Ekaterina, a poeta russa que escreve em língua portuguesa

Chegou a S. Pedro do Sul há 15 anos e já lançou dois livros

Ekaterina Malginova nasceu em Tymen, na Rússia, mas, quando tinha apenas nove anos, a sua vida cruzou-se com S. Pedro do Sul, para onde emigrou com os seus pais. Entretanto, já se passaram 15 anos e a língua estranha que em tempos encontrou, hoje, não tem segredos para a jovem russa. Com apenas 24 anos, prepara-se, agora, para lançar o seu segundo livro de poesia ilustrado: “Pé de meia memória”. Em conversa com a Gazeta da Beira, Ekaterina fala-nos da sua mais recente experiência no âmbito da literatura, mas também da sua história de vida que começou na Europa do Leste e continua, agora, aqui por Lafões.

ekaterina

Chama-se “Pé de meia memória” e é o mais recente trabalho de Ekaterina Malginova. O lançamento será já na próxima quinta-feira, dia 8 de outubro, pelas 18h00 no Parque Aquilo Ribeiro, inserido das comemorações do Outono Quente, em Viseu. “Pé de meia memória” tem poemas divididos em duas partes: entre o passado, as saudades e recordações e as reflexões sobre o presente e os sonhos. “Depois de ter publicado a primeira vez e, quando já estava na Faculdade pensei em voltar a publicar, mas nunca pensei que pudesse vir a ser tão breve. Ia escrevendo, editava e guardava para “um dia mais tarde”. Explica a jovem poetisa.

A oportunidade surgiu no âmbito do Mundificar, um projeto dedicado a imigrantes, promovido pela ADR.- Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões- e conta com o apoio da junta de freguesia de Viseu.

 

A descoberta de uma nova escritora

Esta não é a primeira experiência de Ekaterina não mundo da poesia. Foi com apenas 19 anos que lançou o seu primeiro livro. Decidiu arriscar, depois de ver um anúncio de caça talentos na Gazeta da Beira. “O meu primeiro livro, “Espelho de Alma”, foi publicado em 2010. Foi um livro de poesia, sobre a minha perceção do amor, as saudades, a infância, tudo em versos. A oportunidade li-a num anúncio na Gazeta da Beira. Lia-se algo como: “Procuram-se novos escritores”. Tinha umas folhas escritas em casa que passei a computador e resolvi enviar. Não esperava que me respondessem, afinal existem muitas/os jovens que escrevem uns versos.

Uma boa notícia que Ekaterina não esperava e que a fez ter mais vontade de continuar. “A experiência foi inesperada e muito positiva. Tenho a consciência de que o facto de eu ter sido a “menina russa” que escreveu um livro de poesia fez a notícia ser mais admirável. Mas isso deu-me vontade de continuar a escrever e a aperfeiçoar”, conta.

A língua portuguesa, de aprendiz a mestre

Quando chegou a S. Pedro do Sul a língua portuguesa foi uma novidade. Bastou pouco tempo para que começasse a falar e a escrever. “Aprendi relativamente rápido. Era pequena e tive uma ótima professora primária, Helena Garrido, que me ajudou e apoiou nos primeiros tempos. Eu tinha conhecimentos de inglês e nos primeiros tempos comunicávamos em inglês. Primeiro aprendi a ler e depois de decorar os tempos verbais todos comecei a falar e a escrever”.

Hoje, a língua portuguesa é também a sua língua, apesar de querer apreender sempre mais. “Não, a língua portuguesa não tem nem significa qualquer barreira para mim. Contudo, ainda existem termos, expressões e ditados populares que descubro. Estamos sempre a aprender”, Explica Ekaterina.

Poesia a companheira da infância

Ekaterina descobriu o talento por acaso. Escrevia porque gostava de escrever. “Creio que cada um de nós já teve a vontade ou acabou mesmo por rascunhar alguma coisa. Poesia, prosa, versos de canções. Nem que seja na nossa imaginação. Comecei a escrever em adolescente não imaginava que poderia vir a publicar um dia.”, confessa.

Pode dizer-se que a poesia é sua companheira desde infância. Quando criança, gostava de decorar poemas para declamá-los aos seus pais. “Quando era pequena, vivia com a minha avó paterna, enquanto os meus pais dedicavam-se ao que nos proporcionava uma vida e bem-estar estáveis. Sempre que os meus pais me vinham visitar eu tinha que, obrigatoriamente, saber de cor um poema ou uma canção. Ai, muito poemas de poetas russos eu decorei. Hoje adoro ler poesia, não sempre, mas há dias que gosto mesmo!”

Viver da escrita, para já, não está nos planos da jovem poetisa. Escrever é para si, acima de tudo, um contentamento. “Escrever é um prazer. Escrever à nossa maneira, quando queremos, quando precisamos. Mas viver da escrita seria muito difícil, é um passatempo cultural e uma forma de arte terapêutica, posso dizer assim”.

De Tymen para S. Pedro do Sul

Ekaternina chegou a S. Pedro do Sul com apenas 9 anos. Um mundo diferente que a pouco e pouco, também tornou seu. “Vim para Portugal em Março de 2001. Vim com os meus pais. Foi uma decisão tomada em semanas, eu não sabia muito bem para o que vinha, os meus pais, por quanto tempo. Porquê? A resposta pode resumir-se nisto: de um dia para o outro deixamos de ter tudo o que tínhamos e passamos a não ter nada.”

Ekaternina e a família conseguiram, rapidamente, criar laços em S. Pedro do Sul. Como recorda a jovem imigrante, “Encontrei pessoas com um coração vasto que me ajudaram, desde professores, amigos, vizinhos e colegas de sala de aula. Por que motivo o fizeram nunca os questionei. Provavelmente por terem tido alguém na família que tenha emigrado, (Portugal também se despediu de muitos). Talvez por terem achado graça a uma menina loira numa aldeia pequena. Em criança, o que me unia aos outros era a inocência e a felicidade simples dos recreios. Não éramos diferentes apesar de eu preferir a corda ao invés do futebol. Mais crescida encontrei pessoas que se interessavam como era lá e eu “em troca” queria saber mais sobre cá. Agora já não existe essa separação. Portugal recebeu-nos muito bem. Considero-me totalmente integrada”.Redação Gazeta da Beira