Agricultura (Ed. 662)

E agora?

16/10/2014 (Ed. 662)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

E agora?

Ed662_Desinfecção-de-cortesEntrámos no outono. Comemos os últimos figos, provámos as romãs, já vemos castanhas à venda e miramos os dióspiros na esperança de detetar um ou outro mais vermelho para nos matar os desejos. Parece que a paz se instalou na terra e que podemos agora parar para ver o que se passa. Mas depois de alguma acalmia, o “bicho-carpinteiro” que há em nós começa a “cocegar” inquieto, martirizando-nos o espírito e dizendo-nos que é hora de começar a estimar as árvores para o novo ano que se adivinha. Ainda não é tempo de podas, que convém que a planta sugue a vida que está ainda nas folhas e adormeça por completo. Também é de notar que podas com tempo húmido só favorecem as muitas moléstias que por aí andam e por consequência a minha profissão.

Não havendo motivos para podar ainda, o que é que podemos fazer agora? Remover plantas que morreram durante o ciclo vegetativo para impedir que os seus males alastrem às demais. Como dizem que dizia o Sebastião José de Carvalho e Melo: “(…) enterrem-se os mortos e cuide-se dos vivos(…)”. E às plantas vivas, o que devemos fazer? É altura de as começarmos a proteger dos inúmeros problemas, nomeadamente fungos, que as afetaram durante o ano passado. Normalmente recomendamos duas épocas de tratamentos preventivos nas árvores de folha caduca: um ao início da queda da folha e outro a meio da queda da folha. O produto a aplicar deve conter na sua formulação cobre e o objetivo destes tratamentos será a proteção das feridas resultantes da queda da folha, das feridas existentes no tronco e o controlo progressivo dos fungos depositados no tronco. O cobre nas suas diversas formulações (sulfato, hidróxido, oxicloreto, etc…) inibe o desenvolvimento dos esporos dos fungos. Daqui se depreende que este tratamento deva ser posicionado de forma preventiva quando se aproximam condições favoráveis ao desenvolvimento dos fungos, que serão a existência de água ou de forte humidade. Dentre os produtos que mais aceitação têm para estes tratamentos encontra-se a “Calda Bordalesa”. Esta mezinha pode ser adquirida já preparada em lojas de produtos fitofarmacêuticos, ou caso o meu amigo seja um purista, pode ser preparada em casa do seguinte modo: Em recipiente não metálico, desejando-se fazer 1 litro de calda a 1% vamos precisar de 10g de sulfato de cobre em pó, 10g de cal virgem e 1 litro de água à temperatura ambiente. Coloque o sulfato de cobre num saco de pano poroso e mergulhe-o em meio litro de água por 24 horas para a completa dissolução dos cristais. Vinte e quatro horas representam um tempo seguro de diluição para a maioria das condições; Entretanto noutro recipiente misture a cal com pequenas quantidades de água. À medida que a cal ferve junte o resto da água até perfazer meio litro; No final, num terceiro recipiente junta-se, aos poucos, o leite de cal à solução de sulfato de cobre mexendo energicamente com um utensílio não metálico. Neste ponto a mistura deveria estar neutra ou, de preferência, levemente alcalina para evitar a fitotoxicidade provocada pelo sulfato de cobre. Certificamo-nos medindo o pH (acidez) da calda, com papel indicador ou outro meio indicativo. Pode-se utilizar um objeto metálico, como uma faca de aço: mergulha-se a faca por 2 ou 3 minutos na calda. Se a faca escurecer, isto indica acidez excessiva, pelo que será necessário elevar o pH, adicionando-se mais leite de cal à calda. Assim que a calda estiver neutra ou levemente alcalina, encontra-se pronta a usar, devendo ser aplicada de imediato. Recomenda-se o uso com cautela, evitando abusos nas quantidades. Na realidade cada espécie de planta apresenta uma sensibilidade e necessidade específica de concentração desse preparado. Contudo, regra geral, a fórmula acima é indicada para a maioria das plantas adultas ou em fase de repouso vegetativo. Se quiser utilizar esta calda em plantas jovens ou com folhas tenras é aconselhável diluir para metade o preparado. Ou seja a mesma quantidade de sulfato e cal mas para dois litros de água.

Fazendo uso de um pulverizador, ministra-se o produto em dia ensolarado, borrifando a planta completamente, tanto por dentro como por fora. Para não entupir os bicos deve coar com um pano a calda. Esta tende a oxidar, por isso deve ser aplicada nas 24 horas seguintes. Tenha em consideração que o efeito deste produto rondará os dez dias com tempo seco. Se chover mais de 30 litros, o produto será arrastado e terá de renovar o tratamento.

Recomenda-se também que assim que as plantas entrem em repouso se limpem com uma navalha as feridas abertas no tronco, pincelando-as depois com uma pasta cúprica (calda bordalesa mais espessa ou uma diluição de um produto cúprico em pouca água até alcançar uma consistência de tinta ou pomada). Esta mesma pasta poderá ser utilizada durante a poda para desinfetar os grandes cortes, evitando assim a entrada de doenças.

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico

jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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