M. Guimarães da Rocha (Ed. 677)

Um conto de cada vez

Amigos velhos e novos (2ª parte)

(continuação do número anterior)

Calejado pela clínica o médico, foi dando a volta á interrogação directa, demonstrando a forma apressada como entendera as suas palavras anteriores, pois a primeira coisa que tinha sido proposta era uma biópsia indispensável a um diagnóstico correcto.

Pegou nos relatórios radiográficos e calmamente releu-lhe a descrição da dúvida bem explícita; pediu-lhe a carta que tinha enviado ao cirurgião, onde colocava como atitude primária a necessidade de um diagnóstico exacto através de biópsia.

O Joaquim, agora mais calmo mas nada descontraído, com a situação e remoendo a sua precipitação interpretativa do relatório radiológico, arranjou forças anímicas para não faltar ao almoço com o Afonso, seu velho amigo. Telefonou-lhe e, o Afonso informou-o que nesse dia o almoço se estendia a outros amigos novos com quem já combinara reunião e repasto:-“não há problema pois são gente nova, culta, e aberta aos problemas. Vais ver que vais ficar encantado com estes meus amigos novos.”

…e assim foi! A refeição foi ganhando o ruido das reuniões de amigos, com expansões de voz na defesa das convicções dos intervenientes. Muita conversa e alegria salpicada de anedotas políticas e outras mais picantes ainda. De vez em quando um tema mais sério vinha à liça e logo ali era morto, com as opiniões diversas de todos os amigos numa alegria quase juvenil de quem aceitava a opinião contrária, com o mesmo à vontade com que emitia a sua. Refeição e conversa prolongada, que continuou no mesmo café envolvendo agora só alguns dos novos amigos e, perdendo outros dos convivas do almoço, que tinham afazeres inadiáveis.

Ainda abatido, com a dúvida que a sua patologia impunha, entranhada sob a pele, sentiu a diferença o á vontade com que se falava de tudo, desde a política ao futebol, emprestando a todas as questões um conhecimento profundo, sempre borrifado por uma frase jocosa, que muitas vezes definia e acabava com o problema em causa. Tudo parecia ser tratado com leveza e descrença graciosa, mais ou menos profunda, de acordo com o valor momentâneo, que era dado á questão em causa.

Longe vão os quesitos limitativos Salazaristas que se impunham, mesmo na conversação de amigos! Como vão longe as atitudes limitativas da prática comunista sob o regímen de Salazar! Pensava o Joaquim. E como estranhava toda esta aberta conversação entre gerações diferentes sem peias nem limitações. Esta geração já não sentiu o peso da polícia política e a dualidade direita ou esquerda, do seu tempo! Portugal tinha evoluído rapidamente difundindo uma democracia e só tinha claudicado na relação económica e financeira! E isso custava-lhe a entender, pois o País estava repleto de excelentes técnicos financeiros respeitados em toda a Europa.

Também não entendia como com tão boa evolução educativa não se perdia o hábito primário da demagogia, imitando o que de pior se faz em França e Espanha ou América do Sul e, que os mais evoluídos, bem como os jornais abertamente denunciavam.

A conversa foi-se dilatando e, sem ninguém se aperceber, o seu problema de saúde saltou para a ser o ponto fulcral da conversação. De imediato um dos amigos novos que por sinal era médico, e trabalhava na área daquela patologia, perguntou-lhe pelos exames. Não os tinha ali mas calmamente, tudo ficou combinado para ser visto e examinado no final da consulta no seu hospital, no dia imediato.

Na semana imediata o Afonso recebeu um telefonema do Joaquim, maravilhado com o jovem médico, que se dispunha até a ir com ele a Paris ao hospital onde tinha trabalhado em prolongado estágio. Iam partir já na próxima segunda-feira com tudo marcado para um diagnóstico final. Mostrava-se estupefacto com toda a disponibilidade do jovem médico. Estou seguro que esta atitude simpática deste jovem amigo se deve muito ao respeito e admiração que ele tem pela tua pessoa. Podes crer Afonso que ele é muito teu amigo e te respeita muito, acredita em mim.

E durante mais de um mês só soube notícias do Joaquim através do jovem colega que o informou que o tumor era benigno, e como tinha direito à segurança social francesa, foi operado de imediato em Paris. Ficou tranquilo com a notícia e nunca mais pensou no caso.

Um dia, quando menos esperava, recebeu num telefonema, transmitindo um alegre convite para um jantar em casa do Joaquim, onde estariam presentes mais outros amigos que eu bem conhecia!

E, na quinta-feira seguinte, no jantar, o Afonso constatou que estavam todos os amigos novos que lhe apresentara naquele almoço realizado à meses, no hotel do costume! Foi uma refeição que começou com o cerimonial próprio da primeira visita do grupo a uma casa estranha, para acabar numa prova de vinhos Portugueses e Franceses, que trouxe ao repasto o encanto do relaxe moderado duma refeição entre novos e velhos amigos.

…e assim o Joaquim passou a integrar os nossos almoços e, também a “resolver de imediato todas as questões mundiais entre duas cervejas ou um copo de vinho tinto, despejando conceitos e certezas que os nossos políticos infelizmente não viam”!

