Escola Profissional de Vouzela, um exemplo de sucesso

José Lino está à frente dEd650_Entrevistaa Escola Profissional de Vouzela, há 10 anos. Quando iniciou funções no cargo de diretor, em 2004, a escola tinha cerca de 92 alunos, hoje, são mais de 300. Formar de acordo com as necessidades do mercado de trabalho tem sido o lema da casa que tem registos de empregabilidade a rondar os 100%. Em entrevista à Gazeta da Beira, José Lino fala-nos do ensino profissional, das ofertas formativas, dos estágios, das iniciativas da escola e da importância de uma profissão nos dias de hoje. A Escola Profissional de Vouzela, um exemplo de sucesso, contado pelo diretor pedagógico, José Lino.

 

 

• Patrícia Fernandes

Ed650_EPVGazeta da Beira (GB) – Há quantos anos está à frente da Escola  Profissional de Vouzela (EPV), como é que surgiu esta oportunidade e porque é que a aceitou?

José Lino (JL) – Este é o 10º ano consecutivo como diretor pedagógico da EPV. Tenho de agradecer o convite formulado pelo então Presidente da Câmara de Vouzela, Dr. Telmo Antunes, e pela Dr.ª Eugénia Liz, por terem confiado em mim e na minha juventude da altura. Aceitei… porque gosto de correr riscos e pareceu-me ser um desafio que conseguisse superar.

 

GB – O ensino profissional tem sido uma aposta cada vez mais recorrente nos últimos anos. Segundo o seu ponto de vista a que é que se deve esse facto?  Especificamente, sobre a escola de Vouzela, como é que tem sido a evolução a nível do número de alunos, desde 1991 à atualidade?

JL- Os alunos procuram uma formação que lhes dê mais perspetivas em termos de emprego. Há cada vez mais casos de jovens que, por exemplo, andaram na faculdade e, no final do curso, não conseguiram emprego na sua área de formação, fazendo com que muitas das expetativas saíssem goradas… Os nossos alunos têm consciência disso e preferem o ensino profissional. É uma via de ensino diferente, mais virada para o aprender fazendo, mais ajustada às necessidades de formação e valorização profissional de todos os que procuram ingressar mais cedo no mundo do trabalho, com uma qualificação profissional.

Sou dos que acreditam no trabalho. E o trabalho que temos desenvolvido nos últimos anos tem dado frutos, que se traduz numa crescente procura por parte de novos alunos. Atualmente, contamos com 260 alunos de nível II e nível IV (em horário diurno), 60 alunos em ações de formação (já concluídas) e 15 alunos de nível V (em horário pós-laboral). São mais de 300 alunos que a EPV tem o orgulho de certificar e contribuir para integrar profissional e socialmente. Porque os cursos que escolhemos criteriosamente têm uma empregabilidade a 100%. Lembro-me, ainda, dos 92 alunos que a EPV tinha, quando aceitei este desafio. Iniciava-se, então, o ano letivo de 2004/05.Orgulha-me  ter contribuído, em conjunto com todos os excelentes professores e funcionários, que vestem todos os dias do ano a camisola com as siglas da EPV, para o crescimento de mais de 300% em número de alunos e em orçamento.

 

GB – A nível formativo, qual é a oferta atual? No futuro próximo está previsto alargar o leque de cursos?

JL – Atualmente, a EPV conta com duas grandes famílias de formação: a restauração/hotelaria e a mecânica/eletrónica e eletricidade. Para além disso, temos o curso técnico de Secretariado e o curso Cabeleireiro Unissexo. São cursos de nível II (equivalência ao 9º ano) e de nível IV (equivalência ao 12º ano).A escolha destas áreas teve como suporte a necessidade de mão-de-obra qualificada por parte do mercado de trabalho. Contamos, ainda, com um curso de nível V em parceria com a AFTEBI (Associação para a Formação Tecnológica e Profissional da Beira Interior).Como estamos em permanente diálogo com o tecido empresarial, a nossa oferta formativa irá sempre ao encontro das suas reais necessidades. Por conseguinte, não pomos de parte a abertura de mais e de novos cursos.

 

GB – Tendo em conta as exigências atuais do mercado de trabalho, qual é a importância de nos dias de hoje ter uma profissão?

JL – Escolher a profissão é talvez uma das decisões mais importantes da vida de uma pessoa. O homem é valorizado socialmente pela atividade na qual trabalha, e a sua identidade pessoal está muito ligada com o que ele faz profissionalmente. A diminuição da empregabilidade e a valorização do trabalho têm exigido níveis cada vez maiores de especialização por parte das empresas e das pessoas que a compõem. No cerne de todas essas mudanças, cresce a necessidade de a escola formar não apenas pessoas para terem uma profissão, mas formar verdadeiros profissionais.

