Agricultura (Ed. 676)

Os ácaros

16/04/2015 (Ed. 674)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

Os ácaros

674_agriculturaOlha o bicho, pisa-o! É comentário recorrente nas nossas casas, aplicado a tudo o que seja alheio ao lar e se mova pelos cantos. Nesta categoria incluem-se todos os “insetos”: bichos-de-conta, centopeias maiores e menores, baratas (brrr!), e aranhas. Mas hoje, que pretendo falar de ácaros que são aranhas, desclassifico-os a insetos!? As aranhas e dentro delas os ácaros não são insetos mas sim aracnídeos. Na quarta-classe antiga (aquela dos afluentes, subafluentes e estações e apeadeiros de aquém e além mar) o mestre dizia que os insetos eram invertebrados com exosqueleto quitinoso, corpo dividido em três segmentos, três pares de patas articuladas, olhos compostos e duas antenas, enquanto que os aracnídeos tinham como características básicas 4 pares de patas articuladas, corpo dividido em cefalotórax e abdómen, não possuindo antenas e possuindo um par de quelíceras e um par de pedipalpos. Se o meu leitor ainda é desses tempos, talvez, entre as muitas palmatoadas, consiga rememorar essa lição de zoologia. Mas isso são contas de outro rosário, voltemos aos ácaros. Estão por todo o lado: no pó, nas camas, no chão, na roupa e nas plantas, particularmente nas nossas fruteiras. Destes destaco o aranhiço vermelho que causa enormes problemas nos pomares de macieira e pereira. O aranhiço-vermelho coloca ovos avermelhados (parece a história do elefante cor de rosa) no inverno nas reentrâncias dos ramos, saindo destes, por esta altura, as primeiras gerações anuais: minúsculas larvas avermelhadas (0,3mm), de forma globosa, com apenas três pares de patas (o quarto par vem depois). Estas larvas evoluem (se não forem comidas) para ninfas estas já com quatro pares de patas (o custo em sapatos!) que por sua vez, seguindo a mesma lógica evoluirão para adultos. Estes dividem-se em machos e fêmeas, tendo crescido até à incrível dimensão de 0,8 mm e ganho cor, sendo agora vermelhos (é só cor).

Após a eclosão, as larvas deslocam-se para as folhas tenrinhas, começando de imediato a sugar-lhes a seiva. Como se deslocam devagar, na Primavera preferem as folhas da parte de baixo da árvore, subindo no Verão para o meio. Se tivermos bons olhos, durante o verão, veremos os ácaros nas folhas muito infestadas, juntamente com ovos e excrementos, aqueles, depositados na página inferior das folhas, junto das nervuras e em caso de forte infestação também na parte superior das folhas. Cada fêmea deposita por ano dezenas de ovos. Em Portugal, estima-se que ocorram entre seis a dez gerações por ano, dependendo das regiões e das condições de temperatura e humidade.

Os principais estragos provocados por esta praga resultam de se alimentarem sugando as células superficiais das folhas, tornando-as baças e dificultando assim a fotossíntese. No início, as folhas atacadas adquirem um aspeto prateado, que evolui no final para um tom bronzeado. Naturalmente, a árvore, em pleno esforço de produção, enfraquece, perde folhas e consequentemente produção, podendo entrar em colapso. Em casos de forte infestação, os frutos também serão atacados e embora de uma forma superficial, o seu aspeto torna-os menos apelativos e dificilmente comercializáveis. Resta-me ainda acrescentar que o problema dos ácaros o é na maioria das vezes, devido ao excesso de curas que, diminuindo os seus predadores naturais, permite, às suas populações, crescerem para além do tolerável.

Para saber se deve tratar da saúde ao aranhiço, com rigor, nesta altura, deve observar 100 folhas, ao acaso, da parte de dentro dos ramos e se metade tiver aranhiços deve pensar em tratar (após a floração! Olhe os polinizadores!), mais para a frente em meados de junho, observe 100 folhas mas já do meio dos ramos e se mais de metade das folhas tiverem o bicho, volte a pensar no assunto. A partir de agosto olhe para as pontas dos ramos e se nas 100 tiver cinquenta ocupadas (para as variedades tardias) é porque os tratamentos anteriores lhe correram mal, sendo necessário renová-los. Há produtos adequados para todas as fases de desenvolvimento do bicho. Se receber os Avisos Agrícolas lá estarão essas indicações na devida altura, mais não digo. A minha boca é só para quem assina os Avisos Agrícolas.

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Redação Gazeta da Beira