A Gafa da azeitona

12/12/2013 (Ed. 644)
Texto e fotos de
• Jorge Sofia*

Estamos na apanha da azeitona, última tarefa agrícola do ano. Após a chegada ao lagar verificamos que a azeitona mais parece uma papa que mal ou pouco “funde” e que o azeite dela resultante apresenta um sabor extremamente desagradável –ranço. Quando o analisamos apercebemo-nos da sua elevada acidez, que o torna praticamente intragável – azeite lampante – azeite com uma acidez livre expressa em ácido oleico, superior a 2 g por 100g. Este azeite não pode ser consumido directamente, sendo aproveitado para a refinação. Creio no meu fraco entender e consultando o “Ciberdúvidas.pt” que lampante é um adjectivo castelhano que significa “próprio para iluminação”, sendo calculo eu o destino dado a estes azeites nos tempos não muito antigos em que ainda se recorria à candeia de azeite.

Muito deste problema deve-se à gafa, uma doença que afecta o olival, conhecida desde tempos imemoriais e causada pelo pelo fungo Gloesporium olivarum, descrito pela primeira vez por Veríssimo de Almeida em Lisboa (mais uma glória lusa).

Que sintomas apresenta a gafa? Sobre folhas e ramos observa-se queda e amarelecimento das folhas, seca de ramos e raminhos começando da ponta dos mesmos. No exterior das azeitonas verifica-se a formação de depressões sobre a casca de cor alaranjada e aspecto oleoso. Este fungo passa o Inverno no solo sobre frutos, folhas e raminhos caídos ao solo. Com as primeiras chuvas de Primavera são libertados os esporos que irão iniciar novas infecções nas folhas e que com as primeiras chuvas de Outono iniciarão a contaminação dos frutos que vão amadurecendo. O desenvolvimento da gafa é favorecido por frutos no estado de mudança de cor; temperatura ambiente entre 10°C e 30°C; chuva ou humidade relativa superior a 90% durante várias horas e sem dúvida pelos ataques de mosca da azeitona e suas galerias;”higiene” deficitária do olival e por copas fechadas que além de impedirem os tratamentos que favorecem um clima húmido no seu interior e que vão favorecer a acção da mosca.

Como podemos evitar a gafa? Através da Luta Cultural fazendo podas e limpezas que promovam o arejamento e iluminação da copa, reduzindo o inóculo; podando na altura propícia (início da Primavera) e não durante a colheita; evitando instalar o olival em locais sombrios e húmidos e não aproveitando frutos gafados caídos ao chão. Há naturalmente a opção da Luta Química sempre de carácter preventivo enão curativo, recorrendo a produtos com cobre. Estes tratamentos devem acima de tudo ser realizados de acordo com a sua Estação de Avisos, mas serão de carácter quase obrigatório antes das primeiras chuvas de Primavera, ao pintar da azeitona e antes das primeiras chuvas outonais (Setembro/Outubro), devendo sempre ser repetidos se a precipitação ocorrida tiver lavado os tratamentos (mais de 25 litros num prazo de duas semanas).

Além da realização dos tratamentos para a gafa deve combater a mosca, não aproveitar os frutos caídos ao chão, não misturar frutos caídos com os que colhe e não deixar as azeitonas em água mais que um dia. Após a colheita deve levar a azeitona para o lagar o mais rápido possível.

A mosca da azeitona começa a atacar a azeitona quando esta muda de cor. A mosca rompe a pele da azeitona, para aí colocar um ovo. Deste ovo sai uma larva que rapidamente se alimenta da quase totalidade da polpa da azeitona, escavando para o efeito uma galeria. Esta galeria é uma incubadora perfeita do fungo, perdendo-se o azeite pela perda de polpa e oxidação da re e pelo ataque de gafa no remanescente da azeitona.

Para o combate precoce e eficaz à gafa e mosca da azeitona deve segir as recomendações da Estação de Avisos. Em Janeiro começarão as inscrições.

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* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro