M. Guimarães da Rocha (Ed. 649)

REGRESSO IMAGINÁRIO

Crónica 27/02/2014 (Ed. 649)
• M. Guimarães da Rocha (mguimaraesrocha@hotmail.com)

DA FONTE DA CERCA À FARMÁCIA DIAS

Continuando o nosso passeio imaginário, vamos indo “ao encontro” dos idos residentes, relembrando as suas casas as suas famílias e as suas vivências…e assim, partindo do cemitério em direcção á “Rua Direita”, encontrávamos à nossa mão direita a via que conduzia á Senhora da Guia e, nada mais a partir daí havia sido construído. Posteriormente o Sr. Serafim Branco, pai do notário local, construiu uma mansão na sua quinta, á esquerda de quem sobe para a Senhora da Guia.

Sei bem que a primeira casa construída naquele local, do lado direito da via, englobando quinta e jardim, foi a casa do Dr. Jaime Gralheiro.

Posteriormente edificaram-se lindas habitações, quase sempre ao longo da primitiva estrada romana da Senhora da Guia. Não consigo entender porque é que se não construiu de raiz, com todas as infra-estruturas necessárias, uma nova via alargada, para acesso fácil não só à Senhora da Guia, mas também a todas as casas que se alcandoraram no trajecto! Deve existir alguma razão que desconheço, para explicar esta lacuna, que pode pôr em risco algumas das habitações com as águas pluviais vindas da serra, e por tal, ser causa de inundações na própria cidade!

Mas deixemos os possíveis problemas desta parte mais moderna do Concelho e regressemos ao passado, visualizando conjuntamente a configuração quási em ampulheta, do “Largo da Cerca” e do “largo de São Sebastião”. No Largo da Cerca destacavam-se além dos edifícios que davam corpo às pensões Coelho e do Zé Caetano, a fonte com o seu grande tanque de cerca de dois metros por três, que facilitava o saciar da sede dos animais de tracção que por ali eram conduzidos a caminho de Santa Cruz ou da estrada da Senhora da Guia. Posteriormente este Largo veio a ser o local principal de vendas, dos comerciantes da Feira Nova.

Esta “feira” foi fruto da concepção criativa do Sr. Dr. Poças de Figueiredo, Presidente da Câmara, nos anos cinquenta. Implementou o comércio local, mas nunca chegou a rivalizar com a Feira Velha da Ponte, que penso ascendia aos tempos de D. Diniz.

Um calcetamento, com empedrado típico das vias rurais portuguesas, unia todo este Largo ao de São Sebastião através de uma zona mais estreita, tendo á esquerda de quem descia, a majestosa escadaria do “Convento” e à direita a “nova” Caixa Geral de Depósitos que exibia orgulhosamente na fachada, um imponente e granítico escudo nacional, símbolo do poder instituído. Aqui vivia o presidente da Caixa, Sr. Vale de Andrade e sua Família, cujos filhos se distinguiram em vários sectores da vida portuguesa. O Dr. Ricardo Vale de Andrade, meu saudoso amigo, que tirou o curso de Farmácia e a licenciatura em Direito, foi conhecido jurista em Lisboa, tendo sido Chefe de Gabinete do Professor Antunes Varela, Ministro da Justiça. O Sr. Coronel Rogério Vale de Andrade, que dirigiu a Brigada de Trânsito da Guarda Nacional Republicana e a Sr. D. Margarida Vale de Andrade (Magâ), professora, minha colega no Colégio.

Entrava-se no Largo de S. Sebastião, que crescia para a esquerda, começando já a ser em- paredado por edificações modernas, enquanto à direita mantinha o primitivo traçado, encimado pela graciosa candura da capela de São Sebastião, protegendo o caminho para as “Moitinhas” que continua a resistir dificilmente ao camartelo da modernidade. O granito ainda era rei naquele largo, com um edifício frontal, exibindo senhorialmente uma bela escadaria de acesso, oposta á entrada principal da capela de São Sebastião. Rememora talvez possível antigo esplendor, que brazão colocado na parede lateral, deixa imaginar. Que família Nobre terá vivido aqui? Não faço ideia…sei que à época, era habitada pela família “Palmilhante”, que dominavam o negócio das carnes em São Pedro do Sul.

