Agricultura (Ed. 646)

O míldio ou águado dos citrinos

16/01/2014 (Ed. 646)
Texto e fotos de
• Jorge Sofia*

646_p32_milidio-CitrinosOs citrinos começam agora a tentar-nos. As árvores encontram-se carregadas de bolinhas cor de laranja, mas como não estão doces, vamos ao supermercado e desforramo-nos. Como de costume na pressa trouxemos algumas peças um pouco mais moles na casca, algumas já com a casca tão mole que o dedo entra por elas adentro e até olhando bem com a casca coberta de um bolor branco-o míldio-responsável pelo águado dos citrinos. Quando as cheiramos sentimos um cheiro adocicado característico.  Se as condições húmidas se mantiverem  bolores verdes começarão a recobrir esses frutos, mas se o tempo se tornar seco, a casca dos frutos manter-se-á firme,  ressequida, não apodrecendo e tornando-se castanha.

Míldio é uma palavra de origem inglesa que designa bolores em geral. Em português a designação foi adoptada para todas as doenças vegetais que tenham manifestação de bolores de cor branca, sendo essa porção visível um fungo do género Phytophthora . Há imensos míldios – o da batata, o da vinha e agora o dos citrinos  Esta doença ocorre preferencialmente em frutos, ocasionalmente em folhas, no tronco e na parte superior das raízes principais, provocando elevados prejuízos nos pomares. Os seus ataques ocorrem preferencialmente no Outono e Inverno, porque  o fungo necessita  de períodos húmidos e frios e de chuvas abundantes para se desenvolver.

As espécies de Phytophthora estão presentes na maioria dos pomares de citrinos, podendo sobreviver a condições adversas no solo. Entre os factores que favorecem o desenvolvimento da doença constam o tipo de solo (por exemplo, os solos argilosos favorecem mais a doença do que os arenosos) ou solos com drenagem deficiente, a susceptibilidade do hospedeiro vegetal (por exemplo, a laranjeira é mais susceptível do que o limoeiro e a tangerineira), condução das plantas em compassos apertados, com pouco arejamento e ramos em contacto com o solo, plantações incorrectas (muito fundas) e as condições meteorológicas (chuvas persistentes e temperaturas da ordem dos 18-20 °C).

Há várias estratégias de luta contra esta doença baseando-se a protecção dos citrinos  em medidas culturais e químicas. Entre as primeiras recomenda-se a drenagem do solo para evitar excesso de água acumulada; a poda para facilitar a circulação do ar evitando deixar ramos demasiado próximos do solo; enterrar frutos caídos longe do pomar; evitar adubações azotadas em excesso.

Para a estratégia química podemos recorrer à aplicação de produtos à base de cobre  (Calda bordalesa, oxicloreto de cobre ou hidróxido de cobre), iniciando os tratamentos no Outono quando se verificar o abaixamento da temperatura e surgirem as primeiras chuvas fortes. O tratamento deverá ser repetido  a intervalos de 3 a 4 semanas, enquanto o tempo decorrer frio e húmido. Normalmente 3 aplicações são suficientes: a 1ªem meados de Novembro, a segunda em fins de Dezembro e a terceira em princípios de Fevereiro. A opção por hidróxido de cobre é preferível nas zonas onde ocorre geada porque este produto pode proteger de geadas fracas.