O JARDIM DA VILA (continuação)

M. Guimaraes da Rocha

Crónica 26/12/2013 (Ed. 645)
• M. Guimarães da Rocha (mguimaraesrocha@hotmail.com)

“O JARDIM DA VILA” (continuação)

Jardim-02_ed645No número anterior, e falando da rua Camões só acompanhámos parcialmente o casario, recordando alguns habitantes que na época, emolduravam a paisagem humana do jardim. Se continuássemos a nossa viagem pela rua Camões, deparávamo-nos, à direita, com gostosa moradia, protegida por preciosa azulejaria, encimando uma escadaria e enfeitada por palmeiras, onde me diziam que tinha vivido o dentista (Dr. Torres), que nunca conheci.

Á direita, acompanhando o muro do cemitério, encontramos uma rua que faz a união com a rua Serpa Pinto, no seu trajecto desde a Praça da República. Nesta rua, após a casa do Dr. Aluízio, olhando a paisagem, eramos aturdidos por uma maravilhosa imagem, com o rio Sul aos pés do monte, inundando de luz todo o bairro da Ponte. No seu trajecto moderadamente curvo, a rua passava em frente dos “Silvas (e Farrecas)”, que dominavam o negócio local do pescado. Recordo bem o Fernando Silva e o Custódio Silva, bem como das suas filhas, Rosália, casada com o António Cacheta e a Fernanda casada com o Coutinho, que viviam em Leiria. Bem perto, nesta mesma rua conheci e sou amigo da grande família Simões (Margarida, Fernanda. Maria Augusta, Cecília, Fernando, Mário e o Daniel).

Recordo-me com saudade, das conversas tidas com o João Pinheiro, casado com a Margarida e pai do Eng.º João Pinheiro, professor do agrupamento de Escolas de São Pedro do Sul. Muito próximo da estrada ficava a casa do Sr. José Barros, chefe da secretaria do tribunal. Depois, mais acima rodeada de jardins, ficava a recente moradia do Sr. Manuel Borges, funcionário da Caixa Geral de Depósitos, onde vivia com toda a família, da qual recordo a,  D. Gininha esposa do Sr. Gamaliel, que foi minha paciente e de mais um filho e uma filha, cujos nomes fugiram já do meu “disco de memória”  não computorizada. Foi avô do coronel Gamaliel Borges Alves e da D. Maria Virgínia, casada com o Telmo Duarte, já falecido.

Nessa pequena rua que unia o Jardim à rua Serpa Pinto, à direita, tinha acento a oficina do Joaquim Emídio Ferreiro, honesto mestre artesão, que dominava a arte do ferro, duma forma primorosa. Era irmão do “Zézinho do Registo civil”, pai do actual Provedor da Santa Casa da Misericórdia, Sr. José Fernandes. O Emídio Ferreiro, era pai da Olga, do Emídio, do António José e do David de Almeida, artista plástico, conhecido e apreciado no meio cultural do país.

No final da rua construíram a cadeia, onde naturalmente vivia o António “carcereiro” com a esposa e os Filhos Celso, António e Olga. Posteriormente foi implantado um rink de patinagem, logo a seguir à cadeia, onde nos tempos gloriosos do hóquei em patins, assistíamos a boas disputas desportivas, principalmente nos jogos entre o Sampedrense e o T.O.C. (Termas Hóquei Clube), tendo como vedetas principais, o Gui Correia de Paiva, pelo Sampedrense e o Barbosa que defendia galhardamente as cores do T.O.C.

Mas voltemos ao meio da rua de Camões, olhemos para o jardim para comentar as duas fases a que, no meu entender, esteve sujeito. Na primeira fase, isto é, no “reinado do Dr. Poças de Figueiredo”, o jardim era palco de frondosas árvores que no Verão protegiam os passantes da calma inclemente. O arranjo visual, talvez não fosse dos mais convidativos, mas o aconchego herbáceo do perímetro ajardinado, permitia no Verão, agradável e aprazível repouso nos bancos do jardim, durante grande parte do dia.

No reinado camarário do Dr. Sales Loureiro os técnicos propuseram e executaram um novo arranjo no jardim, do qual resultou a construção duma obra limpa e simétrica, de aparente concepção infanto-juvenil, bem aconchegado de flores, mas como um deserto…sem árvores! Conservaram apenas as árvores laterais demarcadoras do espaço que, separava o jardim da rua de Camões. Passou então a estar a Câmara Municipal mais visível impondo-se monumentalmente ao conjunto total do jardim da Vila, mas deixamos de ver sentados no Verão nos bancos durante o dia, abrigados do calor os habitantes locais, por a canícula estival não o permitir. O resultado final talvez tenha sido um benefício para os olhos, mas foi uma agressão para as pessoas.

