M. Guimarães da Rocha (Ed. 660)

O VOLFRÂMIO

“O Volfrâmio é pedra dura

Que toda a gente procura

Dentro do nosso País,

É uma pedra reluzente

Que tem feito, naturalmente,

Muita gentinha feliz” – (cantiga popular)

Recordo que todo o dia estivera frio, muito frio, com neve a cair em borbotos ocasionais, mas sem se juntar no chão. Eram flocos de neve e chuva miúda que, ao bater na cara, pareciam pequenas areias jogadas com força lá do Céu. Minha Mãe tinha andado de manhã às compras no povoado, com um saco de vime mole de cores garridas, esmaiadas pelo tempo, com a Alice, sempre atrás para ajudar a transportar o que compraram. Eram coisas para comer, que trocavam por uns papéis de racionamento, arranjados não sei onde e que via minha Mãe lá em casa, todos os meses, trocar por outros, com muitas das senhoras da vizinhança.

Pareceu-me sempre as nossas trocas de cromos dos craques da bola, para preencher as cadernetas. Mas aqui era mesmo a sério, reflexo da II Guerra que lá longe se desenrolava e nos chamuscava com a falta de tudo, obrigando as donas de casa a fazer uma ginástica diária na criação de pitéus gastronómicos cingidos ao que a terra dava.

Eu tenho a mais de senhas do pão e troco por senhas de arroz ou massa, ou açúcar e também me davam jeito senhas de sabão, dizia uma vizinha. A senhora pouco precisa, pois já tem batatas feijão, milho, vinho e hortaliça da quinta, por isso pode trocar as suas senhas à vontade, pode até mesmo dá-las que não lhe fazem falta nenhuma. “Cada um sabe de si e só Deus sabe de todos”, dizia a minha mãe com uma voz de compreensão, de quem sabe que aquilo não passava de um desabafo desesperado, debaixo de uma situação incompreensível que guerra longínqua trouxera.

A senhora Micas era mãe do meu amigo Zé e de mais seis irmãos pequenos, e que eu via, por vezes, mal agasalhados, arreganhados de frio, junto à porta de ferro do meu quintalito. Só depois é que descobri que aguardavam ordens da Alice, que fazia logo de manhã a sopa, na panela grande de ferro da minha cozinha, para todos os vizinhos que necessitavam poderem comer.

Na taberna em frente, os homens nos fins da tarde, jogavam às cartas, entre dois quartilhos de vinho tinto, e quem perdia tinha que pagar mais uma rodada.

Trabalhar os campos só os mais velhos pois, para todos os outros, desde que saíam da escola, a mira era o volfrâmio, numa loucura tão grande que até arrastava algumas das raparigas que deviam estar a aprender costura na Dona Fernanda.

As senhoras do “Palácio do Barão” também precisavam de ajudas e, mesmo essas, tinham dificuldades em arranjar pessoas novas para trabalhar por muito tempo. Era a febre do volfrâmio que, tanto nas minas como nas lavarias, como em outros trabalhos do cimo da mina, necessitavam de mulheres. Quanto mais melhor era o que diziam. Todas as mãos eram precisas, dinheiro não faltava, pois cada mão cheia de volfrâmio era um quilo e valia quinhentos escudos, que era mais do dobro que ganhava por mês, uma mulher a trabalhar no campo! Maquinaria, na serra não havia. Era preciso Gente para a transportar para as zonas de separação e limpeza e do minério.

Nunca vira tanta gente nova a chegar, todos os dias, para o “trabalho no volfrâmio”. Lá iam para a serra, mal vestidos, carregando com uma saca de sarapilheira, uma picareta, um sacho grande, ou uma sachola, transportados em camionetas velhas. Chegavam aos vinte e trinta de cada vez, montados naquelas camionetas a “gasogénio”, com um depósito alto do lado esquerdo, largando, nas curvas, fumo e carvão incandescente por todos os lados.

Comiam uma bucha a correr, bebiam um quartilho de vinho e, partiam para a serra, em busca de umas pedras negras pesadas e reluzentes, escondidas nas suas entranhas. Essas pedras eram depois trazidas para a separadora, que ficava a quinhentos metros da minha casa e que fazia um barulho dos diabos. Não sei bem o que se fazia lá dentro e o que sei foi porque vi…quando abriam a porta e eu espreitava.

