CULTURA (Ed. 835 a 853)

• Carlos Alberto Paiva / Fotos de Ana Rosa e de Hugo Carvalhal

Edição 853 (13/07/2023)

Descalça, Leonor

Foto de Hugo Carvalhal

Descalça,

Leonor não se segura

Da valsa

Entre a flor e a verdura,

Balança,

Criança,

Desenha arabescos no asfalto,

Levanta

O saiote em desafio,

Sacode

O capote que vestiu,

Vermelho

Desejo

Que floriu entre o alvor,

‘Spalhando cor.

Manhã

Enseada de naufrágios,

Afã

D’ ir em busca dos teus lábios,

Rosados,

Molhados,

Orando a Santelmo lá no alto.

A ‘spuma

Lá na quilha do navio,

A bruma

Eis que brilha no baixio,

Perigo

Antigo,

Vem do tempo de Quinhentos,

Trazido pelos ventos…

Leonor,

Entre o Sol e a Lua,

Dou em troca

Todo o sal da minha boca

Pelo mar, Leonor,

Pelo mar que há na tua.



Edição 852 (29/06/2023)

SILÊNCIO

Foto Hugo Carvalhal

Nascem ervas daninhas

No silêncio que amarra

Minha voz que tu ouvias

Enlaçada na guitarra

 

Há serpentes que deslizam

Entre as rosas dos canteiros

Sorrateiras não avisam

Quando chegam com enleios

 

Meu jardim de raros cantos

Rosas plenas de negrume

Meus espinhos que são tantos

Perfumados de ciúme

 

Canto à sombra da Saudade

Que entardece no Outono

Vagueando p’la cidade

Cão perdido sem ter dono

 

Há relâmpagos nocturnos

Nos olhar’s que não trocamos

Há promessas, há mil rumos

Nestas mãos que já não damos

 

Neste chão em que floresço

Ao contrário do desejo

Vem o Sol e anoiteço

Morro à sede só dum beijo



Edição 851 (15/06/2023)

Trovoada

Tua voz é um trovão,

Faz tremer o próprio chão Onde dorme o meu Amor, A semente que floresce Tão-somente se aparece Chuva farta ao meu redor.

 

Trovoada na ‘stação Vem mandada pela mão

Dalgum deus sem ter altar,

Vem da ‘sfera mais longínqua, Chove a pedra mais oblíqua, A meus pés vem desabar.

 

Abre poças que atolam Minhas corças que imploram A clemência lá do céu,

Tempestade não tem fim Lamaçal no meu capim,

A semente emudeceu.

 

Foi pisada pela corça, Pela cria ainda moça Sem saber por onde vai.

Sem seguir a vez das outras, Que saltitam pelas poldras, Pisa onde a chuva cai,

 

Lá tão fundo se enterra Essa flor de Primavera Onde o saibro é senhor. O meu tempo é de sobra,

Vou ‘sperar o mais que chova ‘Té florir o meu Amor.



Edição 850 (25/05/2023)

Pensamento

Por vezes escrevo melhor

Quando não tenho na mão

Caneta de qualquer cor,

E tais instantes são

De uma tal plenitude,

E de tal modo inesperada,

Que mesmo quando pude

Na verdade não quis nada –

Zero, coisa nenhuma! –

Mesmo tendo à mão papel,

Tinteiro, pluma,

E as ideias, em carrossel,

Pediam às linhas carril.

Dou por mim assaz convicto,

Neste estado assim febril,

De ficar tão melhor escrito

O que o foi sem caneta.

Por vezes, sai melhor feito,

Se o for sem ferramenta,

O que só com ela teria jeito.

Comigo não. Sou bem mais hábil

Nesta etérea oficina,

Tal como a vida é mais fácil

Quando apenas se imagina.



Edição 849 (11/05/2023)

Rosto Lunar

A Lua não tem feitiço,

Antes eu lho ordeno,

Desde o momento mais pleno

Ao seu instante magriço.

