Agricultura (Ed. 653)

Paletes de problemas…

• Jorge Sofia
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Cartaz italiano de divulgação de uma praga transportada por paletes

Tenho aqui escrito sobre pragas e doenças. Tenho referido quais os hospedeiros dessas pragas ou doenças, dando a entender que as mais das vezes o problema reside em organismos vivos artificialmente introduzidos pela mão humana nas suas andanças por este mundo. Mas nem sempre esse é o caso! Não senhor! Às vezes na origem do problema está outra variável que por ser tão inerte, tão comum., enfim, tão mosquinha morta, ninguém dá por ela: a denominada palete. Este nome designa aquela base em madeira constituída por dois estrados de tábuas separados por cubos de madeira que suporta todas as cargas em trânsito pelo mundo. Não é assim? Então como é que o meu querido leitor esvazia um contentor marítimo, ou como é que descarrega um camião TIR? À unha? Os estivadores hoje em dia operam máquinas – empilhadores, guindastes e outras traquitanas “fixes” – já não “alombam” com sacos sobre uma tábua entre os porões do barco e o porto. As cargas vêm em contentores, sendo depois divididas pelos seus destinos. Mas para efetuar todo este trabalho de uma forma humana, simples e eficaz usa-se um empilhador que coloca os seus braços nos encaixes da palete e a coloca onde necessário.

Mas porque é que um fulano dedicado à agricultura nos vem falar de paletes? Porque elas não são materiais inertes!

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Marca de uma palete tratada

São feitas de madeira, que é um material vegetal vivo e que já foi uma árvore, ou seja corre-se o risco de a palete acartar consigo ou dentro de si pragas ou doenças da árvore de onde foi retirada (fungos, insetos minadores de madeira, nematodes). Isto é pragas da China, da Tailândia ou da Rússia, por exemplo, podem muito comodamente chegar a Portugal ou vice-versa encontrando um ecossistema que as desconhece e onde consequentemente não terão inimigos naturais que as controlem, podendo portanto expandir-se à vontade. As paletes tornam-se tão mais perigosas quanto o muito que são reaproveitadas e consertadas. É natural uma carga de pimentos da Jordânia ser empacotada em Espanha, transportado numa palete finlandesa, que já foi remendada na polónia e no Vietname, e em Espanha, depois de embalada seguir para os destinos em paletes de outras origens. Enfim fartam-se de viajar e de transportar…,eu já vi coisa parecida. E se numa destas viagens a palete acolher um qualquer fungo ou praga? E a coisa ainda é pior quando a palete carrega bens não orgânicos, não sendo portanto sujeita a inspeção fitossanitária! Foi assim que entrou no nosso país o nematode-do-pinheiro, verme que põe em causa a sobrevivência de uma das nossas principais riquezas –o pinheiro silvestre. Foi também assim que insetos que se alimentam de madeira vieram do extremo oriente até ao leste e centro da Europa, destruindo todo o tipo de árvores. Com esta destruição veio o acréscimo de custos na luta e proteção das florestas.

Se a palete é assim tão má, porque não mudar de material? Porque a madeira é mais barata, suporta melhor as cargas e porque as paletes de madeira podem ser reparadas substituindo algumas tábuas.

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A simpática palete

Se não as podemos largar, então como podemos continuar a viver com elas? Através do seu tratamento, aquando da manufatura ou reparação, a altas temperaturas que garantam a destruição de todos os parasitas que possam transportar. Este tratamento é verificado pelos inspetores fitossanitários dos Estados Membros, através da verificação de marcas específicas apostas nas paletes – ditas o selo – que dizem qual o país de origem, o tipo de tratamento, data do mesmo e quem o fez. Se as paletes não obedecerem a estas regras paletes e respetivas cargas correm o risco de não serem autorizadas a circular dentro da Comunidade Europeia. Se forem detetadas paletes com selos, mas com organismos nocivos que indiquem que o tratamento não foi feito, ou que não foi eficaz, o produtor das paletes será sancionado, podendo-se mesmo chegar ao ponto de o impedir de produzir. Dá que pensar! Paletes de pensamentos.

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico

jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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Redação Gazeta da Beira