Para que haja a devida promoção de sucesso a todos os alunos e numa época em que se torna cada vez mais exigente a definição do seu percurso profissional, a orientação vocacional desempenha um papel fundamental na construção individual de um projeto de existência. Considero, por isso, bastante pertinente que logo no ensino básico haja um devido encaminhamento dos alunos para cursos à sua medida, de acordo com as suas potencialidades e as suas vocações.

 

GB – Os cursos profissionais têm uma componente prática muito significativa. A nível de material prático, de forma geral, o que é que a Escola Profissional tem para oferecer? Segundo o seu ponto de vista, a Escola tem todas as condições necessárias para as aulas práticas? A nível de apoios e investimentos o ensino profissional, nomeadamente a Escola de Vouzela, têm os apoios necessários?

JL – Ao longo dos últimos anos temos feito todos os esforços com o objetivo de termos as melhores instalações, os equipamentos mais modernos, os formadores mais qualificados. Investimos muito na melhoria das nossas condições laborais. Temos mais de 400m2 de oficinas, um laboratório CNC, vários equipamentos industriais, uma cozinha pedagógica equipada só para formação, um salão de cabeleireiro, um restaurante e, desde o ano passado, fazemos a exploração do parque de campismo das piscinas de Vouzela, mais uma ferramenta ao dispor da aprendizagem dos nossos alunos. Contudo, não há nada que estando bem não possa estar melhor. É por isso que continuaremos a fazer investimentos, com o intuito de melhorar a qualidade da nossa formação.

 

GB – Relativamente ao estágios, como é que funcionam? Com quantas empresas têm protocolo? As empresas têm sido recetivas? Quantos estágios vão ser realizados este ano? Qual a duração? Esta é também uma porta aberta para,  que, posteriormente, os alunos consigam emprego? Tem havido muitas situações dessas?

JL – No que respeita aos estágios, a duração varia entre as três e as nove semanas. A escola enceta todos os anos dezenas de protocolos com empresas da região e não só. Este ano teremos mais de cem alunos a realizar estágios. Muitos deles fazem, pela primeira vez, uma aproximação ao mercado de trabalho; outros procuram corresponder ao perfil adequado da empresa a continuarem como colaboradores. Os resultados de anos anteriores são muito satisfatórios e enchem-nos de orgulho. Os nossos estagiários são cobiçados para a realização de estágios e muitos ficam a trabalhar na empresa que os acolheu.

Este ano, fizemos uma candidatura ao programa Erasmus+, contando ter duas dezenas de alunos nos próximos anos a realizar o seu estágio em empresas de renome no estrangeiro.

 

GB – A Escola Profissional de Vouzela, segundo o que apresenta, tem uma empregabilidade de 100%. Como é que se chega a esse valor? Há um acampamento e um apoio da escola nas questões de empregabilidade e das saídas profissionais?

JL – A Escola Profissional de Vouzela tem mantido, ao longo dos últimos anos, os níveis de empregabilidade a rondar os 100%, sobretudo porque a formação está direcionada para as necessidades do mercado de trabalho e, claro, pela sua qualidade.

A Escola procura fazer um acompanhamento próximo dos alunos, mesmo depois de concluírem a sua formação. Para isso, contribuem várias entidades, como o gabinete de apoio com a psicóloga e os diretores de curso, que fazem a ponte com o mundo do trabalho. Para além das tarefas específicas que visam a inserção e acompanhamento na vida ativa dos diplomados, este gabinete desenvolve atividades no âmbito de orientação vocacional e profissional que se reportam de primordial importância para o sucesso na consecução dos objetivos consagrados no projeto educativo deste estabelecimento de ensino.

O objetivo é não abandonarmos os alunos depois de estes concluírem a sua formação, mas fazer o seu acompanhamento até à sua inserção profissional.

 

GB – A Escola tem participado em algumas atividades, tais como, a participação na Feira Internacional de XANTAR, e a já confirmada participação no Festival de Vitela de Vouzela. Qual a importância desta participações para o concelho, a escola e os alunos? Há mais algumas iniciativas que vão contar com a participação da Escola?

JL – Somos uma escola em movimento. Desenvolvemos atividades e temos inúmeras iniciativas em diálogo e em comunhão com a comunidade que nos rodeia. Participámos na Feira Internacional de Ourense (Espanha) – Xantar, representando a região de Dão – Lafões e pensamos tê-lo feito com a dignidade merecida. Somos coorganizadores do I Festival da Vitela de Lafões e dos Produtos Regionais com o Município de Vouzela, esperando dar o devido valor a tão peculiar iguaria.

Levaremos a efeito o V Festival das Sopas, um evento que junta mais de quatro dezenas de entidades ligadas à restauração e atrai mais de 2000 pessoas. Para além disso, fazemos uma quantidade indeterminada de serviços de restauração com entidades da região, sempre que solicitados.

É claro que todo este dinamismo cria empatia com a comunidade e é uma forma de os alunos vivenciarem reais experiências de trabalho.

 

GB – Há, ainda, algum preconceito da sociedade relativamente aos cursos profissionais?