Creio que posso afirmar:

Tal me varia o humor,

Tal é delírio ou torpor,

Assim a fase lunar.

Basta que ‘stejas presente,

Que te acerques do flanco,

Vê-se no céu traço branco,

Ei-la no quarto crescente.

Se porém ‘stás distante,

Te arrefece o olhar,

Eis passa o rosto lunar

A se mostrar já minguante.

Mas pode ser a candeia

Que todo o céu alumia,

Como se fosse já dia

Ela contigo é tão cheia.

Hoje, porém, não estorva

No céu as outras estrelas.

Tu não quiseste acendê-las,

Eu todo sou Lua Nova.


Edição 848 (27/04/2023)

Nas vagas deste mar

Eu não fui além

Do Bojador,

Nem sequer sei quem

Foi o senhor…

Quem foi ao Brasil?

Sei lá quem foi…

Se foi num barril,

Foi um herói!

Eu não conheci

Adamastor,

C’ um feitio assim

Foi bem melhor.

Não fui a Macau,

Não cheguei lá,

Barquinho em pau,

P’ra mim não dá…

O Sol no Japão

Não vi nascer,

Sol aqui à mão

P’ra quem quiser.

Eu não descobri

Lugar nenhum,

Quem tu vês aqui

É só mais um.

Ó meu amor,

Quem é português

Navega a dor

De só ficar bem

Com quem não ‘stá,

Num lugar além

Que já não há.

Quem lá quer chegar

Só tem de naufragar

Nas vagas deste mar

Que andamos todos a sonhar.


Edição 847 (13/04/2023)

Páscoa baixa

• Carlos Alberto Paiva

O sangue de Cristo,

Já morto mas vivo,

É O-negativo.

No lenho da cruz,

Despido, Jesus,

Desfeito na luz,

Objecto de fúria,

Buraco de agulha

Na carne mais dura,

Os braços abertos,

Vorazes insectos

Nos golpes infectos,

Coroa de ‘spinho

Dum Homem sozinho,

Entregue ao destino,

Fiel a Moisés

A Morte rés-vés,

Maria a seus pés,

Foi bom de seguir,

É bom de cuspir

Na pele dum faquir,

Furor do milagre,

Clamor da verdade,

Sabor a vinagre,

O ‘não’ vezes três,

Escarro soez

Na frágil nudez,

Boneco de palha,

O fogo s’ espalha

Na voz da maralha,

O tempo ‘squecendo

Seus olhos d’ amêndoa,

A turba roendo-a…

O sangue de Cristo,

Já morto mas vivo,

É O-negativo.

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Parar e pensar

• Paula Jorge

Edição 848 (27/04/2023)

Prazeres

A sala está em silêncio

Perguntas sem sentido rompem no ar

Olhos vazios se intrigam

Gritos de aflição quase a sufocar

 

A dor do abandono

A dor das feridas abertas

Cabelos brancos mostram que o sonho

Se esqueceu destas vidas incertas

 

Um ponto fixo no horizonte

Um dedo que estala sem parar

A boca trémula tenta dizer

Leva-me daqui, estou somente a naufragar

 

Para ela leio poesia

Sei que um dia vou concluir

Solta-me um sorriso atrevido

Que me ajuda a refletir

 

A vida escapa-lhe das mãos

Sem que eu nada possa fazer

Abala e não me diz adeus

Fico com minha alma a tremer

 

Um dia vou terminar de ler

Aquilo que lhe comecei

Num cantinho lá no alto

Recordando tudo quanto amei

 

Suas palavras tão sábias

Que apenas nos fazem lembrar

O quão pequenos somos

Grande é o caminho a pisar

 

Caras pálidas… dedos longos

Desleixados, olhando o nada

Temo um dia adormecer

E acordar assim de madrugada

 

É uma sala sem nome próprio

Onde todos se conhecem bem

Cada dom mostra seu dono

E eu junto-me também

 

