para passar uns dias descansado”. Claro que fiz o papel de pai que quer independência, mas lá no fundo os meus olhos devem ter brilhado de satisfação com a previsão de ter a neta para passear comigo.

Partimos, confiantes de que o tempo poderia começar outra vez a envergonhar-se de só nos brindar com aquele vento raivoso, que transforma uma chuva miudinha desprezível, num aguaceiro desagradável.

O previsível aconteceu, e ficou um dia daqueles, em que o vento é aborrecido, o céu farrusqueiro e triste, em que parece, que só a chuva faltou ao encontro marcado. A temperatura até estava agradável, e quando o vento amainava, apetecia sair para a rua e procurar esperançado o sol, que se escondia atrás das nuvens.

Todos sabemos que a vida tem muito de teatro, ou seja o teatro que tem muito de vida, e como tal, há sempre uma encenaçãozinha, antes do consentimento do gelado ou doutra guloseima, como mandam os velhos preceitos de rigor.

Claro está, que não vos vou maçar com as traquinices duma criança de cinco anos, mas vou atrever-me a contar o que sucedeu com a impertinencia do vento que nos forçou a recolher a casa um pouco antes do tempo, ainda com alguma luminosidade pairando no ar.

Em casa, claro está que as “engenhocas” da actualidade invadiram a minha privacidade. Não precisam de me dizer como essas “engenhocas” são úteis, mesmo no aspecto cultural, principalmente para aqueles em que a memória parece querer “fugir a sete pés”, lembrando constantemente que a idade e o encéfalo nem sempre andam de mãos dadas!

Olho sempre para o progresso com a avidez do pobre, que só tardiamente ascendeu ao merecido bem-estar. Como eu gostaria de ter tido a “Internet” na minha juventude! Para mim, que sou do tempo da TSF a válvulas e do telefone fixo, como enorme progresso, (naquele tempo as mudanças levavam anos, e não semanas como agora), por mais que esteja de braços abertos para a aprendizagem, a mesma parece-me hermética, e ainda por cima de tudo, tenho a certeza que a culpa é só minha. Afinal nasci muito cedo para poder gozar as delícias técnicas e as evoluções mentais que se avizinham! Claro que também vão trazer algumas desgraças…mas estas fazem sempre parte dos “pacotes do progresso”.

Olhando para a minha neta de cinco anos, metida na tecnologia com o espirito de quem a aceita sem se interrogar, como fazem os jovens adolescentes, lembrei-me de como eram os serões quando eu tinha a sua actual idade. Estava orgulhoso porque já tinha a “Electricidade da Central, dos Sebastiões”, mas ainda a TSF que estava a ser parida em fábricas da Alemanha ou Holanda se mostrava medrosa! Os serões já não tinham candeias ou lampiões de petróleo a alumiar, mas ainda eram transmissões de conhecimentos antigos, embora já bem iluminados pela corrente eléctrica, da lâmpada de filamento com 25 V (poupar era preciso!).

Quis a sorte estar em cima dum fim-de-semana “futebolístico,” onde o Benfica e Sporting se iam debater com outros adversários, para conquistar o campeonato e tudo isto debaixo de uma invasão informativa, intolerável para qualquer ser humano, mesmo para quem gosta de futebol, e muito especialmente para uma criança de cinco anos!

Mas ainda bem, pois assim foi relativamente fácil, depois do jantar transporta-la aos serões do “antigamente” que muito a divertiram.

Comecei, com a colaboração da Avó e da Tia-Avó, por lhe falar em velhas Lengalengas, e perante o meu espanto, constatei que a minha neta, aos cinco anos, na sua escola já tinha aprendido algo sobre essas velhas práticas de “serões da aldeia”.

 

Entre as várias lengalengas que à altura era mais usada, pois era feita em roda de uma mesa, com vários participantes, que de mãos espalmadas sobre a mesa aguardavam a ordem de esconder os dedos, terminando quando todos os dedos estivessem “dobrados” escondidos, sob a palma da mão.