Quem se voltasse para traz, para rever o Convento, adivinhava bem a “separação de poderes” que aquela construção exibia, constatando de imediato como a escadaria impõe, o poder da intemporalidade religiosa a toda a edificação.

Ao continuar o passeio fictício, saltou-me a recordação dos meus tempos do Colégio de São Tomás de Aquino, e de um jovem da minha idade, que veio de Manaus para viver em casa de um tio que por aqui morava, logo a seguir à casa senhorial. O tio de nome próprio Joaquim, era mais conhecido pela alcunha do “Grão de Bico”. Falava o francês coloquial, fruto da permanência na primeira guerra Mundial, o que para a época e para um mestre sapateiro era factor de destaque. O jovem, chamava-se Carlos, mas o seu nome de guerra era “Taririca” e por cá ficou uns anos estudando connosco, difundindo a sua alegria e boa disposição, inundando, simultaneamente de arte o futebol, nas “peladinhas” com que os jovens dessa época se divertiam. Penso que muitos na Vila, ainda recordam a sua alegria de viver. Regressou ao Brasil, com o pretexto de ajudar o pai que era proprietário de uma sapataria em Manaus. Com o seu bom humor habitual, justificava a sua ida, dizendo ir “para a aviação”. Para a “aviação”!?…era perguntado com estranheza por todos nós…ao que ele respondia: – Sim, sim, vou aviar sapatos ao balcão, na loja do meu pai!!!

Entrávamos na “Rua Direita” sempre com o mesmo empedrado, o qual centralmente tinha implantado um lajeado granítico com a largura de cerca de sessenta centímetros, indiciador de drenagens ancestrais do povoado.

Como todas as ruas direitas deste País, de direita não tinha nada, e como todas as outras possuía esta designação por nos conduzir directamente à Câmara Municipal. Era estreita, mas com apresentação e dignidade duma rua comercial, que em tempos deve ter sido a via mais importante da Vila. Nos anos cinquenta o comércio na rua ainda era muito visível, pois além de algumas tabernas, bem identificadas pelos ramos de loureiro que exibiam à porta de entrada, tínhamos vários estabelecimentos comerciais, bem conhecidos e bem espaçados ao longo da via.

Recordo quási á entrada da rua o “Zé Celeiro” misto de sapataria e comercio geral, tendo em frente um funileiro, cujo nome não me ocorre e mais abaixo a “chapelaria ”dirigida pelo Sr. Venceslau, carinhosamente conhecido como o ”Chalau”. Do Venceslau, muitos se devem recordar, na medida em que foi o Presidente da Junta de Freguesia de São Pedro do Sul, até há poucos anos. Na verdade, ganhou sempre democraticamente as eleições, tendo sido derrotado pelo MIJA… Movimento Independente dos Jovens Autarcas, recordam-se?!

Quási em frente da chapelaria, num primeiro andar, ao cimo dumas escadas de pedra,existia um fotógrafo, e por baixo, num vão de escada, um técnico relojoeiro, que nunca conheci pessoalmente, mas sei que dominava o ofício na perfeição. Aí começava também uma rua que permitia a abordagem por outro ângulo ao local das Moitinhas.

Continuando a nossa marcha de descida da rua Direita, ao lado esquerdo, fazendo quási esquina com a rua do cinema (a Rua Correia de oliveira), ficava o estabelecimento dos Chãs. Casa multifacetada, onde se encontrava tudo o que era necessário para o lar, bem como material de construção civil, acompanhado por uma enorme simpatia de todos que aí trabalhavam. Pontuava aqui a família Chã e o Madeira, casado com uma das Chãs e que foi futebolista do Sampedrense.

Mesmo no entroncamento com a rua Correia de Oliveira ficava, à direita, a mercearia fina do Sr. António José Bandeira Carvalhas, onde o Sr. Henrique Chaves, pai do General Chaves, respondia solicitamente a todos os pedidos da freguesia da Vila e arredores.

Por cima, no mesmo edifício, no primeiro andar, ficava a “escola primária feminina” onde eu e todos os rapazes do meu tempo, fizemos o exame da terceira e quarta classe.