JL – A ideia de que as escolas profissionais não têm procura, por oferecerem ofícios menos apetecíveis, está cada vez mais a esbater-se. Atravessamos tempos complicados, há muita gente desempregada e, por isso, os alunos procuram cada vez mais uma formação que lhes dê mais perspetivas em termos de emprego.

Em estreita colaboração com os parceiros sociais, as escolas profissionais preparam jovens para uma fácil inserção na vida ativa. Adequam os seus cursos à necessidade do meio em que estão inseridas e prolongam o apoio dado aos alunos após a conclusão dos cursos, com o objetivo de os ajudarem a conseguir o seu primeiro emprego.

Segundo o Ministério da Educação, os bons resultados atingidos por uma boa parte das escolas profissionais, quer pela procura crescente de que são alvo, quer pelos elevados índices de empregabilidade dos seus formandos, deve-se ao modelo organizacional que adotaram e à capacidade de articulação com o mundo empresarial e do trabalho, bem como as comunidades que pretendem servir.

Sobre este assunto, um dos pais do ensino profissional, Joaquim Azevedo, acrescenta que o sucesso relativo deste tipo de formações mede-se, em boa parte, pelos níveis de aproveitamento e de empregabilidade dos seus diplomados.

Atualmente, aumentámos o número de alunos a enveredarem pelo ensino profissional, sobretudo com o seu alargamento às escolas estatais. Mas ainda é pouco, se compararmos com o que se passa na Europa mais desenvolvida. São necessários 70%. Se não vejamos: numa empresa temos 20 a 30% das pessoas a organizar e a gerir. As restantes são precisas na produção, logo a escola tem de formar de acordo com esta proporção.

Se analisarmos as taxas de empregabilidade das escolas profissionais, reparamos que estas apresentam níveis muito elevados. A escola não pode estar divorciada do mundo do trabalho, tem de estabelecer a ponte entre os alunos e o emprego, de tal forma que todos os alunos que saiam da escola estejam preparados com uma ferramenta de trabalho para enfrentarem a sociedade do trabalho e, desta forma, se integrarem profissional e socialmente.

 

GB – A Escola Profissional de Vouzela tem sido um dos polos dinamizadores do concelho. Em termos económicos e também de visibilidade, qual a importância da Escola para o concelho?

JL – Cada ano que passa, alargamos, ainda mais, as fronteiras do concelho e da região de Lafões. Somos procurados por imensos alunos oriundos de diferentes terras, que vão desde a praia até à serra. Em termos de dinâmica da vila de Vouzela, a Escola Profissional de Vouzela contribui com mais de 100 alunos alojados que vivem em permanência e aí fazem as suas compras e contribuem, também, para o crescimento da economia local. Para além disso, o nosso orçamento, que varia entre um e dois milhões de euros, ajuda muitas famílias que dependem da escola. No caso dos alunos, permite aliviar o orçamento dos pais, sobretudo na alimentação, transporte e alojamento (gratuitos).

Da escola dependem, ainda, 60 colaboradores, entre professores e funcionários, que encontram na EPV a sua fonte de rendimento.

Também o mercado local é beneficiado direta e indiretamente pela Escola Profissional de Vouzela.

 

GB – Quais são as suas principais ambições e projetos para o futuro da Escola Profissional de Vouzela? Onde é que gostava de a levar na sua direção?

JL – Queremos continuar nesta senda da empregabilidade, lutando contra a crise, e deixando também nos nossos alunos o “bichinho” do empreendedorismo. Acredito que as escolas profissionais podem e devem ser um ‘ninho’ de empreendedores e motor de industrialização (uma vez que o nosso país e mesmo toda a Europa enfermam da doença da desindustrialização), pois isso é algo de que o país muito necessita, neste momento.

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José Lino Simões Lopes Tavares

Dados Biográficos:

Data e local de nascimento: 9 de setembro de 1974, em Paços de Vilharigues

 

Formação académica:

Licenciatura em ensino – Curso de Professor do 2º ciclo do ensino básico – variante de Português/Francês.

Curso de especialização em Administração Escolar/ Educacional.

Mestrado em Administração Escolar/ Educacional

Doutorando – a frequentar o 3º ano do Doutoramento em Educação

Percurso sócio-profissional:

Professor do Quadro de Zona Pedagógica, afeto ao 1º ciclo;

Professor do Ensino Recorrente de 2000 a 2003;

Orientador de Estágios no curso de Aplicações Informáticas de Gestão (nível V), na Associação para a Formação Tecnológica e Profissional da Beira Interior;

Professor da disciplina de Português do CET Técnicas de Restauração ministrado pela Escola Superior de Turismo e Hotelaria de Seia, em 2011;

Presidente da direção da Sociedade Musical, Cultura e Recreio de Paços de Vilharigues entre 2008 e 2013;

Membro da Direção da AEL (Associação Empresarial de Lafões)

Diretor Pedagógico da EPV, desde o ano letivo 2004/05.

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Na edição anterior (edição 647)

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