M. Guimarães da Rocha (Ed. 654)

COMO SE DIVERTIA O POVO NOS ANOS QUARENTA E CINQUENTA DO SÉCULO XX (1)

Crónica 15/05/2014 (Ed. 654)
• M. Guimarães da Rocha (mguimaraesrocha@hotmail.com)

COMO SE DIVERTIA O POVO NOS ANOS QUARENTA E CINQUENTA DO SÉCULO XX (1)

Ed654_RegresImagA diversão entendida como um ato de alegria, espontânea, pré-programada ou não, com maior ou menor exteriorização visível, é difícil de medir em qualquer escala de valor, variando a sua real veracidade com fatores subjetivos, que podem contrariar a objetividade visível nas faces das pessoas. Mas é uma necessidade, assumida por todos os entendidos, que vão da Psicologia à Sociologia, passando pela Política, cujos desfrutáveis exemplos, se podem glosar hoje em qualquer comício eleitoral.

Naquele tempo não havia comícios políticos (vá de retro satanás!!), mas em compensação abundava a desconfiança e a polícia política, apoiada nas forças retrógradas costumeiras. No entanto os políticos não eram estúpidos e sabiam o valor da distração no afagar de um povo. Assim, carregavam algumas diversões de muitas burocracias, que só visava refrear ímpetos mais ousados, dando força a leis controladoras de todas as festas, mesmo as que eram um refúgio anti asfixiante, de que o povo necessitava. As “Gentes“, mesmo as indiferentes ao que se passava, procuravam a diversão, e muitas vezes a cultura que lhes parecia querer ser retirada. Assim nasciam os Orfeões, os grupos de teatro popular e, qualquer pretexto era bom para se organizar um bailarico ou uma “festa local”.

São Pedro do Sul não escapava a esta imagem geral do País e as pessoas organizavam-se e, era vê-los todos, duas ou três vezes por semana, á noite, a irem até ao “cine- teatro” ensaiar no orfeão, ou preparar uma peça de teatro, que os introduzia na arte de representar. Alguns optavam pela cultura musical, e faziam os seus ensaios de música até á meia-noite, alguns dias por semana. Todos estes movimentos obrigavam as pessoas a abrir-se ao mundo, espreitando novos conceitos e apercebendo-se mais ou menos conscientemente da realidade que lhe era escondida.

Vista a esta distância e, com a evolução social que finalmente se desenrolou, podemos encarar todos estes movimentos como políticos e não com naturais desenvolvimentos duma sociedade que progressivamente se libertava dos “atilhos” medievais que a manietavam. Mas foram na realidade movimentos espontâneos, que progressivamente haveriam de conduzir todos, a uma convivência salutar, cuja cegueira e hipoacusia política, retardou e conduziu a uma revolução demasiado tardia.

A Igreja ainda dominava a moral e os costumes, mas as Irmandades definhavam por ausência de objectivos definidos, e, não passando já de uma representação quase teatral, a sua presença nas procissões e enterros. As procissões na Páscoa eram solenes terminando, com a tradicional “visita pascal “domiciliária.

Terminados pelo mês de Maio, os ensaios iniciados no Outono, realizavam-se então os espetáculos:- O programa era sempre sensivelmente o mesmo:- O “Orfeão” de São Pedro, iniciava as suas atuações, sempre com o Hino Nacional, e continuava cantando várias árias de autores nacionais. Seguia-se uma peça de teatro de um ou dois atos. O teatro estava sempre a abarrotar de gente, pois os atores eram pessoas da terra bem conhecidas, e as peças escolhidas eram de um humor ingénuo que a todos agradava.

O povo gostava muito das “operetas“ apresentadas no cine- teatro, com danças e musicas tocadas ao piano pelo maestro Álvaro Duarte, tendo como intervenientes a juventude da Vila. De vez em quando, era apresentada uma peça de teatro, representada por uma companhia profissional de Lisboa, mas era muito, mesmo muito raro!! Só muito tardiamente percebi, porque é que o conteúdo das peças profissionais, era tão vazio de sentido, tal como as peças representadas pelos amadores locais.

Entretanto, tinham-se passado vários meses em ensaios no decorrer dos quais se sedimentavam amizades, de onde por vezes, saltavam namoricos, que acabavam ou não, em casamento.

Com a ameaça do Verão, vinham os Santos Populares e as respectivas festas, que eram de uma ternura angelical encantadora. Saltavam-se fogueiras e faziam-se danças de roda à volta das mesmas. De mãos dadas a cantar em roda, á volta da fogueira, entoavam cantos tradicionais.  A roda parava de rodar, as meninas, dava dois paços em frente e, abanando as saias cantavam: ” Estas e que são as saias!!“recuando logo os dois passos dados; então, avançavam os rapazes dando os mesmos passos à frente e abanando as calças cantavam: “Estas calças é que são!! “, para de seguida recuar, abraçando a companheira e rodarem nos braços um do outro cantando: “são cantadas e bailadas–na noite de São João !! ”.

Havia por vezes uns foguetes, ou umas “bichas de rabiar” e uns “estalinhos pirotécnicos” de São João, só para assustar as meninas, dando oportunidade aos rapazes de as proteger abraçando-as !!

Nas Festas do São Bartolomeu fazia-se um concurso a que chamavam “SALTO AO GALO“, que consistia no seguinte: era colocado um galo dentro de um cesto de vindima, pendurado numa corda bem alta, presa entre a janela da casa da Emilinha e a casa da Miquinhas do Corina, do outro lado da estrada. Os rapazes, pagavam dez tostões, para saltar e tentar bater no cesto com uma vara, para assim ganhar o galo! A dita vara havia sido cortada a tamanhos diferentes, de acordo com a estatura dos concorrentes e, o seu respectivo tamanho era determinado pela distância entre o “cucuruto” da cabeça do concorrente e uma marca feita na parede da casa da Miquinhas! Claro que raramente conseguiam… e, então havia que fazer o cesto ir descendo, descendo… e todos pagando os saltos dados, cujo dinheiro revertia para benefício da Comissão de Festas! E os saltos sucediam-se, até que finalmente alguém, mais ágil, conseguia bater no cesto e ganhar o galo, que era depois cozinhado dando um bom repasto, para todos os concorrentes.

Por vezes, este jogo, também era feito, nos Santos Populares, para gaudio de todos os intervenientes.

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Redação Gazeta da Beira