Destaque (Ed. 649)

Cantigas com alma

Canto Tradicional de Manhouce, um património a preservar

Ed649_destaque-02As cantigas de Manhouce remontam “à altura da serra, às profundezas do mar e cheiram a sargaço e rosmaninho”. São cantares com alma, que trazem tradições, memórias e vivências de um povo que se vai renovando e preservando o seu saber entre gerações. Numa altura em que se fala da possibilidade de os Cantares de Manhouce integrarem uma candidatura a Património Imaterial, assunto, abordado na última Assembleia Municipal de São Pedro do Sul, realizada, exatamente, nesta freguesia, a Gazeta da Beira faz o retrato do Canto Tradicional de Manhouce.

• Patrícia Fernandes

A fonte das cantigas de Manhouce é o povo,  as suas vivências, as suas tradições, as suas alegrias e tristezas. Como conta Isabel Silvestre à Gazeta da Beira, as cantigas são um “livro aberto da terra, da sua gente, do seu viver e do seu sentir”.

Transmitidas de geração em geração, estas letras contam muitas histórias. História da gente da terra, histórias da gente do mar, história de gente que, em tempos, vinham em viagem e pernoitavam na bela aldeia de Manhouce, local estratégico entre Porto e Viseu. Um vasto e quase infinito reportório que retrata cada condição da vivência humana. “Do berço à cova”, encontram-se canções para cada ocasião.

Ed649_Manhouce-DSCN6838Numa abordagem mais técnica, as cantigas, como explica António Alexandrino, têm muito a ver com o canto gregoriano. Como explica, “supõe-se que as raízes estão no cântico gregoriano, não é por acaso que nesta região há dois conventos  com muita importância na história, desde a idade média: o Convento de São Cristóvão, em São Pedro do Sul e o Convento em Arouca”.

As cantigas viajam pelo mundo

As cantigas tem sido levadas a muitos lugares. Já percorreram Portugal de lés a lés, já passaram um pouco por todo o mundo: Timor, Alemanha, Canadá, Brasil, Espanha, França, Macau são só alguns exemplos. Lugares, culturas, línguas diferentes… a mesma reação, como garante, Isabel Silvestre, todos os locais, por onde tem passado, têm sido muito recetivos aos Cantares de Manhouce. Como refere, esta música tem uma grande “capacidade de transmitir os seus valores a quem quer que a ouça”.

As cantigas que viajam pelo mundo têm dado, também, a conhecer a sua terra, além fronteiras: Manhouce. Como referiu o Presidente de Junta, Carlos Laranjeira, “as cantigas de Manhouce são um grande orgulho para a nossa freguesia, têm dado a conhecer a Terra e aquilo que ela tem de melhor é ter levado o nome de Manhouce mais longe”.

Um património com futuro

Para o pároco da freguesia, Luís Carlos, as cantigas de Manhouce são “a alma daquela gente”. Como acredita, na freguesia,“não conheço ninguém que não saiba cantar em Manhouce, não conheço ninguém que não saiba estas cantigas”. Como acrescenta, na freguesia esta arte assume grande importância, “quase todos são envolvidos pela música”.

A geração mais nova também já se entusiasma com estas cantigas. Meninas, ainda no ensino primário, cantam com garra os cânticos da terra, tornando firme a esperança de continuidade no futuro. Como refere Maria do Céu, “nós temos meninas integradas com 6, 7 anos que começam a viver este sentimento que é a música. Penso que o futuro estará garantido, estas meninas vão ser continuadoras da nossa música”.

António Alexandrino usa as palavras de Paulo Ferreira, com rubrica assinada no Jornal de Notícias, para provar o valor da cultura. Como disse, “não há povo que resista sem cultura”. Se não há povo que resista sem cultura, o contrário, também é verdade. Um povo que saiba perpetuar o seu património é eterno. Parafraseando o galego Jesus Lopez Pacheco, “Povo que canta não morrerá”.  Como deseja Isabel Silvestre, “há que conservar as cantigas, há que registar este património e dá-lo a conhecer no futuro, porque isto somos nós”.

Este é o desafio destas cantigas: continuar a viajar, de país em país, de geração em geração, com a qualidade que este modo de cantar já habituou os muitos ouvidos pelos quais passou.

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