Agricultura (Ed. 651)

Jorge Sofia

Às vezes o mal remedeia-se: A mineira-das-folhas-dos-citrinos

Já várias vezes aqui referi a importância do controlo e inspecção fitossanitária, assim como das pragas e doenças ditas de quarentena. Quando comecei a trabalhar , em 1994, já começavam a surgir alguns problemas fitossanitários, consequência da abertura das nossas fronteiras e do novo movimento de pessoas e mercadorias que o pertencer à União Europeia nos permitia. À altura eu estava a trabalhar em Coimbra  e em torno desta cidade fica um forte núcleo de viveiristas de fruteiras e de citrinos em geral. Gente que desde sempre aproveitou a fertilidade e abrigo proporcionados pelas encostas e meandros do rio mondego, para aí desenvolver a sua actividade profissional. Profissional nem sempre significa que um se reja pelas melhores regras.

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E assim sucedia, muito do material de enxertia provinha não de locais de multiplicação devidamente controlados e vigiados, no tocante a garantias de variedade, produtividade e isenção de doenças e pragas, mas de uma laranjeira ou pomar que tinha sido achado interessante pelo dito profissional. Na altura, todas as publicações da área anunciavam o aparecimento na Europa de uma praga de origem asiática – Phyllocnistis citrella – ou lagarta-mineira dos citrinos que pela sua acção desfolhadora iria pôr em causa o nosso pujante sector viveirista. Escusado será dizer que por muito que tenhamos avisado, divulgado, vigiado, etc… A dita mineira veio na bagagem de alguém que achou interesse a um citrino nalgum destino exótico e que trouxe ramos com folhas, para remover borbulhas para posterior enxertia e assim se instalou neste jardim à beira-mar plantado. A mineira dos citrinos é uma micro traça de origem asiática, extremamente difícil de detectar a olho nú. O problema não é o insecto adulto, mas a sua larva! A fêmea  coloca os seus ovos na parte de baixo das folhas jovens, junto à nervura principal. Ao nascerem, as larvas escavam uma lindíssima galeria translúcida, que nos faz crer que parte da folha se encontra recoberta com papel celofane. Ao meio da galeria surge um filamento que acompanha a galeria, correspondente à deposição de excrementos da larva. Quando chega a altura de formar a crisálida, a lagarta sai da galeria e enrola a folha em seu torno, ficando assim protegida.

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O grande prejuízo causado por esta praga é a perda da eficiência fotossintética das folhas atacadas e o desfolhamento da jovem planta, no caso do ataque ser forte, com consequente enfraquecimento ou morte da mesma. Da mesma forma que se procurou evitar a entrada e dispersão desta praga no nosso País, assim que ela se instalou  e perante o pânico causado no sector cítricola, depressa surgiram diversas soluções químicas para lidar com ela. Estes tratamentos indicados em http://www.dgv.mamaot.pt devem ser realizados apenas em plantas jovens, quando estiver em causa a sua sobrevivência e nos períodos de maior rebentação da árvore (Primavera e fim do Verão).

Mas o importante desta estória dos meus tempos de mocidade, foi o que se passou após os dois primeiros anos de existência deste bicho no nosso “quintal”. Lentamente reparámos que os tremendos ataques iniciais, tinham diminuído e que apenas as plantas novas, por terem mais folhas jovens e menos folhas que as plantas instaladas, ainda sofriam qualquer coisa com a a praga. Nas plantas com mais de três anos os seus estragos passavam imperceptíveis! Lentamente a Natureza reagiu e a praga passou dessa condição à de mais uma curiosidade a viver nas nossas laranjeiras, limoeiros e afins. A praga, essa passou a pertencer à ementa dos insectos auxiliares abundantes nos pomares equilibrados e sem tratamentos excessivos e dessa forma encontra-se controlada. Entretanto outras vieram!

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico

jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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Redação Gazeta da Beira