CULTURA (Edição 833 e 834)

• Carlos Alberto Paiva / Fotos de Ana Rosa e de Hugo Carvalhal

Edição 834 (29/09/2022)

Hora da Sesta

• Carlos Alberto Paiva

O assunto era sério –

À porta do cemitério,

Reunida a populaça,

Na boca daquela turba

Repetia-se a pergunta:

‘Afinal, o que se passa?…’

 

O retorno foi rotundo:

Que lá na cova do fundo

Era bizarro o cenário:

Exumara a braços nus

Nossa Maria da Luz

O seu falecido Hilário.

 

Da solidão se cansara

E o que a Morte não separa

O Amor volta a juntar:

No seu colo, qual berçário,

O corpo inerme de Hilário

Dormia sem protestar,

 

E ao chegar-se o povo perto,

A viúva, em tom directo,

Entrou logo em desatino:

‘Onde é que isto já se viu?

Ide à que vos pariu,

Que me acordam o menino!’

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Edição 833 (15/09/2022)

Andam sombras pelo cais

Andam sombras pelo cais

Que vagueiam sem ter paz

Em navios feitos de sal

Suas vestes de neblina

Vão servindo de cortina

Encobrindo Portugal

 

A vontade jaz sepulta

Nessa névoa que oculta

A vã glória de mandar

Na memória que avulta

O arado já não sulca

Vai no céu a naufragar

 

Os lamentos que se ouvem

Que s’ espalham pela nuvem

São o canto do passado

Dos que vão sem ter partido

Dos que voltam sem ter ido

Resta o canto que é o Fado

 

Se à noite ali passeio

Oiço o grito de quem chega

De regresso à sua grei

Vem Cabral que se perdeu

Vem o Gama e sobro eu

Que em sombra me tornei

 



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