Começou assim a sua reintegração na sociedade portuguesa que tinha deixado há quarenta anos e, que agora apanhava noutro andamento. Todos respeitavam os seus preciosos conhecimentos de economia, finanças e gestão, que tão bem havia aplicado nas diversas empresas onde tinha trabalhado em França. Daí a pouco, indirecta ou directamente, começaram a chover convites para filiação partidária!

Sem saber o que fazer, expôs a situação ao velho amigo Afonso, que sorriu e só lhe disse que há muito que esperava que tal acontecesse.

Que achas que devo fazer? Perguntava ao Afonso, que só lhe dizia que a resolução tinha que ser absolutamente pessoal, pois era político-partidária, e de política ele já estava farto até á raiz dos cabelos! Medita bem sobre a tua vida e recorda como a política te afastou do País e dos amigos, sem qualquer benefício monetário ou intelectual.

Um dia, depois da hora do jantar, o Joaquim telefonou ao Afonso, informando ter sido convidado para fazer uma conferência sobre gestão de empresas no “Club …X”. Que dizes? Devo aceitar?

“Fico muito contente por te terem convidado. Só te posso dizer que eu aceitaria, expondo o meu verdadeiro ponto de vista e aguardando perguntas, que inevitavelmente te vão ser colocadas. Só assim tiras o pulso á situação e vês o teu enquadramento ou não, com esta nova, mas muito velha, “Sociedade”.

Vais sentir, veiculadas pelas interrogações que te vão ser colocadas, porque somos o País mais antigo da Europa, como há raposas em todos os galinheiros, como o dinheiro e o nome se confundem e são a almofada desta gente mais ou menos importante, com quem terás que lidar no futuro.

A conferência sobre os “Novos Métodos de Gestão nas Empresas” foi um sucesso tendo o Joaquim dominado bem as perguntas mais ou menos capciosas que lhe foram sendo colocadas.

“Tinhas razão” disse ao Afonso na primeira vez que o encontrou. Tu que estiveste presente, deves ter visto como eu senti em cada observação a agulha perspicaz de velhos empresários.

Entendi bem tudo e, porque a maioria das questões vinham de gente à muito entrosada nos problemas. Percebo agora bem a intencionalidade das tuas palavras, quando me fizeste notar porque somos o” Pais mais velho da Europa”!

Pouco mais de uma semana depois teve um convite de um empresário, para a gestão financeira duma conhecida empresa portuguesa.

Informou então o Afonso, pelo telefone, de que ia aceitar o cargo, pois estava no seu ambiente e iria certamente ampliar o seu leque de actividade.-“ O que é que tu dizes?”-Nada, pois esse “é o teu poiso”.- Eu sempre nadei noutras águas, como sabes. Agora que começas a perceber toda a engrenagem social e estás no teu mundo, só te desejo felicidades e muito cuidado até sentires bem “as medidas da piscina onde vais nadar”. Aparece quando puderes, às quintas-feiras no sítio do costume e boa sorte.

Passaram-se uns meses, e o Joaquim apareceu de novo ao habitual almoço semanal. Chegou à hora prevista aparentando calma mas, ainda não se tinha sentado e já disparava ao Afonso esta dúvida:-“Não percebo…estando a fábrica tecnicamente falida, o dinheiro flui do Banco sem qualquer problema!” Há algo que me escapa e eu não consigo entender!

Medita bem e, se a situação é essa, só pergunto o que estarão a fazer os gestores para a resolver? Devem estar preocupados, não é verdade? Diz o Afonso.

Não. Não estão…e quando levanto o problema todos me olham com ar espantado! Não entendo o que está a suceder. Sei agora que há relações familiares entre alguns membros do Banco e da Empresa, mas mesmo assim esta atitude é incompreensível.

Viveste muitos anos noutra cultura noutros princípios e não te esqueças do aviso:-Somos um “País Velho”, com todos os “truques na manga” mas, cuidado pois como sabes em saúde e finanças a verdade vem sempre ao de cimo como o azeite na água.

Percebendo bem a mensagem do “velho amigo”, elaborou cuidadoso plano de reestruturação a cinco anos, escalonando atitudes, de forma a recuperar financeiramente a empresa. O Afonso soube posteriormente a relutância com que esta proposta foi recebida, por alguns membros da Administração, mas acabou por ser aceite, pois não havia outra e, começou logo ser implementado.

Os parâmetros gestionários começaram a ser aplicados, quebrando técnicas consuetudinárias bem sedimentadas e, iniciando uma recuperação brilhante, que a todos mobilizou. A Instituição Bancária rejubilou com os resultados do final do ano, pois embora continuassem negativos, começavam já a tomar o caminho da recuperação.

Habituado a reuniões com as Instituições financeiras, o Joaquim estranhou a leveza com que o Banco olhou para os resultados conseguidos! Passados meses, e, não obstante o apoio total da Administração, e os louvores aos novos conceitos implementados, foi surpreendido, de forma inesperada com um inundar de notícias nas primeiras páginas dos jornais em todo o mundo… o banco…o seu banco, foi declarado em “Falência”!!!!

P.S. Qualquer semelhança com o real é pura coincidência.

Ficou abalado, pensou e, na semana seguinte voltou ao médico e perguntou _Quanto tempo tenho de vida, se não for operado? (continua no próximo número)

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Redação Gazeta da Beira