Agricultura (Ed. 661)

Podridão cinzenta do kiwi

25/09/2014 (Ed. 661)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

Podridão cinzenta do kiwi

Ed661_Botrytis-no-fruto-009Agora que se fala de regresso à agricultura por parte da malta jovem (que chavão!), que se encontra empenhada em fazer desta Beira Alta uma frutaria “gourmet” do norte da Europa à base de mirtilos, groselhas, framboesas, uvas-espins e afins, todos nos esquecemos da epopeia do kiwi de há algumas décadas atrás. Decidido a que a Actinidea sinensis (nome científico do kiwi) não tome o caminho do esquecimento decidi-me abordar a cultura, dedicando este artigo aqueles que ainda mantêm, aqui na Beira Alta (porque no litoral o kiwi é em plano sério) umas pernadas do dito, agora carregadinhas.

Hoje vou falar de uma doença que preocupa os produtores de kiwi- a podridão cinzenta causada pelo fungo Botrytis cinerea. Este fungo convém dizê-lo, ataca todo o tipo de frutos causando sempre podridões indesejadas. Bom! Isto não é assim tão verdade, porque no “Sauternes” (vinho doce da região de Bordéus) o aparecimento deste fungo conjugado com as peculiares condições climáticas daquela região, leva a uma podridão designada nobre, que promove o aumento da concentração de açúcar das uvas, tornando pois a Botrytis muito bem-vinda.

A podridão cinzenta é considerada na cultura da actinídea um problema de conservação, uma vez que este fungo, normalmente, apenas se manifesta em câmara frigorífica. No entanto a sua presença nas câmaras frigoríficas é muitas vezes consequência de contaminações ocorridas no pomar. Três a quatro semanas após o armazenamento surgem na cicatriz peduncular[JS1], ou em pequenas cicatrizes consequentes de mau manuseamento os primeiros sintomas. Esses sintomas em câmara caracterizam-se geralmente por uma sobre-maturação que vai evoluindo da zona do pedúnculo para a outra extremidade do fruto. As zonas da casca afetadas escurecem e a polpa toma uma cor verde carregada com um aspeto vítreo ou “aguado”. Não raras vezes surge sobre o fruto um bolor de aspeto cotonoso de coloração branca a acinzentada, muitas vezes identificado como Botrytis cinerea. De acordo com alguns investigadores o avanço do fungo a partir do pedúnculo à temperatura de 0 a 1ºC é de 0,2 mm/dia o que implica que alcança a polpa do fruto aproximadamente 6 semanas a partir da entrada em câmara.

Os fungos do género Botrytis são comuns na natureza, e consequentemente será normal a sua existência nos pomares de actinídea. Encontramos o fungo restos da cultura ou sobre infestantes dos pomares, onde o fungo se pode manter e posteriormente durante o a Primavera e Verão, havendo condições favoráveis de humidade (chuva, rega, orvalho), poderá produzir esporos em quantidade suficiente para contaminar tecidos vegetais sensíveis. Durante a floração, as pétalas e anteras podem ser infetadas, crendo-se ser a partir destes tecidos que pode haver uma primeira infeção de sépalas e ovários nos 30 dias subsequentes à floração. As sépalas permanecem sensíveis à infeção até à colheita, podendo sofrer várias reinfeções. Estas infeções permanecem latentes, não havendo manifestações visíveis da doença sobre os frutos.

Ed661_Botrytis-no-fruto-005Para lidar com esta doença a forma mais eficaz será a adoção de técnicas culturais e medidas profiláticas que impeçam a sua instalação e desenvolvimento, nomeadamente:

Promover o bom arejamento da copa das árvores, evitando que as mesmas estejam muito próximas, controlando o vigor vegetativo da planta-se esta for muito forte, terá a copa muito densa e fechada, havendo neste caso necessidade de reduzir as adubações azotadas para diminuir vigor e também na poda haverá que dominar as consequências do vigor excessivo (muitas varas que adensam a copa) deixando por exemplo mais olhos, mas bem distribuídos na vara de modo a que o vigor da planta seja distribuído e os novos lançamentos não enredem uns nos outros adensando a copa. Convém também que à colheita sejam separados imediatamente todos os frutos tocados. Estes frutos não deverão ir para conservação.

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico

jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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Redação Gazeta da Beira