Frases soltas sem um norte

Mostram dor pelas partidas

Nem as rosas fazem esquecer

Que estas são vidas perdidas

 

Quem me dera que o mar viesse

E entrasse de mansinho

Salpicando-nos a cara

E os pés um bocadinho

 

E se consigo trouxesse areia

Melhor seria a terapia

Muitas graças dava a Deus

E chorava de alegria

 

Um dia atrás do outro

E mais outro sempre igual

Vou quebrar-lhe a rotina

Fazer com que se sinta especial

 

O sonho já não é real

O tormento lhe ocupa o dia

Resta a espera do vazio

Sobram horas de agonia

 

Uns alerta de vigia

Para que a dor fique à porta

Não vá o diabo tecê-la

Porque Deus já não se importa

 

As folhas vão caindo

A lua de novo espreita

E aquela pobre vida

Que jamais se endireita

 

Trago comigo a esperança

E uma lufada de ar fresco

Agradeço a confiança

E todo o vosso apreço

 

Uma vida tão vivida

Filhos criados com dor

Um lar feito com esforço

Traduz a entrega e o amor

 (Capítulo “Prazeres” do livro PAULA, Chiado Books, março/2018).


Edição 847 (13/04/2023)

• Paula Jorge

Hoje sinto-me triste

Não tenho forças para caminhar

Não me apetece sequer sorrir

Apenas quero parar e pensar

 

Hoje sinto-me triste

Carrego o mundo com a maior dor

Aquela que a traiçoeira morte leva

A perda no seu amargo esplendor

 

Hoje sinto-me triste

Por todos a quem Deus não valeu

Por aqueles que mereciam mais do que eu

A oportunidade de viver sem sofrer

 

Hoje sinto-me triste

Com os ousados que se dizem poetas

Apenas vomitam palavras ocas

Apenas vomitam palavras loucas

 

Hoje sinto-me triste

Revoltada e sem esperança

Não escondo o corpo a fraquejar

Apenas quero parar e pensar


Edição 846 (30/03/2023)

Quem

foto Hugo Carvalhal

Quem afastou essas nuvens

Não foi o vento, fui eu.

Quem quer saber se tu vens,

Já não me lembra, ‘squeceu…

 

Quem fez brilhar esse Sol,

Se Deus não foi, quem será?

Quem vai ao mar sem farol

Só navega ao Deus-dará.

 

Quem fez cantar rouxinol

Foi o da flauta de Pã,

Fez explodir o paiol

Da estrela da manhã.

 

Quem fez o cravo crescer,

Crescer por entr’ os ciprestes,

Foi uma deusa qualquer

Lá dos domínios celestes.

 

Quem fez nascente chorar,

Quem fez regato sorrir,

Foi quem queria voltar

A quem tinha de partir.

 

Quem faz amor sem amor,

Quer receber sem que dê,

Pois quem seja, pois quem for,

Já nem pergunto porquê.


Edição 845 (16/03/2023)

Estrada fora

Pois é quando a ficha cai,

Perguntamos onde vai

Esta gente ‘sbaforida.

Tantos passos que são dados,

Serão certos ou errados,

Quem o sabe? Só a Vida.

 

Cada passo que tu dês,

Seja ou não na tua vez,

Pode ou não ser em falso.

Pode ser, no teu caminho,

Que tu percas o destino,

Ou que sofras um percalço.

 

Eu sei lá, são tantas hipóteses,

Que vai na volta bem podes

‘Star seguro da passada;

Ele há ‘stradas tão certinhas,

Tão elegantes nas linhas,

E no fim… não dão em nada!

 

Em contrapartida, no entanto,

Há ‘stradas por onde eu ando,

Sinuosas, serpenteantes,

Nem sei o que tenham de belas,

Mas ao chegar ao fim delas,

Já não sou quem era antes.

 

Mais que pense, mais que cisme,

A ‘strada contradiz-me,

Não há meio que deslinde!