Quási pegado ficava a alfaiataria Brito, propriedade do Sr. Manuel Brito e do seu filho José Brito, da Ponte, que era uma das mais conhecidas alfaiatarias de São Pedro do Sul, e uma verdadeira “escola de formação profissional”.

Fazendo o gaveto frontal á casa Chãs, no lado esquerdo da rua ficava a pensão Mamouros, propriedade do pai do Sr. António Silva, conhecido comerciante local. Muito próximo ficava a padaria da Fernandinha e do Valentim Chãs, que produzia uma broa divinal! (ainda lhe cheiro o sabor!)

Mais abaixo também do lado esquerdo, ficava a loja do Manuel Quintela, bem afreguesada, fornecendo tudo o que era necessário á confecção de fatos para homem e senhora. Tenho bem presente a sua imagem física de elevada estatura e o seu gosto em falar de negócios, desde os panos ao volfrâmio, assunto que parecia dominar na perfeição.

Uns poucos metros depois ficavam á direita as escadas que davam acesso às Moitinhas . Era neste local que no Verão vinha morar a família Abranches Martins, Conselheiro do Tribunal de Contas. Pessoalmente, tenho gratas recordações do Dr. António Abranches Martins, juiz, com o seu “fraquinho” pelo atletismo e do seu irmão José, que foi Juiz desembargador. Vejo o Dr. José Abranches Martins, ainda jovem, de figura fina, esguia e delicada, conduzindo um Volkswagen, e que embora em velocidade moderada, conseguiu ter um despiste, numa recta, a caminho de Viseu. Outro irmão era o Dr. Manuel Abranches Martins, meu colega, médico obstetra na Maternidade Alfredo da Costa que era um apaixonado fotógrafo, chegando mesmo a dar aulas de fotografia no Instituto de Fotografia. Havia um irmão chamado Jorge, que mal conheci, e que penso que trabalhou em Lisboa na Companhia das Águas.

Nas Moitinhas, vivia o Zé Borges, meu amigo e colega da escola e do colégio. “In illo tempori”, saiu de Lisboa, onde era conhecido funcionário da Reitoria da Faculdade de Letras, para preencher o lugar de Vereador da Câmara Municipal de São Pedro do Sul. Felizmente está de boa saúde e ainda há poucos meses o apanhei em animada conversação no “café de Baixo”. Nesse tempo era um jovem que foi muitas vezes a nossa “salvação musical”, pois as aparelhagens sonoras não eram abundantes e o “Zé era o homem dos sete instrumentos”. Tocava tudo desde a harmónica bocal (gaita de beiços) ao piano!…preenchendo a parte musical dos bailaricos que então organizávamos!

Já quási ao fim da rua, numa loja por debaixo do Palácio do Sr. Marquês, ficava a Farmácia do Sr. Alberto Dias, da Ponte. Aqui trabalhou, como ajudante de Farmácia, um homem bem conhecido dentro do grupo da saúde em São Pedro do Sul: o “ Zé da Farmácia”- Homem delicado, educado, respeitador e sempre disponível para ajudar na solução de todos os problemas de saúde ao seu alcance, não se furtando a qualquer sacrifício fosse qual fosse a hora do dia ou da noite. Foi, no seu tempo um importante “pilar” na saúde local.

Tal como o tempo, a escrita corre em inexorável ritmo jornalístico e estou a chegar ao fim da viagem de regresso ao passado com algumas pinceladas de futuro. Vou regressar à Ponte, pela “Avenida Nova”, bem cuidada, onde eu, por mais que me esforce continuo a ver sempre ao fundo, no local onde está hoje a estátua do São Pedro, o casarão onde nasci! Chegado aqui, terei que parar para meditar. As próximas etapas vão ser difíceis. Preciso da ajuda de todos para conseguir enquadrar a grande revolução que se deu no meu tempo: – a abertura  do COLÉGIO DE SÃO TOMÁS DE AQUINO.

Para conseguir escrever com algum interesse, sobre este tema, vou necessitar da colaboração de todos os meus presumíveis leitores. Por favor, escrevam-me (ou enviem um mail), recordando vossas vivências no Colégio de São Tomás de Aquino.

A todos que têm tido a coragem de me acompanhar nesta viagem o meu MUITO OBRIGADO.

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Redação Gazeta da Beira