Projeto universitário aproximou a arte dos reclusos
Projeto universitário aproximou a arte dos reclusos
• Patrícia Fernandes
Ana Gomes e Vera Matos, estudantes universitárias, conseguiram unir o Museu Grão Vasco ao Estabelecimento Prisional Regional de Viseu. O projeto chama-se “aCorda Liberdade” e nos últimos dois meses levou a arte do museu aos reclusos e a dos reclusos ao museu. Um intercâmbio fora do comum que quis esbater preconceitos e aproximar os reclusos da arte. Na reta final do projeto, a Gazeta da Beira esteve à conversa com as precursoras. Damos agora a conhecer: “aCorda Liberdade”
Duas instituições à partida antagónicas uniram-se no mesmo projecto: “ aCorda Liberdade”. A ideia partiu de duas alunas da licenciatura em Animação Social, da Escola Superior de Educação de Viseu, Ana e Vera, que no âmbito do trabalho final de curso quiseram unir “a parte cultural à parte social”. Como explica Ana Gomes, o projeto consiste na ligação entre o Museu Grão Vasco e o Estabelecimento Prisional Regional de Viseu. No Grão Vasco, semanalmente, “são expostas diversas mostras, onde estão patentes os diversos trabalhos realizados pelos reclusos”; para o Estabelecimento Prisional de Viseu “é levada uma parte do Grão Vasco, através de reproduções de obras do Museu e palestras sobre o museu e a cultura”.
“aCorda Liberdade”, mudou as rotinas dos reclusos do Estabelecimento Prisional Regional de Viseu. A arte passou a preencher-lhe os dias, que antes eram intermináveis. Trabalhos manuais, fotografias tiradas na prisão, cartas… foram muitas as formas de expressão. Criações variadas levadas para o Grão Vasco que deram origem a várias mostras que iam chamando à atenção dos que por lá passaram. Os objetivos são claros: por um lado pretendia-se «levar a arte aos reclusos»; por outro, “consciencializar a sociedade sobre o que é a liberdade de criação, como forma de se ter uma visão diferente dos reclusos e das suas capacidades”. Um projeto diferente que superou claramente as expectativas. Reclusos e público em geral, mostraram-se bastante receptivos. Como acrescenta Vera Matos: “A receptividade dos reclusos foi para nós uma surpresa muito positiva. Têm sido muito participativos, criativos e dedicados a cem por cento. De início, estávamos receosas; contudo, de imediato, esses receios desapareceram e no seu lugar ficou um sentimento de surpresa e de orgulho. Quanto ao diverso público que nos tem visitado, a recetividade tem sido extremamente positiva, conseguimos abranger neste projeto um público muito diversificado, que vai desde os mais pequenos aos seniores”.
Esbater Preconceitos
Concluído o projeto, Ana e Vera já voltaram à sua vida de estudantes com um “sonho por concretizar”. As duas jovens pediram uma autorização para que os reclusos pudessem sair do estabelecimento prisional e visitar o Museu. A autorização foi indeferida. Como conta Ana Gomes, “Só poderiam ir com a autorização da Direcão Geral dos Serviços Prisionais de Lisboa e só poderiam aqueles que já têm sentença. Para aqueles que estão em preventiva teria que ser feito um pedido a cada tribunal, respetivamente. Sendo assim, como apenas dois têm a sentença, consideraram que não se justificava a despesa”. Um objetivo por cumprir que em nada desmerece o projeto. Como acredita Ana Gomes, “ficou um pequeno objetivo por concretizar, mas tudo o resto correu muito bem. Foi muito bom trabalhar com aqueles homens e sabemos que os marcamos de alguma maneira”.
Em alternativa, as duas jovens terminaram o projeto com uma outra iniciativa cheia de simbolismo. Como acrescenta Ana Gomes, “acabamos o estágio com uma pequena palestra, na cadeia, com o Doutor Carlos Vasconcelos, sobre o tema: perseguir os sonhos e os objetivos. No final, conseguimos que autorizassem alguns reclusos a saírem ao pátio. Aí, fizemos uma largada de balões, simbolismo da cor e da liberdade, tal como o titulo do projeto”
Para quem conhece o projeto, como acrescenta a universitária, “todos afirmam ser um assunto muito pertinente e atual, havendo a necessidade da implementação de mais projetos como este”. Como crê Ana Gomes, “acreditamos que todos os reclusos têm, além do direito a serem reintegrados na sociedade, o direito de poder criar algo, serem criativos e crescerem enquanto pessoas culturais. Assim e dada a pertinência do tema, temos a firme certeza de que projetos deste género ajudam a atenuar os preconceitos que a sociedade cria em relação aos que estão numa situação muito desfavorecida”.
“aCorda Liberdade” chega agora ao fim. Um projeto que conseguiu aproximar os reclusos da arte, dando-lhes a conhecer “a cor de” uma “liberdade” alternativa, afinal, criar permite-os, nem que seja, apenas, virtualmente, “voar” para outros mundos, para além das grandes das celas. Na realidade, o projeto consegiu “acordar” a sociedade para a temática, e contribuiu para esbater preconceitos e ver os reclusos com outros olhos.
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Redação Gazeta da Beira
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