E no meio da aventura,

Neste jogo do empurra,

Só me pede que caminhe.



Edição 844 (23/02/2023)

Travessa de Alfama

Levo o Fado numa cesta

Balançado na cabeça

P’ra vender à discrição

E embora não pareça

Tenho feito na Travessa

Da Tristeza meu pregão

 

Fui à Horta da Saudade

E comprei só por metade

Os seus frutos mais amargos

P’ra vender por essas tardes

Quando tocam as trindades

Para alívio dos encargos

 

Meu Amigo, como vês

Tem razão todo o freguês

Que me pede dois por um

Sem ‘squecer qualquer má rês

Que armado em burguês

Quer deixar-me sem nenhum

 

Pelos becos e travessas

Vou mantendo as promessas

Do que vendo ser melhor

Regateios e conversas

Viro a cesta das avessas

Canto o Fado meu de cor


Edição 843 (16/02/2023)

O Preguiçoso

Esqueci-me de lembrar

O que era p’ra fazer

Sucedeu em seu lugar

Eu lembrar-me de ‘squecer

Amanhã se eu puder

Entr’ as duas e as três

O que for p’ra eu fazer

Vou ‘squecer-me outra vez

Gosto de fazer nenhum

É a minha profissão

Se puder’s fazê-lo tu

Agradeço pois então

Se me lembro de ‘squecer

O que nunca mais se faz

Fico certo de eu ser

Como sou: tão eficaz

E se dou por mim ao Sol

É melhor dar aos pedais

‘Star à sombra é bem melhor

Faço menos mas sou mais

Sou cigarra e sou feliz

Ser formiga não me apraz

Quanto menos eu já fiz

Mais consigo ‘star em paz

Se eu nunca vou saber

Na verdade quanto valho

É tão-só por entender

Qu’ isso dá muito trabalho


Edição 842 (26/01/2023)

Máscara

Foto de Hugo Carvalhal

Já enfim ninguém quer ser

Tão-somente parecer

Balão cheio de vazio

Para quê sair da casca

É mais fácil uma máscara

Presa apenas por um fio

 

Mesmo assim anda feliz

Enche a boca quando diz:

‘O que sou é tão dif’rente’

Vai dizendo, enganando

Vai rompendo, vai trocando

A plumagem de serpente

 

Se um dia não lembrasse

De levar o meu disfarce

Para o Baile do Fingir

Não havia quem dissesse:

‘Essa cara que trouxeste

Faz lembrar outra que vi’

 

Hoje temos matiné

Pode ser-se o que se é

Só até o Sol se pôr

O que tenho mais autêntico:

O papel que represento

Sou bem mais se nunca for

 

Porventura não distingo

O que penso do que sinto

O que lembro do que ‘squeço

Para o resto do viver

O que sobra senão ser

Por inteiro o que pareço

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• Paula Jorge

Um grito em sufoco

Percorres o meu corpo deixando marcas.

Julgas-te dono de mim… e na verdade é certo que o és!

Em tempos, não me importava com o ciúme, confesso que desse modo me sentia desejada, protegida de todos os males, porque tinha alguém que me “amava”.

Usas e abusas do meu ser. Já não me importo. Não tenho mais trilho para caminhar. Sinto as feridas da tua monstruosidade, sinto cada fenda cravada por ti, sinto… ou já nada sinto que me perturbe a alma. O meu estádio de entendimento chegou ao limite da loucura, por fraqueza, ou talvez porque já não me importo comigo.

Será que Deus se esqueceu de mim? Ou terei de fazer um pacto com o Diabo?

Soltar as amarras é mais difícil do que me acovardar. Gritar por socorro é mais difícil do que me silenciar. Enfrentar o monstro é mais difícil do que me encolher na sua cama. Tento pedir socorro. A voz não me sai. O sufoco invade o meu corpo, como se o medo fosse o único sentimento a ter voz. O medo é de facto o único sentimento que existe em mim. Já não me restam forças para lutar.

