A perversa Natureza
05/10/2015 (Ed. 684)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*
Enquanto petiscava uns apetitosos tremoços, lembrei-me de uma notícia que nos enche de orgulho (a nós portugueses, que se o leitor é espanhol não é consigo) sobre um fungicida extraído do “marisco do Eusébio” que está a ser um sucesso nas Américas e que foi inventado e patenteado por uma equipa portuguesa do Instituto Superior de Agronomia. A Natureza é realmente sábia e ainda temos muito a aprender com ela. Sabia que por exemplo o gostinho da mostarda não é mais do que devido a um inseticida natural produzido pela família das couves (brássicas), para se protegerem dos insetos?
Pois é, da próxima vez que lambuzar a sua salsicha com mostarda, o seu suchi de 5€ com wasabi, ou para os acostumados aos hábitos ingleses, carne assada com molho de rábano, deve aquele gostinho às lagartas. O resultado de milhares de anos de parasitismo e fugas para sobreviver levaram a que há perto de 90 milhões de anos as couves e afins (nabos, rabanetes, rábanos) elaborassem defesas para as impedir de serem devoradas por insetos. Produziram assim os glucosinolatos detestados pela maioria dos insetos, adorados pelos “hot dog lover’s”. Estes glucosinolatos também são responsáveis pelo “adorável” cheiro das couves cozidas que ficam no frigorífico…Claro que hoje em dia as nossas couves aparecem bichadas, mas isto porque as lagartas também evoluíram desenvolvendo proteínas capazes de as proteger desses glucosinolatos. Destas sucessivas evoluções resultaram sempre novas espécies de couves, novas espécies e lagartas-da-couve e claro, novos sabores picantes e acres de mostarda. Uma vez que a mostarda não foi feita para nós, creio que aqui seremos os parasitas…
A sabedoria da Mãe Natureza na produção de pesticidas não para de me surpreender. Recentemente foi noticiado na Alemanha a morte de um homem por almoçar abóbora! Não! Não foi assassinado pelo mau gosto. De facto o indivíduo e a sua legítima receberam uma oferta de abobrinhas da parte de um amigo, aplicado produtor em modo biológico, daqueles que produzem o seu próprio composto, não usam pesticidas e tentam fazer tudo de acordo com as leis da Mãe Natureza. Efetivamente até as sementes ele tinha evitado comprar, tendo usado as que tinha recolhido no ano anterior.
Os amigos sentiram um gosto amargo no vegetal. A mulher desistiu de comer ao fim de umas garfadas, mas o marido, mais convicto do seu vegetarianismo e partindo do princípio detox, tão em voga, de que o que amarga limpa, comeu tudo. Ambos foram parar ao hospital, intoxicados por um inseticida natural- a cucurbitacina. A mulher sobreviveu, o homem não.
O inseticida em questão, designado por cucurbitacina, está envolvido no desenvolvimento e reprodução de muitos insetos, impedindo eficazmente as lagartas de crescerem e de se tornarem em insetos adultos. Este composto é produzido por plantas selvagens próximas, tais como abóboras, melões, squash, cabaças e outros, com o objetivo de afastar ou matar pragas. Iniciativas de melhoramento vegetal produziram cultivares a que falta a capacidade de se proteger através dessa toxina – um processo completamente não natural, de que resulta comida favorável para a saúde humana, mas plantas vulneráveis aos seus inimigos!
Infelizmente, as plantas podem, por vezes, inverter a mutação que as torna sem defesa (apenas um gene parece ser responsável por interromper a produção de toxina, sendo também possível que a polinização cruzada de parentes silvestres ou abóboras ornamentais – que não sejam comestíveis – leve à reintrodução do gene em questão). Também sabemos que a produção da toxina pode ser induzida ou aumentada por estresse, forçando a planta a produzir mais toxina na sua luta pela sobrevivência.
No caso deste verão, o jardineiro não tinha conhecimento de que a natureza tinha capacitado as suas plantas para produzir uma quantidade eficaz de substâncias naturais para se protegerem contra os inimigos. O gosto amargo devia ter alertado os gulosos. Às vezes o que é são não é saudável…
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