DESTAQUE (Ed. 817)

Edição 817 (16/12/2021)

Notável inscrição romana achada em Fundo da Aldeia

Foi identificada, corria o mês de Setembro, uma placa romana de jazigo de família, com inscrição funerária, no meio do entulho que saiu do derrube de um muro no caminho público do lugar de Fundo da Aldeia, freguesia de Valadares, concelho de S. Pedro do Sul.

Quem deu conhecimento do monumento foi D. Clara de Vasconcelos, moradora do lugar. Tendo ficado na posse da Sra. Alexandrina Augusta da Silva, esta a doou à Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, por intervenção pessoal do presidente da Câmara, Vítor Figueiredo, encontrando-se agora depositada na área arqueológica das Termas Romanas de S. Pedro do Sul.

De granito local, paralelepipédica, tem uma inscrição em Latim, que, traduzida, diz o seguinte:

Lâncea, filha de Taio, de … anos; Catão, filho de Áper, de … anos. Cílea, filha de Triteu tratou de fazer, em vida, para a filha, para si e para os seus.

Todos os nomes são de origem pré-romana, embora estejam escritos em língua latina, e o texto prova que, nesse começo do século I da nossa era, por aqui se registou a mais ampla coexistência pacífica, bem patente no facto de os intervenientes haverem adoptado, para honrar os seus mortos, um texto claramente decalcado dos textos romanos.

De acordo com a investigação já feita – cujo resultado vai ser publicado numa revista da especialidade da Universidade de Coimbra – há, por exemplo, um pormenor nesta epígrafe, que é único em textos deste género, inclusive a nível de todo o Império romano, o que demonstra o não despiciendo nível cultural adquirido pela população. É que – e perdoe-se-nos se entramos em aspecto só inteiramente compreensível pelos especialistas… – em vez de se ter escrito no final suisque – «e para os seus» – optou-se pela partícula enclítica -ve: suisve . É, na verdade, um pormenor; basta, no entanto, para não passar despercebido o seu enorme significado do ponto de vista cultural.

Não se sabe exactamente com que idade faleceram a filha e o marido de Cílea, porque a pedra, por ter sido reutilizada, foi partida no sítio onde estaria essa informação. O marido faleceu com mais de 50 anos (isso sabe-se) e a filhota com mais de 20.

E se, do ponto de vista histórico, cumpre realçar que estamos perante o testemunho de uma aculturação deveras considerável, porque toda a onomástica é indígena e a estrutura textual claramente se compagina com o hábito romano, como pessoas não deixaremos de nos impressionar com o que este monumento documenta: Cílea sobreviveu à dolorosa morte da filha e à não menos dolorosa, decerto, morte do marido; por isso, gastou num mausoléu os pertences que tinha, para que todos ficassem juntos. Lição de vida que nos chega de tempos tão remotos! Quem o diria, assim pespegado numa singela «pedra com letras», salva da destruição, porque alguém teve… olhos de ver!

 

JOSÉ D’ENCARNAÇÃO [1]

EDUARDO Nuno OLIVEIRA [2]

Os autores do artigo:

José d’Encarnação, ligado à FLUC – Instituto de Arqueologia – Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes, residente no concelho de Cascais;

Eduardo Nuno Oliveira, técnico superior na Câmara Municipal de S. Pedro do Sul (Termas Romanas), que tem desenvolvido trabalhos de investigação, estudo, valorização e divulgação no âmbito da História Local, natural e residente em S. Pedro do Sul.

[1] Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.



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