
• Nuno Campos*
Edição 833 (15/09/2022)
Os Gaios

Nos meu tempos livres, reservo algum tempo para observar aves. Há uma que me encanta especialmente: O Gaio. Os gaios andam sempre embrenhados nas suas lides. Com o aproximar do Outono, a labuta é para todos, por cá nas serranias. As bolotas estão no auge, ou perto disso, e há quem tenha estimado que um único gaio pode enterrar três mil bolotas num mês. Por vezes chegam a viajar mais de um quilometro para esconder uma só bolota.
Os gaios preferem bolotas grandes às pequenas.

Aqui atrás de casa, há carvalhos carregados de bolotas. Ponho-me a observar, até que chegue um gaio. Geralmente pousa sob aquela copa, olha para mim de relance sem prestar atenção e concentra-se nas bolotas espalhadas no chão. Estica-se, pega numa com o bico, suspensa por um segundo, mas não lhe agrada e deixa-a cair. Agarra noutra, esta sim, lá vai ele plantar mais uma! O movimento repete-se, com triagens sempre ponderadas, havendo tanta oferta não vale a estafa de acartar material de segunda categoria.
Foto de Fábio Lopes
Sendo tímidos, os gaios revelam-se em geral difíceis de observar em liberdade pelo que os observo camuflado por baixo de alguma vegetação.
Desconfiados são, os gaios têm as suas razões. Foram perseguidos, quer por caçadores como por agricultores.
Os gaios escondem bolotas para as recuperar no Inverno, em tempo de escassez. Mas uma parte nunca serão consumidas, pelo que germinarão transformando-se em novos carvalhos. Mesmo que aos gaios não falhe a memória, que se comprovou ser prodigiosa, ficarão sempre bolotas enterradas e abandonadas por excesso de previdência ou de gula no planeamento outonal: afinal não eram precisas tantas reservas! Acresce que os gaios não são eternos, há sempre aqueles que, vítimas do açor, da idade ou do inverno, deixam um legado de centenas e centenas de bolotas bem semeadas, prontas para germinar na primavera.
Foto de Fábio Lopes
Poderemos pois dizer que os gaios são óbvios candidatos a o prémio dos maiores plantadores de árvores da Europa; ou da medalha da luta pela fixação do carbono.
Observem.
Porque quem gosta… Cuida!

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