Agricultura (Ed. 660)

A flavescência dourada

Ed660_DSC06220Na última edição desta gazeta, falou-se de Flavescência Dourada da videira e o meu leitor não faz a mínima do que é essa doença. Este desconhecimento é grave, tanto mais tratando-se de um problema gravíssimo, capaz de pôr em causa a viabilidade da cultura da vinha em Portugal. Mais! Até ao momento esta doença só foi detetada na região do Dão, precisamente em São Pedro do Sul!

A história desta doença começa com um fitoplasma pertencente ao grupo dos amarelos da videira, que existia na Europa. Por fitoplasma entenda-se um grupo de bactérias sem parede celular, razão pela qual apresentam forma variada, endoparasitas obrigatórias que se multiplicam exclusivamente nos tecidos condutores de seiva, dependendo de insetos vetores e do homem, para a sua propagação. Introduzida em França, nos anos 50 do sec.XX depois em Itália, Espanha, Suíça, Portugal, Eslovénia, Áustria, Croácia e Hungria, trata-se de uma doença de quarentena para a UE desde 1993 constante da lista A2 da EPPO (European Plant Protection Oganization)

Mas o que é que os fitoplasmas fazem à videira ao certo? Parasitam as células do floema-por onde circula a seiva elaborada impedindo a sua circulação e ao mesmo tempo alteram as funções vitais da planta impedindo-a de se alimentar com as seguintes consequências Atrasos na rebentação; folhas duras, enroladas, dispostas em forma de telhas, manchas foliares prematuras (cor vermelha ou dourada), delimitadas pelas nervuras secundárias, varas flexíveis (tombadas) por falta de atempamento. As inflorescências (ou cachos) murchas, caem ao toque, a produção desaparece.

Nos países onde esta doença se encontra instalada, o seu controlo é dificílimo, e a doença tem posto em causa áreas imensas de vinha. No nosso país para já é só a região do Minho a afetada. Mas com fortes perdas de produção.

Como já disse, esta doença é transmitida pela enxertia ou através da picada de um inseto –Scaphoideus titanus. Para que haja transmissão da doença, este inseto tem de encontrar todos os anos uma videira doente e picá-la, isto porque a flavescência não se transmite às novas gerações do inseto. 30 dias após ter adquirido a doença o amigo ST já consegue transmiti-la de novo. E assim o fará se nós não lhe abreviarmos a curta existência com a morte. Sim os tratamentos inseticidas podem ajudar-nos a controlar a doença porque o inseto só tem uma geração/ano ou seja nasce e morre no mesmo ano. Consequentemente a doença tem de ser readquirida todos os anos daí a necessidade de arrancar as cepas doentes para não permitirmos novas aquisições

O Serviço de Avisos, acompanha o desenvolvimento do vetor de modo a poder orientar o agricultor na escolha da melhor época para realizar os tratamentos inseticidas. Atendendo a que o inseto não faz, per si, qualquer dano na vinha, sendo o responsável pela flavescência o fitoplasma, é caso para comentar “Anda mal o mundo, paga o justo pelo pecador”.

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico

jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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Redação Gazeta da Beira