Agricultura (Ed. 665)

O Enigma da Esfinge

27/11/2014 (Ed. 665)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*

O Enigma da esfinge

Ed665_Lagarta-de-esfingídeo-001Todos os dias os nossos serviços são consultados pelas doenças e pragas mais diversas. A preocupação geral é como matar aquele bicho- fungo – ou – qualquer – outro – capricho – da – natureza que se instalou nos nossos belos vegetais. Para mim como técnico, estas perguntas colocam-me muitas vezes numa posição incómoda: – Como já aqui referi várias vezes a aplicação de produtos fitofarmacêuticos (PFs) é um ato profissional que envolve bastante responsabilidade, não só pela preocupação com o meio ambiente, como também a necessidade de continuarmos a manter os produtos fitofarmacêuticos disponíveis por um período alargado de tempo. Eu explico-me: – A utilização de PFs no nosso país, e em todo o espaço Europeu, depende da sua autorização de uso para uma determinada cultura e para um dado problema, a que se chama homologação. Os produtos são “desenhados” para serem aplicados com regras (que evitam a contaminação ambiental, diminuem o risco das pragas e doenças de lhe resistirem e diminuem o risco para o aplicador). Essas regras serão fáceis de cumprir quando estamos numa exploração agrícola de caráter profissional (o responsável deverá saber ler o rótulo, conhecer o nº máximo de aplicações desse produto durante o ciclo vegetativo da cultura e que outros produtos poderá utilizar para alternar de forma a não criar resistências nos inimigos que vai tratar). É de salientar que o responsável por uma exploração tem de fazer contas, só gastando dinheiro em PFs quando vê que o seu investimento começa a estar em risco. Isto pressupõe um ato racional e não um ato de amor!

Um ato de amor é a devoção que temos pela nossa horta. Não podemos ver uma planta a mirrar, uma lagarta na couve, uma maçã tocada sem que corramos imediatamente a adquirir uma “cura” que irá salvar o nosso desvelo. Esta situação tem perdurado no nosso país, “permitida” porque todos complementávamos a nossa economia com um quintal, umas “pitas” um ou outro reco. Mas o mundo gira, as coisas mudam, novas preocupações surgem e a agricultura tornou-se um ato profissional, como já disse, com responsabilidades sociais. Nos últimos tempos o nº de PFs tem regredido. Os poucos Pfs disponíveis, desde que adequadamente utilizados (ler o rótulo) são menos nocivos para o meio ambiente, inócuos para o aplicador e fauna e mais específicos para as pragas e doenças a tratar. As lojas de venda dos PFs estão sujeitas a normas estritas (adeus balcão do bacalhau e do E605 forte – remédio dos maus amores), têm, como as farmácias um técnico responsável e os próprios agricultores têm de possuir credenciação para usar e aplicar os PFs. Em breve os “Tomixes” e afins, utilizados na aplicação terão que ser inspecionados e validados, tal como os carros. Toda esta conversa para explicar que pensar em aplicar “aquela cura que dá para tudo”, de futuro não irá ser assim tão simples. Então que fazer? Ou levamos a coisa a sério, sujeitando-nos às regras ou passamos a utilizar os produtos de linha doméstica, já preparados que encontramos nos supermercados, ou passamos a ter mais tolerância com os bichos recorrendo em último caso a velhas técnicas para limitar a sua ação.

Este despropósito que hoje aqui debitei, resultou de uma consulta que recebi, pero da vindima, pela enésima vez, e que de todas as vezes me arrepela os cabelos:

-Uma senhora, dona de uma vinha, trouxe-me a linda lagarta que veem na fotografia e que eu adoro desde que vi os desenhos animados da “Alice no País das Maravilhas”. Pois é, é a lagarta que fuma! Este bicho, lindíssimo, é uma lagarta de esfingídeo, aquela borboleta que se vê a esvoaçar de flor em flor nas tardes de verão e que faz lembrar um colibri (se nunca viu, entretenha-se este verão). Já aqui expliquei, e nunca é demais repetir que as borboletas põem ovos, desses ovos, eclodem as lagartas, as quais vão engordando, mudando de casca, aumentando de tamanho até que passam a crisálida transformando-se (metamorfoseando-se) depois em borboleta e reiniciando o ciclo. A lagarta que preocupava a senhora estava na última fase do desenvolvimento antes da crisálida e grande como era, enfardava folhas atrás de folhas, mas só isso. A senhora queria um inseticida, que as matasse, que as tirasse da sua vista. Mas para quê? Em breve a lagarta passaria a crisálida e só para o ano voltaria a comer folhas. Com o tamanho que tinha não era só a senhora a vê-la, mas estou certo que melros e demais colegas não deixariam de reparar nela, e que rica fonte de proteína! Além disso, o que são meia dúzia de folhas numa vinha? O tratamento só se justificaria se toda a vinha estivesse infestada, perdendo demasiadas folhas impedindo a maturação. Repare-se que um tratamento poderia também matar outros insetos, úteis, e provocar um desequilíbrio na fauna de insetos que povoam a vinha levando a que para o ano em vez de algumas gordas lagartas, a senhora lá encontrasse algo que aproveitando a ausência dos insetos úteis se tornasse numa verdadeira praga do Egito. Sem falar do risco que seria aplicar um inseticida tão próximo da vindima. Divirtam-se a ver as fotos, não é “queriducha” a pequena nos seus 11 cm?

Termino com o enigma da esfinge: Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde três? Édipo soube responder, e o meu leitor saberá? A resposta, de certo modo, tem a ver com a aprendizagem que fazemos pela vida fora…

Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico jorge.sofia@drapc.mamaot.pt

* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro

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 Redação Gazeta da Beira