DESTAQUE (Ed. 657)

Ataques na Serra do Montemuro reabrem o debate

A Gazeta da Beira esteve nos lugares de Gestoso e Gestosinho, na freguesia de Manhouce à conversa com vários agricultores que relatam novos ataques de alcateias de Lobos. Temem pela sua segurança e pela dos animais, a maior fonte de rendimento. Em entrevista ao Jornal, Henrique Pereira dos Santos, da Montis, garante que os Lobos podem ser “amigos da nossa economia”. Ambos exigem soluções para acabar com o dilema que opõem lobos e pessoas.

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Recentemente foram encontrados os restos de uma vaca prenha, na aldeia de Gestosinho. Subimos a Serra e encontramos agricultores que vivem com medo. Maria Custódia encontrou a sua vaca, no terceiro dia de buscas. Foram as restantes vacas que encontraram o caminho. “Quando chegaram àquele sítio as vacas começaram a cantar o fado, pareciam fábricas a apitar e não avançaram mais”, relata José Santos um vizinho que ajudou na busca. Agora, Maria Custódia ficou só com três vacas. Com duas filhas a estudar, assim, é difícil sobreviver. A mesma situação vivem os restantes habitantes do lugar, apenas 20. Vivem do que a terra lhes dá, dos animais que vão conseguindo criar e das reformas, quem as tem. Sem soluções, não têm dúvidas… “ninguém cá vai ficar!”

Os agricultores dizem que a população dos Lobos tem aumentado e acreditam, mesmo que há pessoas quem vem à serra depositar os animais. Henrique Pereira dos Santos diz que o número de lobos tem, de facto aumentado, mas apresenta outras justificações. “Os lobos estão em ligeira expansão, não porque alguém os largue, mas porque o abandono das terras tem provocado alterações grandes que favorecem alguns bichos comidos pelos lobos”

 

Montis acredita que os Lobos podem ser amigos da economia

Henrique Pereira dos Santos admite que há ataques de lobos, mas diz que a solução não pode passar pela erradicação dos animais. Uma coisa é certa, os prejuízos não devem ser suportados pelos agricultores. Como defende, “ ter lobos é um bem para todos, e portanto, devemos encontrar maneiras de distribuir os prejuízos por todos, em vez de ser o agricultor ou pastor a perder o seu gado”.

Henrique Pereira dos Santos acredita que “a presença do lobo numa região pode fazer mais pela economia da região que a sua erradicação”. E justifica: “por um lado o lobo controla outros animais que também provocam prejuízos, como os javalis (e raposas, por exemplo).Por outro lado pensamos que vale a pena pensarmos que já que vamos ter de conviver com os lobos, será melhor torna-lo amigo da nossa economia e ver como poderemos ganhar dinheiro, e criar emprego, com a sua presença”.

As soluções

Como indica Henrique Pereira dos Santos, a Montis está a “tentar arranjar soluções para que as pessoas fiquem a ganhar mais e tenham menos prejuízos”. Atualmente, a associação está “a procurar fazer um projeto de valorização dos produtos dos rebanhos que têm ataques de lobo, fazendo a ligação entre os produtores e as pessoas que não se importam de pagar um pouco mais por esses produtos, exatamente por reconhecerem que há um serviço de conservação do lobo que está a ser feito pelos agricultores e pastores e isso merece ser valorizado e pago”. O projeto vai ainda início, mas a associação mostra-se confiante. E deixa a promessa: a sua intervenção vai pautar-se sempre pelo diálogo. “Vai levar tempo até que consigamos alguns resultados neste aspeto, mas esta é a forma que gostaríamos de adotar sempre: falar com as pessoas e encontrar, em conjunto, a maneira de diminuir a oposição entre economia e conservação”.

