ATUALIDADE (Edição 829)

Edição 829 (16/06/2022)

Celeste Almeida – A Grande Viagem pela Canadas de Viriato

• Paula Jorge

No próximo dia 26 de junho, pelas 15 horas, no Centro Municipal de Cultura de Castro Daire, a escritora Celeste Almeida, juntamente com as Edições Vieira da Silva, irá lançar o seu próximo livro “A Grande Viagem pelas Canadas de Viriato”. A apresentação do livro está incluída nas atividades promovidas pelo Município de Castro Daire “A Última Rota da Transumância”. Fomos ao encontro de Celeste almeida.

– Como nasceu este livro e o que representa para si? – “Antes de tudo, quero agradecer à Gazeta da Beira, na pessoa da professora/escritora Paula Jorge, esta conversa feita de palavras e afetos. Uma conversa que, tenho a certeza, me irá emocionar bastante, porque falar desta minha recente obra, é falar da identidade de um povo e de uma tradição milenar, denominada a transumância que moldou a forma de ser das gentes que habitavam entre a Serra da Estrela e a Serra do Montemuro, durante longos séculos. Para responder a esta primeira pergunta, tenho que fazer uma viagem no tempo e parar numa linda aldeia da freguesia e concelho de Mangualde, de nome Canedo do Chão. A aldeia onde nasci. E porquê? Porque foi nesta localidade, que eu vi pela primeira vez os rebanhos enfeitados que se dirigiam para o Montemuro.  Todos os anos, a partir do dia 24 de junho, a rua onde eu morava enchia-se de muitas cabeças de gado em direção a Barbeita. Essa rua era de terra e recordo muito bem, que minha mãe mandava fechar as portas e as janelas para que as nuvens de pó não entrassem para dentro de casa. Era um espetáculo que ninguém queria perder! A musicalidade que se fazia ouvir na aldeia, as ovelhas com letras pintadas, o fascínio dos chibos enfeitados, carregando ao pescoço enormes chocalhos que quase tocavam o chão, os pastores de cajado na mão com uma manta no ombro e os grandes cães com coleiras de pregos espetados, era um cenário de um esplendor tão grande, que a aldeia parava para o contemplar. Todos os anos, gritávamos “olha os rebanhos, olha os rebanhos que vão para o Montemuro”. Na minha terra de origem, vivi esta cultura transumante até ao dia em que fui colocada no Montemuro. Até esse dia, eu sabia que havia uma serra de nome Montemuro. Onde? Não fazia a menor ideia, mas tive o privilégio de me tornar uma montemurana no dia em que a minha profissão de professora me trouxe até cá. Com uma mala vermelha de cartão, cheia de sonhos eu senti-me, também, uma transumante, mas uma transumante que veio para ficar! Aqui, continuei a ver os rebanhos a passar, não só eu, mas também os meus filhos. Continuei a ouvir o grito, “já lá vem o rebanho” até ao dia em que as nuvens de pó se dissiparam para sempre com o fim da transumância, no ano de mil novecentos e noventa e nove. Verdade, que esta tradição que faz parte da história esta região, se perdeu no tempo, mas sendo eu uma amante da raiz cultural das gentes e lugares, muito em especial do que concerne ao Montemuro, pensei eternizar toda a essência da transumância para que as poeiras do tempo não a deixassem cair no esquecimento. O seu valor, a importância que teve no modo de vida dos nossos antepassados, é um espólio digno de ficar nos Anais da nossa história cultural. É um legado que as gerações vindouras têm que conhecer, porque se chegamos até aqui, alguém nos abriu os caminhos num tempo em que a fome, a miséria e a carestia eram a triste trilogia da vida.”

