Edição 829 (16/06/2022)
Pirilampos no verão
Os pirilampos (Lampyris sp) ou lanterna em latim, são corriqueiramente conhecidos como “lús-cús”. Existem duas mil espécies de pirilampos em todo o mundo, sendo que 65 se encontram na Europa e 11 vivem entre Portugal e Espanha, sendo que em Portugal existem confirmadamente as seguintes: Lampyris iberica (Pirilampo-ibérico), Lampyris noctiluca (Pirilampo-comum) Nyctophila reichii, Lamprohiza mulsantii (Pirilampo-pequeno-de-lunetas), Lamprohiza paulinoi (Pirilampo-grande-de-lunetas), Phosphaenopterus metzneri, Phosphaenus hemipterus (Pirilampo-preto), Luciola lusitanica (Pirilampo-lusitânico)
Na região de Lafões, consegui registar a presença de alguns, como o Pirilampo Ibérico e o pirilampo grande de lunetas. Mas já há muitos anos que não consigo encontrar um local onde se desenvolva um “espetáculo de bioluminoscência”, como outrora os maus pais e avós diziam acontecer.

Da larva ao pirilampo
Com semelhanças de desenvolvimento das borboletas, na sua fase de larva, o pirilampo acumula reservas energéticas para se desenvolver. Esta fase dura entre um e três anos, e representa a grande parte da vida do animal.
O pirilampo adulto possui o corpo segmentado: cabeça, tórax e abdómen, tem três pares de patas e um par de antenas. Tal como as joaninhas, os escaravelhos, os besouros e os gorgulhos, ostentam dois pares de asas. Um par exterior, rígido, que serve de proteção e, outro, interior e muito mais frágil, que lhes permite efetivamente voar. As fêmeas pirilampos são geralmente maiores do que os machos, mas possuem olhos mais pequenos e apenas um segmento iluminado. Quer uns como outros, chamam pouco a atenção pelo seu corpo preto ou castanho escuro e, pelos seus anéis esverdeados ao longo do abdómen. Até que se dá a bioluminescência, isto é, até que começam a piscar. Alimentam-se de presas de tamanho bastante superior ao seu, que imobilizam através de um veneno, tal como fazem as aranhas.
O piscar dos pirilampos
A bioluminescência é um fenómeno que se traduz pela emissão de luz visível aos nossos olhos, por parte de um organismo vivo. Esta característica deve-se a um processo biológico complexo em que participam várias substâncias.
A luz dos pirilampos é fria e altamente eficiente. Serve de defesa em relação a predadores, ou como sinal de perturbação, associando-se também a rituais de acasalamento.
As fêmeas piscam com um padrão próprio da sua espécie para atrair os machos corretos. Os machos piscam como mensagem de aproximação. Após o acasalamento, as fêmeas deixam de piscar. Existem espécies que comunicam ao crepúsculo, outras durante a escuridão da noite. Nem todos os pirilampos emitem luz, porque acasalam durante o dia. A luz emitida pelo pirilampo-ibérico (Lampyris ibérica), descrito em 2008, e pelo pirilampo-lusitânico (Luciola lusitânica), descrito em 1825, é esverdeada, intermitente nos machos e fixa nas fêmeas.
Fêmea de pirilampo-comum (Lampyris noctiluca)
Os pirilampos estão a desaparecer
Uma equipa de biólogos da Universidade de Tufts, em Massachusetts (Estados Unidos), contou com a participação da União Internacional para a Conservação da Natureza, para publicar um estudo na revista Bioscience, cujos resultados refletem as ameaças à existência de pirilampos.
São várias as causas que estão a levar ao desaparecimento das espécies de pirilampos. A poluição luminosa, química e a perda de habitat são algumas delas. É necessário e urgente parar e analisar as causas da interferência humana que conduziram ao risco de extinção.
Poluição luminosa
O excesso de luz artificial dificulta a comunicação entre os pirilampos e a sua reprodução. A lanterna dos insetos bioluminescentes não consegue competir com a luz emitida pelas lâmpadas criadas pelo ser humano. O excesso de luz artificial vai inibir a produção da luz entre si.
Poluição química
Os pesticidas matam caracóis e lesmas, as presas das quais os pirilampos se alimentam. Podemos, inclusive, utilizar os pirilampos como bioindicadores, ou seja, a sua presença num determinado ambiente dá-nos informação sobre o estado desse mesmo habitat, no que respeita à sua qualidade quanto aos níveis de poluição química.
Perda de habitat
A extinção deve-se, também, à destruição dos campos e ribeiras onde vivem. A diminuição de zonas húmidas, parques, florestas, campos agrícolas ou pastagens é um dos fatores. A degradação do seu habitat, que pela urbanização dos terrenos, a industrialização e a intensificação da agricultura, é o principal fator para o seu desaparecimento.
Estratégias de conservação
As estratégias são escassas devido às lacunas de informação sobre a distribuição dos pirilampos, a ecologia e os fatores de ameaça, para além do próprio inventário não concluído. Contudo, é importante cuidar da conservação dos pirilampos, quer pela preservação dos seus habitats, quer pela redução da poluição luminosa e um maior controlo no recurso a pesticidas.

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