M. Guimarães da Rocha (Ed. 699)

António Homem Cardoso

 699_AntonioHomemCardoso

Nasceu em Negrelos São Pedro do Sul, distrito de Viseu em 1945, de respeitável família local, e aí viveu alternando o ambiente familiar com a vivência escolar da época, até aos dez anos de idade. O ambiente local do fim da Segunda Grande Guerra, apesar do alívio mundial de tamanho pesadelo, não era famoso. As perspectivas económicas e sociais locais eram tíbias, e ao fenecer dos falsos e rápidos ganhos do volfrâmio, juntava-se agora uma quase aceitação da repressão muda da política geral e local. As pessoas emigravam, como que fugindo a uma realidade que não queriam nem podiam aceitar.

O António, o mais novo de 8 irmãos, aos dez anos de idade, envolvido nesse turbilhão de incertezas, foi para Lisboa, onde conheceu a realidade comercial. Mas a o acaso trouxe-lhe a resposta às suas incertezas e mostrou-lhe o caminho a seguir. Conta que um dia, aos catorze anos, viu as luzes da antiga Praça de Touros de Algés acesas. Movido pela curiosidade e irrequietude juvenil, entrou e ficou debaixo das “luzes da ribalta”, da construção de um filme, onde Eddie Constantine/Barbara Lage eram protagonistas. Era a realidade sob os seus olhos de criança, a arte sobre uma consciência, que se sentiu de repente preenchida sem saber, e que deu asas a uma imaginação e transformou em poder dos seus sonhos.

Eddie Constantine, simpatizou com o seu “Marcelino” (“Marcelino Pão e Vinho” era a “coqueluche” dum filme dum neo-realismo nascente) e na despedida indicou-lhe, talvez sem se aperceber, um caminho a trilhar:-“ofereceu-lhe uma máquina fotográfica!! Uma “Voightlender” que o António guardou como uma  preciosidade de que se tem medo que lhe seja tirada, e se guarda sempre…mesmo entre lençóis, enquanto se adormece.

E a partir de então foi uma viagem dura e difícil, parando o “mundo que os seus olhos viam”, em cada disparo da sua máquina. A vida inexoravelmente dura, conduziu-o á realização artística, não sem antes o obrigar á “via-sacra” de todos os artistas, percorrendo todo o calvário, que o vai levar gostosamente, a uma arte que instintivamente sentia dentro de si, pululando sob os seus olhos.

Começou por um trabalho exaustivo…nas “festas”, nos “casamentos” e “baptizados”, e em todos os eventos a que a sua visão, contacto humano, e experiencia de vida o conduziram. Sempre aprendendo e empreendendo novos voos, com os olhos agarrados a uma lente, que procurou preencher com alma não só na realização do instantâneo, mas também na pesquiza intencional de quem procura desvendar a realidade para além da imagem.

O serviço militar obrigatório reintegrou-o para a “fotografia militar”, reforçou-lhe a intencionalidade e alargou-lhe o conhecimento humano e talvez técnico, dando-lhe imperceptivelmente, e em simultâneo, sentido de organização nas orientações necessárias a uma carreira que se adivinhava já vir a ser brilhante.

Foi um percurso ascendente imparável, caldeado também, numa amizade e conhecimento transmitido directa, ou indirectamente pelo “Mestre AUGUSTO CABRITA” cuja carreira acompanhou e viveu bem de perto.

O fotojornalismo preencheu-lhe parte da vida e caldeou-a de experiencia técnica e humanidade. Sempre profissional, desejado por todos os jornais e revistas deste País e sempre brilhante, de tal forma, que “tenho a impressão que não há jornal ou revista onde não tenha trabalhado!”

As “Grandes Campanhas Políticas Nacionais”, os “Retractos Oficiais de Personalidades Célebres” bem como “Exposições para Multinacionais” em vários locais do mundo, as ”Imagens para a XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura, do Conselho da Europa”, Etc., tudo lhe passou pelas mãos!

Foi director de Fotografia da” Revista Casa e Decoração”, e Fotógrafo principal, de algumas das melhores revistas nacionais, etc.

E o caminho para o futuro era cada vez mais largo, mais sinalizado pela humanização e pela segurança do saber de experiência feito.

Com o seu “bisturi” bem afiado iniciou então a escalpelização da natureza, envolvendo e perscrutando atrás da objectiva, a alma das coisas e das gentes, nas suas vivências diárias, nas suas certezas incertas, nos seus amores e desamores, nos seus sonhos, nas suas vitórias e também, nas suas derrotas. E a arte brotava a cada disparo da sua máquina fotográfica, límpida, tal como água brota naturalmente da montanha. O instante, a emoção associada a apurada técnica, faziam o milagre…“fixavam o instante e paravam o tempo para a eternidade.”

