Agricultura (Ed. 647)

Jorge Sofia

30/01/2014 (Ed. 647)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

O mistério das cenouras antropomórficas

O solo é para o comum dos mortais aquilo que pisamos no campo, uma massa inerte que se conforma e sujeita ao nosso peso, não gritando não protestando, existindo apenas. Como tal e dotados de senso comum desconsideramos o solo como uma coisa inerte, morta que “não aquenta nem arrefenta”. Só nos preocuparemos com ele naquela fase da vida em que o teremos por todo o lado. MAS se pegarmos numa lupa e o esmiuçarmos com alguma atenção verificamos que nele temos calhaus, areia, minerais diversos, fragmentos vegetais mais ou menos decompostos e….bichos, muitos bichos de todos os tamanhos, tipos e formas. Temos carochos pequenos, pequeníssimos e minúsculos, centopeias, formigas, uns que saltam outros que andam e outros que deslizam como os anelídeos minhocas e os seus primos nemátodes.

Os nemátodes têm ultimamente, andado na boca do mundo à custa do “Nemátode-do- Pinheiro”, que ao reproduzir-se entupindo os canais da árvore provoca a sua morte. Os nemátodes são aos milhares em qualquer porção de terra e nem todos são parasitas dos vegetais! Muitos são responsáveis pela decomposição de matéria orgânica no solo (um dia todos saberemos isso).São vermes não segmentados que podem ser encontrados em todos os solos, embora os solos arenosos lhes sejam mais favoráveis. Dos vários grupos existentes e que atacam plantas, vamos hoje falar dos nemátodos provistos de estilete (boca especial que serve para picar e sugar), que chegam a alcançar os 5 mm e que causam danos na cultura da cenoura. Estes animais, de vida livre no solo (Boémios) nadando na água contida no mesmo e procurando as raízes das plantas de que se alimentam atraídos pelas secreções emitidas pelas mesmas, podem causar estragos muito elevados quer directamente através da sua alimentação nas raízes, quer pela sua capacidade de transmitir vírus vegetais.

No caso da cenoura, os nemátodes alimentam-se na extremidade em crescimento da raiz da cenoura, para isso picam o vegetal, introduzem o estilete e libertam dentro dele enzimas (substâncias químicas produzidas por seres vivos que desfazem a matéria orgânica) que degradam as células, permitindo-lhes assim sugar o seu conteúdo como se de uma sopa se tratasse. Porém as suas enzimas e a picadela provocam a morte de células com consequente perda do ponto de alongamento da raiz da cenoura. A planta responde desenvolvendo novos pontos de alongamento, daí resultando aquelas cenouras com várias pontas que tantas vezes encontramos no comércio local (reparem que não disse no supermercado!) ou no expositor das lojas agrícolas. Atenção! Este sintoma também pode ser devido a lesões naturais em solos pedregosos, quimicamente desequilibrados ou com excesso de estrume

Os nemátodes podem viver muitos anos, tendo apenas uma geração por ano. Os adultos põem ovos (o té-té não é apenas um apanágio das galinhas)   junto das cenouras em crescimento. Assim que eclode, a nova geração começa a alimentar-se nos tecidos mais jovens e suculentos da planta (as zonas de crescimento). Convém salientar que alface, beterraba, aipo, cereais e frutos vermelhos como morangos, framboesas e amoras também são sensíveis a estes ataques!

Embora os ataques possam conduzir à perda da cultura, as deformações causadas reduzem a qualidade do produto e consequentemente o seu valor económico. Isto é terrível em culturas cuja apresentação é fundamental para a venda como é o caso da cenoura que se quer firme, alaranjada e direita para ser facilmente preparada.

Face a estragos que consideramos de nemátodes, o que fazer? Analisar o solo para termos a certeza da sua presença e em que quantidades. Esta análise ajudará o produtor a decidir entre alternar parcelas (se a contaminação ainda for baixa) ou a recorrer a um tratamento fitofarmacêutico nematodicida em pré-plantação. No caso de uma pequena horta o que há a fazer é quebrar o ciclo de infecção, tentando mudar a cultura para uma parcela nova, não infectada e na parcela antiga não plantar nada que possa continuar o problema por a ele ser também sensível. Se tal não for possível, então há que tentar baixar a população destas bichezas através de um tratamento químico ou de modo biológico através por exemplo da solarização do solo –prática a efectuar durante um mês ou mais nos meses mais quentes antes da sementeira e que consiste basicamente em endireitar o solo, regá-lo abundantemente e cobri-lo com plástico transparente. Este deve ficar o mais colado ao solo que for possível e só pode ser levantado um mês depois. O calor acumulado debaixo do plástico irá desinfectar o solo abaixo até profundidades de 50 cm ou mais. Mais uma vez esta prática é para ser feita em Julho e Agosto.

Atrás referi que as cenouras deformadas seriam mais prováveis de encontrar no comércio tradicional do que numa grande superfície. Não o fiz com intenção de dizer mal do pequeno comércio, antes pelo contrário! O que eu quero enfatizar ao sr.Consumidor Atento, é que para termos cenouras todas uniformes e perfeitas se tem de proceder a tratamentos com alguma regularidade. Se for do género de preferir as coisas mais naturais, comprará cenouras feias e chatas de descascar, mas sem nematodicidas e cujas formas acabam sempre por se inspiradoras para a nossa tresloucada imaginação!

 

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico

jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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Redação Gazeta da Beira