Umas máquinas, fazendo um barulho ensurdecedor, partiam as pedras enegrecidas e pesadas, transformando tudo quase em areia. Depois essa areia era transportada para outra máquina, tipo cama grande sempre recebendo água na sua parte superior mais elevada e, que em movimentos constantes obrigava toda a areia a dançar na sua superfície, separando a areia mais pesada da mais leve. A mais pesada era o volfrâmio que depois era ensacada em sacos de sarapilheira com cerca de cinquenta quilos cada um, segundo ouvia dizer, pois eu, sozinho, nem movê-los conseguia.

Eram pequenos sacos de sarapilheira muito forte que ficavam encostados à parede, vigiados por um homem com cara de poucos amigos e que não gostava nada que eu estivesse a olhar:-“se não fosses filho de quem és já tinhas apanhado um bofetão. Vai-te embora, vai brincar ou apanhar os pardais”, dizia-me ele, que eu não sabia quem era, mas ele sabia o meu nome!

Quando penso sobre este assunto vejo quase com nitidez o dia em que fui passear, com o meu amigo “Zé Barreto”, levados pelo Sr. Álvaro no seu carro americano enorme (GRAHAM, penso que era a marca)”, para vermos as minas na Serra e as lavarias no vale. Não me recordo bem onde foi e nem quando foi. Recordo que vi minas que me assustaram pois pareceram-me muito estreitas, com pouco mais de um metro e meio de altura e talvez com um metro de largo. Depois, noutro local recordo ver muitas das tais máquinas lavadoras que separavam o volfrâmio. Todos os que trabalhavam estavam molhados e apesar do frio que fazia, ninguém se queixava. Um capataz impunha a ordem no trabalho e alguém, que não me recordo se era polícia, (penso que usava pistola) tentava impedir qualquer desvio de material. Vejo ainda o ar de miséria que pairava no ambiente, onde todos se vestiam andrajosamente. Devo ter feito alguma observação involuntária, pois o Sr. Álvaro, explicou-nos que estas vestimentas eram só de trabalho e que as pessoas não andavam assim vestidas fora do serviço.

Lembro que, na Serra, as minas eram relativamente próximas e que havia uma espécie de abrigo coberto, onde os trabalhadores comiam sentados em bancos corridos feitos de pinho tosco. Devia haver uma cozinha, mas não me recordo de a ter visto, ou provavelmente não fui lá.

Penso ainda que devia ser Primavera, pois estava tudo a florir nos campos e na serra, onde havia um perfume natural a carqueja que era muito agradável.

Recordo que o Sr. Álvaro colocou na minha mão pequena, uma linda pedra, que parecia um aglomerado de cubos (?) negros e reluzentes, bem fixados uns aos outros, dizendo-me:-segura bem, porque é bem pesada. E era mesmo, bonita, muito pesada e fria… eu tive que a segurar com as duas mãos, para não a deixar cair!

É isto que se procura aí na mina e que vale muito dinheiro. Feliz daquele que descobre um bom filão, pois em pouco tempo fica muito rico. O meu amigo (penso que disse Ribeiro, mas não estou certo) teve a sorte de descobrir filões, mesmo na sua quinta. Imagina como ele está agora cheio de dinheiro! E ainda por cima descobriu logo à entrada da primeira mina, após o primeiro tiro, uma “bouçada” de mais de cem quilos de volfrâmio puro! Parece que a casa deles está assente em cima de volfrâmio e se o filão não descer vão ter que deitar a casa abaixo, para o explorar. Não faz mal, pois com aquele volfrâmio todo, podem comprar várias casas iguais ou melhores!

Agora a muitos anos de distância, penso que aquilo foi dito para me impressionar; e eu, criança pequena, fiquei impressionado mesmo de verdade.

Regressámos à Vila, sofrendo os solavancos do caminho de terra batida, depois os efeitos do Macadame, já mais amenos, até pisarmos a estrada nacional em paralelepípedos, que nos levou à Ponte, onde nos esperava o almoço.

