
• Nuno Campos*
Edição 834 (29/09/2022)
O Papa-Moscas-Preto
O papa-moscas-preto (Ficedula hypoleuca) pode ser observado em Portugal durante as épocas de migração, em especial no mês de Setembro, quando a espécie faz uma pausa prolongada, na viagem de regresso aos territórios de invernação na Costa do Marfim e Guiné. Em Lafões, nesta altura do ano pode ser observado em todo o lado, tendo já perdido a sua coloração nupcial. Uma das características desta ave, é um bater de asa enquanto está em repouso.

Os papa-moscas-pretos são mais pequenos do que o pardal-doméstico e pesam cerca de 12 gramas, mas isso não os impede de atravessarem o maior deserto quente do mundo – Deserto do Saara – sem pausas para descanso
Para chegarem ao destino final de Inverno, estas pequenas aves partem de países como o Reino Unido e a Holanda, passando aqui pela Península Ibérica antes de atravessarem o mar mediterrânico, para uma viagem que demora cerca de cinco semanas, durante as quais um dos maiores desafios é a travessia do deserto do Sahara – tal como no percurso inverso, na altura da Primavera.

Actualmente, com base em estudos de satélite, considera-se que as diferentes espécies de pequenas aves que atravessam este deserto africano, nas suas rotas de migração, voam apenas durante a noite, parando durante o dia para se abrigarem do calor intenso.
No entanto o mesmo não acontece com o Papa-moscas-preto. Estes, que medem apenas 12 a 13,5 centímetros, conseguem atravessar de uma só vez o maior deserto quente do mundo, num voo de 40 a 60 horas sem pausas pelo meio. Nesta parte da rota, a espécie contraria o comportamento apresentado durante o resto da viagem, quando voa quase sempre apenas durante noite.

Tal conclusão deve-se a um estudo realizado em 2013, em que foram colocados pequenos aparelhos geolocalizadores em 52 machos e 28 fêmeas de papa-moscas-pretos, nos seus territórios de nidificação em Drenthe, na Holanda, monotirizando-se a sua migração na totalidade.
Nos anos seguintes, 27 destas aves com os respectivos aparelhos foram recapturados. Cada um com um peso de cerca de 0,5 gramas, estes geolocalizadores são como “mochilas muito pequenas”, gravando os níveis de luz e de temperatura em cada cinco a dez minutos, durante meses.
Desta análise dos registos descritos, conclui-se que os papa-moscas-pretos fazem a travessia do deserto num único voo.
Outra conclusão ainda, é que estas aves fazem dois percursos diferentes, de acordo com as épocas do ano: durante a Primavera, voam directamente sobre o deserto, mas durante o Outono fazem um desvio de rota sobre o Atlântico. Os papa-moscas na Primavera realizam um voo ininterrupto de pelo menos 500 km para sul, desde o início do deserto.

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