O pedrado da maçã
26/03/2015 (Ed. 673)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*
O pedrado é uma doença que, diminui as colheitas e deprecia as maçãs. Na verdade, no meu tempo de garoto, comíamos as maçãs de qualquer maneira. Não era uma mancha preta que nos iria fazer parar. Mesmo o bichado era para arredar cuidadosamente com a ponta da navalha e após esta operação tida como necessária, considerava-se a maçã mais do que própria para ser manducada. Quanto a manchas pretas na casca…esfregava-se na camisola e após cumprido este requisito de higiene absoluta, só se parava no caroço ou, dependendo da esquisitice de cada um, no pé da maçã.
Enfim o pedrado provoca manchas sobre as folhas, ramos e frutos que, como já disse, depreciam os frutos e nos casos mais graves ferem-nos e provocam a sua queda. É, mais uma vez uma doença causada por um fungo –Venturia inaequalis .
A infecção que encontramos nos frutos começa agora, no início da Primavera, quando a temperatura e humidade são favoráveis à libertação de esporos do fungo existentes nas folhas que sobraram do ano anterior, no chão do pomar, e que irão causar infecções primárias nas pontas verdes que começa a ver desabrochar. Estes esporos, quando chove, são lançados no ar, aterrando na superfície das folhas, germinando e entrando na cutícula cerosa das mesmas. Após a infecção surgem manchas amareladas onde se formarão novos esporos, que com fortes humidades ou chuvas, darão origem a novas infecções nas partes novas da macieira que por sua vez irão originar novas contaminações. Este ciclo de contaminações secundárias sucessivas continua durante o Verão prolongando-se até à colheita e queda das folhas. Durante o Inverno, os esporos de Venturia evoluem nas folhas caídas dando origem a novas frutificações do fungo para reiniciar o processo de infecção na Primavera seguinte.
As condições favoráveis ao desenvolvimento do pedrado foram amplamente estudadas, sabendo-se:
* Um nível de infecção elevado, no ano anterior, ou a vizinhança de pomares abandonados aumenta o risco de infecção
* A presença de orvalho conjugada com a temperatura elevada durante o Verão pode desencadear infecções secundárias de pedrado.
* O óptimo de desenvolvimento para Venturia inaequalis se situa a 20°C mas ele desenvolve-se com temperaturas entre 2°C a 25°C. Com temperaturas baixas as infecções serão mais lentas mas não são inibidas.
* Adubações azotadas excessivas e falta de cálcio no solo aumentam o nível de infecção.
* Há variedades com diferentes comportamentos face à doença
* São necessárias, pelo menos, 10 horas de água sobre as plantas para a infecção ocorrer. Se a temperatura for baixa, a película de água precisa de uma maior duração para um nível de infecção equivalente.
* Os sintomas aparecem aproximadamente 10 a 20 dias depois das infecções (isto é depois de uma chuva levar o esporo a contactar a planta e a penetrar nos tecidos da mesma).
Para controlar esta doença em pomares de macieiras, ou afins, podemos reduzir a presença do fungo se removermos e destruirmos as folhas velhas após a sua queda. Sendo esta uma tarefa difícil podemos ajudar a Natureza a decompor mais rápido as folhas, pulverizando, à queda das folhas, as árvores e folhas caídas com uma calda de ureia a 5%
O controlo químico é uma das opções mais utilizadas, havendo no mercado inúmeras opções. A sua aplicação requererá da parte do aplicador bastante bom senso, particularmente no que toca aos penetrantes e sistémicos:
* Evitar tratamentos “curativos”, preparando uma estratégia preventiva de acordo com o indicado pelo Serviço de Avisos;
* Alternar substâncias activas de modo a prevenir o aparecimento de resistências;
* Respeitar o número máximo de aplicações permitidas para cada família química
* Adequar o produto aplicado à fase de desenvolvimento da planta e às temperaturas (há produtos que não funcionam a baixas temperaturas; alguns produtos são mais adequados para antes do vingamento dos frutos, etc…)
* Não seja preguiçoso/a, leia os rótulos. Lá está tudo!
Os fungicidas de contacto, têm de ser utilizados numa estratégia puramente preventiva e correm o risco de ser lavados após chuvadas superiores a 25 mm. São mais baratos e não se lhes conhecem grandes resistências. Dentro deste grupo, a calda bordalesa ainda é um grande produto, mas obriga a uma renovação muito frequente dos tratamentos.
Não lhe posso fazer a papinha toda, amigo leitor, se quer saber mais assine os avisos. Escreva-me ou mande-me um mail que eu envio-lhe as condições de inscrição (são só 14 euros por ano!).
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