Tudo era extraordinário para a população que via a loucura instalar-se na compra desenfreada de tudo que nunca tiveram. Compravam fatos novos, cinzentos, azuis às riscas… feitos por medida, no “Barão”, no Freitas e no Brito, com um lenço branco que caía do bolso pequeno do casaco, envolvendo uma “caneta Parker”, mesmo naqueles que não sabiam ler! A gravata também nunca faltava! A Julinha não tinha mãos a medir para fazer Pão-de-ló que os “afortunados da Volframite” comiam em vez da broa com que usualmente acompanhava as refeições! Diziam que muitos vinham para a rua com bons pijamas que exibiam como fatos de noite! Os homens dos carros de aluguer diziam que já tinham levado muitos ao Porto a passear e que. na grande maioria das vezes, não passavam da Avenida dos Aliados ou da Praça da Batalha. Só os mais ousados tinham coragem para ir almoçar à Brasileira; a maioria das vezes ia e vinham no mesmo dia! A intenção era mesmo que “alguém” os visse andar de carro de aluguer a caminho do Porto! Ir ao Porto era uma ousadia e uma ascensão económico-social notória!

Eu era muito jovem e só me recordo das canetas PARKER e das exuberâncias no café local, onde alguns só bebiam “champanhe “e comiam pão-de-ló. Algumas dessas histórias não devem passar de “estórias populares”, que caracterizaram uma época da nossa vida coletiva e que são a demonstração das misérias de vidas vividas na época.

Claro que todo este movimento financeiro que o volfrâmio impunha, tinha que estar regulado em “concessões”, ancorado em legislação que beneficiava os seus possuidores e que certamente era imposto com vigilância apertada de guardas, dadas as somas envolvidas e os acentuados “melindres políticos” que podiam desencadear. Era um metal indispensável na fabricação de armamento para ambos os lados do conflito, dadas as necessidades prementes que a guerra impunha.

A nossa casa ficava mesmo junto à estrada. Um dia, de manhã cedo, minha Mãe, como de costume, levantou-se e encontrou atrás da porta da rua, que ficava fechada, mas com a chave escondida debaixo da porta, como era habitual, (nessa época ninguém pensava em ladrões), quinze (!) sacos de volfrâmio, sem qualquer indicação. Eram mais de setecentos quilos! Eram cerca de trezentos e cinquenta contos! Era uma fortuna posta em nossa casa sem se saber por quem nem porquê! Minha mãe ficou estupefacta com a ousadia de alguém que não se sabia quem era!

Vira-se para mim e diz:- O tipo que fez isto não é “boa rês”. Se aparece a polícia quem fica encravada sou eu. Este tipo merecia uma lição e eu vou dar-lha. Ai vou,… vou!

Arrastamos penosamente os sacos para a dispensa e a partir daí, tudo nesses dias se passou como se nada tivesse sucedido. Não falas disto a ninguém. Percebes?

Três dias depois, no início da manhã, aparecem dois homens que a minha Mãe conhecia, a reclamar o nosso achado matinal. Minha mãe sabia que eles eram homens de negócios e sérios. Passou-lhes um susto e colocou-os em sentido dizendo que de nada sabia, com ar firme e convicto. Quando mais de uma hora depois, eles estavam já mesmo muito aflitos, admitindo que alguém tinha visto a “marosca”, e naquela mesma noite teriam tirado de lá os sacos. Pensaram inclusive na própria polícia para proveito próprio! Nunca admitiram que a minha Mãe os teria furtado! Quase que se envolveram, pois um deles dizia “eu não te disse para tirarmos a chave?! ”Então, minha mãe levou-os até á dispensa e mostrou-lhes os sacos de volfrâmio.-Vocês não foram corretos, podiam ter-me encravado com isto, mas nunca colocaram a hipótese de ter sido eu que os guardei. Aqui estão os vossos tesouros para levar daqui e já.

Calados, mas felizes, com sorriso de gratidão, levaram tudo em carro aberto tapado com oleado, e ao despedirem-se com todo o sentimento disseram:- Desculpe, foi uma emergência!! Nós sabíamos que éramos perseguidos pelos guardas, sabíamos que a chave está sempre na porta e colocamos cá os sacos com toda a segurança. Nenhum guarda, nem ninguém ia pensar que a Emilinha fazia contrabando de volfrâmio. Eu tinha certeza absoluta que estava com gente muito honesta que os iam guardar até que o “dono” chagasse… DESCULPE mais uma vez. Nunca esqueceremos o que nos fez. Os homens ficaram mesmo agradecidos, e eu aprendi mais uma lição prática de “Vida em Sociedade”.

“Qualquer semelhança com o real é mera coincidencia”

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Redação Gazeta da Beira