Recordo o aconchego daquela árvore de grande porte “a Tileira”, que se escapuliu ao serrote guilhotinador dos técnicos da Câmara, e que ficou posteriormente a abrigar do sol a esplanada do “café Tropical”. Protegia com a sua sombra os que se deliciavam com os primeiros sorvetes industriais, feitos no Porto (“NEVEIROS”), ou bebiam uma refrescante cerveja, inundados pelo perfume que a Tília exalava. Penso que até a estátua do poeta Correia de Oliveira beneficiou da protecção dessa esplendorosa árvore.

Na época estas obras foram motivo de acesas críticas em toda a Vila, só francamente superadas pela inimaginável concepção de substituir a célebre casa “Palacete Maria José” por uma visão arquitectónica “caixoteira” pseudomoderna, que passou a albergar o “Palácio da Justiça”. Foi uma agressão tão intensa que, mau grado a imposição de silêncio pela polícia política, a muitas vozes se ouviu criticar a situação.

E assim se perdeu um edifício de traça Suíça, já enquadrado e aceite pela mente de todos, para se ganhar uma construção igual a tantas outras dispersas pelo País. Perdeu-se a história, a originalidade e a beleza, para se ganhar a vulgaridade e mau gosto, sem se perceber o porquê, pois não faltariam locais para colocar o Palácio da Justiça! Fui um sururu que se manteve durante anos em surdina. Derrubou-se uma obra magnífica, embora deslocada geograficamente, que embelezava o local e era um marco histórico a lembrar a todos a terrível doença do fim do século dezanove e mais de metade do século vinte:- A tuberculose pulmonar. Sabia-se que este palacete fora construído sob projecto de arquitecto Suíço, por um brasileiro, filho de Sampedrense, destacado comerciante no Rio de Janeiro, que se tratou e curou deste mal, em estância Helvética. Dos excelentes resultados obtidos com a terapêutica médica e da vivência prolongada na Suíça teria resultado a criação deste belo edifício estrategicamente colocado na urbanística da Vila.

Nunca entendi esta fúria agressiva que levou ao desmoronar do Palacete, ao derrube de belas árvores na transformação do jardim, e outras agressões. Recordo a ponte Romana do caminho para Negrelos, sob a qual tantas vezes brinquei em criança, derrubada sob o pretexto da construção duma estrada, que podia ter passado 3 ou 4 metros ao lado! Nada justificava tal agressão, e é me ainda hoje impossível de compreender como tal foi possível! Nem sequer a ignorância atendendo à preparação científica de quem na época mandava nos destinos da Vila. E tudo isto tendo como base os mesmos “Santos Padroeiros” : – O PROGRESSO e o DESENVOLVIMENTO! Têm sido os “santos “que escondem muita coisa! O pior é que não são santos de pau de amieiro, onde por vezes entra o bicho, que obriga a tratamento de revisão. O falso progresso e desenvolvimento, hibernam, ficam quietos, mudos, aparentemente adormecidos e mortos, até nova oportunidade. Então reaparecem de novo, exibindo exuberância e agressividade aumentadas, que quando sem controlo a tudo levam, conduzindo os povos a situações inexplicáveis, nas quais, no final, o culpado é sempre o outro ou ninguém, e quem paga é sempre o mesmo:- “O POVO”. Mas isso são contas doutro rosário, não é isso?

Ligeiramente mais acima vemos uma preciosa vivenda pintada de branco, que dava continuidade artística ao palacete e ao jardim. Vivia lá, á época a Sra. D. Ermelinda, e hoje é a moradia familiar do Sr. Gastão Carvalhas conhecido comerciante local.

Encerrando o rectângulo do jardim da Vila, chegamos por fim ao Edifício da Câmara Municipal, enxertado em edifício conventual com arquitectura neoclássica, olhando com sobranceria, sentado repousadamente no topo nordeste. Deste edifício e suas vivências falaremos no próximo número.

Nota :-Passei há pouco a correr pelo local, fui policialmente condicionado no trajecto e senti o “camartelo” em funcionamento! Que a supervisão destas novas decisões urbanísticas esteja imbuída, num espírito ecuménico de modernidade, bom senso e bom gosto são os meus desejos.