Queria tanto contar-vos uma história com um final feliz, a minha história. O grito não me sai, o sufoco tomou conta das minhas entranhas, já nem o choro me é permitido.

Queria desprender-me dos grilhões que me atormentam, das lâminas que me sangram o mais puro estado de espírito, queria… Perdoem a minha fraqueza perante uma força que eu própria reconheço ser hedionda. Sim, porque alguém que me violenta todas as noites é um estupor danado que não merece viver. E, no entanto, sou eu que estou a desistir.

Escrevo para vos dar força, não percam a esperança, não permitam que vos roubem o sorriso. A minha história não tem um final feliz, porque eu sou fraca, porque eu não peço ajuda, porque eu não ouso sair do lamento, porque eu estou cansada, cansada, cansada…

Carrego somente as folhas secas, as flores murchas, o vazio, o ausente. Talvez a minha história seja um despertar para ti, uma sirene do desespero, um sino que não para de tocar. Muda tu a tua história e permite-te apenas o que tu quiseres.

Mas… eu estou cansada. A minha história acaba aqui, porque há histórias sem um final feliz.

(Dedicado a todas as vítimas de violência doméstica – Poema que foi passado em vídeo no Sarau Cultural dinamizado pelos alunos do 9.º ano do Agrupamento de Escolas de Santa Cruz da Trapa, dedicado a todas as vítimas de violência doméstica do concelho de São Pedro do Sul, no Centro Cultural e Recreativo de Santa Cruz da Trapa, no dia 11 de março de 2022).


Edição 841 (12/01/2023)

Eterno ‘spacial

Hão-de os séculos passar

Há-de o pó no chão cair

Da ‘splosão tão invulgar

Dos teus lábios a sorrir

 

Há-de o Cosmos regressar

Ao princípio que já foi

Há-de o tempo encontrar

Um amor que me perdoe

 

Hão-de ‘strelas preencher

Firmamentos de cetim

Para o mundo perceber

Luz maior só vem de ti

 

Há-de o tempo inventar

Um futuro p’ra nós dois

Um passado sem passar

Onde o Sol nunca se pôs

 

Hão-de os astros revelar

Os segredos que há no céu

E por fim irá voltar

Meu amor que se perdeu

 

Hão-de as cinzas reviver

Sua glória de existir

O que não deixou de ser

Só por não saber partir

 

Há-de haver quem não me quis

Só à ‘spera dum sinal

P’ra voltar a ser feliz

No eterno ‘spacial


Edição 840 (29/12/2022)

PRESÉPIO

Afinal de contas, José,

Há várias horas em pé,

Já não aguenta das cruzes,

E o barulho das luzes,

Por incrível que pareça,

Faz-lhe doer a cabeça,

Claro ‘stá, a Maria, sua esposa,

E num quadro de lousa,

Baltasar deita contas ao preço

Do camelo para o regresso.

Pouco lhe sobra do espólio,

E ao preço que ‘stá o gasóleo,

Nem comboio, nem táxi, nem TVDE,

Melhor mesmo é ir a pé!

Melchior, por seu turno, não faz caso:

Chegar cedo ou com atraso,

Para ele, é fotocópia,

Trabalha por conta própria.

Já Gaspar não ‘stá ralado:

Trouxe o camelo atestado,

4X4, motor híbrido,

De conforto, um pouco rígido,

Mas fiável, robusto – camelo do ano!

Há que cuidar do bichano.

Por exigência do PAN,

Vaca e burro estão fora do clã,

E o próprio menino Jesus,

Como, facilmente, se deduz,

Saiu daqui, foi para o seu quarto,

‘Stá, neste momento, a jogar PS4,

Todo contente, lá no seu canto,

Salvará o mundo, entretanto…

Mas, por agora, dá-lhe igual:

“Não incomodar… e um Feliz Natal!”


Edição 839 (15/12/2022)

Quando a ficha cai

Pois é quando a ficha cai,

Perguntamos onde vai

Esta gente ‘sbaforida.

