M. Guimarães da Rocha (Ed. 698)

Isabel Silvestre

Isabel Silvestre

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Isabel Silvestre

Homenagem da Câmara Municipal

Conheci a Isabel Silvestre, ainda estudante no Colégio São Tomás de Aquino. Tinha eu acabado de sair com a “primeira fornada daquele Estabelecimento de Ensino”, felizmente mal preparado para encarar a vida real, tacteando pelas “Repartições “, com insucesso assegurado no sector, numa época em que o doutor se sentia Marquês, ou se portava como tal.

Conheci-a entre amigos, companheiros de estudo, muito novos também. Recordo que foi em plena Primavera, pois os muros dos caminhos, já começavam a ficar salpicados por rosas silvestres, chamando a atenção para a flor da urze que começava a atapetar os montes.

Recordo que era uma jovem bela, envergonhada, de olhos lindos, vivos, que pareciam estar sempre a interrogar a vida que os envolvia. Trazia no seu porte a ânsia do conhecimento, a luz do entendimento, numa aura que envolve só aqueles que perscrutam, interrogando o mundo que os envolve. O ar envergonhado acrescentava-lhe a graça, e os perfumes das serras que nos envolviam e completavam o ar autêntico de toda aquela juventude.

Mas a vida, na sua inexorável marcha, foi-nos afastando e quase a perdi de vista. A música do Grupo de Cantares de Manhouce, numa noite de actuação nas Festas do Concelho de São Pedro do Sul, trouxeram-me, pela primeira vez, a inesquecível voz da Isabel Silvestre.

Salpicada pelos sons do vento, moldado pelos embates nas serranias, plena dos perfumes do Verão, a sua voz calou repentinamente todo aquele ruidoso arraial, que em atitude quase mística a escutou, com o fervor de quem se escuta a si mesmo e sente a polifonia como um som das suas entranhas.

Depois foi uma vida de amor a Manhouce, distribuindo o conhecimento, sempre envolto naquele envelope da interrogação, que quase impõem a continuidade na procura do saber, a todos os que, sob a sua batuta frequentaram o primeiro ciclo.

Mas nunca abandonou ou descurou o seu Grupo de Cantares, que à medida que o tempo corria, ia começando a pisar o terreno da Fama.

Cada vez mais cimentados em conhecimentos musicais, refinando o que a natureza lhes tinha aportado, limando algumas das dificuldades, moldando o real, sem permitir que regras rígidas trouxessem a desvirtuação da alma do seu Povo. Alma que era a sua força, a sua beleza, a sua autenticidade.

E a Fama correu com o vento nas asas do pensamento, e já não era só Manhouce, só São Pedro do Sul, só Lafões.

Era solidez, da telúrica essência das coisas terráqueas, onde a beleza duma voz se impôs, com total naturalidade, despertando a emoção e a admiração, em todos que a escutavam.

E naturalmente foi escorregando pelo País, pela Europa, pelo Mundo, distribuindo benesses sonoras, onde muitos talvez não o esperassem.

Às actuações em público juntaram-se os novos meios tecnológicos, a Rádio, os Discos, a T.V., o Cinema, o Youtube, e tudo o mais que o engenho humano irá criar.

A VOZ de Manhouce, de Lafões, passou a ser a Voz da Polifonia da Serra, do Distrito de Viseu, de Portugal e caminha para um reconhecimento Mundial através da Unesco. Assim o espero e desejo e do fundo do meu coração.

Mas a irrequietude mental inconformada, não se consegue suster com facilidade, nas várias vertentes a que o pensamento a conduz, e a Isabel Silvestre metódica e ordeiramente, foi compilando todo o seu presente, para o deixar para o futuro, numa sociedade que caminha a passos largos para o abandono da autenticidade rural.

Concebeu, compilou e produziu um livro de doçaria regional, escrito duma forma tão saborosa, que faz crescer água na boca de quem o lê.

Depois, Isabel Silvestre, compilou um livro que é uma verdadeira obra de arte, um pilar de autenticidade, uma maravilha de construção e confecção:-MEMÓRIA DE UM POVO- (Temas e Debates-Circulo-Leitores)

Metódica e cuidadosamente arrumou as Lengalengas locais (das quais algumas aprendi na minha primeira infância),- Modo de falar (verdadeiro mini dicionário que Aquilino não rejeitaria); – Expressões; – Pragas; – Provérbios; – Advinhas; – Quadras; – Romances; – Histórias do Zé do Gestoso; – Amor (quadras); – Cantar ao Desafio; – Sociedade dos Reis; – Encontros, – Recordações de Isabel Silvestre; – Partituras (cantigas tradicionais).

Não é somente um livro, é um registo exaustivo dum POVO, o testemunho da sua religiosidade, a autenticidade dos seus “falares” e riqueza duma vivência, que já não mais vai voltar.

É verdadeira memória de um “POVO que vê Deus em tudo e tudo em Deus”.

Admito que a Isabel Silvestre nasceu com um dom…o dom duma voz de oiro, e intrinsecamente possui no seu ser, um entendimento profundo e Universal da autenticidade dum POVO.

A justa HOMENAGEM que lhe vai ser prestada, que só peca por tardia, representa uma distinção para todos os Sampedrenses, para todos os Lafonenses, para todos os que nasceram na Serra, e vai certamente ajudar a empurrar a “Polifonia Serrana”, para um reconhecimento da sua valia, e autenticidade pela UNESCO.

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Redação Gazeta da Beira