M. Guimarães da Rocha (Ed. 673)

A ADEGA COOPERATIVA DE LAFÕES

Já vão longe os tempos em que com pouco mais de 15 anos, terminado o 5º ano do Liceu, me vi, sem nada para fazer. Novo de mais, para trabalho burocrático, em organismo oficial, com as possibilidades de continuar os estudos reduzidas, a Viseu ou Lamego, havia que fazer algo no privado. Pela primeira vez experimentei o quão difícil era conseguir um emprego, mesmo tendo como honorários 300$00 por mês (um euro e cinquenta, actualmente)! A Adega, aparentava ser, aos meus olhos de então, uma “Empresa estável”. Trabalhava-se ali de forma recatada, no interior de um edifício do início dos anos cinquenta, de sólida arquitectura, tendo como base mais marcante o granito trabalhado da região e como força, o entusiamo dos trabalhadores.

De entre o pessoal, recordo, em primeiro lugar, o Sr. Custódio de Almeida Rodrigues, a pessoa com quem trabalhei mais directamente, meu amigo, e que muito me apoiou; o sr. Gamaliel, o eng. técnico agrário, especialista em vinhos e o Sr. Rolo, cujo trabalho era importante para o desenrolar de todo o sistema. Do Custódio de Almeida Rodrigues, de quem todos ainda se recordam, destaco, em primeiro lugar a sua amizade e depois os seus conhecimentos de contabilidade e gestão. Saliento, acima de tudo, a sua capacidade. Foi, a meu ver, a pessoa que, no seu tempo, melhor anteviu um possível desenvolvimento comercial e mesmo industrial, da região numa visão de progresso real e sustentado. Na Adega deambulei entre as exigências da tesouraria, ao engarrafamento do vinho, passando pelo apontamento diário dos valores registados pela Estação Meteorológica. Percorri depois outros trajectos, mas não esquecerei as caminhadas diárias entre o bairro da Ponte e a Adega, quatro vezes ao dia.

Após a minha saída, a ADEGA COOPERATIVA DE LAFÔES continuou orgulhosa nas suas funções por mais meio século de vida. Muitos me informaram que as dificuldades económicas e financeiras nos últimos anos se agravaram, sem nunca serem bem definidas as causas reais. Há quem diga que não se profissionalizou a gestão, e que os sócios não deram boa colaboração, e o passivo venceu o activo, como seria de esperar; enfim, o costume! Por fim tudo acabou e, terminou vendida, penso que em hasta pública. Lamento profundamente o sucedido, e o resultado é que, agora que já não há mais à venda VINHO DE LAFÔES da Adega Cooperativa.

Tenho que reconhecer que no mercado actual a mudança, a profissionalização, a adaptação da gestão e o marketing, são fundamentais para validar um produto. Reparem o que aconteceu com os vinhos, primeiro no Alentejo e actualmente em todo País. O progresso é notável, a qualidade ultrapassou o imaginável e os resultados ultrapassaram fronteiras, sendo hoje os vinhos Portugueses, classificados como um produto exemplar e, de orgulho, com excelentes níveis de exportação!

Os vinhos melhoraram, algumas garrafas tomaram formas diversas e, dizem mesmo, que nos “Rosés” somos os primeiros da Europa em exportações mundiais!

Os conteúdos sofreram uma evolução positiva tão rápida, que hoje é apontado como exemplo a seguir. O Marketing funcionou em grande e, de forma racional conquistou mercados nacionais e internacionais até há pouco impensáveis. Comecemos por observar uma marca muito reputada no País, como um vinho de excepção o  “PÊRA MANCA”. Vamos ler e tentar reproduzir o rótulo:- De um lado, lindo desenho de artista, relembrando cena medieval e, do outo esta bela informação:-

-O vinho PÊRA MANCA-Évora, remonta ao século XV, citado nas crónicas quinhentistas. Se exportava largamente nas Esquadras Portuguesas em demanda de terras ultramarinas (ESPANCA) e referidas por D. João ll em 1488 numa carta da Câmara de Évora. No fim do século XIX o vinho Pêra Manca, propriedade de J. Soares, teve grande projecção pela sua valiosa presença em concursos internacionais, tendo obtido um invejável conjunto de prémios (Rosário) salientando-se medalhas de ouro em Bordéus em 1897 e 1898. Este vinho tinto da colheita de 2005, foi elaborado a partir de uvas de casta Aragonez e Trincadeira das vinhas velhas da fundação Eugénio de Almeida. Após criteriosa escolha, as uvas fermentaram durante um período de 45 dias. O vinho obtido estagiou 18 meses em toneis de carvalho francês tendo sido engarrafado em Abril de 2007. Este vinho não foi estabilizado podendo, com o tempo, apresentar um ligeiro depósito, pelo que deverá ser decantado antes de servido. Foram produzidos 24. 000 litros  em garrafas numeradas cabendo a esta o Nº 10.102.

