
• Carlos Alberto Paiva / Fotos de Ana Rosa e de Hugo Carvalhal
Edição 832 (28/07/2022)
Foto de Hugo Carvalhal
Vendo o mar aqui tão perto
Quem é marujo naufraga
Assim o mar lhe dá paga
Dos p’rigos que nele correu
Nesse teu colo-enseada
Trago esta vida ancorada
Com medo que morra eu
Se teu olhar s’ encapela
De encontro à caravela
Peço a Deus que sobreviva
Mar de vagas que são tuas
Nele passo noites e luas
Alma ao largo que deriva
Se me viras velejar
Sobre as ondas d’ alto-mar
Por certo me perderias
É que fui deitado ao mundo
Com tal medo do profundo
E avesso às maresias
Que ora sei por inteiro
Não fui feito marinheiro
De água doce ou salgada
O sereno é sepultura
P’ra quem nele se aventura
P’ra ti tenho senão nada
Por prezar os pés enxutos
Fingi tesouros ocultos
Na ‘sperança de te ter
Com tal força convenci-me
Não pensei que fosse crime
Fingir que fui sem o ser
Vai antes tu pelo mar
Por onde o vento mandar
Melhor rumo é o incerto
O resto, que Deus te pague
E eu cá na terra naufrague
Vendo o mar aqui tão perto
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