Balanço positivo dos primeiros meses da Montis

662_Gestosinho_DSCN3066Há quase um ano, a Gazeta da Beira dava a notícia do nascimento de uma nova associação de Lafões: A Montis. Meses depois a associação já conta com 96 sócios e o balanço é positivo. Como garante Henrique Pereira dos Santos, “conseguimos ir fazendo um programa de passeios regular, estamos a organizar um colóquio sobre economia da biodiversidade nas Termas de S. Pedro do Sul, no dia 22 de novembro, temos colaborado com a Câmara Municipal de Vouzela na valorização do património natural do concelho, temos um acordo com a Eólica da Arada que pensamos que é uma boa oportunidade para irmos criando riqueza pela valorização do património natural”.

Além disso, recentemente arrancou uma campanha ironicamente chamada “E que tal sermos donos disto tudo?” para a compra dos primeiros terrenos. Em causa 5,5 hectares na Serra do Caramulo. O objetivo é “pôr em prática o que defendemos no sentido de aliar conservação da natureza e criação de riqueza e emprego”.

Como explica, Henrique Pereira dos Santos, “a campanha está a correr bastante bem, temos um objetivo difícil e todos os apoios, a partir de um euro, são importantes. Para já tem tido boa visibilidade, tem levado o nome do Caramulo e, neste caso, Vouzela, para bastante fora da região, portanto estamos convencidos que para além da compra do terreno, a região já estará a ganhar com esta possibilidade de ser vista e positivamente avaliada a partir desta campanha”.

PCP questiona Governo sobre ataque de lobos na Serra de Montemuro

Também em Cinfães, na mesma Serra de Montemuro, houve relatos de ataques de Lobos ao Gado. O Partido Comunista já questionou o Ministério da Agricultura e do Mar. Segundo relata o partido as populações estão “profundamente alarmadas com os continuados ataques de alcateias de lobos aos seus rebanhos e gado (foram contabilizadas dezenas de ovelhas, cabras, vitelas, vacas e um pónei mortos) ”, o que, como acrescentam, está a pôr em risco “sobrevivência económica de muitas explorações agrícolas familiares e a provocar um clima generalizado de medo e insegurança”.

Como avança o deputado Miguel Tiago, em comunicado dirigido a Assunção Cristas, “os habitantes das áreas abrangidas, exigem duas medidas imediatas por parte dos organismos governamentais: o recenseamento dos animais que foram alvo dos ataques dos lobos; o desencadeamento dos procedimentos necessários à rápida indemnização dos agricultores pelos avultados prejuízos sofridos”.

Seguiram para o Governo as seguintes perguntas: Tem o seu Ministério conhecimento destes graves acontecimentos, reportados ao ataque de pretensas alcateias de lobos aos rebanhos e gado nas cercanias da Serra do Montemuro, no Concelho de Cinfães; O que está a ser feito pelos serviços do seu Ministério para registar o número de cabeças de gado abatidas pelos lobos e proceder à justa indemnização dos seus proprietários; Num quadro em que os agricultores se vêm privados da sua principal fonte de rendimento, admite o seu Ministério ressarcir no imediato os agricultores através da reposição direta do efetivo pecuário perdido; Que tipo de monitorização das alcateias de Lobo Ibérico efetua o ICNF, na Serra do Montemuro e qual o recenseamento de que dispõe do número de exemplares ali existentes; Dispõe o ICNF na atualidade dos meios humanos, materiais e logísticos para efetuar a monitorização das populações de lobos existentes no País.

 A opinião dos agricultores:

José Tavares dos Santos

“As pessoas começam a ter medo de vir à Serra, tem medo dos Ataques dos Lobos. Não sei qual é a ideia de os nossos governantes prejudicarem assim as pessoas. Isto é uma machadada para os agricultores!”

Maria Alice

“Os lobos têm matado um ror de vacas. Mesmo guardando as vacas, como são muitas, eles apanham-nas.”

José Tavares

“Temos medo, aquilo da maneira como eles estão cheios de fome, se apanham uma pessoa de noite, não conseguimos sobreviver!”

Maria Custódia

“Até aqui os amimais ainda tinham liberdade e nós andávamos mais descansados. Agora não. Uma pessoa sozinha se vê meia dúzia de lobos o que é que pode fazer?”

 

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Redação Gazeta da Beira