– Que percurso / trajeto fez este livro? – “Este livro, posso afirmar que precisou de muito trabalho, trabalho esse que só o amor sustentou. Não fosse o amor que eu sinto pelas gentes a que chamo de “meu povo”, seria impensável abraçar este projeto. Contudo, quem me conhece sabe, que eu me sinto completa, vestindo o modo de viver destas pessoas simples, humildes e genuínas. É com elas e por elas que eu sou feliz. Desde que vim para o Montemuro eu passei a ser da serra, a ser dos montes, onde os pastores acordam as alvoradas e as pessoas beijam o chão pela manhã. Durante mais de três anos, percorri, tal como os pastores, muitos trilhos, muitos caminhos, muitas canadas para ir ao encontro dos homens de pau e manta que fizeram a “grande viagem” do sopé da Serra da Estrela para o Montemuro. Tive a sorte de encontrar alguns que durante anos seguiram pelas canadas de Viriato rumo às boas pastagens que cobriam os montes montemuranos. Foram eles,  oriundos de vários concelhos do planalto Beirão,  as fontes do conhecimento que deu o miolo a esta obra.   Um conhecimento que vai muito para além do grito “já lá vem o rebanho”! A transumância é muito, muito mais, que aplaudir os rebanhos que passavam. Comigo, partilharam as vivências de uma vida: como enfeitavam os chibos, porque os enfeitavam, como se organizava o rebanho transumante, onde rodeavam, onde pernoitavam, como se alimentavam durante a viagem e enquanto permaneciam na serra, como dormiam… Enfim, deram-me a saber um manancial de cultura transumante, que se não fosse agora libertado por estes guardiões de memórias, ficaria para sempre no mundo do desconhecido! Sinto que comecei este livro no tempo certo. Se deixasse passar mais uma meia dúzia de anos, não encontraria no reino dos vivos, pastores para narrarem momentos e acontecimentos que sustentam a história transumante. E que acontecimentos! A pluralidade das vivências é um mesclado de tragédias, dramas, dor, sacrifícios que enchem páginas desta obra, mas também, um mesclado de alegrias, amor, solidariedade que pinta outras tantas páginas com as cores do arco-iris. Era uma vida muito difícil, mas não encontrei nenhum pastor que não dissesse: – Ai que saudades desses tempos! Quem me dera poder voltar ao Montemuro! O fim da transumância foi a nossa morte! Assim fala, quem nunca conheceu outra forma de viver! Assim fala, quem tem alma de pastor!”

– Quais as suas expetativas para este livro? – “Costuma-se dizer, que quando depositamos muitas espetativas em algo, corremos o risco de sairmos frustrados. No entanto, também sabemos, que o sonho tem que estar sempre presente no nosso acordar, porque sem o sonho, nada esperamos da vida a não ser a morte. Não me quero desiludir, não quero perder o otimismo em relação ao tamanho do sucesso desta obra. Tenho os pés assentes no chão e sem deslumbramentos, olhando ao interesse cultural e sociológico desta temática, principalmente, para os concelhos dos baixios da serra da Estrela e dos habitantes da região do Montemuro, este livro é, do ponto de vista histórico, a chama que irá manter viva para todo o sempre esta herança cultural. Os nossos filhos, os nossos netos, têm que saber que os nossos antepassados trabalhavam de sol a sol, num tempo em que a pobreza se comia na mesa carcomida pelo caruncho e que as mãos calosas eram a ternura, o amor, que embalava o berço do futuro. Neste livro, perpetuo a memória de um povo que precisou usar a sua inteligência, a sua capacidade de adaptação para conseguir sobreviver às adversidades da vida. Tantas vezes, os nossos antanhos sonharam com um pequeno oásis de esperança que secou no deserto  dos rios que lhes corriam no rosto! Tantas vezes!”

Sente que é mais uma missão terminada? – “Todos nós pensamos que quando concluímos um trabalho que trazemos em mãos, cumprimos mais uma missão. E, quando esse trabalho exigiu de nós algum sacríficio, a sensação de missão cumprida é muito maior. É como colher todas as espigas de uma seara que foi semeada num inóspito deserto. Viajei em dias de chuva. Nos dias de calor vi meu rosto lavado em suor. Desbravei montes e vales para ir ao encontro dos pastores que traziam os rebanhos no pasto. Caí, mas levantei com maior impulso. O trabalho no terreno, algumas vezes, foi áspero, mas o resultado foi incrível. A recompensa foi imensa, porque neste livro eternizei o nosso maior património: O POVO. No entanto, minha missão não terminou com a última palavra que escrevi no livro. O livro não acabou. O livro só agora começou.  Vai começar a voar e eu, como sua mãe, tenho a obrigação de o tirar do ninho e ajudá-lo a conquistar o mundo dos leitores. Minha missão não terminou, porque não posso abandonar este livro parido com tanto amor. Se o abandonar, ele perde as asas e não pode voar para no coração dos leitores ir pousar.”

À Celeste Almeida desejamos o maior sucesso para esta viagem!



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