Tantos passos que são dados,

Serão certos ou errados,

Quem o sabe? Só a Vida.

 

Cada passo que tu dês,

Seja ou não na tua vez,

Pode ser ou não em falso.

Pode ser, no teu caminho,

Que tu percas o destino,

Ou que sofras um percalço.

 

Eu sei lá, tantas hipóteses,

Vai na volta tu bem podes

‘Star seguro da passada,

Mas há ‘stradas tão certinhas,

Tão elegantes nas linhas,

E no fim… não dão em nada!

 

Em contrapartida, no entanto,

Há ‘stradas por onde ando,

Sinuosas, serpenteantes,

Nem sei que tenham de belas,

Mas ao chegar ao fim delas,

Já não sou quem era antes.

 

Mais que pense, mais que cisme,

A ‘strada contradiz-me,

Não há meio que deslinde!

E no meio da aventura,

Neste jogo do empurra,

Só me pede… que caminhe.

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• Paula Jorge

As Palavras são como Armas

Como não temer as palavras se elas nos atingem o coração, por vezes de forma meiga, por vezes causando verdadeira explosão?!

Como não temer as palavras se elas dizem tudo aquilo que a alma nos confidencia, ora em maré calma, ora causando a maior agonia?!

Como não temer as palavras se elas são como armas que manejamos tal como a destreza dos soldados, causando as mais fortes emoções, alucinantes pecados, em perfeitas orações?!

Como não temer as palavras se com elas aprendemos a ser gente, choramos e rimos, ousamos outros eus, caminhamos na estrada da vida, pintamos os sonhos e alcançamos os céus?!

Como não temer as palavras se elas nos elevam no barulho do silêncio ao romper de tabus e iluminam nobres ideias que a um passado fazem jus?!

Como não temer as palavras se elas são como escudos, bombas que ferem ou maresia que acalma os mais tempestivos estados de alma?!

Pois eu temo as palavras, dizendo-as talvez de forma bela, mas usando-as com a maior cautela…

* (Poema que alcançou o segundo lugar no Desafio de escrita “Teatro das Palavras Soltas” – Poesia de Alencriativos – novembro de 2022)

 


Edição 838 (24/11/2022)

Pra onde vais

• Carlos Alberto Paiva / Fotos de Ana Rosa e de Hugo Carvalhal

Pra onde vais, Poesia,

À hora do meio-dia,

Que tanta falta me fazes

À minha vida vazia?

 

Pra onde corres, veloz,

À hora de ser manhã,

Porque me deixas a sós

Com esta vida tão vã?

 

Desaprendi o caminho,

Não reconheço os sinais,

Talvez me seja o destino

Não encontrar-te jamais.

 

Se me trocaste por outro,

Se me traíste o engenho,

Ainda menos suporto

Dor que não tem mais tamanho.

 

Podemos bem, Poesia,

Os dois tornar-nos amantes,

Por uma noite ou um dia,

Só para ser como dantes,

 

E no teu corpo abstémio,

Com tal sabor agridoce,

Voltar a ser o boémio

Que tu não qu’rias que fosse.


Edição 837 (15/11/2022)

Desqueredor-mor

Quero saber porque aquilo que mais quis

Não foi, até hoje, coisa a que chamara finda,

E se é ter-se o que se quer que faz feliz,

Não sei, então, porque o que quis o quero ainda.

 

Melhor fora não querer, não ter sequer o direito,

Ser a vida, desde logo à partida, tão-somente desilusão.

É caprichoso o querer: não se basta com satisfeito,

Quer sempre e ainda mais, se mais lhe dão.

E é por isso natural que eu não te queira…

Poderia ser que te tivesse e ter-te seria um erro.

Querer-te-ei, sim, mas tão-só desta maneira:

Este tanto que me contrario – é isso que te quero.

