O Clube de S. Pedro do Sul

Crónica 24/10/2013 (Ed. 641)
• M. Guimarães da Rocha (mguimaraesrocha@hotmail.com)

O CLUBE DE SÃO PEDRO DO SUL

A orquestra “ABRIL EM PORTUGAL” Penso que era constituída pelos excelentes intérpretes, José Borges da Silva (piano e acordéon), Arménio Silva no Saxofone, O Licínio de Oliveira no contrabaixo, o Dionísio Vila Maior (piano), o Martins (da Adega) na bateria, António Viriato da Ponte na Viola e o António Carvalhais nas matracas

Apressado no meu regresso imaginário a São Pedro dos anos cinquenta, de tal forma estuguei o passo, que passava sem me aperceber sobre um monumento social da época – O CLUBE.

Ficava situado quase no final do passeio que vinha do café Edgard e que terminava em frente ao estabelecimento de fazendas do Sr. António Portelo. Era precisamente aí, antes de entrar na loja, que se encontrava um bonito portão verde de ferro forjado, que dava acesso ao clube de São Pedro. O prédio ainda lá está, não sei se ainda é o local do clube da terra, mas olhando para o edifício, reconheço-o de imediato:- aperaltado, embutido com a sua casaca de preciosa azulejaria azul, que lhe empresta alguma imponência, a que os anos acrescentaram acentuada e descuidada patine. Mas continua a ser uma obra arquitectónica respeitável que faço votos, não venha a ser substituída, por “engenharia caixoteira” tão em voga, sob a batuta de alguns patos bravos.

Ao entrar, ficávamos num patamar de pedra de granito aparelhado, com cerca de dez metros quadrados, desenvolvendo-se ao fundo em preciosa escadaria do mesmo material, que dava acesso ao primeiro andar do edifício. Era uma escadaria que impunha a todo o interior uma dignidade arquitectónica, bem pensada e conseguida.

No andar de cima era o CLUBE com uma ampla sala, onde se realizavam os bailes, tendo ao fundo uma porta que dava acesso ao bar e ao corredor que fazia a ligação á sala de bilhar e á sala de jogos. Um sobrado de madeira de pinho, com um tecto de estuque e as cadeiras colocadas lado a lado adoçadas às paredes brancas, envolvendo algumas mesas com toalhas brancas, alindadas com jarras de flores no seu centro, eram o retracto final da sala de baile, para quem entrava.

Em frente ficavam as belas sacadas de ferro forjado trabalhado, debruçadas sobre o passeio com amplas vistas sobre todo o local.Das lindas sacadas via-se o povo, de trajos descuidados, reveladores duma guerra que há pouco findara, ao lado do burguês nutrido e do fidalgote aperaltado em falsa comunhão vivencial. No mesmo local onde presentemente está hoje o café (Café de Baixo), o Stande de vendas de automóveis “Clemente”, já tinha encerrado e a bomba manual de gasolina colocada mesmo em frente, tinha sido retirada. Foram modernidade que sublinhava as mudanças e evolução nos transportes, contrastando, com o aviso colocado na entrada da Vila: “ É PROIBIDO SEGUIR COM O CARRO A CHIAR” (carros de bois é claro!).

O Clube era o reino do comerciante local, ponte entre o real e o sonhado em ambição moderada pelo profundo conhecimento da sociedade. Era uma espécie de Grémio engajado entre raras reuniões comerciais e sociais, com algumas conferências ocasionais, tudo sob o olhar atento e disfarçado, da classe política e da visão consuetudinária da igreja local. Como entretenimento, jogava-se ao bilhar, as damas, ao xadrez e ao poker de cartas à porta fechada, por vezes com lances de valor elevado, não consentido por lei, que todos fingiam desconhecer.

De vez em quando organizava-se um baile, onde, por ocasiões especiais, actuava uma orquestra! Esta actuação dependia largamente das verbas esperadas pelos seus organizadores. Era uma espécie de vértice elevado de triângulo isósceles social, que “malgré tout” não podia descurar a juventude, mesmo quando confrontado com as concepções sempre adiantadas da mesma. Eram sempre “bailaricos” altamente desejados pelos jovens, com a sua total aderência, que foram sempre um sucesso amplamente comentado por toda a sociedade local, nas semanas imediatas.

Naquele tempo quem comandava o barco da estrutura do clube, eram predominantemente três comerciantes locais o sr. Abel Rocha (mais conhecido por Abel Careca) e o Sr. António Baptista e o sr. José Pereira (mais conhecido por Zé da Borralheira). Cientes da especificidade dos seus postos de comando na organização, colocavam quase sempre algumas dificuldades e emperros, na abordagem inicial à realização dos ditos bailes, em atitude de cuidadores atentos… mas acabavam sempre por ceder ao proposto.

Relembro, pela data e pela emoção a realização, de um desses bailes organizado por mim e pelo Dr. Alcides Pereira. A meu ver foi uma dupla perfeita de principiantes, juntando o meu entusiasmo á capacidade organizativa do Dr. Alcides. Tudo parecia estar previsto… pensávamos nós, com a segurança juvenil de quem ainda, nunca tinha organizado nada.

Tudo a postos para a sua realização, nada havia sido esquecido, nem sequer o ácido bórico que facilitava o deslizar dos bailarinos quando espalhado sobre o sobrado. O baile estava marcado para o dia 31 de Dezembro de 1958 às 9h e 30! A Orquestra era a “ABRIL EM PORTUGAL” Penso que era constituída (se estiver errado os músicos que me perdoem) pelos excelentes intérpretes:-José Borges da Silva (piano e acordéon), Arménio Silva no Saxofone, O Licínio de Oliveira no contrabaixo, o Dionísio Vila Maior (piano), o Martins (da Adega) na bateria, António Viriato da Ponte na Viola e o António Carvalhais nas matracas. Os organizadores, sentados no Bar do Clube, bebiam espectantemente, “água da fonte da rua”, aguardando ansiosos a chegada dos convidados.

Bateram as nove e as dez e ninguém aparecia! Ainda é cedo, dizia eu. Já não é, dizia o Alcides…há sempre alguns que chegam sempre antes da hora. E nesta angustia ocasional de “falta de fregueses” as horas foram passando e…NINGUÉM APARECIA!

Passaram as 10 as 11 e as 11 e meia e nada! Já em desânimo total ouvimos o sino bater a meia-noite… Era o fim. O que teria sucedido?

Cansados de tanto esperar e de congeminar razões para tal insucesso tão inusitado, tentamos apaziguar as angústias numa boa bifana acompanhada duma cerveja. Não havíamos terminado o repasto, quando um ruido, esfuziantemente alegre de pessoas subindo as escadas do Clube nos surpreendeu. Num ápice a sala ficou cheia, plena de contentamento exuberante de todos os bailadores.

Não me recordo de quem deu início ao baile, mas este prolongou-se pela noite dentro, com os “chaperons” sentados nas mesas e cadeiras volta da sala de dança.

Sabíamos, que pela primeira vez em Portugal, o Baile da Passagem de Ano no Casino do Estoril, ia ser transmitido em directo pela Televisão, mas não entramos com este item nas nossas conjunturas e aí é que esteve o problema. Poucos tinham visto ao vivo o espectáculo no Casino do Estoril e podiam finalmente agora constatar, a preto e branco, na T.V. se o que imaginavam estava de acordo com a realidade!

“Ficamos a saber o poder da Televisão,.. antes dos actuais políticos.

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