Marketing ou abuso de posição?

Crónicas do Olheirão

As práticas do marketing das grandes empresas de telecomunicações já me mereceram diversas notas críticas e hoje não resisto a voltar ao assunto.

Sem saber qual a razão fui contactado, no19 de Outubro, por três empresas a proporem-me um pacote de serviços da PT. O assédio foi de tal modo que depois de diversos telefonemas pensei que estava a falar com uma empresa e afinal estava a falar com outra.

Compreendi, depois, que um dos contactos seria da própria PT mas que os outros contactos foram feitos por empresas que trabalham à comissão para a PT mas se apresentam como sendo a PT.

Depois de ter recebido, no mesmo dia, três ou quatro telefonemas com a mesma proposta um dos jovens, que fazem este trabalho em condições muito precárias, disse-me que não percebia como era possível ele estar a esforçar-se por me oferecer uma coisa boa e eu estar tão reticente em aceitar.

Como quando a esmola é grande o santo desconfia, comecei a imaginar as razões deste súbito interesse.

Sendo cliente da PT e eles sabiam que  o meu perfil de consumidor se encaixa naquele tipo de serviço.

Vistos assim, os telefonemas parecem ser uma iniciativa do meu interesse. Contudo, não via a razão de tanto interesse naquele dia específico e não entendia a razão porque sendo o serviço tão bom para mim não me telefonaram logo que ele foi criado.

Ocorreu-me que tanta pressa deveria estar relacionada com alguma iniciativa da concorrência. De facto no dia seguinte apareceram os primeiros anúncios de uma campanha da concorrência.

A pessoa que me telefonou dizendo que estava a telefonar da sede da PT em Lisboa, a uma hora em que a minha disposição para o aturar era nenhuma,  insistia tanto comigo que eu perguntei-lhe se podia dar-me nome e o telefone, que eu quando tivesse disposição ligava para falar com ele.

Neste ponto a resposta foi clara. “Não posso dar-lhe o meu número para me telefonar,  a empresa não funciona assim. Diga-me um dia e uma hora que eu volto a telefonar-lhe.”

O operador concluiu a conversa dizendo que não percebia a minha questão.

Esta resposta resume as razões porque estas formas de vender são inaceitáveis e só funcionam quando lidamos com monopólios e  negócios protegidos pela pouca concorrência.

A minha relutância face a estas propostas resulta desde logo de sentir que estão a entrar pela minha  casa adentro sem baterem à porta.

A moral da história é que eles podem contactar-me, quando lhes dá jeito, usando os meus números de telefone, mas eu não posso contactar uma pessoa específica para tratar dum assunto do meu interesse quando estou disponível para o efeito.

A situação é caricata pois significa que eu tenho de comprar quando eles querem vender e não posso comprar quando tenho disposição e tempo para isso.

Só em negócios destes é possível venderem-nos alguma coisa usando estas técnicas de marketing. Na realidade, nestas situações não somos livres de comprar o que queremos  e quando queremos e estamos dependentes da vontade e interesses de terceiros.

A questão parece-me ser  séria e coloca o problema da igualdade na nossa relação contratual com estas empresas.

Eu não serei o modelo do cidadão adaptado a estes tempos mas entendo que os partidos – pelo menos os de esquerda – deveriam propor legislação que obrigasse estas empresas a terem um representante com poderes para responderem a dúvidas e resolver problemas a uma distância máxima de 25km da residência do cliente.

Também, o Bastonário da Ordem dos Advogados deveria meter na ordem os advogados que se prestam a assinar, sem lerem, as cartas da PT a ameaçar-nos.

E, por uma vez sem exemplo, concordando com Marques Mendes não percebo a razão porque o governo não aplica um imposto especial a estas empresas que atuam em mercados protegidos pelo estado e que não são sujeitas a verdadeira concorrência.

• Mário Pereira

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