Assim, a passagem para os trabalhos em livros apareceram com naturalidade, como algo que já o estava esperando há muito, como a acme duma vitória sobre um tempo de beleza que a natureza comporta e altera a cada instante.

Recordo-me bem da apresentação de um dos livros, que realizou com o Arquitecto Hélder Carita, e que teve lugar na Real Tapada da Ajuda em Novembro de 1987:-“Tratado da Grandeza dos JARDINS EM PORTUGAL, ou das originalidades e desaires desta arte”, e do sucesso que na época, esta obra representou.

Mas muito mais poderia referir sobre este aspecto, pois actualmente, conta com mais de 30 grandiosas obras, muitas já esgotadas, tendo todas o condão delicioso de nos fazer penetrar no real da arte humana, salientando sempre a beleza da natureza que a todos nos envolve, e a capacidade do homem empreendedor que a engrandece.

Figura de proa na realização destes monumentais livros, sobre os mais variados assuntos, não parou e, felizmente, continuando a emprestar cada vez com mais entusiasmo e real beleza à sua arte na realização dos mesmos.

Ainda há menos de um ano apresentou no Palácio de Paço de Arcos, ( hoje Hotel de Luxo) um outro livro:-PORTUGAL= Wine & Lifestyle – (António Homem Cardoso/Margarida Ramalho) que além de ser um tratado sobre os bons vinhos portugueses, é também um prazer para o olhar e um repousante descanso, numa saborosa leitura, enlevada pela beleza das paisagens e tradicionalismo bem portugueses dos solares e casas tradicionais, que desde há gerações se dedicam á cultura da vinha.

A vida multifacetada dentro da arte fotográfica tem-lhe permitido passear o seu saber artístico pelas grandes montras nacionais e internacionais, com o à vontade de um mestre na Arte.

Contudo, e não obstante ter dedicado toda uma vida à fotografia nas suas múltiplas facetas numa aceitação generalizada da sua arte, manteve inalterada a sua maneira de ser, muito humana, que se manifesta, especialmente, nas manifestações de amizade…amigo do seu amigo, o homem desejado nas reuniões e tertúlias, espalhando nas mesmas o seu bom humor que tão bem o caracteriza. Carreira sólida, prestígio alargado ao  estrangeiro, colaboração no “Der Spiegel”, prémios em número avantajado, e claro um rol de invejas e despeitos, como seria de esperar!

A vida, o estudo e o trabalho, foram as armas de penetração na alma das pessoas…coisa que fixa com seu olhar, capta nos seus instantâneos, e ficam impregnadas pelo seu sentimento e a sua espontânea e feliz perspicácia! Afirma que “o trabalho, não é uma grande virtude”, porque, fotografia, para Ele, nunca foi um trabalho, mas um prazer.

Monárquico convicto, “Fotógrafo da Casa Real Portuguesa”, demonstra sempre, em todos os contactos com D. Duarte Nuno de Bragança, todo o respeito que envolve uma amizade recíproca.

Afirma, jocosamente: “Até ao 25 de Abril vivi num Estado que nunca me deu nada, e depois do 25 de Abril vivo num Estado que me quer tirar tudo.”

…e diz ainda: “ Lisboa, é grande como os braços abertos de um provinciano. A Capital amou-me, tive sorte! Nunca me zanguei com Lisboa, porque Ela nunca me desiludiu.” Saboreei-a e aprendi a amá-la.”

Entende a fotografia como a descoberta do outro, e afirma que sempre lutou contra três fraquezas, “ignorância, pobreza e falta de gosto”. Para Homem Cardoso a “história das pessoas está toda, por inteiro na cara das pessoas”.

“A relação entre a condição humana e os mistérios do Infinito pertence ao domínio do Sagrado”, e a câmara só pode tentar desvendar.”

Humilde por natureza, tem alergia ao “Poder”, odeia a subserviência, não tem partido, não tem Clube, não pertence a qualquer “lobby” e vê na Monarquia o sistema ideal”!

Nunca entrou em nenhum concurso e garante que no “Jet-Set” há pessoas que são “muito melhores do que as pintam”.

Autodefine-se como um “Marginal acima de qualquer suspeita”.

Saiu da Aldeia de Negrelos, aos dez anos de idade, deixando para traz um ambiente, onde as “últimas inovações tinham sido a estrada romana e a luz eléctrica”… para pisar com segurança e admiração de todos, o palco da vida fotográfica do País e Estrangeiro.

Por tal, não posso deixar de o classificar como “UM ARTISTA ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA”.

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