A PRAÇA DA REPÚBLICA

Crónica 10/10/2013 (eD. 640)

A PRAÇA DA REPÚBLICA

A Praça da República nunca passou de um pequeno largo resultante do cruzamento da Estrada Nacional Nº 16 com a rua Serpa Pinto. Não chega a ser bem uma praça, mas foi batizado com esse nome, possivelmente no calor revolucionário da queda da Monarquia. Tinha instalado assimetricamente um típico posto de controlo de tráfico da Polícia de Viação e Trânsito, cuja construção, praticamente semicircular e muito exígua, era um apoio ocasional para serviço burocrático, pois nem sempre se viam por lá polícias.

Site-DrGuimRocha_PracaRepublica-01Quando lá permaneciam, os guardas deixavam as suas motos HARLEY-DAVIDSON no pequeno jardim que circundava aquele exíguo posto de apoio, o que naquela altura, só por si, impunha respeito a quem passava. Eram umas motocicletas enormes, de cor amarelo acastanhado, com cromados brilhantes, cilindros exuberantemente expostos, muito bonitas, que fariam hoje as delícias dos colecionadores. O lugar era tão pequeno, que foi, depois do 25 de Abril de 74, praticamente preenchido por um busto de reduzidas dimensões, do nosso conterrâneo, poeta António Correia de Oliveira.

A Praça, aconchegada por prédios, tinha a norte a farmácia da Dra. Elvira Coelho, na mesma situação onde se encontra hoje mas agradavelmente modernizada. Próximo ficava a taberna/restaurante o “Ratinho”, tendo ao lado a Pensão Central com o r/c preenchido pela alfaiataria Freitas , a Farmácia do Hospital, do Dr. Alberto Dias e posteriormente a Electrorrádio. A sul, do outro lado da Estrada Nacional, tínhamos a “mercearia do Baptista “, a “loja do Armando Miranda” e, para terminar quase por baixo da varanda do palacete das Sras. “Paulas” (conhecida aristocrática família local), a loja do “Lininho” com todo o seu manancial de panos e linhas.

A praça mantem hoje o mesmo especto físico, com os seus sólidos edifícios, mas deixou de ser o viveiro de tanta gente que a povoava e nela exercia a sua profissão, mastigando a vida em aprendizagem e trabalho constante. Era ali que muitos aprendiam a arte de alfaiate/costureiros, no Freitas e muito perto, na rua Barão de Palme, a arte de ferreiros, no Inocêncio, que do alto do seu metro e noventa (aos meus olhos muito jovens, assim me parecia), orientava e ensinava todos o que com ele trabalhavam. Recordo o ambiente de trabalho com o Freitas, “comandando a Nau”, e os seus empregados, futuros costureiros e costureiras, que avançavam na aprendizagem desde o “alinhavo ao corte”. Lembro a sua equipa de trabalho, sentada em bancos baixos, distribuída como que em “linha de montagem” na execução de fatos tanto para homem como para senhora. Eram seguramente dez pessoas, de ambos os sexos, na sua grande maioria originários da Ponte, dos quais recordo, entre outros, o Gastão da Silva e o Manel “Charuto” , que foi bombeiro e um destacado avançado da equipa de futebol da U.D. Sampedrense.

Vivia também na rua Barão de Palme, um homem alto, bem-apessoado, seguro de si, cujo nome verdadeiro não me ocorre, mas que era por todos conhecido como o “ Ronca”. Já com alguma idade, espírito republicano/carbonário, sentado no Café do Edgard, ouvia com toda a atenção, em atitude de quem tem a ansia constante do conhecimento, as histórias dos estudantes que regressavam de férias. Mas o que eu mais gostava, era ouvi-lo a desfiar as suas recordações! Normalmente, em réplica às histórias dos estudantes veraneantes, pronunciava sempre a frase…”E não se vá sem resposta”….Iniciando então um desfiar de conhecimentos e recordações, que eram uma delícia ouvir e que só lamento não as ter escrito para as contar agora! Uma particularidade da sua vida era a “missão” de dar corda ao relógio da capela de Santo António, que cumpria escrupulosamente antes de se deitar. Tinha um filho, de nome Lenine, que todos conhecíamos por Lino, que dominava a tecnologia das máquinas de projetar do cinema local.

Site-DrGuimRocha_PracaRepublica-02Situava-se também aqui nesta Praça, o Registo Civil, chefiado pelo Dr. Marques Guimarães, que foi simultaneamente também um entusiasta ensaiador do Orfeão de S. Pedro do Sul. Era um homem calmo, bem-educado, com modos senhoriais, procurando tirar partido das vozes de todos, de forma a apresentar no final, com dignidade, um Orfeão “afinadíssimo”.

A propósito de Repartição do Registo Civil, contava-se, uma história, que hoje estou seguro, ser fruto da imaginação popular e, seguramente, narrada em todos os concelhos serranos do País, que vou tentar reproduzir, dada a sua deliciosa ingenuidade.