 

Quiçá se um dia te deras a mim por inteiro,

Tal fora, p’ra quem te desquer, maior benesse –

Assim seria eu, em teu querer, alcandorado ao primeiro

Que tiveras, sem que eu jamais te quisesse.

Eis que agora, por meu desquerer, me vejo assim –

Logo eu, que só sobre o que quis fui sincero –,

Tal que acaso me confessas o quanto queres de mim,

Eu emudeço, e já só que me queiras é, afinal, quanto quero.

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• Paula Jorge

Sou estudante da vida

Sou estudante da escola, sou estudante da vida

Quero aprender a ser, a sentir, a fazer

Não crio empatia com um mecanismo falhado

Para ser fantoche ou bobo não fui talhado

Numa aprendizagem de valores, eu quero ser o melhor amigo, o melhor irmão, o melhor de coração

Quero também ensinar o outro a colocar-se no meu lugar

Desta forma mais depressa lá vai chegar

Sou pessoa que quer crescer…

Crescer no amor

No conhecimento de mim e do outro, sem ocultar a dor

Às vezes, sinto a fraqueza, a dúvida, a incerteza

Às vezes, sinto a maldade a apoderar-se de mim

Este é o caminho que apenas com a desistência tem fim

Mas eu quero ser mais, nesta estrada, com altos e baixos, talhada

Eu quero ser luz em tua escura madrugada

E se apenas um ser eu iluminar

Sinto que valeu a pena

Pois ganhei a jornada

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Edição 836 (27/10/2022)

Honoris Causa

Enfim peço eu desculpa

Por não ser da laia culta,

Ilustrado pensador.

Não tirei doutoramento,

Mas tirei um cem por cento

No exame do Amor!

 

Alcançar tais resultados

Não é coisa de aprumados

Que só ‘studam dia inteiro.

Na ciência do Amor,

Para um homem ser doutor,

Há que ser um gazeteiro.

 

Abomino matemáticas

E não ligo às gramáticas,

Não serei jamais finório,

Pois tão pouco me interessa

Traduzir uma conversa

Para grego ou latinório.

 

Cá m’ entendo bem melhor,

E os truques sei de cor,

Do que ‘sconde o coração.

Não pensei que o diria,

Mas não tarda a Academia

Dá-me honoris, pois então!

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• Paula Jorge

S. Pedro do Sul

Sonhei um dia ser uma pena

E ao sabor do vento voar

Visitar lugares encantados

  1. Pedro do Sul abraçar

 

Cidade com muita história

Monumentos vou apreciar

A Pedra Escrita em Serrazes

Fez-me parar para pensar

 

Pensar nas raízes de um povo

Ir ao Convento de S. Cristóvão de Lafões

Caminhar na ciclovia das Termas

Degustar os deliciosos rojões

 

A Serra da Arada vou percorrer

Com o Castro da Cárcoda me encantar

As vozes de Manhouce irei ouvir

As memórias de infância a surgir

 

O Palácio de Reriz mostra-se honroso

E fascina quem por ele passar

Eu que sou uma suave pena

Nele pouso para o admirar

 

Percorro mais um bocadinho

E ao Solar dos Malafaias vou ter

Em ruínas este se encontra

Destrói o coração de quem o vem ver

 

As piscinas romanas de D. Afonso Henriques

Nas Termas vou visitar

Monumento nacional classificado

Que muito tem para mostrar

 

Na capela da Senhora da Guia

As famílias se juntam a conviver

Depois de a romaria cumprir

É hora de o farnel comer

 

Nas milenares Termas vou tratar

As maleitas do corpo e da mente

Com água mineral medicinal

E com o belo meio envolvente

 

No Lenteiro do Rio vou passear

A vitela de Lafões saborear

Ao Monte de S. Macário subir

Para o incrível horizonte aplaudir

 

E para terminar com doçaria me vou deliciar

Dos Pindelinhos, aos Vouguinhas e ao Pão-de-ló de Sul

Até ao mel da nossa serra

Iguarias como estas

Com paisagens a condizer

Só encontro em S. Pedro do Sul

Onde o povo tão bem sabe receber!

