M. Guimarães da Rocha (Ed. 684)

DIETA COM EMAGRECIMENTO ASSEGURADO

DIETA COM EMAGRECIMENTO ASSEGURADO

Ed684_DietaFui consultar um médico endocrinologista, meu velho amigo, de nomeada na cidade, muito conceituado e admirado, pelos seus conhecimentos, honestidade e sentido de humor.

Esperei pelo fim da consulta e após os abraços de amizade da praxe, sentou-se na cadeira abriu a gaveta da secretária, sacou um artístico cachimbo que atacou com tabaco Holandês e diz-me a sorrir: – É pá não deves fumar está comprovado que faz mal. Não te importas que eu fume? Sei que deixas-te o cachimbo há uns anos. Eu ainda prevarico, mas longe da Filomena.

Como não sei se é pior o tabaco, do que as baforadas dos escapes do gasóleo dos carros, que apanho até chegar a casa. No fim destas horas todas de trabalho, sempre faço umas fumaças que me permitem meditar, rever todo o dia e me descontraem das muitas desgraças que nós estamos sempre a ver.

É um tributo á minha pessoa, mas que me obriga a controle sistemático do meu estado físico. E tu como tens passado? Olhando para ti parece que bem! Diz lá o que te traz aqui ao meu consultório. Espero que não sejam razões clínicas, e tenhas vindo só para um agradável bate papo. Na nossa idade há sempre surpresas, mas tu pareces vender saúde.

Eu pedi-te para vires em último doente, para não termos limitações de tempo e eu possa dispensar a funcionária. Estamos aqui á vontade e ninguém nos incomoda.

– Tens razão, assim estamos á vontade. Gostei muito de te ver e só vim aqui porque tens fugido aos nossos almoços das quintas-feiras. Está descansado que não tenho queixas a não ser as da idade. Como vai a Família? Tudo bem não é verdade? E o teu filho Zé Manel ainda continua na América? Em que hospital está a trabalhar? Continua a vir no Verão visitar-vos, como era costume?

E a conversa lá foi percorrendo a via-sacra que uma velha amizade impõe e a ausência aos almoços/reunião de colegas, obriga, até que alguns minutos depois, surgiram as questões de saúde que neste caso específico eram só uma:-Dieta de emagrecimento.

É pá, maravilha… tu com problemas de dietas! Nem quero acreditar! Já te vi muito mais gordo e nunca viraste a cara a um bom cozido á portuguesa, ou uma boa chouriçada com grelos e bem regada com tinto do Dão. Começo a ficar preocupado…diz lá o que te traz cá… deixa-te de tretas.

-Não tenho queixas, como te disse, e o exames complementares de diagnóstico estão bem , até muito bem, para a minha idade. Passa os olhos por eles, disse eu colocando as análises clínicas, electrocardiograma e os R.X. em cima da secretária.

Observou tudo com cuidado, sorriu e iniciou uma observação clínica cuidadosa, desde o peso à altura, passando pelo perímetro abdominal e torácico, tensão arterial e pulso, sem esquecer a visão e a audição e a cuidadosa auscultação cardiopulmonar.

Como era seu hábito desde há muito, tudo lhe passou pelas mãos em atitude pré determinada obedecendo a organização previamente estabelecida e sistematizada.

Sentou-se de novo á secretária, reviu os exames, sorriu maldosamente, e olhando para o seu velho colega diz-lhe:

– Como sabes há muito que lido com estes problemas de emagrecimento. Muitos interesses, e ondas nebulosas de pendor financeiro, parecem querer apagar a realidade. Levam quase sempre a situações espectaculares positivas ou negativas, com interesses transbordantes que podem atingir o ridículo. Em Medicina, como sabes, cada caso é um caso, mas situações, com a tua, muitas delas carregando já as mais variadas terapêuticas e dietas, são o pão nosso de cada dia. São confusões constantes, pelas mais variadas razões, sociais ou clínicas, muitas vezes assentes numa lógica aparentemente irrefutável, e difundidas em locais especializados de apresentação irrepreensível!

É fundamental o exame clínico de despiste de patologias, coisa quase sempre esquecida, e só então é possível fazer a tal terapêutica assente num plano global, em que a dieta é um factor fundamental mas não único.

Para muitos é só necessário reduzir calorias, embora todos saibam que sendo fundamental, pode não ser suficiente.

Clinicamente não apresentas qualquer patologia, e os exames analíticos, radiológicos e cardiológicos, estão muito bem para a tua idade. Tens dez quilos a mais, e é a tua grande patologia. Como conheço bem o teu sentido de humor, não resisto e vou-te passar a receita numa versalhada anónima, que te vai fazer bem ao corpo e ao espírito, já que me dizes que está a fazer exercício diário bem controlado e vigiado.

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, sorrindo abriu uma gaveta da secretária, e entregou-me uma folha A4 com uma prosa jocosamente rimada, livre, deliciosa, que não resisto a partilhar convosco: –

DIETA

 

Dieta absoluta , zero.

Resulta sempre, vão ver!

E é fácil de fazer,

Mas eu não quero.

Dieta só de ananás

Tanto fez como faz.

Em princípio é boa,

Mas depois só enjoa.

Dieta sem nenhum pão

Digo já não faço. Não!

E não me diga ninguém,

Que há diabetes faz bem!

Dieta só fruta e proteína

O hidrato de carbono falta

Menina não gosta, amofina.

De maçã, só maçã, é uma treta

Faz bem, muito bem á tripa,

E ao princípio até sabe bem.

Depois irrita, enfarta, enerva.

É o “comigo ninguém se meta”!

Mas se uma pessoa emagrece,

Mesmo sem comer mais nada

Que apetece, lá se vai aguentando!

Mas depois, é uma grande maçada.

É dieta rápida, efémera não vale nada.

Dieta líquida, só líquidos. É novidade!

Fácil de engolir, sensação de bem-estar!

Mas estás sempre, sempre a urinar!

A MELHOR DIETA,  NA VERDADE

É comer de tudo e muita moderação.

De tudo, mas com pouco pão!

Mais vezes ao dia; só a petiscar.

E comer sempre muito devagar.

As outras são sempre um canudo!

E às vezes com coisas complicadas,

Muito chá, sementes de chia, gogi,

Maca, linhaça e outras coisas danadas

Que a gente com medo até foge!

Comida quer-se saborosa, bem-feita.

Todo o resto é fuga para ver e entreter,

E que sempre só à fome nos remete…,

Quando não é para a… retrete…!

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Redação Gazeta da Beira