Naquele tempo, as filhas noivas dos lavradores serranos, levavam um dote no bragal, que era obrigatório registar no Notário. Definidos que foram os bens para o dote, toda a família foi à Vila fazer o seu registo oficial. “Tudo foi pormenorizadamente escrito, com números da matriz às propriedades doadas, bem como todos os outros requisitos obrigatórios. No final, tudo foi lido solenemente, em voz alta, pelo notário, na presença de duas testemunhas, a fim de ser assinado por todos os interessados… os pais da noiva, o futuro marido etc, e, quando a noiva foi chamada para assinar, o notário, dada a sua juventude, formulou ao seu pai esta pergunta:- “A sua filha tem o sinal aberto? (referindo-se, evidentemente, ao registo da sua assinatura no cartório!). Um total silêncio constrangedor inundou a sala notarial. O pai da noiva, verdadeiramente “apanhado” pelo modo como a questão foi colocada, entendeu-a noutro sentido…embatocou, mas ganhando coragem, abeirou-se do notário e disse, desafrontadamente – Saiba vossa Excelência que sim… mas como vê o rapaz vai casar com ela!!”

É uma das “estórias” reveladoras do medieval humor que à época grassava na região.

O Dr. Marques Guimarães, dedicava-se com tal carinho à missão de ensaiador do Orfeão, que até conseguiu que eu fizesse parte do mesmo, mau grado o meu duro ouvido e desastrada vocalização!

A parte inicial da representação da Récita Anual no teatro de São Pedro do Sul, era abrilhantada, infalivelmente, pela actuação do Orfeão.

A segunda parte da récita era quase sempre preenchida por uma peça, dum modo geral, uma comédia em um acto, que era habitualmente ensaiada pelo veterinário Dr. Dionísio.

Acontece que pelos anos 1953/54 (?) em pleno ensaio do teatro, se desencadeou um desaguisado, espécie de “zanga/birra”, entre os participantes na peça, cujos contornos já não recordo…que teve como resultado final a demissão da Direção, e consequentemente de todo o elenco.

E lá se foi em poucas horas, todo o trabalho feito para a récita desse ano!! Só havia uma solução…escrever uma peça nova, preferencialmente “revisteira”, fazendo notar as deficiências mais gritantes da Vila, mas duma forma jocosa e encapotada, de modo a que a censura não levantasse problemas. Não havia tempo para mais nada! Valeu o meu delírio juvenil e a ignorância de quem nunca tinha visto uma “Revista”, para com a colaboração de alguns intervenientes, (dos quais só me vem à memoria o sr. José Fernandes, da Conservatória) escrever a dita peça, que foi “brilhantemente representada “ pelo povo da vila. Vejo com saudade, o meu embaraço e a de os demais participantes, ao entrar no palco, quási todos pela primeira vez. Destaco o arrojo e dificuldades do Sr. João Matias, da Ponte, ao ficar sozinho em palco e a forma brilhante como se desembaraçou do seu papel. É certo que era uma plateia local, plena de familiares e amigos, e tudo correu bem, sendo todos foram muito aplaudidos. Tenho pena, que o improvisado texto, pleno de simplicidade e ingenuidade, se tenha perdido, porque seria um bom espelho dos “dislates” da época.

Por estas bandas morava também o “Velez Ferreira” (das farinhas) alentejano de nascimento, mas Lafonense de coração e conhecida figura local. Era um homem afável, simpático e conhecido gastrónomo e igualmente um assíduo frequentador do café Edgard. Aos fins-de-semana era vê-lo antes do almoço, no Café, partir de automóvel, com amigos, para boas “degustações” nas redondezas.

A Pensão Central era propriedade da Dona Alice e do Sr. Rebelo, tesoureiro das Finanças, e que eu via desde os meus nove anos, ( à época as crianças podiam frequentar todo o tipo de espetáculo), como “cabeça de cartaz” em peças de humor do nosso teatro. Era um homem baixo, bem-disposto, excelente pessoa, que na vida real, esbanjava diariamente um inesquecível senso de humor. Para os que o viam no teatro, mau grado a figura física não se assemelhasse, era o “Vasco Santana “regional”, tal a graciosidade que emprestava às suas figuras teatrais.

Sentia-se em toda a Vila, um respeito medieval burgues, quase medieval, com comandos políticos sub-reptícios e apoio mitigado da hierarquia religiosa. No começo da rua Serpa Pinto, nos limites da Praça,esta situação era bem explícita, dada a diferença de conceitos políticos e sociais, entre vizinhos frontais, dominando uns a técnica farmacêutica e outros o marketing comercial e bancário.

Na verdade, esta Praça da República era, à época, o espelho da vida local e um alfobre de vivências em constante trabalho e evolução.