Desta descrição salientam-se três partes, bem marcantes:- a “História”, os “prémios” e finalmente a “Composição” e tratamento, com “18 meses de estágio em toneis de Carvalho Francês”.

Vejamos agora a apresentação de um outro vinho, talvez menos conhecido mas de boa qualidade. Comecemos pelo nome “BRUTALIS” e, vejamos o rótulo:-

BRUTALIS 2010-Cortes-Leiria-Portugal…Vidigal Wine Sd…Product of Potugal

Garrafa com gargalo elegantemente encerrado com lacre vermelho, rótulo bem apresentado, com a seguinte informação:- um mundo onde a tendência imparável é a massificação generalizada dos desejos e dos produtos, é um mundo onde até as novidades nos parecem mais do mesmo, onde o desejo desnorteado pela subtilidade das diferenças, se vê desejando mais desejos numa tautologia maníaca que substitui o produto pela marca, o bom pelo conhecido. Há assim vinhos perfeitamente inseridos neste contexto, macios aveludados, elegantes, bons ou mesmo muito bons, “são mais do mesmo”, são vinhos no plural que se dirigem a todos e a qualquer altura…E depois há o BRUTALIS, que se dirige a todos mas só de vez em quando. O BRUTALIS é um vinho sem ser propriamente deselegante e “superextraído”, se apresenta à primeira vista, como um calmeirão com cabelos no peito que vai directo ao assunto, não se dispersando, no entanto, subtilezas e boas maneiras enquanto lhe bombardeia os sentidos com uma rajada bem polida de exageros. É uma verdadeira mão de ferro  uma luva de veludo; um vinho para aqueles momentos em que estamos fartos de tudo e não queremos mais do mesmo.– Beba-o com moderação acompanhado de pratos substanciais.

Apresenta-se um bom vinho, numa garrafa elegante e aponta-se para a sua  excepcionalidade  através de elaborada fraseologia, que tem a intenção de despertar o interesse aos futuros compradores. Recordemos aquela expressão que se refere na frase: “como um calmeirão com cabelos no peito que vai directo ao assunto, não se dispersando em subtilezas e boas maneiras”!

Há ainda muitas variedades de vinhos cujos rótulos informam, sob a data da colheita, o tempo de estágio em barricas e pormenorizam as castas de uvas, envolvidas na sua fabricação, bem como as suas percentagens, (muitas vezes escrito em Português e Inglês) pelo facto de também serem bem aceites e amplamente vendidos tanto em  Portugal como no Estrangeiro.

Possivelmente por nossa distracção, nunca vimos descritos nos rótulos dos vinhos da nossa Adega Cooperativa, a subtileza histórica, a descrição do tempo de estágio, a percentagem das diversas castas envolvidas na sua fabricação e muito menos a presença da “mão de ferro ou de uma luva de veludo” aquando da sua degustação!

A concepção, a fabricação, a gestão e a comercialização, são capazes de ter sofrido da mesma anquilose promocional e, tudo junto, talvez por falta, durante a sua longa existência, “dum calmeirão com cabelos no peito que fosse directo ao assunto”! Como desconheço, interrogo a minha própria pessoa:- O que se fez pela melhoria do vinho no sentido de acompanhar a evolução de todo o País no sector? Procuraram-se introduzir novas castas, no sentido de melhorar a personalidade no produto final? Melhorou-se o sistema de vinificação? Introduziu-se o sistema de estágio em pipas de carvalho? Possivelmente muitos se estarão a rir com estas “tolas” dúvidas e são capazes de ter razão e talvez saibam todo o trabalho imenso que se fez. Façam o favor de “saltar a terreiro” e explicar tudo sobre situação. Obrigado. Pois há que olhar para o passado e aprender com as suas vitórias e os seus erros. Necessitamos de incentivar muitos especialistas actuais, licenciados no assunto, (enólogos, viticultores, etc.), residam ou não região, a agruparem-se, em projectos, associados a capitalistas e com recursos a Fundos Europeus, para fazer renascer um novo e conceituado néctar.

Talvez seja mesmo necessário o plantio de novas castas e não o “Amaral”, como bandeira, novas vinificações, novo tipo de garrafa, etc.

RECOMEÇAR DE NOVO, COM NOVAS GENTES, BEM PREPARADAS, QUE POR AÌ NÂO FALTAM:- APOIEM-NOS, COMO UMA EMPRESA, POIS (infelizmente) JÁ VIMOS QUE ISSO DE COOPERATIVAS DIFICILMENTE RESULTA.

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Redação Gazeta da Beira