 

O rio Vouga sereno e calmo presenteia-nos ao passar

Mostra os seus encantos ao céu azul

O arvoredo de verde intenso preenche-nos o olhar

Apaixone-se pelo concelho de São Pedro do Sul


Edição 835 (13/10/2022)

Cão de Fila

Foto de Hugo Carvalhal

Ao dealbar mais tranquilo,

Fui dar comer ao redil,

Lá onde o Medo adormece.

Se não tivesse tal fome,

Bem seria mais conforme

Que de acordar se ‘squecesse.

 

Qual bicho de criação,

Que vem comer-nos à mão

Um qualquer pedaço d’ osso,

Após rosnar entre dentes,

Põe-se a latir de contente

A quem lhe der o almoço.

 

Pede no dorso uma festa,

Tira depois uma sesta,

Tal outros bichos o fazem.

Nesse intervalo que passa,

Enquanto o Sol não abrasa,

A gente ganha coragem,

 

Mas quando vai pr’ avançar

Temos aos pés a ladrar,

A ostentar os caninos,

A besta que é mais feroz,

Que vive dentro de nós,

Se nutre do que sentimos.

 

O Medo é cão de fila

E ao guardar-nos a Vida

Finge que dorme no sono.

Um dia vais perceber:

Se não lhe deres de comer,

Vai procurar outro dono.

 

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Mangualde no meu coração

• Paula Jorge

Ao concelho de Mangualde

Belos lugares vim visitar

Contemplei a Torre de Gandufe

Uma saudosa construção militar

 

Entrei na Igreja da Misericórdia

E o terço rezei com devoção

De seguida fiquei deslumbrado

Com o Mosteiro de Santa Maria de Macieira Dão

 

Bebi água na Fonte da Ricardina

E por um anjo me apaixonei

Num cenário de romance e de saudade

A mil aventuras me entreguei

 

Perdi-me na Abadia de Espinho

Mas com rosas me perfumei

Subi à Nossa Senhora do Castelo

Ao fim de tantos degraus eu suspirei

 

O Palácio dos Condes de Anadia

Muitas histórias tem para contar

Ficara eu eternamente enamorado

Com os afetos do conto popular

 

É uma casa barroca setecentista

Com uma nobre construção

Quisera eu lá habitar

E trazê-la no coração

 

É forte a Torre do Relógio Velho

E as horas passam devagar

Belas são as moças de Mangualde

Com tanta alegria para dar

 

Visitei a Capela do Rebelo

Com tamanha beleza chorei

Quem me dera alcançar o Céu Eterno

O ar puro nestas terras respirei

 

Fui à Anta da Cunha Baixa

Um monumento fúnebre coletivo

Tudo aqui é serenidade

O espaço é simples, mas altivo

 

Entrei na Igreja de S. Julião de Azurara

Património que apreciei com paixão

Visitar cada recanto da cidade

Fez de mim um poeta com inspiração

 

No Museu de Mangualde eu me perdi

Com frescos e pinturas me encontrei

Azulejos e camafeus em exposição

Numa coleção que para sempre guardarei

 

Na aldeia de Quintela de Azurara

Ainda se cumpre a tradição

O Carnaval faz-se à volta da fogueira

Para afastar os pensamentos de aflição

 

No Valério vou degustar

O cabrito no forno e os nacos à beirão

Acompanhados escrupulosamente

Com o bom vinho das castas do Dão

 

Por fim, vou saborear

No Patronato, um pastel de feijão

De origem conventual

Passado de geração em geração

 

Na Feira dos Santos vou provar

As febras, os enchidos e o queijo da serra

Já com séculos de existência

Rica é a tradição desta terra

 

Que a homenagem lhe seja feita

À bela Ana de Castro Osório

Escritora, jornalista e professora

Mangualdense com tão belo reportório!



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