Pensamentos Impróprios
Crónicas do Olheirão
A propósito da crise, da troika e da falta de ideias tanto à direita como à esquerda para lidar com a situação económica e social acorrem-me alguns pensamentos, por ventura, poucos próprios da quadra do Natal.
A direita está muito mais preocupada em fazer aumentar as desigualdades e as injustiças do que em resolver a crise e devolver esperança aos portugueses, mas a esquerda além da cassete, já um pouco estafada, da renegociação da dívida, da redução dos juros, dos cortes nas PPPs e do crescimento económico, não se mostra capaz de alinhar duas ideias que a gente possa considerar capazes de resolverem algum dos nossos problemas.
Talvez por ser Natal ocorre-me a dúvida de saber se o nosso país é uma comunidade de pessoas que se consideram interdependentes e solidárias umas com as outras ou se somos um conjunto de grupos ou de pequenas tribos que habitam o mesmo território.
O nosso estado nunca foi suficientemente forte para defender eficazmente o bem comum e sempre tem sido dominado por grupos particulares e sido fraco ou mesmo serviçal perante os grupos poderosos.
Agora são os capitalistas e os banqueiros do mesmo modo que em tempos idos foram os nobres e os senhores das terras.
A nossa maior dificuldade, em quanto nação, tem sido em conseguir interpretar o que é o bem comum e em criar um estado capaz de o defender.
Este problema existe desde sempre, apenas acontece, que agora, as pessoas estão mais informadas das muitas injustiças.
A solução dos nossos problemas precisava de um Estado preocupado com o bem comum, pois Portugal tem dificuldade em conseguir recursos para as despesas com salários, pensões e os encargos da dívida, que se foi acumulando por pressão de interesses internos e externos.
Não conheço nenhum estudo que fundamente o que vou dizer, mas começo a pensar que há que refazer todo o sistema de pensões de reforma, pois o modo como atualmente está organizado torna-o o grande alimentador do sistema financeiro.
Regra geral, os descontos pagos pelos trabalhadores e pelas empresas significam cerca de um terço dos salários. Assim, todos os meses esse dinheiro é depositado em fundos de pensões dos estados ou das empresas, passando, por esta via, da economia produtiva para a especulação financeira um número incalculável de dólares e euros, que depois vão ser investidos em ações ou, o que é mais seguro, em dívida dos estados, como Portugal e os outros quase todos.
A maior parte deste dinheiro volta à economia sob a forma de pensões mas muito evapora-se entre a especulação financeira e os offshores.
É facto que não há nenhum fundo de pensões da segurança social ou mesmo das empresas que tenha dinheiro para pagar as reformas a que está obrigado se cessarem as contribuições.
É neste quadro que a questão das pensões em Portugal tem que ser analisada e por isso não alinho no coro da unanimidade em torno da decisão do Tribunal Constitucional de chumbar, por unanimidade, a convergência das pensões dos funcionários públicos com o regime geral.
Não defendo o corte das pensões de ninguém, mas deve fazer-se uma discussão séria e não vejo no veto do Tribunal Constitucional nenhuma solução, apenas a continuação do problema.
Sobre a questão da confiança direi apenas que tenho três filhos e que uma das primeiras medidas de austeridade do governo Sócrates, foi cortar-me o abono de família, e nessa altura não houve nenhum presidente,tribunal ou partido que levantasse o problema da confiança.
Como também não percebo porque não foi declarado inconstitucional o facto de o governo me obrigar a trabalhar mas quatro dias por ano pelo mesmo salário. Contas feitas as medidas aprovadas pelo Tribunal Constitucional já fizeram diminuir o meu salário real o em 15%.
A questão da confiança é importante para todos e não apenas para uma geração mas não basta como critério para que se encontrem soluções. Tem sido este, aliás, este o argumento do governo para não corta em alguns interesses financeiros instalados.
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