Agricultura (Ed. 663)

Antracnose do castanheiro

30/10/2014 (Ed. 663)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

Antracnose do castanheiro

Ed662_DSC06376Anda por aí grande alarido sobre a moléstia que se abateu sobre os nossos pacíficos gigantes – os castanheiros. É vê-los com a folhagem a secar e um aspeto sorumbático, parafraseando o outro “ (…) de milhafre ferido na asa”. Arrepelam-se os cabelos! Já não chegavam as moléstias que este rapaz aqui descreveu – tinta, cancro, balanino, bichado e vespa – ainda nos arrima com mais uma! Está tudo perdido, onde é que isto vai parar. Só falta mesmo o comentário: “desde que os americanos foram à Lua que isto não pega jeito”.

Chega de ais! Realmente os castanheiros estão feios, as folhas repletas de manchas pequenas de cor escura com uma envoltura amarela. Em muitos casos estas manchas alargam-se cobrindo toda a folha, levando-a a enrolar-se, secar e cair. Nos casos em que os ataques são mais fortes também o ouriço é afetado, acabando por cair. Esta doença designada por “antracnose do castanheiro” é causada por um fungo- Mycosphaerella maculiformis – e afeta também castanheiros-da-índia e carvalhos. Apesar de sempre presente nos soutos e castinçais, não é uma doença muito grave. Porém em anos com verões particularmente chuvosos e quentes (Devo estar a falar deste ano), este fungo causa ataques severos da doença, com os sintomas atrás descritos e ilustrados. As consequências diretas serão a queda dos ouriços por o seu pé apodrecer, as indiretas serão o enfraquecimento brusco da planta por perda de folhas e de capacidade fotossintética com consequente menor acumulação de reservas, o que poderá tornar a planta acessível a outros agentes patogénicos. A falta de capacidade fotossintética diminuirá naturalmente a produção.

Ed662_DSC06383O fungo, existente nas folhas caídas, liberta-se ao mesmo tempo que o castanheiro começa a cobrir-se de folhas. Se as condições forem propícias (humidade e temperatura elevadas) as infeções nas folhas vão-se sucedendo e agravando. A doença começa a manifestar-se em meados de Agosto atingindo o seu pico em finais de Outubro, como estamos a verificar. A Mycosphaerella passa o Inverno nas folhas infetadas caídas ao solo, aguardando nova primavera.

Não há controlo químico para esta doença. Talvez em viveiros se possa recomendar a aplicação preventiva de produtos à base de cobre. Isto se o ano decorrer favorável à doença e se se começarem a evidenciar os sintomas. Medidas curativas só seriam eficazes numa primeira fase de infeção, mas atendendo ao porte dos nossos castanheiros, esta é sempre uma hipótese inviável (exceto talvez em viveiros). O melhor a fazer será a recolha e queima das folhas caídas ao solo no final do ciclo vegetativo, sempre antes das chuvas, de modo a evitar a dispersão do fungo na primavera seguinte.

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico

jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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Redação Gazeta da Beira