As infestantes e as invasoras - Novos Tempos
24/09/2015 (Ed. 683)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*
As infestantes e as invasoras – Novos Tempos

- Sanguinheira
Um dos maiores problemas que encontramos na nossa pequena agricultura são as infestantes. Gramas, escalrachos, línguas-de-ovelha, enfim um mundo infindável de formas e nomes nem sempre possíveis de destrinçar. Num primeiro rompante, começamos por sachá-las. Depressa nos cansamos dessa atividade, particularmente nos meses de verão em que as ervas crescem desenfreadamente. Segue-se o mondar à mão, que também nos dá cabo das costas e paciência: há ervas que se agarram às meias, ao cabelo, como o amor-de-hortelão, entre outras. Somos picados, o sol é inclemente e o rendimento muito baixo. As mais das vezes acabamos por, no frenesim, remover as plantas que queríamos proteger, ao sacar a daninha enredada nas raízes da primeira. Quando o desespero aperta, alguém nos sugere o uso de herbicidas e vá de experimentar que isso é que é trabalho: costas direitas! Mas o uso do herbicida tem consequências: Há herbicidas desenhados para matar as infestantes, poupando a cultura, mas para isso acontecer temos de verificar no rótulo se ele é permitido para aquela cultura e até quando é que pode ser aplicado. Outros há que impedem a germinação de sementes, havendo ainda aqueles que matam indiscriminadamente tudo. Nem vale a pena referir que por vezes nos enganamos e matamos o que queríamos salvar! O uso desregrado e repetido destes produtos tem consequências ambientais e os herbicidas não podem ser aplicados perto de cursos de água ou poços. Mas o grande problema dos herbicidas surge da insistência em utilizar sempre o mesmo, o que leva a que eliminemos as plantas mais suscetíveis, deixando o caminho aberto àquelas que melhor os toleram. Veja-se a proliferação de figueira-do-inferno, da corriola, das avoadinhas, etc…. A aplicação desregrada de herbicidas tem destas consequências: plantas que seriam abafadas pela concorrência de outras, acabam por encontrar espaço livres para proliferar. A situação, particularmente no caso das avoadinhas, tornou-se preocupante. As três espécies mais comuns de avoadinha ou erva-pau assinaladas em Portugal são a Conyza bonariensis, a Conyza canadensis e a Conyza sumatrensis.

- Beladona
Estas espécies são bastante semelhantes, sendo difícil distingui-las. Além disso, cruzam-se facilmente dando origem a híbridos intermédios, o que dificulta a sua distinção. Produzem um elevado número de sementes, transportadas pelo vento, dispersando-se a grandes distâncias e colonizando continuamente novos espaços. A espécie mais comum como infestante agrícola é a Conyza sumatrensis, embora as outras espécies também se encontrem com frequência nos terrenos agrícolas. As avoadinhas aparecem por toda a parte na região do Dão, em campos, vinhas e pomares, bermas de caminhos e cursos de água, terrenos incultos, quintais, jardins, etc.. Nesta altura do ano, encontram-se em semente. Mostram-se relativamente resistentes à aplicação de herbicidas, demorando a morrer, pelo que se se optar por esta solução pode aplicar um herbicida de contato ou sistémico sempre antes da floração de modo a impedir a formação de semente e ressementeira. Como medida preventiva, recomenda-se o seu corte antes de darem sementes, o que pode contribuir para limitar a sua dispersão e infestação. Porém esta solução não é definitiva, impedindo apenas a proliferação, uma vez que a planta consegue rebentar de novo com mais lançamentos, que será necessário eliminar de novo antes da floração.

- Avoadinha
Este assunto das infestantes tem-me preocupado nos últimos tempos: começa-se a notar resistência de algumas a herbicidas, criando por vezes uma monocultura de ervas daninhas resistentes aos mesmos. Recomendo sempre que ao optar pela herbicida se vá alternando os princípios ativos, na medida do possível, e que na maior parte das vezes se procure resolver o problema através de meios mecânicos, como roçadoras, corta-matos ou mesmo a enxadita em locais mais apertados. Nos últimos tempos tem também surgido uma crescente preocupação com as plantas invasoras, elas também, de certa forma potencialmente infestantes: Todos conhecemos o flagelo das acácias, mimosas e afins, atualmente debatemo-nos com o “espanta-lobos” que segue as vias de comunicação proliferando de uma forma louca. A “háquea” ou “espinheiro-negro” forma uma mata tão densa e espinhosa que nem os javalis nela querem entrar e adora o fogo. Em comum todas estas plantas têm o terem sido introduzidas para fins florestais e/ou ornamentais, de forma consciente, porém ao encontrar um ecossistema mais favorável ao seu desenvolvimento, quer pelo próprio clima quer por encontrarem áreas perturbadas (bordaduras de vias de comunicação, áreas ardidas, uso desregulado de herbicidas), depressa proliferaram tornando-se além de invasoras infestantes, porque acabam por entra nos terrenos de cultivo. Se quiserem saber mais sobre invasoras, de modo a conhecer o que vos irá entrar pelo quintal num futuro próximo. Leiam esta magnífica publicação de Hélia Marchante, Elizabete Marchante, Helena Freitas e Maria Morais: “Guia prático para a identificação de plantas invasoras em Portugal” da Imprensa da Universidade de Coimbra, que pode ser lido em papel ou no em http://issuu.com/plantasinvasoras/docs/guia_plantas__invasoras_em_portugal. Este livro tem magníficas fotografias detalhadas dessas plantas, assim como um resumo sobre cada uma delas.
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