31/07/2014 (Ed. 659)
Texto e fotos de • Jorge Sofia*
O bichado da noz
Só nos voltaremos a encontrar em Setembro. Em finais de Setembro é o S. Miguel, altura de muitas feiras, nomeadamente das feiras das nozes. Nestas feiras vende-se e recorda-se os produtos e o modo de viver da nossa agricultura de antanho. Um dos produtos mais apetecidos desta altura são efetivamente as nozes, abundantes nesta altura. O senão é quando compramos uma cestada das ditas, tendo a escolha sido baseada no nosso livre arbítrio de agricultores (que todos somos um pouco, e isto não há como comprar ao agricultor, que-elas-não-têm-cá-químicas) e na nossa esperteza saloia (que achado! Tão baratas que estavam!) e ao chegar a casa e ao abri-las, quer na mão (à pai de família ou benfiquista), quer entalando-as na ombreira da porta ou mesmo debaixo da perna da cadeira, damos conta de que estão todas chochas e cheias de teias e de um pó estranho! Realizamos então que o bondoso velhinho que tão barato nos vendeu as nozes (faço-lhas a este preço, porque já é tarde e tenho de apanhar a carreira…) era afinal um farsola que já a sabia toda e que nós fizemos o papel destinado ao gado asinino….
A causa do infortúnio encontrado nas nozes é o bichado, voraz lagarta, prima da que escava buracos na maçã, mas especializada em nozes (até os bichinhos, Senhor!). Mas como é que ela foi parar à noz? Tudo começa com o/a inseto adulto que é uma borboleta do género das traças que começa a voar pelo nogueiral por meados de maio. Assim que encontra um companheiro/a à altura, acasala e se for uma fêmea irá começar a pôr ovos nas folhas e nos pequenos frutos ainda em crescimento, após alguns dias nascem as pequenas larvas que iniciam a escavação de uma galeria tendo como objetivo o miolo da noz. A lagarta permanece no miolo, ali se alimenta e cresce até se tornar uma lagarta adulta. Nesta altura abandona o fruto e vai procurar refúgio no solo ou em fendas do tronco para passar a pupa (crisálida, lembrai-vos dos bichos da seda!) que depois se converte em borboleta. A vida deste inseto compreende duas gerações em cada campanha, ou seja dois ciclos completos de vida. Os frutos atacados pela 1ª geração caem em meados de junho. A 2ª geração começa a atacar no mês de agosto, sendo estas as larvas que vamos encontrar no fruto maduro.
Se este problema é grave nas suas nogueiras, haverá que lutar contra ele. Se não gostar da hipótese química, pode tentar colocar cintas de cartão canelado, de 20 cm de largura atadas em torno do tronco, logo abaixo da inserção dos ramos. Estas cintas irão simular refúgios, onde as lagartas adultas irão procurar abrigo para puparem. Naturalmente terá de tirar e destruir as cintas no final de cada geração. Se optar pela luta química, então deverá adquirir e colocar, para determinar as datas para a realização dos tratamentos com maior probabilidade de êxito, armadilhas tipo “delta” com feromona sexual. A feromona é um sinal químico emitido pelas fêmeas para atrair os machos. Assim na armadilha só cairão machos. Se formos anotando semanalmente o nº de machos capturados, saberemos qual á a altura do acasalamento (quantos mais machos houver, mais fêmeas haverá, toda a panela tem o seu testo) e da postura, podendo assim proceder à aplicação de um inseticida. O único inseticida autorizado é o diflubenzurão, que atua impedindo a larva de crescer e portanto de se tornar adulta. Estes tratamentos deverão ser renovados de 4 em 4 semanas até a casca enrijar, ou sempre que chova mais de 25 litros.
Para quaisquer dúvidas ou esclarecimentos, estamos disponíveis através do correio electrónico
jorge.sofia@drapc.mamaot.pt
* Engenheiro, Técnico Superior da Estação de Avisos do Dão / Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Centro
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Redação Gazeta da Beira
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