“Lengalenga do esconde dedos”

Sola, Sapato, Rei, Rainha

Foi ao mar buscar sardinha

Para o filho do Juiz

Que está preso pelo nariz.

Salta a pulga na balança,

Dá um pulo até á França.

Os cavalos a correr.

As meninas a aprender

Qual será a mais bonita

QUE SE HÁ-DE ESCONDER

(Penso que “Quem Ganhava Puxava a orelha aos outros)

 

A criada lá de cima

Lá vai uma, lá vão duas

Três pombinhas a voar

Uma é minha, Outra é tua,

Outra é de quem na agarrar

A criada lá de cima é feita de papelão

Quando vai fazer a cama

Diz assim para o patrão

Sete e sete são catorze

Com mais sete são vinte e um

Tenho sete namorados

E NÃO GOSTO DE NENHUM

 

dizendo esta:

Nova lengalenga

LAGARTO

Lagarto pintado

Quem te pintou

Foi uma velha

Que por aqui passou.

No tempo da areia.

Fazia poeira.

Puxa lagarto

Por aquela orelha.

 

Recordo ainda esta:

À morte, ninguém  escapa.

Nem o Rei, nem o Papa.

Mas escapo eu.

Compro  uma panela.

Custa-me um vintém

Meto-me dentro dela,

Tapo-me muito bem.

Então a morte passa e diz

Truz, truz. Quem está aí?

Aqui, aqui não está ninguém!

Adeus meus senhores

Passem muito bem!

 

 

E mais algumas lenalengas, que muito me recordam, a saudosa “Maria Sardinheira” (Maria Pelariga Guerra) que mas ensinou, quando eu era pequeno, e que nunca mais esqueci!

Não só lengalengas, mas também “adivinhas e quadras populares”. Aquela mulher era um poço de sabedoria popular, e eu nutria, e nutro, por Ela um saudoso carinho. Recordo ainda esta “pequena lengalenga”

Quatro horas dorme o Santo

Cinco o que não é tanto

Seis o caminhante

Sete o estudante

Oito o preguiçoso

Nove o porco

Mais só o Morto

 

E esta: nove vezes nove, oitenta e um, sete macacos, e tu és um, fora eu que não sou nenhum!

Recordo também esta “quadra”:-“Há duas coisas no mundo//Que não consigo entender//É ser Padre e ir para o Inferno// E ser médico e morrer!”!!! –

E esta advinha: Trabalho noite e dia /// Se me derem que fazer /// Nos dentes quero água///-Na boca “de comer”///—— (Moinho/Azenha) –

Lembra-me sempre a, azenha do Sr. Álvaro da Ponte, quando ainda funcionava como moinho de água, e que é…actualmente propriedade do mestre A. Homem Cardoso)

E também me ensinou a contar até ONZE:

— Um— Peru//Dois— Bois// três–Inglês// Quatro—-Arroz de pato //Cinco—Maria do Brinco //seis—Maria dos Reis //Sete—dá cá o canivete //oito—Toma lá o biscoito //nove—Dá esmola ao pobre // Dez—-Vai lavar os pés–//Onze—Os sinos são de bronze!

Mas mais espantado fico, quando me lembro que na Escola Primária, (o saudoso professor Valente) me ensinou de idêntica maneira, os meses do ano:

Trinta dias têm Novembro, Abril, Junho e Setembro./Com vinte e oito só há um!/ Todos os demais têm trinta e um.

Possivelmente naquele tempo, o “hardware” era bom, na confecção de discos rígidos e eu nunca mais consegui apagar o que lá ficou escrito! Não tudo, porque com o tempo o disco foi apagado, e regravado de novo várias vezes (Problemas de “Bites”). Há muita coisa que já está deteriorada e de difícil leitura.

Mas deixemos as observações computorizadas, e simpaticamente reparemos, como eram gostosas para as crianças, aquelas tardes e noites à lareira, naqueles frios dias da Beira Alta.

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